Viagem marítima de Portugal à Índia / Moçambique

Em Auto-mar e em Moçambique
[*Ocupações virtuosas logo após o embarque - A frota real ganhava o alto mar a 07 de abril de 1541, e Francisco Xavier ia começar o seu novo apostolado. A equipagem da capitânia São Diogo conta um milhar de passageiros compreendendo o pessoal militar.
Xavier vai ser todo de todos para ganhar a todos. Interessando-se no assunto das conversações de cada um, fala da corte com os gentis-homens, da guerra com os militares, da ciência com os sábios, do comércio com os negociantes, e cativa a todos pela graça, amável benevolência das suas maneiras, e pela distinção nativa da sua pessoa, distinção que nunca perdeu.
O primeiro vício que o seu zelo combateu, em razão das suas perigosas e quase sempre inevitáveis conseqüências, foi o jogo. Propunha jogos inocentes, nos quais mostrava tomar grande interesse; assistia aos jogos sérios quando visse que não os Podia impedir, com o fim de evitar os excessos com a sua presença sempre respeitada; algumas vezes até se oferecia a tomar parte neles, a ponto de não poderem passar sem etc e sem a sua amável parceria. Catequizava todos os dias marinheiros, cuja afeição por ele era já tão dedicada e tão respeitosa que bastava uma palavra sua, ou mesmo um sinal, para terminar uma questão ou apaziguar a mais viva desordem entre eles.

Recriminação pela morte de uma criança sem catequese - Deu-se um dia um movimento extraordinário a bordo da capitânia. Acabava de morrer repentinamente uma criança de oito a dez anos, e todos se admiravam daquela morte tão rápida, procurando averiguar qual poderia ter sido a causa.
- Ele assistia ao catecismo com os outros? perguntou o Padre Francisco
- Não, meu Padre; não assistiu nem uma só vez, lhe responderam.
No mesmo instante se notou no semblante, sempre alegre e risonho do admirável Santo, uma impressão de tristeza que oprimiu todos os corações
- Pareceis experimentar uma viva aflição, por esta morte, meu caro Padre, disse-lhe o vice-rei; não foi devido a falta vossa que o menino deixou de receber a instrução que dáveis, aos outros.
- Se eu o tivesse sabido, respondeu tristemente o Santo, teria seguramente feito com que ele também a recebesse, senhor.
- Então não vos aflijais, meu Padre; não tínheis conhecimento disso, e portanto, não podeis ter remorsos.
- Recrimino-me pela falta de não ter sabido! Deveria ter procurado saber que uma das crianças embarcadas no mesmo navio que eu, não recebia instrução.
Este zelo do nosso Santo para com todas as almas que o cercavam, operou bem depressa uma maravilhosa transformação nos hábitos dos marinheiros.
Não se ouviam já juramentos, nem blasfêmias, nem injúrias; observava-se a caridade, as conveniências eram respeitadas, e desde o principal até ao mais pequeno toda a equipagem se achava aos pés de Xavier, que era querido como um pai, venerado como um Santo, admirado como um prodígio.

As regalhias que o Viçe-Rei oferecia a Xavier como comida e dormida no navio ele dava aos doentes e preferia a simplicidade de mendigar - As instâncias do vice-rei para fazê-lo comer à sua mesa foram sempre inúteis; durante toda a viagem, não obstante a sua dignidade de Núncio, Francisco não se sustentava senão dos alimentos que mendigava pelos passageiros.
Tendo o escorbuto atacado a equipagem, nas costas da Guiné, a caridade de Xavier manifestou-se com um zelo, uma assiduidade, uma dedicação prodigiosa. Os passageiros aterrados pela moléstia não se atreviam a aproximar-se daqueles que se achavam acometidos porque receavam o contágio... O santo apóstolo não se lembrava de si nem um só momento; ia de um doente a outro, distribuía por cada um os cuidados mais urgentes, prestava a todos, e sem distinção, os serviços mais repugnantes com a maior delicadeza, e consolava todos os corações procurando salvar as suas almas.
Tantas fadigas e tantas vigílias alteraram a saúde de Xavier, produzindo-lhe frequentes vômitos e uma debilidade extrema, sem contudo diminuir o seu zelo e paralisar a sua dedicação.
O vice-rei mandou pôr à sua disposição uma câmara maior e mais arejada; o nosso Santo fez remover para ali os doentes de maior perigo e lhes cedeu até o seu leito; ele estendia-se sobre o solo nu, ou subia ao convés e, apoiando a cabeça nas enxárcias, só descansava alguns momentos que a natureza imperiosamente exigia.
Quando o tratamento dos doentes absorvia todo o seu tempo, D. Martinho de Sousa fazia-o servir da sua mesa. Francisco Xavier aceitava tudo ansiosamente, pela felicidade de poder oferecer aos seus queridos convalescentes alguns alimentos mais delicados e mais fortes do que aqueles que lhes davam, e dos quais reservava uma parte para si. Esta troca trazia uma grande consolação ao seu espírito de mortificação e de humildade.
A heróica dedicação do nosso Santo fez-lhe conquistar, da parte da tripularão e dos passageiros da São Diogo, o cognome de Santo Padre, cognome que adotaram para ele todos os portugueses das Índias, e que lhe ficou para sempre até mesmo entre os índios. O amável Padre Xavier aceitava com a sua humildade e afabilidade habituais este testemunho de afetuosa veneração, cuja glória dava a Deus.

Escrevendo à Companhia de Jesus em Roma, que chamava sua mãe muito amada, descreve a sua viagem de Lisboa a Goa, dá conta dos seus trabalhos apostólicos, mas deixa em silêncio os pormenores que acabamos de referir.] 

15
AOS SEUS COMPANHEIROS RESIDENTES EM ROMA
Goa, 20 de Setembro 1542
Cópia em castelhano, feita em 1543

Lembra as primeiras cartas que já escreveu. Escreve agora mais longa­mente como prometera
1. Quando de Lisboa partimos, Micer Paulo, Francisco de Mansilhas e eu, vos escrevi muito longamente da nossa vinda para a Índia. Assim, agora faço o mesmo, dando-vos conta da nossa viagem e chegada à Índia; pois, quando de [junto de] vós parti, me mandastes que fosse solícito em escrever-vos muito longamente, de[sde] a nossa chegada a estas partes da Índia, todas as vezes que ser pudesse.

No alto mar. Trabalhos pastorais
2. Faço-vos saber que nós partimos de Lisboa para a Índia a sete de Abril, ano de 1541, e chegamos à Índia a seis de Maio do ano 1542. De maneira que pusemos, no caminho, um ano e mais, de Portugal à Índia, onde comummente não costumam pôr mais de seis meses. Na nau, todo o tempo que navegámos, sempre viemos de saúde. Todos vínhamos na nau onde vinha o senhor Governador1: e muito favorecidos dele. No tempo que navegámos, não faltaram na nau confissões: assim dos que vinham enfermos, como dos sãos. Aos domingos, pregava. Louvado seja Deus Nosso Senhor, pois foi ser­vido fazer-me tanta mercê que, navegando pelo senhorio dos peixes, achasse a quem sua palavra manifestasse, e o sacramento da confissão pelo mar não menos necessário que na terra administrasse.

Na ilha de Mo­çambique: cuidado dos doentes, confissões, pregações
3. Antes que pudéssemos passar a estas partes da Índia, chegámos a uma ilha que se chama Moçambique, onde hibernámos cinco naus muito grandes2 com muita gente; na qual ilha estivemos seis meses3, onde o rei de Portugal tem um fortaleza4. Nesta ilha há um lugar de portugueses e outro de mouros de paz5. Adoeceu muita gente, no tempo que aqui estivemos: morreram alguns oitenta homens. Nós pousámos [morámos] sempre no hospital com os enfermos, tendo cargo deles. Micer Paulo e Mansilhas, ocupavam-se das coisas corporais; e, eu, em confessar e dar a comunhão de contínuo, não podendo acabar de cumprir com todos. Aos domingos, costumava pregar: tinha muito auditório por estar o senhor Governador presen­te. Era muitas vezes importunado de ir confessar fora do hospital; e não podia deixar de ir quando algum homem de [má] maneira esta­va enfermo, ou em qualquer outra necessidade [que] se oferecesse. De maneira que não faltaram ocupações espirituais, todo o tempo que estivemos em Moçambique. O senhor Governador e todos os nobres nos mostravam muito amor e vontade, e toda a gente de guerra. Pela graça de Deus Nosso Senhor, à edificação de todos eles estivemos, naquela ilha, por espaço de seis meses.
[*Cólera dos viajantes - Seja-nos permitido interromper aqui o nosso Santo para fazer notar uma das suas omissões tão habituais como voluntárias.
Diremos primeiramente que o vice-rei tomou a resolução de fazer invernar a armada em Moçambique por causa do escorbuto que assolava os outros ramos, depois de haver devastado o seu, e que esta resolução, a única a tomar-se na perigosa situação em que ele se via, era ainda de algum perigo para todos. Porém era difícil conservar-se no mar nas proximidades do equinócio e no estado de doença em que estavam os marinheiros, que dificultava o serviço das manobras, tornando-o quase impossível. Foi, pois, absolutamente necessário arribar, e não foi possível fazer-se senão em Moçambique, cujo clima é dos mais malsãos e muito perigoso em todo o tempo para os europeus por causa das águas estagnadas que ali produzem doenças mortais. Os conquistadores, desde que se apossaram daquelas terras, chamaram-na Sepultura dos portugueses.
O vice-rei ordenou que todos os doentes fossem transportados para os hospitais, e Francisco Xavier acompanhou-os com a maior solicitude, não se limitando aos cuidados espirituais como ele quer fazer crer.
Sabe-se que o escorbuto decompõe o sangue, corrompe-o e produz ordinariamente chagas que fazem afastar do doente aqueles que o deveriam socorrer.

Os doentes precisam de Xavier - O coração de Xavier, magnânimo por excelência, e que não recuava em frente de perigo algum, correu para aquele que se lhe apresentava, com todo o heroísmo de que havia dado provas a bordo da nau São Diogo. Os mais repulsivos doentes eram os que ele preferia, porque neles 'encontrava ocasião de vencer a sua natureza profundamente impressionável, à vista de tais misérias corporais. Ali renovou ele muitas vezes, o que fizera em Veneza, recordando-se da seguinte máxima do Pai da sua alma:
"Não se adianta na virtude senão quando se tenha triunfado de si próprio. A ocasião de um grande sacrifício é uma coisa tão preciosa que se não deve nunca deixar escapar".
Xavier sabia dar tanto encanto aos delicados cuidados que prodigalizava aos doentes, que todos eles o queriam quando sentissem aumentar os seus sofrimentos
"Onde está o Santo Padre? Oh! se o Santo Padre aqui estivesse, diziam eles, nós sofreríamos menos! Só a sua presença nos faz tanto bem!"
E quando aparecia o Santo Padre todos o queriam ver ao mesmo tempo, porque todos asseguravam que quanto mais próximo ele estivesse menos sofriam:
"O mais agradável e o mais eficaz de todos os remédios, diziam eles, é a vista do semblante angélico do Santo Padre".
Para os satisfazer o mais possível andava o Santo Padre duma enfermaria à outra, durante o dia, e pernoitava numa cada noite, por turno, repousando somente por alguns momentos sobre o solo nu onde se estendia. Ao primeiro movimento de qualquer doente, ao primeiro grito de dor que de qualquer deles partisse, o Santo levantava-se imediatamente e corria para junto daquele que mais sofria.

Xavier adoece mas não abandona os doentes - Tantos trabalhos e tantas fadigas influíram bastante na saúde, naturalmente tão forte, do nosso Santo.
Uma violenta febre maligna obrigou a que o sangrassem sete vezes em alguns dias, e os delírios constantes que o acometiam deram sérios cuidados. ' Conservava-se no hospital donde o haviam querido afastar desde a invasão da epidemia, mas onde ele insistira em ficar, não obstante o ar infeccionado que ali se respirava, respondendo a todas as instâncias
"Fiz voto de pobreza, quero por isso viver e morrer entre os pobres, mas nem por isso sou menos reconhecido pelo interesse e cuidados que me prodigalizam".
Todas as vezes que Francisco Xavier recusasse o que lhe ofereciam, sabia juntar tal firmeza à sua humildade, que não se podia esperar vencê-lo.
Logo que o Santo se viu pouco melhor da doença, voltou às suas vigílias e fadigas, arrastando-se, difícil e penosamente dum a outro leito para consolar e animar, ao menos com a sua benevolente palavra, aqueles que não podia servir como de antes.

“Mesmo doente devo ser útil a Deus: diz nosso Santo” - Um dia, no acesso [retorno] da febre, viu que acabavam de conduzir para a enfermaria um marinheiro repentinamente atacado; não existiam leitos disponíveis, e por isso o haviam estendido sobre uma cama de palha, onde não tardaria a morrer. O apóstolo levanta-se, aproxima-se da cama do moribundo e quer falar-lhe da eternidade, cujas portas se iam abrir para ele. Naquele momento aparece o médico e aterrado pela idéia do perigo a que o nosso Santo se expõe, pede-lhe que desista da obra de salvação que intenta; mas vendo com pesar que ele o não atende, insiste, dizendo-lhe:
- "Permiti que vos observe, meu Padre, que ninguém aqui está mais perigosamente doente do que vós; deitai-vos, eu vos suplico! conservai-vos em repouso, ao menos até ao fim do acesso; nisto vai a vossa vida".
- "Obedecer-vos-ei pontualmente, caro doutor, eu vo-lo prometo, logo que tenha cumprido este dever imperioso do meu ministério; é uma alma a salvar, os momentos são preciosos e ele não tem um só a perder",
Desde logo fez Xavier transferir o moribundo, da cama em que se achava estendido e sem conhecimento, para o seu próprio leito; apenas o jovem marinheiro foi colocado. no leito do Santo Padre, recuperou os sentidos. Xavier, sempre heróico, deitou-se a seu lado, falou-lhe da sua alma e das misericórdias infinitas do Deus que o ia julgar; confessou-o chamou-o às disposições mais santas, e viu-o morrer com a consolação de o haver salvado.
Cumprido aquele dever, o Santo obedeceu como prometera, e deixou curar a sua febre sem repetir o que o médico julgava imprudente.

Predição [prevê]: Navio que sumberge - Achava-se ainda mal restabelecido quando o vice-rei, cuja saúde sofria com a demora de residência numa atmosfera viciada por tantas moléstias epidêmicas, resolveu prosseguir a sua viagem, e não querendo deixar ali ficar o Padre Xavier, pediu-lhe que o acompanhasse.
Ia pois fazer-se de novo à vela a nau São Diogo, que era a capitânia e que o vice-rei comandara até ali. Na presença de Xavier ordenou ele que a armassem para a partida.
- Senhor, lhe disse o santo apóstolo - que começava desde então a manifestar as vistas proféticas de que foi tão abundantemente favorecido ao depois - senhor, não embarqueis naquele navio! é, sim, o mais belo e o mais forte de entre todos da vossa frota, mas ele se perderá!
O vice-rei tinha tal confiança na santidade do Santo Padre, que não hesitou em embarcar na Coulão, e a deixar a São Diogo que pouco depois se despedaçou contra um rochedo à vista da ilha de Salsete. - Deixemos agora falar o nosso Santo]: 


carta 13
AOS SEUS COMPANHEIROS RESIDENTES EM ROMA
Moçambique, 1º de Janeiro 1542
Cópia em castelhano, feita entre 1542-1543
IHUS.
A graça e amor de Cristo nosso Senhor seja sempre em nossa ajuda e favor.

Moléstias da viagem por mar
1. De Lisboa vos escrevi, à minha partida, de tudo o que lá se pas­sava1. De lá partimos a sete de Abril do ano de 1541(2). Andei no mar enjoado dois meses, passando muito trabalho quarenta dias na costa da Guiné, tanto por grandes calmarias como por não ajudar-nos o tempo3. Quis Deus Nosso Senhor fazer-nos [esta] tão grande mercê de trazer-nos a uma ilha, na qual temos estado até ao dia presente4.

Xavier encarrega-se da assistência espiritual aos doentes e moribundos e os companheiros da corporal
2. Porque estou certo que [nisto] haveis de alegrar-vos no Senhor: se Deus nosso Senhor se quis servir de nós para servir os seus servos, logo que chegamos aqui, tomamos conta dos pobres doentes que vinham na armada. E assim, eu, ocupei-me em confessá-los, dar-lhes a comunhão e ajudá-los a bem morrer, usando daquelas indulgên­cias plenárias que Sua Santidade me concedeu para estas partes de cá: quase todos morriam com grande contentamento, ao verem que plenariamente, à hora da morte, os podia absolver5. Micer Paulo e Micer Mansilhas, ocupavam-se acerca do temporal. Todos morá­vamos com os pobres, segundo as nossas pequenas e fracas forças, ocupando-nos tanto do temporal como do espiritual. O fruto que se faz, Deus o sabe, pois é Ele que tudo faz.

O Governador mostra-se amigo dos três companheiros e dá-lhes esperanças de grande fruto entre os gentios
3. A nós, alguma consolação nos dá, e não pequena, estarem a par, o senhor Governador e todos os nobres6 que vêm nesta armada, ser os nossos desejos muito diferentes de qualquer favor humano, mas só por Deus; porque os trabalhos eram de tal qualidade, que eu não me atreveria [a eles] um só dia por tudo [quanto há] no mun­do. Damos grandes graças a Deus Nosso Senhor, por ter-nos dado este conhecimento e ter-nos dado forças para o cumprir. O senhor Governador tem-me dito que tem esperança muito grande em Deus Nosso Senhor que, aonde nos vai mandar, se hão-de converter mui­tos cristãos. Por amor de Nosso Senhor vos rogamos todos que, nas vossas orações e nos vossos sacrifícios, tenhais especial lembrança de pedir a Deus por nós, pois nos conheceis e sabeis de quão baixo metal somos.

Xavier põe toda a esperança das suas poucas forças em Deus e pede novos missionários
4. Uma das coisas que nos dá muita consolação e esperança mui­to crescida de que Deus Nosso Senhor nos há-de fazer mercê, é um inteiro conhecimento que, de nós, temos: que todas as coisas neces­sárias para um ofício de manifestar a fé de Jesus Cristo, vemos que nos faltam. E, sendo assim que o que fazemos é só por servir a Deus Nosso Senhor, cresce-nos sempre esperança e confiança de que Deus Nosso Senhor, para seu serviço e glória, nos há-de dar abundantíssi­mamente, a seu tempo, tudo o necessário.

1 Xavier-doc. 11-12.
2 Sobre a partida de Xavier , cf. RODRIGUES, Hist. I/1,261-272; Epp. Broeti 521-523.
3 Os calores e calmarias ao largo da costa da Guiné, eram quase todos os anos molestíssimos para as naus que por ali passavam (VALIGNANO, História, 12-13; Epp. Mixtae I 265).
4 Ilha de Moçambique. Sobre a ilha e a sua história, cf. BRAGANÇA PEREI­RA, Notas 154-223.
5 O médico, Dr. Saraiva, que viajava com Xavier para a Índia, atesta que na­quela armada só morreram 40 ou 41 homens, graças a Xavier (MX II 188). Xavier, referindo-se talvez a toda a viagem, calcula que morreram 80.
6 A sua lista pode ver-se em SCHURHAMMER, Quellen 683; 796.

Se aí houvesse algumas pessoas muito desejosas de servir a Deus Nosso Senhor, muito fruto se seguiria se mandásseis algumas a Por­tugal, porque de Portugal, na armada que de lá vem todos os anos, viriam para a Índia.

Pregações a que se dedica. Louvores ao Governador.
5. Na viagem por mar, preguei todos os domingos; e, aqui em Moçambique, todas as vezes que pude. A vontade e afeição que o senhor Governador nos mostra e o amor que nos tem é tanto que, todo o apoio para serviço de Deus Nosso Senhor, temos por muito certo que o senhor Governador no-lo dará.

A fraqueza impede-o de escrever mais
6. Muito desejava poder escrever mais longamente; mas, por en­quanto, a fraqueza não o suporta. Hoje sangraram-me pela sétima vez e acho-me em medíocre disposição7, Deus louvado.
A todos os nossos conhecidos e amigos mandareis dar as minhas recomendações.
De Moçambique, no primeiro dia de Janeiro de 1542
FRANCISCO8

7 O Dr. Saraiva atesta que em Moçambique sangrou Xavier nove vezes (MX II 188).
8 A maneira de Xavier assinar era Francisco; raramente Franciscus (em latim) ou Francisco de Xabier. Nenhum original conservado refere a forma Francisco Xavier.
[*Ocupações virtuosas logo após o embarque - A frota real ganhava o alto mar a 07 de abril de 1541, e Francisco Xavier ia começar o seu novo apostolado. A equipagem da capitânia São Diogo conta um milhar de passageiros compreendendo o pessoal militar.
Xavier vai ser todo de todos para ganhar a todos. Interessando-se no assunto das conversações de cada um, fala da corte com os gentis-homens, da guerra com os militares, da ciência com os sábios, do comércio com os negociantes, e cativa a todos pela graça, amável benevolência das suas maneiras, e pela distinção nativa da sua pessoa, distinção que nunca perdeu.
O primeiro vício que o seu zelo combateu, em razão das suas perigosas e quase sempre inevitáveis conseqüências, foi o jogo. Propunha jogos inocentes, nos quais mostrava tomar grande interesse; assistia aos jogos sérios quando visse que não os Podia impedir, com o fim de evitar os excessos com a sua presença sempre respeitada; algumas vezes até se oferecia a tomar parte neles, a ponto de não poderem passar sem etc e sem a sua amável parceria. Catequizava todos os dias marinheiros, cuja afeição por ele era já tão dedicada e tão respeitosa que bastava uma palavra sua, ou mesmo um sinal, para terminar uma questão ou apaziguar a mais viva desordem entre eles.

Recriminação pela morte de uma criança sem catequese - Deu-se um dia um movimento extraordinário a bordo da capitânia. Acabava de morrer repentinamente uma criança de oito a dez anos, e todos se admiravam daquela morte tão rápida, procurando averiguar qual poderia ter sido a causa.
- Ele assistia ao catecismo com os outros? perguntou o Padre Francisco
- Não, meu Padre; não assistiu nem uma só vez, lhe responderam.
No mesmo instante se notou no semblante, sempre alegre e risonho do admirável Santo, uma impressão de tristeza que oprimiu todos os corações
- Pareceis experimentar uma viva aflição, por esta morte, meu caro Padre, disse-lhe o vice-rei; não foi devido a falta vossa que o menino deixou de receber a instrução que dáveis, aos outros.
- Se eu o tivesse sabido, respondeu tristemente o Santo, teria seguramente feito com que ele também a recebesse, senhor.
- Então não vos aflijais, meu Padre; não tínheis conhecimento disso, e portanto, não podeis ter remorsos.
- Recrimino-me pela falta de não ter sabido! Deveria ter procurado saber que uma das crianças embarcadas no mesmo navio que eu, não recebia instrução.
Este zelo do nosso Santo para com todas as almas que o cercavam, operou bem depressa uma maravilhosa transformação nos hábitos dos marinheiros.
Não se ouviam já juramentos, nem blasfêmias, nem injúrias; observava-se a caridade, as conveniências eram respeitadas, e desde o principal até ao mais pequeno toda a equipagem se achava aos pés de Xavier, que era querido como um pai, venerado como um Santo, admirado como um prodígio.

As regalhias que o Viçe-Rei oferecia a Xavier como comida e dormida no navio ele dava aos doentes e preferia a simplicidade de mendigar - As instâncias do vice-rei para fazê-lo comer à sua mesa foram sempre inúteis; durante toda a viagem, não obstante a sua dignidade de Núncio, Francisco não se sustentava senão dos alimentos que mendigava pelos passageiros.
Tendo o escorbuto atacado a equipagem, nas costas da Guiné, a caridade de Xavier manifestou-se com um zelo, uma assiduidade, uma dedicação prodigiosa. Os passageiros aterrados pela moléstia não se atreviam a aproximar-se daqueles que se achavam acometidos porque receavam o contágio... O santo apóstolo não se lembrava de si nem um só momento; ia de um doente a outro, distribuía por cada um os cuidados mais urgentes, prestava a todos, e sem distinção, os serviços mais repugnantes com a maior delicadeza, e consolava todos os corações procurando salvar as suas almas.
Tantas fadigas e tantas vigílias alteraram a saúde de Xavier, produzindo-lhe frequentes vômitos e uma debilidade extrema, sem contudo diminuir o seu zelo e paralisar a sua dedicação.
O vice-rei mandou pôr à sua disposição uma câmara maior e mais arejada; o nosso Santo fez remover para ali os doentes de maior perigo e lhes cedeu até o seu leito; ele estendia-se sobre o solo nu, ou subia ao convés e, apoiando a cabeça nas enxárcias, só descansava alguns momentos que a natureza imperiosamente exigia.
Quando o tratamento dos doentes absorvia todo o seu tempo, D. Martinho de Sousa fazia-o servir da sua mesa. Francisco Xavier aceitava tudo ansiosamente, pela felicidade de poder oferecer aos seus queridos convalescentes alguns alimentos mais delicados e mais fortes do que aqueles que lhes davam, e dos quais reservava uma parte para si. Esta troca trazia uma grande consolação ao seu espírito de mortificação e de humildade.
A heróica dedicação do nosso Santo fez-lhe conquistar, da parte da tripularão e dos passageiros da São Diogo, o cognome de Santo Padre, cognome que adotaram para ele todos os portugueses das Índias, e que lhe ficou para sempre até mesmo entre os índios. O amável Padre Xavier aceitava com a sua humildade e afabilidade habituais este testemunho de afetuosa veneração, cuja glória dava a Deus.

Escrevendo à Companhia de Jesus em Roma, que chamava sua mãe muito amada, descreve a sua viagem de Lisboa a Goa, dá conta dos seus trabalhos apostólicos, mas deixa em silêncio os pormenores que acabamos de referir.] 

Predição [prevê]: Navio que sumberge - Achava-se ainda mal restabelecido quando o vice-rei, cuja saúde sofria com a demora de residência numa atmosfera viciada por tantas moléstias epidêmicas, resolveu prosseguir a sua viagem, e não querendo deixar ali ficar o Padre Xavier, pediu-lhe que o acompanhasse.
Ia pois fazer-se de novo à vela a nau São Diogo, que era a capitânia e que o vice-rei comandara até ali. Na presença de Xavier ordenou ele que a armassem para a partida.
- Senhor, lhe disse o santo apóstolo - que começava desde então a manifestar as vistas proféticas de que foi tão abundantemente favorecido ao depois - senhor, não embarqueis naquele navio! é, sim, o mais belo e o mais forte de entre todos da vossa frota, mas ele se perderá!
O vice-rei tinha tal confiança na santidade do Santo Padre, que não hesitou em embarcar na Coulão, e a deixar a São Diogo que pouco depois se despedaçou contra um rochedo à vista da ilha de Salsete. - Deixemos agora falar o nosso Santo]:

Adianta-se na viagem com o Governador, ficando os companheiros para tratar dos doentes
4. De Moçambique à Índia há 900 léguas. Quando o senhor Governador, desta ilha partiu, para vir a estas partes da Índia6, a essa sazão havia muitos enfermos. Rogou-nos o senhor Governador que tivéssemos por bem, ficarem em Moçambique alguns de nós, para olhar pelos enfermos que ficavam naquela terra, os quais não estavam em disposição de poder embarcar.

1 De Lisboa até à ilha de Moçambique, na nau Santiago. Da ilha de Moçam­bique para Goa, Xavier partiu à frente, só com o Governador, na nau Coulão, deixando os dois companheiros na ilha até mais tarde (LUCENA, História da vida do Padre Francisco de Xavier 1,11).
2 Santiago, Espírito Santo, Flor do Mar, Santa Cruz, São Pedro (FIGUEIRE­DO FALCÃO, Livro 159).
3 Desde fins de Agosto a fins de Fevereiro (doc 15,12; Q 984).
4 A fortaleza, então situada no meio da ilha, foi depois mudada para o extremo norte, onde ainda actualmente se encontra.
5 Os portugueses moravam junto da fortaleza; os mouros, no extremo sul da ilha (BRAGANÇA PER. Nts 157).

E assim, Micer Paulo e Mansilhas ficaram lá, por parecer do senhor Governador; e, a mim, mandou-se que viesse com Sua Senhoria porquanto ele vinha mal disposto para confessá-lo achando-se em necessidade. E assim, fi­caram Micer Paulo e Mansilhas, em Moçambique; e, eu, vim com o Governador. Agora, cada dia espero por eles, nas naus que hão-de vir de Moçambique, neste mês de Setembro7.


Paragem em Melinde: conversas com maometanos
6. De Moçambique a Goa pusemos mais de dois meses. Passámos por uma cidade de mouros, os quais são de paz: chama-se, a cidade, Melinde12, na qual, o mais de tempo, costuma haver comercian­tes portugueses. Os cristãos que aí morrem, enterram-se em umas tumbas grandes, as quais fazem com cruzes. Junto desta cidade, er­gueram os portugueses uma cruz grande de pedra13, dourada, muito formosa. De vê-la, Deus Nosso Senhor sabe quanta consolação rece­bemos, conhecendo quão grande é a virtude da cruz, vendo-a assim sozinha e com tanta vitória entre tanta mouraria.
        7. O rei desta cidade de Melinde veio ver o senhor Governador, ao galeão onde estava, mostrando-lhe muita amizade. Nesta cidade de Melinde fui enterrar um homem, que morreu no nosso galeão. Edificaram-se os mouros, de ver o modo de proceder, que temos os cristãos, em sepultar os finados.
8. Um mouro desta cidade de Melinde, dos mais honrados, per­guntou-me que lhe dissesse se as igrejas, onde nós costumamos orar, são muito visitadas por nós, e se somos muito fervorosos na oração: dizendo-me como entre eles se perdia muito a devoção, se era assim entre os cristãos. Porque, naquela cidade, há dezassete mesquitas; e a gente já não ia senão a três mesquitas. E, a estas, muito pouca gente era a que ia. De maneira que estava muito confuso, em não saber donde procedia perder-se assim a devoção: dizia-me que, tanto mal não podia proceder senão dalgum grande pecado. Depois de termos arrazoado um grande pedaço, ele ficou com um parecer e eu com outro. De maneira que não ficou satisfeito com o que lhe disse: que Deus Nosso Senhor, sendo em todas as suas coisas fidelíssimo, não descansava com infiéis e, menos, com a suas orações; e que esta era a causa porque Deus queria que a oração entre eles se perdesse, pois dela não era servido. Um mouro, muito douto na seita de Maomé, o qual era caciz14, isto é, mestre, estava naquela cidade: dizia que, se dentro de dois anos Maomé não viesse visitá-los15, não havia de crer mais nele nem na sua seita. Próprio é de infiéis e grandes pecadores, viver desconfiados: mercê é, que Nosso Senhor lhes faz, sem eles a conhecerem.

6 O Governador recebeu em Moçambique cartas de Goa, pelas quais tomou a resolução de adiantar-se à armada, para apanhar de surpresa o seu antecessor D. Estêvão da Gama e prendê-lo (CORREA, Lendas da Índia IV 220; 223--225).
7 No dia 20 de Março, as restantes cinco naus da armada partiram de Mo­çambique para Goa, aonde chegaram nos começos de Junho. Todas, menos a Santiago, invernaram em Goa a Velha, na costa meridional da ilha. Micer Paulo e Mansilhas ficaram na ilha de Moçambique a tratar dos doentes, esperando embar­car na armada do ano seguinte, em 1542. Mas como esta não chegou a tempo, o capitão da fortaleza embarcou-os em Agosto para Goa, aonde chegaram quando Xavier já tinha partido para o Cabo de Comorim (SCHURHAMMER, Quellen 984; CORREA, l.c. IV 249).
8 Goa, capital da Índia portuguesa, já era então uma cidade cristã; mas, tanto na cidade como na ilha, havia muitos gentios.
9 O convento de S. Francisco, cuja primeira pedra foi lançada em 1520, tinha 14 frades em 1527 e, em 1548, já eram 40. A igreja que hoje existe foi construída em 1561 e o con­vento restaurado em 1762 e ampliado em 1765.
10 Conquistada a cidade em 1510, foi construída em barro a capela de S. Catarina, com tecto de palha. O mesmo se diga da nova construção em 1511. Em seu lugar, foi construída de pedra uma igreja (Sé Velha) que, em 1534 estava quase terminada, faltando-lhe apenas a torre e a sa­cristia. Em 1533, ainda incompleta, tinha sido promovida a catedral. A igreja actual (Sé Nova) foi construída nos anos 1562--1631. A Sé tinha, em 1542, incardinados 13 cónegos, 6 vigários e 1 pároco.
11 Por volta de 1548 (Lendas): «na cidade e por fora, havia catorze igrejas e ermidas, em que havia mais cem clérigos».
12 Hoje Malindi (Kénia), a norte da cidade de Mombaça (cf. BARBOSA, The book of Duarte Barbosa 22-23).
13 Refere-se ao padrão aí erguido por Vasco da Gama em 1498. O monumento actual é de época mais recente.
14 «Sacerdote muçulmano. Em árabe qasîs» (DALGADO, Glossário I 165). Dizia-se também de sacerdote cristão.
15 Dizem que a cidade de Melinde foi fundada por comerciantes persas, por­tanto por sequazes da seita Shia (BARBOSA). Cremos que o Maomé referido no texto era o da duodécima geração do profeta que, prolongando invisi­velmente a sua vida, era esperado como Mahdi.

Na ilha de Socotorá, com cristãos doutros ritos: seus sacerdotes indígenas, ritos, jejuns, oposição aos maometanos. Deseja ficar ali e o Governador não consente.
9. Desta cidade de Melinde, vindo nosso caminho para a Índia, fomos dar a uma ilha grande, de 25 a 30 léguas, a qual se chama Socotorá16: terra desamparada e pobre; não se colhe nela trigo, nem arroz, nem milho, nem vinho, nem fruta; é muito estéril e seca. Há muitos dátiles [tâmaras]; o pão daquela terra é de dátiles. Há muito gado, e mantêm-se de leite, dátiles e carne.
10. É uma terra de grandes calores. A gente desta ilha é de cris­tãos, ao parecer deles: por tais se têm. Prezam-se muito de ser cris­tãos, nos nomes, e assim o mostram. É gente muito ignorante. Não sabem ler nem escrever, nem têm livros nem escrituras: são homens de pouco saber. Honram-se muito de dizer que são cristãos. Têm igrejas, e cruzes, e lâmpadas. Cada lugar tem seu caciz: este, é como clérigo entre nós. Não sabem, estes cacizes, nem ler, nem escrever; nem têm livros, nem escrituras. Estes cacizes sabem muitas orações de cor. Vão à igreja, à meia noite e de manhã, e à hora de vésperas e à tarde à hora de completas: quatro vezes ao dia. Não têm sinos; com uns paus [matracas] chamam a gente, como fazemos nós na Semana Santa. Não entendem, os mesmos cacizes, as orações que rezam, por­que não são na sua língua: creio que são em caldeu. Eu escrevi três ou quatro orações destas, que eles rezam. Fui duas vezes a esta ilha. São devotos de S. Tomé. Dizem eles que são dos cristãos que fez S. Tomé nestas partes. Nas orações que rezam estes cacizes, dizem al­gumas vezes aleluia, aleluia: quase assim pronunciam a aleluia como nós. Estes cacizes não baptizam, nem sabem que coisa é batizar. As vezes que fui a estes lugares, batizei muitos miúdos; folgavam seus pais e mães porque os baptizava. Com muito amor e vontade, de sua pobreza me davam do que tinham, e eu contentava-me com a vontade com que queriam dar-me de seus dátiles. Rogaram-me muito que ficasse com eles: que todos, grandes e pequenos, se batizariam. Disse ao senhor Governador que me desse licença: que eu queria ficar ali, pois achava messe tão preparada. Mas, porque a esta ilha vêm turcos, e não é habitada de portugueses, e para não me deixar em perigo que me levassem preso os turcos, não quis o senhor Governador que ficasse naquela ilha de Socotorá. Disse-me que me havia de enviar a outros cristãos, que têm tanta ou mais necessidade de doutrina que os de Socotorá, [lá] onde faria mais serviço a Deus Nosso Senhor.
Estive a umas Vésperas, que disse um caciz. Deteve-se uma hora a dizê-las. Nunca outra coisa fazia que incensar e rezar: a todo o tempo incensava. Estes cacizes são casados. São grandes jejuadores: quando jejuam, não comem pescado, nem leite, nem carne; antes se deixariam morrer. Há muito pescado nesta ilha. Mantêm-se com datiles e ervas. Jejuam duas Quaresmas e, uma, é de dois meses. Os que não são cacizes, se nestas Quaresmas comem carne, não entram nas igrejas. As mulheres não vão à igreja, nestas Quaresmas17.
11. Naquele lugar havia uma moura, a qual tinha dois filhos pequenos. Eu quis baptizá-los, pensando que não eram filhos de mouros. Eles puseram-se a fugir de mim para a sua mãe e disseram--lhe que eu os queria batizar. Ela veio chorando a mim, que não os baptizasse, porque ela era moura e não queria ser cristã, nem menos queria que os seus filhos o fossem. Os cristãos da terra disseram-me que de nenhuma maneira os baptizasse, ainda que sua mãe quisesse, porque eles não ficariam contentes que mouros fossem merecedores de ser cristãos, nem haviam de consentir que o fossem. É gente mui­to inimiga de mouros.
Naufrágio da nau principal já perto de Goa. Começo de vida sacerdotal na cidade
12. Chegamos à cidade de Goa, a seis de Maio do ano de 1542. Partimos no fim de Fevereiro de Moçambique. As [outras] cinco naus, de mediado Março partiram18, das quais, a principal se per­deu: a gente quase toda se salvou. Perdeu-se perto de terra19. Era nau muito rica. Trazia muitas mercadorias. Era nau de 700 toneladas e mais. Aqui em Goa fiz pousada no hospital 20. Confessava e dava a comunhão aos enfermos que aí estavam. Eram tantos os que vinham confessar-se que, se estivesse em dez partes [re]partido, em todas elas teria quem confessar.
16 Xavier aportou em Suk, na costa nordeste da ilha.
17 Cf. BROU, Saint François Xavier I 120-123; BECCARI, Rerum Aethiopica­rum scriptores X 48.
18 Partiram a 20 de Março (SCHURHAMMER, Quellen 984).
19 A nau Santiago naufragou perto do Rio das Cabras, entre Versova e Baçaim. Os náufragos viram-se obrigados a invernar em Baçaim.

20 O hospital real de Goa foi fundado em 1510 por Albuquerque para os doentes portugueses. No dia 12 de Março de 1542, no sétimo dia da chegada de Xavier, foi confiado à Irmandade da Misericórdia «por ver a grande desordem e mau regimento que se tinha na cura dos enfermos». Em 1593 foi substituído por novo edifício, cujas ruínas ainda se conservam.