França: a conversão do estudante (1524?-1537)

43 Francisco tinha então dezoito anos, havia já concluído os seus estudos preparatórios e desejava completar o curso de filosofia; partiu, pois, em seguida, e logo que chegou a Paris entrou no colégio de Santa Bárbara.

02 - MIGUEL NAVARRO - O JOVEM PROFESSOR - RETRATO DE XAVIER
O colégio – 1 A Universidade de Paris era, no século XVI, a mais notável de todas; concorriam a freqüentá-la estudantes de todos os pontos da Europa, e as províncias da Franca tinham ali alguns colégios, que, pela maior parte, foram fundados pelos bispos em benefício da mocidade das suas dioceses. 2 Todos estes estabelecimentos agrupados entre a porta de S. Miguel e a abadia de S. Germano-das-Près, deram a este quarteirão o nome de País-Latino, e ainda há pouco, não obstante a desaparição dos seus numerosos colégios, se chamava Bairro-Latino.

Amizade com Miguel – 3 Em um dia do mês de junho de 1533, por um calor abrasador, um mancebo que parecia ter de vinte e cinco a vinte e seis anos, subia precipitadamente a rua principal de S. Benedito-le-Bestournet, parecendo esquecer-se do copioso suor que em bagas lhe corria pelo rosto e do sol que o queimava com seus raios ardentes.
4 A sua cútis de cor trigueira e os seus cabelos dum negro de azeviche, indicavam nele um sangue meridional; o seu gibão listrado, suas calças de tufos e de fino estofo, mostravam que pertencia a classe superior à de simples artista; porém a ausência dos bordados e outros adornos ricos no fato, deixavam também supor que não pertencia à nobreza.
5 Dobrou pela rua das Noyers, tirou o gorro quando passou por diante da capela de Santo Ivo , e descobrindo grupos de estudantes que saíam dos colégios próximos, exclamou: "Muito bem; chego a propósito, as aulas acabam agora".
6 Estugou o passo, tomou pela rua de S. João de Beauvais e parou junto à casa que tem hoje o nº 7, e em cujo terreno se achava então situado o colégio de Beauvais . Ali enxugou o rosto lavado de suor, cruzou os braços, encostou-se à ombreira da porta e esperou.
7 Deviam ser pouco agradáveis os pensamentos que naquele momento o preocupavam, porque as suas sobrancelhas enrugadas, os lábios apertados e o fulgor que lhe brotava dos olhos, davam à sua fisionomia um tal aspecto, que as patrulhas e os polícias que ali o vissem não o julgariam indigno de vigilância. 8 Dirigindo a vista para a torre do muro de S. João de Jerusalém  lembrou-se, sem dúvida, que deixara de render homenagem àquele lugar santo, porque tirou em seguida o seu gorro, e, assim descoberto, fez um reverente sinal da cruz, que terminou por denunciar a sua nacionalidade. 9 Era evidentemente um espanhol. Quando acabava de se cobrir, pondo o seu gorro inclinado sobre a orelha direita, sentiu ligeiros passos atrás de si, e voltando-se ràpidamente para aquele que, sem dúvida, esperava, 10 disse-lhe este, apertando-lhe a mão
- Viva S. Tiago! eu não vos faltei, Francisco.
11 - Porque não entraste, Miguel? perguntou-lhe este último.
12 - Eu desejava ver-vos a sós por um instante e vós andais sempre entretido com a vossa classe. Anuís a que demos um passeio à volta da cerca do edifício? Tenho só duas palavras para vos dizer:
13 - Da melhor vontade.
14 Depois de atravessarem a rua, entraram na que seguia ao longo do muro da cerca do mosteiro, que se estendia até à rua de S. Jacques. 15 Naquele momento o semblante de Miguel não apresentava o menor indício das paixões que nele se refletiam um momento antes; parecia gozar unicamente de alegria e confiança. 16 Contudo, um observador atento e minucioso teria reconhecido a dissimulação no seu sorrir e a hipocrisia no seu olhar.

Ingenuidade de Xavier – 17 Francisco, a franqueza e a lealdade personificadas nada podia descobrir, porque nunca havia notado enganadoras diferenças nas maneiras naturalmente ásperas de Miguel Navarro. 18 Conhecia-o, sim, algum tanto desregrado na sua conduta, leviano nas suas ações e volúvel nas suas afeições; porém sabia também que era dele afetuosamente estimado, e que Miguel não hesitaria em expor por si a sua vida. 19 Muitas vezes havia já experimentado a sua dedicação, e ninguém mais sensível que Francisco para testemunhar verdadeira gratidão em prova duma amizade sincera.
20 Miguel estava, portanto, seguro de ser acolhido com a maior benevolência, não obstante a distância social que separava as duas famílias.
21 Miguel, como já se terá compreendido, pertencia à burguesia; circunstâncias particulares determinaram seus pais a fazê-lo estudar, e mais tarde, por conselhos e com auxílio dalguns fidalgos, mandaram-no para Paris, a fim de ali concluir os seus estudos, na esperança de que se abriria para ele a carreira literária.
22 Recomendado a Francisco, Miguel ganhou a sua simpatia pela natural viveza do seu temperamento e alegria do caráter espanhol; 23 os benefícios que recebia, o apoio que nele encontrava e os amigáveis conselhos do seu jovem protetor, tudo contribuía para enraizar esta amizade.

Características de Francisco – 24 Francisco era em tudo diametralmente oposto a Miguel. Amável, belo, de porte elegante, airoso em seus ademanes, distinto em suas maneiras, e bastava vê-lo para se reconhecer nele a nobreza da sua origem. 25 Sua admirável inteligência, a sua paixão pelo estudo, as brilhantes qualidades do seu espírito, davam-lhe uma incontestável superioridade sobre todos os mancebos da sua idade.
26 A sua fronte alva e pura, a frescura e viveza das suas cores, a tranquilidade nas suas ações, indicavam completa ausência das paixões más.
27 A franqueza e energia do seu caráter, a elevação e a delicadeza dos seus sentimentos, a bondade e generosidade do seu, coração, refletiam-se nos seus grandes olhos azuis, onde muitas vezes se revelava o gênio, 28 e cujo olhar meigo e penetrante exercia uma atração magnética em todo aquele que dele se aproximava.
29 Tinha o nariz bem feito, a boca expressiva: e agradável, o sorrir amável e benevolente; os cabelos castanhos, cujas ondulações pronunciadas faziam sobressair o vivo da sua cor e a alvura da sua fronte; a altura, um pouco acima da mediana e admiravelmente proporcionada; 30 e, finalmente, todo este conjunto duma harmonia perfeita, fazia de Francisco um tipo da maior distinção, e dava-lhe um encanto irresistível. 31 Era impossível vê-lo sem experimentar desejos de conhecê-lo de mais perto, e não se podia conhecer sem se amar.

Amizade perigosa - 32 Tendo apenas a idade de 27 anos era já professor de filosofia no colégio de Beativais com notável distinção, 33 e acabava de sair da sua aula no momento em que Miguel Navarro chegava à porta do colégio para esperá-lo à saída.
34 Quando os dois amigos entraram na pequena rua de L'Enclos, Miguel apressou-se em aproveitar os curtos momentos que havia pedido.
35 - Francisco, disse ele, sem o menor embaraço, ao jovem professor, deixei-me arrastar na segunda-feira a S. Dinis, e...
36 - E a bolsa ficou exausta, não é assim?
37 - Oh! não me resta mais que um pobre maravedi, senhor!
38 - Confesso-vos, Miguel, que não compreendi ainda o encanto do Landi ; é de um tão mau gosto, duma tal loucura, que lamento sinceramente ver-vos tomar parte naquilo. 39 Ajudar-vos-ei, contudo, uma vez que estais necessitado; a demora dum mensageiro meu tem-me em apuros neste momento, mas pedirei recursos a um amigo para vos ser útil: vinde amanhã a Santa Bárbara.
40 - A Santa Bárbara! exclamou Miguel; vós sabeis, Francisco, que não gosto dos exortadores!
41 - Confesso que ele é pouco agradável, mas descubro-lhe, cada dia, novas e admiráveis virtudes que me fazem apreciá-lo e estimá-lo.
42 - Não vejo que chegue a tanto. O que ele procura é aproximar-se de vós com o fim de conquistar a vossa confiança e amizade, e arrastar-vos a mendigar como ele.
43 - Tranquilizai-vos, Miguel, eu não me deixarei arrastar até tão baixo.
44 - Seria isso um novo trarão de nobreza para a vossa ilustre família!... Este Inácio sabe demais que vós não sois plebeu como ele!...
45 - D. Inácio é de nobre linhagem, Miguel; pertence a uma das mais distintas famílias da Espanha; sei isso por João de Madeva que a conhece, e eu também conheço alguns membros dela.
46 Miguel mordeu os lábios, empalideceu, os músculos do seu rosto contraíram-se, abafava. 47 Ninguém melhor do que ele conhecia a origem daquele que chamava, com o fim de ridicularizar, "o homem das exortações"; 48 mas muito poucos espanhóis em Paris conheciam este Inácio que se ocultava sob as mais pobres e humildes aparências, 49 e Miguel supunha que Francisco também o ignorasse ainda. 50 Dissimulou o melhor que pôde a violenta contrariedade que experimentava, e respondeu:
- É um motivo a mais, senhor, para se recear a sua influência sobre vós. Noutro tempo evitáveis-lo e não respondíeis às suas sentenças senão por epigramas; 51 hoje estimaí-lo e viveis juntos; ele seduziu já o Padre mestre Pedro, e estou certo que...
52 - Vejamos, Miguel, replicou Francisco, a vossa dedicação por mim cega-vos; deixemos este assunto, e vinde amanhã de manhã a hora em que eu esteja só.
53 E sem notar a expressão que se pintava no rosto lívido de Miguel Navarro, o jovem professor tirou da sua bolsa algumas moedas que lhe deu para as primeiras necessidades, e separaram-se.
54 Miguel voltou pelo mesmo caminho, e Francisco dirigiu-se para o colégio de Santa Bárbara, onde morava.

03 -  NO COLÉGIO DE SANTA BÁRBARA - XAVIER E FABRO
Amizade Leal de Xavier e Fabre – 1 Francisco encerrou o curso de filosofia com desejos e propósito firme de se distinguir entre todos os seus condiscípulos [colegas da escola] e assim o conseguiu, porque a sua inteligência não admitia dificuldades, e trabalhava com ardor insano. 2 Dele se dizia, que "nunca estudante algum conseguira, em Paris, tanto com tanta facilidade".
3 De entre todos os alunos da sua classe, Francisco extremou Pedro Fabro, um dos mais notáveis pela sua assiduidade ao estudo, mais atraente e simpático pelas qualidades da sua alma e do seu coração. 4 Xavier, encantado da sua modéstia, da sua afabilidade e da tranquilidade do seu espírito, desejou aproximar-se dele, 5 e Pedro, que pelo seu lado admirava a vasta e robusta inteligência do jovem Navarrês, assim como apreciava o seu nobre caráter e o encanto que derramava em torno de si, julgou-se muito feliz por se ver por ele estimado. 6 Bem depressa os dois amigos não tiveram mais que um só quarto e partilhavam os seus entretenimentos e trabalhos, os seus prazeres e desgostos; tudo, finalmente, se tornou comum entre eles, e os progressos de cada um faziam a alegria de ambos.
7 Deus preparava assim a execução de seus altos desígnios num e noutro, porque uma tal intimidade estava em oposição com as idéias da época.
8 Pedro Fabro, filho dum agricultor de Villaret, próximo de Gênova, tinha sido guardador de gado na sua infância. 9 A sua terna piedade, o desenvolvimento extraordinário da sua inteligência e o desejo que tinha de estudar o latim, resolveram seu pai a confiá-lo a um professor da vizinhança, cujo mérito conhecia.
10 Pedro estudou ali com tal aproveitamento, que D. Jorge Fabro, seu tio, prior dum mosteiro em Chartreuse, reconhecendo aquelas disposições julgou conveniente adiantá-lo nos estudos, quanto possível fosse, e obteve de seu irmão que se fizessem os arranjos precisos para mandá-lo para a Universidade de Paris a fim de ali seguir um curso de filosofia.
11 Era um sacrifício para a mediocridade da sua fortuna, porém o pai de Fabro, verdadeiro cristão, para não resistir à vontade de Deus para com seu filho, resignou-se a sofrer faltas pecuniárias, e as saudades que esta separação e longa ausência lhe deixavam, e enviou Pedro para o colégio de Santa Bárbara.

Diferença social, mas mesma sintonia com Fabre – 12 Xavier, ligando-se a este jovem estudante, reconhecera nele uma modéstia original e uma simplicidade rústica provenientes, sem dúvida, do seu nascimento e das suas ocupações anteriores; 13 mas, coisa admirável no século XVI, o soberbo espanhol, o descendente dos reis de Navarra, aquele cujos irmãos eram admitidos com distinção na corte de Aragão e de Castela, 14 sendo ele também, com a maior honra, recebido na de Francisco I, escolheu para o seu íntimo amigo o filho dum pobre agricultor, dum aldeão da Sabóia, com quem vivia em fraternal intimidade!
15 Que diferença, pois, nos seus caracteres, nos seus hábitos, na educação, nos gostos e nas idéias! Pedro era duma piedade de anjo. 16 Francisco, educado sob princípios religiosos, conservava e acatava os seus deveres e preceitos essenciais, mas não passava disso. 17 Era orgulhoso e altivo, delicado em pontos de honra, algum tanto vaidoso da sua pessoa e da superioridade das suas brilhantes faculdades. 18 Pedro era humilde, ingênuo, modesto, chegando a ser algum tanto tímido e não se orgulhando dos seus progressos e dos louvores que recebia dos professores pelo seu grande mérito.
19 Os dois amigos trabalhavam com igual ardor nesta aprazível intimidade, que nem por um momento fora interrompida, 20 e calculavam, com alegria, que, continuando a seguir por aquele modo os seus estudos, e com tão igual resultado, receberiam os graus no mesmo dia e partilhariam, ainda juntos, deste último aplauso e triunfo. 21 Não tinham, pois, tempo a perder; este pensamento animava-os, incitava-os, e eles trabalhavam com mais ardor cada dia, e com tal assiduidade que nada os distraía.
22 Porém a presença de Francisco fazia cada vez maior falta no solar de Xavier. Os dias pareciam ali mais longos, os serões não tinham encantos desde o dia em que o espírito alegre, a animação e o caráter amável do jovem estudante deixara de dar vida àquela solidão. 23 Decorrera dois anos depois da sua partida, e dois anos de separação do filho, era já longo tempo para os corações daqueles pais!
24 D. Maria esforçava-se por dissimular a sua tristeza, porém D. João era mais franco, por isso falava muitas vezes em chamar para junto de si o seu filho mais novo; 25 e D. Maria conseguia sempre dissuadi-lo desta idéia, a bem dos interesses do seu muito querido Francisco, continuando ambos a sofrer a ausência e o isolamento, cheios da maior abnegação e paciência.
26 Madalena, sua filha, então abadessa do mosteiro de Santa Clara, gozava de tão grande fama de santidade, que de muito longe a vinham consultar, e provado estava que ela recebia luzes proféticas, porque os fatos o justificavam.
27 D. João escreveu-lhe consultando-a se devia ou não determinar o regresso de Francisco. 28 A santa abadessa, inspirada por Deus, respondeu a seu Pai: -"Se a glória de Deus vos é cara, deixe meu irmão em Paris, a fim de que depois da filosofia ele estude a teologia, 29 porque Deus me revelou que Francisco era o vaso de eleição destinado a levar para as Índias o facho da Fé".
30 Esta magnífica e inesperada noticia produziu uma inexprimível mistura de impressões no nobre solar!... 31 Que esperanças lhes restavam agora de tornar a ver aquele que espalhava ali tanta alegria e tanto encanto!... Qual seria o destino que a Providência tinha em vista dar-lhe?...
32 Que direção o tomaria para ir... para as Índias? pelo meio de povos infiéis cuja selvageria e natural crueldade inspiravam terror?!... 33 E ao mesmo tempo, que felicidade, que glória para aquele pai e aquela mãe, aos quais Deus se dignava fazer anunciar, por um de seus filhos, cuia santidade era conhecida em todo o reino de Valentia, que o seu Francisco tão querido era o "vaso de eleição" destinado a levar o Evangelho aos vastos países de além-mar, de pouco conquistados pelas armas européias...

Sucesso nos estudos, torna-se professor e fortalece amizade com Fabre – 34 D. João e D. Maria souberam agradecer a Deus esta grada, oferecendo-lhe o doloroso sacrifício cujo preço era aquele Xavier conservou-se, pois, em Paris; 35 ali continuou o seu curso de filosofia e terminou-o duma maneira tão distinta, que se lhe ofereceu imediatamente uma cadeira daquela faculdade no colégio de Beauvais; 36 porque então ninguém podia ser agregado à Universidade, e obter o grau de doutor em teologia se não tivesse ensinado a filosofia por sete anos consecutivos.
37 Assim como o haviam desejado os dois amigos, Pedro Fabro foi recebido como professor em artes ao mesmo tempo em que Xavier, e também por distinção.
38 Ao receber a sua nomeação para a cadeira do colégio de Beauvais, Francisco tomou a mão de seu amigo e disse-lhe com o sentimento de franca cordialidade que fazia o encanto da sua vida de estudante
- 39 Pedro, eu lecionarei no colégio de Beauvais, porém, conservarei o meu quarto de estudante de Santa Bárbara é não nos separaremos.
- 40 Considerar-me-ei muito feliz, respondeu-lhe Pedro, porque estou resolvido a seguir um segundo curso de filosofia, antes de começar os estudos de teologia, assim gozarei muitos anos mais da vossa companhia.
- 41 Era isso o que eu desejava, replicou Xavier; vós podíeis mesmo seguir o curso de teologia morando no colégio de Santa Bárbara, e conquanto os nossos trabalhos sejam hoje diferentes, ser-nos-á mais agradável a vida comum, porque se trabalha mais e descansa-se melhor, quando se está ligado como nós.
- 42 Assim gozaremos, pois, esses tantos anos; mais tarde... o futuro pertence a Deus!...
- 43 Sim, não pensemos, por agora, na nossa separação; falaremos nisso em 1534, e, por tanto, temos muito tempo.

04 - O COLÉGIO DE MONTAIGU - O ESTUDANTE MISTERIOSO
Inácio - 1O vasto edifício ocupado hoje pela biblioteca Santa Genoveva, no ângulo da rua dos Sete-Caminhos, era-o no século XVI pelo colégio de Montaigu.
2 No ano escolar de 1528 a 1529, notava-se, no número dos alunos, que seguiam a classe das humanidades naquele colégio, um estudante que parecia ter já passado, há muito tempo, a idade dos estudos clássicos. 3 Todos perguntavam quem poderia ser este personagem que vinha assim enfileirar-se entre tão jovens estudantes para receber a mesma instrução que eles, numa idade em que, de ordinário, o homem não aprende a não ser pelo hábito intelectual ao qual ele parecia estranho.
4 O seu traje não era como o dos outros. Em lugar da longa batina dos estudantes da Universidade, usava a toga dos velhos, notável pelo grande comprimento; não trazia o gorro inclinado para a orelha direita, mas sim um chapéu de abas horizontais, colocado no meio da cabeça e sem inclinação, como se usa hoje: naquela época consideravam isto uma enormidade.
5 Nada mais era preciso para excitar a curiosidade entre os estudantes e os professores. Faziam-se mil conjecturas, comentava-se transmitiam-se várias observações; 6 porém o estrangeiro inspirava tal respeito que ninguém ousava dirigir-lhe perguntas, não encontrando em torno de si senão olhares benevolentes, e não permitindo que corresse a crítica, excitada pela curiosidade, a não ser na sua ausência.

Julgo a Inácio devido a simplicidade – 7 Nas proximidades da terminação das férias, que seguiram as aulas, e as quais o desconhecido freqüentara com rigorosa regularidade, soube-se de repente, que este misterioso personagem era acusado de sortilégio e magia. 8 Contavam-se coisas de arrepiar os cabelos, acrescentando-se que ele havia sido denunciado ao inquisidor Mateus Ori, prior dos Jacobinos, e esperava-se que fosse condenado à forca- ou à fogueira.
9 Asseguravam alguns que era o menos que ele merecia, atendendo-se a que dois anos antes fora condenado em Espanha por igual crime e que sofrera muitos meses de detenção nas prisões de Alcalá e Salamanca.
10 Não se falava no Bairro Latino senão deste importante assunto, quando, poucos dias depois desta surpreendente nova, se soube que o inquisidor reconhecera a inocência deste grande criminoso e que até falava dele com profunda veneração, sem contudo nada dizer que pudesse deixar penetrar o mistério com que o desconhecido insistia em encobrir-se.
11 Expirara o tempo das férias; as aulas estavam já abertas, os alunos haviam voltado aos seus estudos; 12 Francisco tornava a apresentar-se com o mesmo brilhantismo na cadeira que lhe estava confiada, e na qual granjeara a maior reputação, 13 e Pedro Fabro continuava a trabalhar com a mesma coragem e dedicação pelo estudo.
14 Nada parecia, pois, fazer mudar a vida íntima dos dois amigos, quando um dia o doutor Penha que tinha sido seu professor de filosofia e que o era ainda de Fabro, os viu passear, depois do jantar, coze um dos seus novos alunos, do qual todo o colégio se preocupava com muita curiosidade.
15 Era um homem de 40 anos, pròximamente. 16 O seu andar grave e algum tanto precipitado denunciava algum sofrimento, o que se notava também nos seus movimentos contrafeitos. 17 Conquanto fosse mais baixo que Francisco, a sua beleza mui notável era mais varonil, as suas ações mais enérgicas; talvez esta diferença lhe viesse da idade.
18 A sua cor bronzeada indicava o homem habituado a grandes fadigas; os seus olhos azuis, algum tanto profundos e cheios de fogo, deixavam entrever uma alma muito preocupada, uma inteligência superior, uma vontade que devia ultrapassar e vencer todos os obstáculos; 19 porém só a convivência e a intimidade podiam descobrir aquela expressão habitualmente oculta ao observador pelas grandes pálpebras guarnecidas de longas pestanas, que ele trazia sempre inclinadas para o chão.

Primeiro sinal de conversão para Francisco - 20 O doutor Penha vendo-o com os dois amigos, dirigiu-se a Fabro e tomando-o por um braço levou-o consigo, deixando Francisco só com o estrangeiro. 21 Este procedimento não pareceu agradar ao nosso jovem, professor, porque poucos instantes depois subiu para o seu quarto, aonde Pedro se lhe reuniu em seguida
- 22 Tiveste grande paciência todo este tempo, Francisco, disse-lhe ele entrando.
- 23 Que queríeis, meu caro amigo; ele continuou a exortação, na vossa ausência, e eu fiz-lhe observar que perdíeis com isso e que para evitar o trabalho de repetir na vossa presença, seria melhor deixar a continuação para amanhã.
- 24 Mestre Penha veio falar-me dele, pediu-me que lhe repetisse e explicasse as lições, e eu aceitei.
- 25 Fizeste muito bem; na sua idade é mais fácil estar a repetir sempre as mesmas sentenças do que aprender a filosofia. 26 Mestre Penha disse-vos alguma coisa que saiba deste misterioso estudante?
- Nada absolutamente. 27 Ele começa a excitar a curiosidade em Santa Bárbara como em Montaigu, e não se inquieta com isso. 28 Dá-se pelo nome de Inácio, e eis tudo quanto Mestre Penha sabe e que nós sabíamos também.

Convívio com Inácio – 29 Alguns meses depois, Fabro, que apreciava cada vez mais o estudante de quem era repetidor, significou a Xavier o desejo que tinha de o admitir como terceiro companheiro de quarto, 30 e a Providência, que dispunha sempre as coisas para conservar a melhor harmonia entre os dois amigos, serviu-se da condescendente amizade de Xavier para o fazer consentir naquilo que muito o desgostava, a vida em comum com um honre-m que lhe era antipático. 31 Fabro exercia, porém, tal influência no coração de Francisco, que podia pedir-lhe tudo sem recear nem sequer a aparência duma recusa.
- 32 Da melhor vontade, respondeu ele, uma vez que vós o desejais; contudo imporei somente uma condição.
- 33 Qual é ela?
- Que ele nos exortará só de dia, e nunca de noite! Não lhe suponho a intenção de nos impedir o sono.
- 34 Meu caro amigo, ele pode ser levado pelo encanto da própria eloqüência, e isto seria um grande estorvo para o nosso repouso, e demais, nós temos boa memória para a todo o momento termos presente o seu inevitável: Quid prodest!
35 Pedro sorriu docemente, mas do fundo do coração agradecia a Deus o ter concorrido para esta aproximação, da qual muito esperava a bem do seu caro amigo.
36 Convencionou-se, pois, que o novo estudante viria instalar-se, como terceiro habitante do. quarto dos dois amigos, logo que terminasse alguns negócios que o retinham fora por algum tempo ainda. 37 No entanto Inácio repetia constantemente a Francisco estas palavras divinas que o desesperavam: "De que serve ao homem ganhar todo o universo se vier a perder a sua alma?" 38 e não obtinha em resposta mais que um gracejo, uma palavra de desprezo e ordinariamente um profundo silêncio, o que era ainda mais ofensivo. 39 Porém Inácio não desanimava.

Persistência de Inácio – 40 Pedro, cujos progressos na vida espiritual eram. notáveis desde que lhe dera inteira confiança, esforçava-se em concorrer com a sua influência, e não era mais feliz.
41 Os progressos de Xavier nas ciências e no mundo lisonjeavam a sua vaidade a ponto de o tornar surdo à palavra evangélica, que não cessavam de lhe recordar.
42 Num dia, Inácio depois de lhe ter falado por longo tempo sobre as vaidades do mundo, com tão mau resultado como sempre, terminou com as mesmas palavras celestes
- 43 De que serve ao homem ganhar todo o universo, se vier a perder a sua alma? - Vós o compreendereis um dia, Francisco acrescentou ele.
- 44 De que serve ao homem estar a pregar todo o dia se não consegue senão perder o seu tempo? replicou-lhe Xavier em tom de mofa.
- 45 Cumpre com o seu dever, e aquele que não procura aproveitar, falta ao seu,  Francisco.
46 Francisco continuou a trabalhar sem responder.
47 Dois dias depois Inácio apresentava-lhe estudantes capazes de poderem apreciar o seu mérito, e aos quais havia feito os maiores elogios da ciência e eloqüência do jovem professor. Queria levá-lo pelo lado fraco, conhecendo, além disso, que Francisco tinta um coração o mais sensível e o mais reconhecido. 48 Agradeceu a Inácio com delicadeza, repreendendo-se interiormente por o haver tratado até então com tanto rigor.
49 A partir daquele dia renunciou ao seu sistema de defesa por epigramas, e suportava com paciência, sem responder, as importunas maçadas de Inácio.

Amizade fortificada ao apreciar as virtudes de Inácio de Loiola – 50 Dali a pouco, achando-se Francisco com João de Madeva, falou-lhe de Inácio do mistério com que ele se envolvia, da curiosidade que excitava e da edificação da sua vida. João compreendeu tudo imediatamente.
- 51 Como! disse ele a Xavier, vós o vedes todos os dias, viveis com ele e ainda não descobristes quem ele é?
- 52 É impossível arrancar-lhe o seu segredo
- 53 É o mais novo dos de Onhez, Inácio de Loiola! É o belo pajem do rei! o valente oficial que desapareceu após a tomada de Pamplona, e que depois se tornou um Santo; porém é uma santidade que desagrada muito aos seus irmãos e que bastante os mortifica. 54 Um de Onhez, vestido como um mendigo, vivendo de esmolas, pregando por toda a parte!... 55 Sua família tem procurado por todos os meios retê-lo junto de si, mas a exaltação de Inácio tem resistido a todas as instâncias.
56 Francisco ficou desorientado! Podia João continuar a falar por muito tempo sem ser atendido. Xavier conhecia a família de Inácio, não pessoalmente, mas sim pelos seus irmãos que estavam na corte dos reis católicos e que a conheciam; 57 além disso, a sua família tinha sempre mantido relações com a dele, e era este Inácio que ele, Xavier, havia olhado, desde o princípio; como um homem de nascimento baixo, e que mais tarde tratara com tanta ironia! 58 E agora é que apreciava quanto havia de heroísmo na vida pobre e humilde de Inácio! 59 As reflexões sucediam-se umas às outras, mas os seus progressos no mundo e as esperanças nó futuro traziam-lhe violentos remorsos de consciência e esta luta desassossegava-o.
60 No mesmo dia do seu encontro com João de Madeva, Francisco comunicou a Pedro Fabro o que viera a saber, e confessou francamente a Inácio que reconhecia nele toda a verdade. 61 Desde aquele momento a mais sincera amizade os uniu; 62 Porém Inácio não possuía mais que o lado humano de Francisco, conquistara uma grande parte do seu coração, mas da sua alma nada; 63 esperava, portanto, e esperava muita porque via o combate interior com que lutava o seu amigo, e observava-o com grande ternura e vivo interesse, sem dar-lhe a entender que o havia compreendido.

À vocação, só falta Xavier - 64 Pedro Fabro acompanhava-o em orar ardentemente pela alma que lhes era tão cara e esperavam assim pelo momento da graça, que solicitavam com toda a confiança nas suas orações.
65 Por aquele tempo estava Inácio a acabar o seu curso de filosofia, e Pedro resolvido a fazer voto de pobreza e a partilhar da santa vida do seu amigo, dispôs-se a ir a Sabóia tratar de alguns negócios do seu interesse e dar o último abraço de despedida a sua família. 66 Partiu, pois, com a esperança de que Inácio, que se achava estabelecido, havia já alguns dias, no seu quarto comum, conseguiria conquistar a alma de Francisco durante a sua longa ausência, pois que contava demorar-se muitos meses na Sabóia.
67 Depois da partida de Fabro, Francisco pôde estudar melhor as perfeições de Inácio, e quanto mais o admirava, mais se arrependia da injustiça das zombarias que lhe dirigira tão inconsideradamente; 68 tornou-se amável e atencioso para com ele, estimava-o verdadeiramente, mas não passava além.
69 Inácio não conseguia, portanto, o que mais ambicionava, e não obstante a luta interior que Francisco experimentava, e que ele observava e seguia, via-o, contudo, continuar ávido pela glória que passa, e pouco disposto a querer alcançar a que é eterna. 70 De tempos a tempos repetia-lhe: "De que serve ao homem ganhar o universo, se vier a perder a sua alma, caro Francisco?"
E ele nada mais dizia.

05 - CONVERSÃO DE XAVIER - DE QUE SERVE AO HOMEM...

Reconhecimanto de Xavier à bondade de Inácio – 1 Estavam as coisas neste pé, no dia em que Miguel, obrigado por falta de dinheiro, viera pedi-lo ao jovem professor no colégio de Beauvais; e nós sabemos que Xavier, depois de lhe ter dado algumas moedas para as primeiras necessidades, lhe pedira que voltasse na manhã seguinte.
2 Na tarde daquele dia, Francisco acabava de interromper o seu trabalho, ao qual não se tinha podido dedicar com o seu habitual zelo, 3 quando sentiu abrir-se levemente a porta do seu quarto para dar passagem a Inácio. Este ruído, ainda que fraco, fê-lo estremecer como se respondesse secretamente aos íntimos pensamentos que o preocupavam.
4 Aproximando-se de Xavier, Inácio estendeu-lhe a mão mostrando envolvê-lo num olhar o mais terno e paternal. 5 Xavier dissimulando do melhor modo que pôde a sensação que lhe causava aquele olhar, apressou-se em dizer ao seu amigo
- Tendes-me dado tantas provas de amizade, meu caro senhor, que não hesito em pedir-vos uma nova. Quereis prestar-me um serviço?
- 6 Da melhor vontade, meu amigo. Tudo quanto eu possa fazer por vós, farei com o maior prazer. Falai caro Francisco.
- 7 Tivestes a bondade de me emprestar dinheiro a última vez que me faltou pela demora do mensageiro encarregado de receber a minha mesada. 8 Acho-me hoje nas mesmas circunstâncias, e se pudésseis emprestar-lhe de novo, muito grato me deixaríeis.
- 9 Sabeis que eu estou sempre à vossa disposição, e muito vos agradeço a confiança que me dispensais, Francisco.
- 10 Um amigo meu me pediu que o tirasse dum pequeno embaraço pecuniário, e eu, não o podendo servir neste momento, lembrei-me de recorrer a vós, certo de que me obsequiaríeis.
- 11 Certamente e de todo o coração. Vós é que muito me obsequiais dando-me ocasião de vos ser útil, crede-o.
12 Francisco dirigiu ao seu amigo um olhar indecifrável para qualquer outro que não fosse aquele a quem era dirigido. 13 Inácio compreendeu-o e procurou aproveitar o momento que a divina Providência parecia proporcionar-lhe para penetrar na alma que se mostrava, enfim, disposta a abrir-se.
- 14 Francisco, disse-lhe ele muito comovido, o vosso coração é muito bom... em extremo sensível!.. 15 Oh! meu amigo! sim! ele é muito nobre, muito grande, muito generoso para se prender à terra! Não foi feito para este mundo! 16 As vossas próprias reflexões vo-lo terão feito sentir, porque vos acho menos alegre que de ordinário, há já algum tempo, e hoje especialmente pareceis-me triste e preocupado. 17 Pois estou convencido, que alguma coisa vos atormenta interiormente...
- 18 Xavier respondeu: O que me atormenta, não é tanto o vosso Quid prodest!... É a necessidade de vos dizer que sinto e me arrependo de vos ter conhecido e apreciado tão tarde, manifestando, tantas vezes, que as vossas palavras me eram desagradáveis. 19 Horroriza-me esta injustiça, sinto que tenho sido mais que injusto aos vossos olhos e o meu coração me recrimina. Eis, pois, tudo.

A conversão é completa 20 Quanto às minhas idéias do futuro, não as posso sacrificar. 21 Reconheço a vossa bondade, a generosidade do vosso coração e todas as mais qualidades que vos adornam e que eu admiro e respeito. 22 Maravilham-me, sobremodo, as vossas virtudes e a vossa perfeição, mas não me julgo destinado e digno de imitá-las, 23 não me sinto com vocação para renunciar aos meus empreendimentos presentes e àqueles que espero para o futuro.
- 24 Mas, caro Francisco, vós me obrigais a opor-vos ainda a frase da vossa embirração: "De que serve ao homem ganhar o universo se ele vier a perder a sua alma?"
25 "A vossa ambição é nobre, eu não a contesto; mas a que se dirige para o Céu, para a eternidade, não a é ainda mais? 26 E se visais a um fim que reconheceis ser menos belo, menos nobre, menos duradouro, é isto digno duma alma como a vossa? 27 Se não existe outra vida mais que a deste mundo, a razão está por vós. Porém, se a vida deste mundo é curta e a do outro é eterna, é loucura não trabalhar senão pela glória fugitiva da terra e perder assim a da eternidade...”.
28 "Francisco, podeis me dizer em que se tornaram os ricos, os poderosos, os felizes desta vida que morreram há algum tempo? Viveram de ambições, conquistaram fortunas, honras, e os louvores dos homens; 29 conseguiram o seu fim, obtiveram tudo que ambicionavam e de tudo gozaram..., Mas o que lhes resta agora, depois da morte, de tudo que desfrutaram na terra? O que encontraram de tudo isto às portas da eternidade?"
30 "Ah! sim, meu amigo! tornarei a dizer-vos ainda, e vós refletireis mais sèriamente: De que serve ao homem ganhar o universo, se vier a perder a sua alma?"
- 31 Eu posso amar a ciência, posso ser sensível à glória que reina em torno dela, sem contudo condenar-me por isso.
- 32 Tendes a certeza do que dizeis? Não. Sabeis, ao contrário, que Deus vos pede que façais por Ele todo o sacrifício desde já, e nada mais sabeis. Não exponhais, pois, a saúde da vossa alma num talvez!
- 33 Sacrificar tudo! encerrar-se o homem num pequeno círculo de idéias estreitas...
- 34 Estreitas! Elas abraçam todos os séculos passados e por vir, a eternidade inteira, e vós as achais mais estreitas do que as vossas, que se limitam a esta vida e não abraçam senão alguns anos?
- 35 Eu não posso deixar de dizer-vos que acho algum tanto baixas as vossas idéias de perfeição, 36 quando vejo que elas vos levam a estender a mão à caridade, andar mal trajado e a suportar toda a sorte de injúrias... 37 Oh! não! nunca poderei partilhar essas idéias!
- 38 Achais baixo aquilo que eleva e engrandece a alma! 39 Dizei que é sem sentido o que se aproxima de Deus! Não ignorais, de certo, que ela se eleva e se aproxima d'Ele em proporção e à semelhança de Nosso Senhor, pela prática das virtudes, cujo exemplo nos deu durante a sua vida mortal...
40 "Francisco, vós sois dotado duma razão bastante clara e dum grandioso coração para deixardes de compreender tudo isto."
41 "Prossigamos, meu amigo; eu conheço quanto é esclarecido o vosso espírito, e quanto é bom e leal o vosso coração e o vosso caráter; 42 muito bem! dizei-me agora o que achais mais racional e mais proveitoso; sacrificar agora aquilo que prezais para ter segurado a felicidade eterna, ou satisfazer-se hoje desses bens pelo preço duma pena eterna?"
"Respondei".
43 Falando-lhe deste modo, Inácio aproximou-se do seu jovem amigo e tomou-lhe a mão que sentiu estremecer entre as suas, adivinhando a luta que se travava naquele coração tão ardente de 27 anos. Francisco não respondeu.
- 44 O vosso silêncio responde por vós, lhe disse Inácio; fiquemos nisto, e eu me convenço de que vós mesmo me direis amanhã: "De que serve ao homem ganhar o universo se vier a perder a sua alma?"

Decidido à conversão, mas Inácio quer a perfeição de Xavier - 45 Não aguardarei para amanhã, respondeu-lhe Francisco com voz comovida; confesso-me vencido... Porém não posso sacrificar tudo como entendeis! É impossível!
- 46 Compreendo que acheis impossível, por esta tarde, porém uma natureza como a vossa, não pode reconhecer a verdade sem se render e sacrificar por ela com a mais completa e cega submissão.
47 Francisco não replicou. Inácio levantou-se, deu alguns passos pelo quarto, e depois parando, ficou a contemplar o seu jovem amigo que parecia absorvido nas suas reflexões. Não tardou, porém, muito que os seus olhares se encontrassem. 48 Francisco tinha os olhos cheios de lágrimas. Inácio aproximou-se então dele e abriu-Lhe os braços, aos quais Xavier se deixou atrair, entregando-se completamente comovido...
49 O homem do mundo, que pouco antes se confessara vencido, rendia-se agora por completo. 50 O amigo estreitou-o ao seu coração com o semblante radiante de inexprimível satisfação! 51 Podia, finalmente, entregar a Deus e entregar-lhe toda inteira aquela formosa alma que conhecia ser predestinada a coisas muito grandes, 52 e que pelos desígnios da Providência, devia ir, mais tarde, fundar o reino de Jesus Cristo no meio das nações bárbaras, fazendo reviver entre aqueles povos a luz já consumida e que, outrora irradiara à voz dos primeiros apóstolos.
53 Francisco estava de todo convertido; sentia intimamente que Deus o queria e o chamava para si... 54 mas ele tinha tanto a sacrificar que pediu ainda alguns dias para refletir. Inácio contava, com toda confiança, na retidão e sinceridade do seu amigo para não duvidar um instante sequer do resultado das suas reflexões na disposição em que o via.
- 55 Tornaremos a falar, lhe disse Inácio, quando você quiser. Sim, meu amigo, disponha do tempo necessário, reflita perante Deus, e segui depois a sua divina inspiração.

06 - OS VOTOS DE MONTMARTRE - CRIMINOSO PLANO

Abandonar amizade pervertida – 1 Miguel Navarro, pontual à conversa que lhe concedera o seu jovem protetor, apresentou-se em sua casa na manhã seguinte à hora marcada. 2 E não podendo dissimular inteiramente o mau humor que se lhe conservava ainda do diálogo da véspera, atreveu-se a soltar de novo algumas expressões ásperas e zombeteiras, 3 que Francisco Xavier repeliu com uma só palavra: - "É demais!" disse Xavier, dando-lhe o dinheiro que vinha buscar.
4 Miguel empalideceu a esta palavra, cujo alcance compreendeu. Receou perder toda a amizade e benevolência de Francisco, se o deixasse sob aquela impressão de descontentamento, e apressou-se a reparar o que ele chamava uma negligência. 5 Tomou as mãos do jovem senhor de Xavier e beijou-as com tanta afeição e sinais de arrependimento, que o comoveram.
- 6 Xavier disse: Não pretendi afligir-vos, Miguel, mas sim fazer-vos compreender que não deveis falar daquele modo, de hoje em diante, em minha presença. 7 Estimo e respeito Inácio e olvidemos isso.
8 Miguel estava consternado; a lembrança de alguns nobres espanhóis, que abraçaram por voto voluntário a pobreza, depois de convertidos por Inácio, apresentava-se como um fantasma aterrador. 9 Lançou-se aos pés de Xavier e suplicou-lhe, banhado em lágrimas, que não desonrasse a sua ilustre família, imitando Amador e João de Castro.
- 10 Francisco disse: Vá Miguel, deixai-me a liberdade de dispor de mim sem necessidade de vosso consentimento. 11 Sei que a afeição que me dedicais é o que vos leva a falar-me desse modo; mas muito estimaria que fosse esta a última vez.
12 Miguel retirou-se devorado de tristeza e de raiva. 13 Perguntava a si mesmo qual seria o modo de se vingar de Inácio de Loiola e vingar ao mesmo tempo a família de Azpilcueta. 14 Concebeu e rejeitou vários projetos, até que se decidiu a esperar, confiado em futuras inspirações.

Retiro Espiritual e perfeição de Xavier - 15 Dias depois, Francisco declarava-se abertamente como um dos discípulos do seu caro mestre na vida espiritual, 16 esperando o momento em que lhe fosse possível fazer um retiro sob a sua direção e seguindo os Exercícios Espirituais que Inácio, inspirado pelo Céu, escrevera em Manresa.
17 Passava-se isto nas proximidades das férias. Logo que elas começaram, Xavier deixou o colégio e afastou-se do bulício do mundo para ir viver durante algum tempo, a sós com Deus, no retiro e na penitência.
18 Passou os quatro primeiros dias sem tomar alimento algum. 19 A sua pungente dor por ter ofendido a Deus, e o seu desejo de servi-lo dali em diante, eram dois sentimentos tão ardentes da sua alma magnânima e verdadeira, que ele ligava os pés e as mãos, tanto quanto lhe fosse possível, antes da oração, e assim se apresentava em presença de Deus como uma vítima disposta a ser imolada. 20 Não deixava o cilício, jejuava todos os dias e orava sem cessar.

Vingança de Miguel – 21 Enquanto Francisco Xavier se tornava um novo homem no seu retiro, o demônio, rugindo de raiva, apossava-se da alma de Miguel Navarro para lhe inspirar o infernal pensamento de subtrair ao Céu esta magnífica conquista, inutilizando o instrumento que ali o retinha.
22 Inácio de Loiola, como dissemos, habitava só o quarto dos três amigos; era, pois, favorável o momento, e se Miguel o deixasse escapar, poderia não ter outra ocasião igual.
23 A Rua de Santo Hilário era completamente deserta durante a noite. Além disso, o convento do Carmo que ficava próximo, só se abriria em caso de necessidade. Os conventos são casas de asilo e os seus vigias não podem prender ninguém... 24 E, sobretudo, confiava que a família de Azpilcueta o protegeria, se preciso fosse, pois que era em defesa de sua honra que ele se expunha!... Assim raciocinava o espírito do mal na alma de Miguel Navarro.
25 Uma noite, pois, próximo da meia-noite e dias antes de terminar o retiro de Xavier, poder-se-ia ver uma sombra deslizar-se na escuridão e andar ao longo do muro do colégio de Santa Bárbara, na Rua de Santo Hilário. 26 Esta sombra parou no ponto correspondente ao ângulo formado pelo edifício com o passeio. Parecia escutar... Porém o silêncio não era interrompido em torno dela, a não ser pela respiração abafada e pelas palpitações precipitadas dum coração que ele só sentia naquele momento.
27 Miguel, Seguro por este lado, ele tirou da, algibeira uma corda de nós que lançou ràpidamente sobre o muro e por ela subiu com ligeireza; escutou de novo... Nada!
28 O vento era tão ligeiro que não fazia agitar nem uma só folha das árvores do passeio; nem uma só luz alumiava as janelas; tudo dormia, tudo estava em profundo silêncio... e Satanás a impeli-lo sempre; 29 e eis que Miguel se agarra à corda e nela se deixa balançar... Acorda é sólida, pode subir por ela... Sobe, chega ao alto do muro e acha-se muito próximo da janela de Inácio... Calcula os movimentos necessários, introduz a mão para dentro do seu gibão... e ela sai armada duma navalha catalã... Avança cautelosamente, e vai, finalmente, levantar o frágil ferrolho da janela...
- 30 Aonde vais tu, desgraçado? que vais fazer? Gritou uma voz vibrante, terrível, fulminadora como uma repreensão do Céu.
31 Miguel ficou aterrado! olhou por todos os lados... Não descobriu ninguém!... Escuta, todo trêmulo... O silêncio por toda a parte... exceto na sua alma...
- 32 Meu Deus! meu Deus! murmurou o culpado, é S. Miguel, meu patrono!
33 E em seguida lança a mão à vidraça da janela, agita-a febrilmente, abre-a e precipitando-se para o interior da câmara, vai lancear-se dominado pelo terror, aos pés de Inácio cuja oração interrompe; ali, de joelhos, faz a confissão do seu crime, implora o perdão e obtém-no.
34 O inferno estava vencido, triunfava o Céu.

Purificação de Xavier e proposta missionária - 35 Na volta do seu retiro, Xavier começou os estudos de teologia, e dirigido sempre pelo seu santo mestre, fez rápidos progressos no caminho da perfeição.
36 Ofereceram-lhe em vão um rico canonicato em Pamplona; recusou-o, por não ambicionar outras riquezas que não fossem as do Céu.
37 Inácio, vendo-o tão seguro, e forte, comunicou-lhe os seus desejos de ir trabalhar na conversão dos judeus e infiéis que habitavam a Terra Santa. 38 Xavier respondeu-lhe que o seguiria por toda a parte para onde ele fosse. 39 Pedro Fabro dera-lhe, meses antes, igual resposta.

Preparação para Consagração Religiosa com o mestre Inácio - 40 No ano seguinte, 1534, Pedro Fabro recebeu as ordens sacerdotais e celebrou a primeira missa a 22 de julho. 41 Inácio, que aguardava aquele momento para reunir em torno de si todos aqueles que havia conquistado para o serviço de Deus, 42 aconselhou-os a que se preparassem para aquela reunião por meio de penitências corporais e de longas e freqüentes orações, a fim de atraírem a luz e a inspiração divina sobre a vocação de cada um em trabalhar pela salvação das almas, e maior-glória de Deus.
43 No dia fixado, os seus discípulos, em número de sete, reuniram-se a ele como fora combinado. 44 Todos, homens de ciência, de elevado mérito e de reconhecida inteligência, contemplaram-se por um instante com mútua admiração, experimentando, cada um deles a mais viva comoção que se traía pelas lágrimas involuntárias que derramavam.
- 45 "Compreendendo a comoção que experimentaríeis, lhes disse Inácio, quis que ignorásseis os nomes dos vossos companheiros escolhidos pelo Céu, com o fim de deixar os vossos corações mais livres em seguir as inspirações de Deus. 46 Conheço que desde que vos vistes, o vosso zelo, a vossa coragem e a vossa confiança redobraram de vigor. 47 Convenço-me de que Deus vos chamava a todos para uma empresa de muito grande importância. 48 E se cada um de vós, em separado, é capaz de grandes empreendimentos, muito se pode esperar dos vossos trabalhos achando-vos reunidos para um único fim, por um único pensamento e com um único interesse, a glória de Deus e o bem da igreja! 49 Tivestes tempo bastante para consultar, em presença de Deus, a vossa vocação, e vindes hoje declará-la."
50 "Por mim, não tenho mais que um só desejo: e vem a ser, conformar a minha vida com a do divino Modelo, socorrido da sua graça. 51 A santidade pessoal de Jesus Cristo não foi julgada suficiente: padeceu, sofreu e morreu pela salvação dos homens. 52 Desejo, pois, esforçar-me por imitá-lo quanto seja possível às minhas poucas forças. 53 Trabalhando pela minha própria salvação quero dedicar-me à salvação dos meus irmãos".
54 Depois patenteou-lhes a dor que sofria a sua alma por ver que os Lugares Santos, que tinham sido banhados pelo sangue divino, se achavam transformados em verdadeiros infernos, e comunicou a resolução que tomara de ir trabalhar pela conversão dos infiéis da Terra Santa.
55 "Que feliz seria eu! exclamou ele, se me fosse permitido derramar o meu sangue, por uma tal causa, sobre aquela terra, regada pelo sangue do Redentor! Tenho esperanças de que um dia me será concedida uma tão grande felicidade! 56 Confiado nestas esperanças, estou resolvido a entregar-me, a consagrar-me inteiramente a Deus, dedicando-me tão somente ao seu serviço para nunca mais pertencer senão a Ele, por um solene voto; 57 desejo dedicar-me irrevogavelmente à pobreza voluntária, à castidade perpétua e à viagem para a Terra Santa!"
58 Toda a alma de D. Inácio parecia transportar-se para os seus discípulos à medida que ele lhes falava, e tal era a impressão e o respeitoso entusiasmo que experimentavam, que supunham escutá-lo, ainda algum tempo depois de ter cessado de falar. 59 Despertados daquele êxtase, exclamaram espontaneamente e a uma só voz:
- "A Terra Santa! À Terra Santa!"
60 Em seguida todos se comprometeram a seguir o seu querido mestre na vida e na morte, e mestre e discípulos abraçaram-se com a maior ternura e comoção, com solene promessa de se amarem, de ali em diante, como irmãos, dos quais seria Inácio o chefe, o irmão mais velho.

Planos e preparação para missão – 61 Combinaram depois no plano que deveriam seguir e concordaram em que terminados os seus estudos teológicos, dirigir-se-iam a Veneza e dali seguiriam para a Palestina, se a Providência lhes concedesse, no decurso dum ano, os meios necessários para esta viagem. 62 Se, porém, depois de esperarem em Veneza aquele tempo, não pudessem, por quaisquer circunstâncias alheias à sua vontade, julgar-se-iam desobrigados do seu voto relativamente à Terra Santa, e iriam a Roma entregar-se â disposição do soberano Pontífice.
63 Adotado este plano unanimemente, fixou Inácio o dia da festa da Assunção de Nossa Senhora, para o solene juramento que depositariam aos pés da Rainha do Céu, rogando-lhe a sua intercessão para que o mesmo juramento fosse agradável ao seu Divino Filho.64 Combinou-se também que cada um se preparasse para um tão sublime oferecimento das suas próprias pessoas, por meio da oração, do jejum e de castigos corporais.
65 Existia então em Montmartre e junto do muro da cerca da célebre abadia que coroava a montanha, uma capela da invocação dos Santos Mártires. E era crença geral que S. Dinis e seus companheiros haviam sido martirizados naquele lugar.

66 [A abadia e a sua igreja tinham então o nome de Nossa Senhora do Monte dos Mártires, nome que por corrupção popular passou a ser Monte-Mártir, e depois Montmartre.].

67 Este santuário, dependente da abadia, para onde se faziam peregrinações com o fim de venerar e pedir graças especiais ao apóstolo dos Gauleses, 68 tinha uma capela inferior menos freqüentada: foi esta capela subterrânea que Inácio escolheu para a sua consagração e a dos seus discípulos. Eles deviam reunir-se ali sem mais testemunhas.

Fundação da Companhia de Jesus e votos religiosos – 69 A 15 de Agosto de 1534, efetivamente se reuniram todos. Pedro Fabro, que era o único sacerdote, celebrou o santo sacrifício da Missa. 70 Antes da comunhão, quando ele se voltou para os seus irmãos, tendo nas mãos o Sagrado Corpo de Nosso Senhor, todos, um após outro, pronunciaram os votos de pobreza e castidade, e o de irem a Terra Santa trabalhar na conversão dos judeus e infiéis, ou de se entregarem à disposição do soberano Pontífice; 71 em seguida receberam a comunhão com seráfico fervor!
72 Acabava de nascer a Companhia de Jesus.
Nascidos na Espanha e consagrados na França – 73 À Espanha coube a glória de haver recebido do Céu o primeiro pensamento desta santa instituição, pois que no momento em que o imenso amor de Deus pelos homens brotou do seu Coração, este nasceu no de Inácio de Loiola, então em Manresa, na Catalunha. 74 Mas era em Paris que a Companhia de Jesus devia nascer. O seu primeiro berço devia ser ali onde os primeiros Apóstolos dos Gauleses receberam a morte das próprias mãos daqueles que vinham evangelizar e salvar!...
75 Assim, pois, não daremos, daqui em diante, ao eminente fundador da Santa Companhia de Jesus e ao mais ilustre dos seus apóstolos, senão os nomes de Inácio e Francisco, não somente porque depois que se tornaram tão célebres, só foram conhecidos por esses nomes franceses, mas também porque temos quase os mesmos direitos que os de Espanha, em os reivindicar como nossa glória e nossa propriedade. 76 Foi, sim, na Espanha que eles nasceram, mas foi na França, em Paris, que Xavier se converteu e renunciou ao mundo e a si próprio; 77 foi em Paris que Santo Inácio e seus discípulos se entregaram ao serviço de Deus e à salvação das almas: foi em Paris finalmente, que eles estabeleceram e firmaram as bases dos estatutos da sua Ordem.
78 Isto foi no tempo em que a cidade se honrava de adotar o glorioso título de Mãe da Companhia de Jesus. Talvez o torne há adotar algum dia!...
79 Na capela inferior dos Santos Mártires, via-se uma lâmina de bronze na qual a cidade de Paris fizera gravar, em latim, uma inscrição destinada a perpetuar a memória da fundação da Companhia de Jesus, 80 e, a fazer recordar que este lugar foi o berço da Ordem célebre que reconhece Santo Inácio de Loiola por pai e Lutécia por mãe.
81 Que foi feito desta inscrição?... Que foi feito da capela em que ela estava colocada?... Que foi feito do mosteiro de que esta capela era dependência?... Tudo desapareceu, até o próprio nome do lugar abençoado em que S. Dinis recebeu a palma do martírio em troca do seu sangue.
82 Esta gloriosa morte não é hoje recordada ao povo de Paris senão pela barreira dos Mártires...

O novo Xavier - 83 Xavier já não pertencia a si; havia-se dado inteiramente a Deus, dedicara-se de todo ao seu serviço e à salvação das almas, e dali em diante todos os instantes da sua vida iam ser exclusivamente empregados no cumprimento deste duplo voto.
84 Vivendo sempre em companhia de Inácio e de Fabro, aperfeiçoara-se naquela escola, seguindo os conselhos e a direção do seu santo mestre com a docilidade de uma criança c com a humildade do mais perfeito religioso.

07 - MIGUEL NAVARRO - EMISSÁRIO DO INFERNO - CARTA DE XAVIER A SEU IRMÃO

1 No ano seguinte, 1535, devendo Inácio fazer uma viagem a Espanha, ficou convencionado que Xavier lhe daria amplos poderes para regular os seus negócios de família e do seu interesse 2 porque receava-se que os irmãos do nosso jovem Santo o impedissem de voltar, se ele em pessoa fosse vê-los e fazer suas despedidas. Mas Satanás havia tomado a vanguarda.
3 Miguel Navarro, por um momento aterrado pelo maravilhoso obstáculo que a Providência opusera à sua primeira tentativa de vingança, voltava bem depressa aos seus antigos sentimentos de ódio e de baixa inveja.
4 Xavier não ocultava, por modo algum, a transformação suas idéias, vistas e ambições. 5 Guardava unicamente segredo com respeito aos votos que fizera, e convencia-se de que o da pobreza não seria obrigatório na prática exterior, senão depois de concluídos os estudos teológicos.
6 Miguel seguia de longe os progressos daquele que Santo Inácio lhe arrancara, e depois de ter procurado todos os meios de o tirar das suas mãos, julgou ter encontrado o melhor e apressou-se a pô-lo em prática.
7 Partiu para Navarra, foi ao castelo de Obanos, onde habitava o capitão João de Azpilcueta, irmão mais velho de Francisco, e em termos os mais persuasíveis para mostrar o interesse que o animava, apresentou-lhe Xavier inteiramente ligado a um miserável herético acusado de sortilégio e magia, e fez ver que ainda era tempo de chamar Francisco para o grêmio de sua família se quisesse salvar a sua honra e a sua vida.
8 Francisco acabava de saber desta infame calúnia nas vésperas da partida de Inácio para Espanha, e então não quis perder esta ocasião de escrever ao seu irmão mais velho sobre este assunto; 9 este longo fragmento da sua carta dará completa idéia do nobre caráter e do grandioso coração de Xavier, assim como da consideração que ele tinha pelo seu querido mestre.

Afeto entre irmãos
10 Ao Capitão João de Azpilcueta, no Castelo de Obanos: ]

Carta nº 01
A JOÃO DE AZPILCUETA (OBANOS1)
Paris, 25 de Março 1535   /    Duma cópia em castelhano, feita no século XVII

Amor e gratidão a seu irmão; penúria em que se encontra.
Senhor:
1. Por muitas vias, nos dias passados, escrevi a v. mercê por causa de muitos respeitos. E o principal1, que estava a mover-me a escrever--lhe tantas vezes, é a grande dívida que a v. mercê devo, tanto por ser eu menor e v. mercê meu senhor², como pelas muitas mercês que tenho recebido.
2. E para que v. mercê não me tenha por desconhecedor e ingrato de mercês tão extremadas, todas as vezes que encontrar portador não deixarei de escrever-lhe. E se as minhas cartas, por o caminho ser tão longo, não as receber tão a miúde como as escrevo, suplico a v. mercê que deite a culpa aos muitos obstáculos que há desde Paris a Obanos. Porque eu, de não receber as suas cartas tão a miúde como v. mercê me as escreve, em resposta às muitas que escrevo, deito a culpa ao longo caminho, em que muitas cartas de v. mercê e minhas se perdem.
3. De maneira que da sua parte não há falta de amor, mas antes mui crescido, pois as minhas necessidades e trabalhos no estudo não menos as [pres]sente v. mercê em sua casa, onde [aliás] tem muito à larga o que precisa³, do que eu em Paris, onde sempre me falta o ne­cessário4: e isto, não por outro motivo senão por não estar v. mercê ao par dos meus trabalhos. Mas todos os sofro com esperança muito certa que, logo que v. mercê por muito averiguado o souber, com a sua muita liberalidade terão fim as minhas misérias.

Vinda do padre Fr. Vear e delações levantadas contra si
4. Senhor, nos dias passados esteve nesta universidade o reveren­do padre Fr. Vear, o qual me deu a entender certas queixas que v. mercê tinha de mim, as quais me contou muito longamente; e a ser assim, como ele mo deu a entender, em senti-lo v. mercê tanto, é si­nal e argumento muito grande do amor e afeição muito entranhável que me tem.
5. O muito que eu, senhor, nesta parte sentia, era considerar a grande pena que v. mercê recebia por informações de alguns homens maus e de ruim porte: a esses muito desejo conhecer às claras, para lhes dar a paga que merecem. Porque aqui todos se fazem muito meus amigos, me é difícil saber quem são. Deus sabe a pena que sinto em demorar-lhes a paga da pena que merecem! Mas só isto me dá consolação: que o que se adia não se exclui.

1 - Obanos, «vila com ayuntamiento, no vale de Ilzarbe, Navarra; partido judi­cial de Pamplona, a três léguas e meia» (Madoz XII 202). Dista de Pamplona 22 km para sul.
2 - Francisco Xavier era o menor de três irmãos: Miguel, João e Francisco.
3 - João de Azpilcueta, tinha casado em 1528 com Joana de Arbizu, nobre viúva riquíssima, senhora dos territórios de Sotés e Aoz, com palácio em Obanos e outros dois em Undiano e Muruzábal, além de casas em Puente la Reyna. (cf. CROS, Doc.Nouv. I 296-299; Vie I 118-119). Era o irmão mais rico da família.
4 - Com a anexação do reino de Navarra ao reino de Castela, a família de Xavier foi despojada de cargos e bens de nobreza que tinha no Estado anterior. Por isso teve dificuldades em sustentar Francisco nos seus estudos.
Defende, louva e recomenda mestre Inácio
6. E para que vossa mercê conheça às claras quanta mercê Nosso Senhor me fez em ter conhecido o senhor mestre Iñigo5, por esta lhe prometo minha fé que [nunca] em minha vida poderia satisfazer o muito que lhe devo, quer por ter-me favorecido muitas vezes com dinheiros e amigos nas minhas necessidades, quer em ter sido causa de que eu me apartasse de más companhias, as quais eu, pela minha pouca experiência, não conhecia6. E agora que estas heresias passa­ram por Paris7, não quereria ter tido companhia com eles, por todas as coisas do mundo: e só isto, não sei eu quando o poderei pagar ao senhor mestre Inácio, pois ele foi causa de que eu não tivesse trato nem conhecimento com pessoas que por fora mostravam ser boas, e por dentro estavam cheias de heresias, como por obras se mostrou. Portanto suplico a v. mercê que lhe preste aquele acolhimento que me faria à minha mesma pessoa8, pois com as suas boas obras em tanta obrigação me deixou. E creia v. mercê que, se ele fosse tal qual o informaram, não iria a casa de v. mercê9 entregar-se nas suas mãos; porque nenhum malfeitor se entrega em poder daquele a quem ofendeu; e só por isto pode v. mercê verificar com toda a clareza ser falso tudo o que a v. mercê informaram acerca do senhor mestre Inácio.
7. E suplico-lhe muito encarecidamente que não deixe de comu­nicar e conversar com o senhor Inepto, e confiar em tudo o que ele lhe disser, pois creia que com seus conselhos e conversas se achará muito bem, por ele ser uma pessoa tão de Deus e de vida tão boa. E isto lhe torno a pedir, por mercê: não deixe de o fazer. E em tudo o que de minha parte a v. mercê disser o senhor mestre Iñigo, por me fazer mercê lhe dê tanto crédito como à minha própria pessoa daria. E dele se poderá v. mercê informar acerca das minhas necessidades e trabalhos, melhor do que de qualquer outra pessoa do mundo, por ele estar ao par das minhas misérias e dificuldades mais que ninguém no mundo.

Anuncia a viagem de Inácio a Almazán e aconselha a servir-se dele para lhe mandar dinheiro para Paris
8. E se v. mercê me quiser fazer a mercê de aliviar a minha muita pobreza, poderá dar, o que v. mercê me mandar, ao senhor Iñigo, portador da presente. Porque ele há de ir a Almazán10, e leva certas cartas de um estudante muito meu amigo11, o qual estuda nesta universidade, e é natural de Almazán, e é muito bem provido, e por via muito segura, o qual escreve a seu pai que, se o senhor Enio lhe der alguns dinheiros para certos estudantes de Paris12, os envie juntamente com os seus e na mesma moeda. E já que se oferece via tão segura, suplico a v. mercê que tenha memória de mim.

Fuga de seu primo e heresia em França
9. De cá, não sei que mais dar a saber a v. mercê a não ser que o nosso caro sobrinho13 fugiu desta Universidade e que fui atrás dele até Nossa Senhora de Cleri, que está a trinta e quatro léguas de Paris. Suplico a v. mercê que me faça saber se ele chegou a Navarra, porque dele muito me temo que nunca será bom. Das coisas de cá, em que pararam estas heresias, o senhor mestre Inigo (Inácio), portador da presente, dirá quanto eu por carta poderia escrever.

5 - Inácio de Loyola, nsceu no solar de Loyola, Azpeitia (Guipúzcoa) em 1491, morreu em 1556, sendo Superior Geral da Companhia de Jesus (1541-1556).  No batismo recebeu o nome de Inigo que, posteriormente, em muitos documentos é escrito à castelhana por Iñigo. Mais tarde, o próprio mudou o nome para Inácio.
6 - Fundados nesta vaga insinuação, alguns autores protestantes disseram que Xavier, antes da conversão, foi sequaz ou pelo menos simpatizante dos Reforma­dores. Mas sem fundamento, como a seguir refere o próprio Xavier (cf. BROU, Saint François Xavier I 39-40).
7 - Para entender a alusão de Xavier, podem ver-se: H. BOHMER, Studien zur Geschichte der Gesellschaft Jesu: Loyola.
8 - Inácio, por motivos de saúde, teve de voltar à sua terra. Aproveitando a ocasião, visitou as famílias de alguns companheiros que se tinham juntado ao seu grupo de adeptos em Paris, para desfazer boatos que corriam acerca deles e tratar de assuntos que lhe encarregaram: Xavier, ante cujo irmão tinha sido difamado como hereje, Laínez e Salmerón (MI, Scripta I 87-88; 90).
9 - No mês de Julho, Inácio saiu de Loyola para Pamplona, para daí ir a Obanos, onde residia João, irmão de Xavier. Não passou pelo castelo de Xavier, residência do irmão mais velho Miguel, como pensa DUDON (237-241).
10 - De Obanos seguiu Inácio para Almazán (Soria), onde viviam os pais de Laínez, e dali foi a Toledo visitar os familiares de Salmerón (MI Scripta I 90).
11 Diogo Laínez, nascido em Almazán em 1512, foi estudar para Paris em 1533, onde se juntou ao grupo de Inácio. Morreu em 1565, como Superior Geral da Companhia de Jesus (1558-1565), cargo que assumira logo a seguir ao Fun­dador. Seus pais eram João Laínez e Isabel Gómez de León (Lainii Mon. I p.VII--XII).
12 Além de Xavier e Laínez tinham-se juntado ao grupo de Inácio até àquele ano de 1535: o saboiano Pedro Fabro, o português Simão Rodrigues e os espa­nhóis Afonso Salmerón e Nicolau Bobadilha. A estes dois últimos se refere princi­palmente Xavier.

Saudação final
Assim acabo, beijando por mil vezes as mãos de v. mercê e da se­nhora; cujas vidas de v. mercês nosso Senhor acrescente por muitos anos, como é desejo dos mui nobres corações de v. mercês.
De Paris, a 25 de Março
De v. mercê mui certo servidor e menor irmão, FRANCÉS14 DE XAVIER15

13 Não foi ainda possível identificar o sobrinho a que se refere Xavier.
14 Esta forma do nome Francisco era bastante usada em Navarra. Mesmo num interrogatório de testemunhas ocorrido em 1551, ainda aparece essa forma (CROS, Doc. Nouv. I 38; 82; II 262; II 230).
15 Xavier era a forma nominal mais usada pela família e em Navarra, antes da anexação do reino. Javier em castelhano.
[*Pelo estilo desta carta se conhece que é dirigida ao chefe da família.
53 Xavier tinha perdido seu pai; o seu irmão mais velho substituía-o. Madalena, sua irmã, havia já falecido também; 54 Maria, sua mãe, vivia ainda para chorar aqueles que perdera, e a ausência dos que a vontade de Deus conservava afastados de si, e entre estes o seu muito querido Francisco, que ela sabia ser "o vaso de eleição" destinado ao apostolado nas Índias...
Feliz!... e pobre mãe!...
55 O inferno ficou ainda por esta vez vencido ria pessoa de Miguel Navarro e de seus cúmplices.

56 A presença de Santo Inácio, a sua vida santa, os numerosos milagres que Deus concedia às suas orações, dissiparam pronta e completamente em Navarra as impressões produzidas pela calúnia, 57 e no castelo de Obanos, como no de Xavier, agradecia-se a Deus pelas bênçãos e consolações, que para ali havia levado consigo o pai espiritual de Xavier.