Informações das missões nas Molucas

carta nº 59: "Três meses estive nas ilhas de Amboino5, onde achei sete lugares de cristãos. O tempo que aí esti­ve, ocupei-me em batizar muitas crianças, que estavam por batizar por falta de Padres6. É que um, que tinha cargo deles, morrera havia já muitos dias.

Trabalhos sacerdotais com marinheiros portugueses e espanhóis entretanto chegados e em negociações de paz na ilha. Partida para a ilha de Ternate
2. Eu acabando de visitar estes lugares, e de batizar os meninos que estavam por batizar, chegaram a estas ilhas de Amboino sete navios de portugueses e, entre eles, alguns castelhanos que vieram das Índias do Imperador7 a descobrir novas terras8. Estiveram em Amboino, toda esta gente, três meses9. Neste tempo, tive muitas ocupações espirituais: em pregar aos domingos e festas, em confis­sões contínuas, em [re]fazer amizades e visitar os doentes10. Eram de maneira, as ocupações, que não esperava achar tantos frutos de paz, estando entre gente não santa e de guerra. É que, a poder estar em sete lugares, em todos eles acharia ocupações espirituais. Louva­do seja Deus para sempre jamais, pois comunica tanto a sua paz às pessoas que fazem quase profissão de não querer paz com Deus nem menos com os próximos.
Passados estes três meses, partiram estes sete navios para a Índia do Rei de Portugal 11 e eu parti para a cidade de Maluco12, onde esti­ve três meses13. Neste tempo, ocupei-me nesta cidade em pregar aos domingos e festas todas e [em] confessar continuadamente; todos os dias ensinava, aos meninos e cristãos novamente convertidos à nossa fé, a doutrina cristã14; e todos os domingos e festas, depois de comer [almoço]15, pregava, aos novamente convertidos à nossa fé, o Credo: em cada dia de festa um artigo da fé. De maneira que, todos os dias de guarda, fazia duas pregações: uma, na Missa, aos portugueses e outra, aos novamente convertidos16, depois de almoçar.

5 Desde 14 de Fevereiro (Xavier-doc. 56,1) até ao mês de Junho (Xavier-doc. 55,3.11; 56,1; cf. VALIGNANO).
6 Se supomos que os cristãos estiveram cinco anos sem sacerdotes, deduz-se que Xavier deve ter encontrado por batizar, em Amboino, cerca de 1.200 crian­ças abaixo dos 5 anos, pois havia ali então uns 8.000-8.500 cristãos.

Partida para as perigosas ilhas de Moro, onde os cristãos ficaram sem missionários. Descrição da região e das gentes
4. Passados os três meses, parti desta cidade de Maluco para umas ilhas, que estão a 60 léguas de Maluco, que se chamam as ilhas do Moro19. É que nelas havia muitos lugares de cristãos20 e eram passa­dos muitos dias que não eram visitados21, assim por estarem muito apartados da Índia como por haverem morto, os naturais da terra, um Padre que lá foi22. Naquelas ilhas batizei muitas crianças que achei por batizar. Estive nelas três meses23. Visitei neste tempo to­dos os lugares de cristãos. Consolei-me muito com eles e comigo.
...Estas ilhas são muito perigosas, por causa das muitas guerras [que há entre eles]. É gente bárbara, carecem de escrituras, não sabem ler nem escrever. É gente que dá muita peçonha aos que mal querem e, desta maneira, matam a muitos. É terra muito fragosa: todas [as ilhas] são serras e muito trabalhosas de andar.
...Segunda demora em Ternate
7. Depois de haver visitado todos os lugares de cristãos destas ilhas, tornei outra vez para Maluco34, onde estive outros três meses35. Pregava duas vezes todos os domingos e festas: uma, pela manhã, aos portugueses; e outra, depois de almoçar, aos cristãos da terra. Confessava continuadamente pela manhã e pela tarde e, ao meio-dia, ensinava todos os dias a doutrina cristã. Depois da doutrina cristã acabada, nos domingos e festas, pregava aos cristãos da terra os artigos da fé, guardando esta ordem: que em cada festa explicava um artigo da fé, repreendendo-os muito das idolatrias passadas. Nestes três meses, que estive em Maluco desta segunda vez, pregava às quartas e sextas às mulheres dos portugueses somente, as quais eram naturais da terra. Pregava-lhes sobre os artigos da fé e mandamentos e sacramentos da confissão e comunhão, porque neste tempo era Quaresma36. E assim, pela Páscoa, (*10 de abril) muitas comungavam que antes não comungavam.
Com a ajuda de Deus Nosso Senhor, nestes seis meses que estive em Maluco, se fez muito fruto, assim nos portugueses e suas mulhe­res, filhos e filhas, como nos cristãos da terra.

Regresso a Malaca com despedidas muito sentidas
8. Acabada a Quaresma, com muito amor de todos, assim dos cristãos como dos infiéis, parti de Maluco para Malaca. Pelo mar não me faltaram ocupações. Numas ilhas38 em que achei quatro navios39, estive com eles [os marinheiros] em terra alguns 15 ou 20 dias, onde lhes preguei três vezes, confessei a muitos e fiz muitas pazes40. Quando parti de Maluco, para evitar choros e prantos dos meus devotos, amigos e amigas na despedida, embarquei quase à meia-noite. Isto não me bastou para os poder evitar, porque não me podia esconder deles. De maneira que a noite e o apartamento de meus amigos e filhas espirituais me ajudaram a sentir alguma falta que, porventura, a minha ausência lhes poderia fazer para a salvação das suas almas.

Organização pastoral que recomenda ao vigário que fica
9. Deixei ordenado, antes que de Maluco partisse, que todos os dias se continuasse a doutrina cristã numa igreja, e uma Explicação breve que fiz sobre os artigos da fé41 se continuasse e a aprendessem, em lugar das orações, os novamente convertidos à nossa fé. Um Padre clérigo, devoto e amigo meu42, ficou que na minha ausência os ensinaria, todos os dias duas horas e, um dia na semana, pregaria às mulheres dos portugueses sobre os artigos da fé e sacramentos da confissão e comunhão.
Também no tempo em que estive em Maluco, ordenei que todas as noites, pelas praças, se encomendassem as almas do purgatório e, depois, todos aqueles que vivem em pecado mortal. Isto causava muita devoção e perseverança nos bons e temor e espanto nos maus. E assim, elegeram os da cidade um homem que, vestido em hábi­tos da (*confraria da) Misericórdia, todas as noites, com uma lanterna numa das mãos e uma campainha na outra, andasse pelas praças e, de quando em quando, parasse encomendando com grandes vozes as almas dos fiéis cristãos que estão no purgatório e, depois, pela mesma ordem, as almas de todos aqueles que perseveram em pecados mortais sem querer sair deles44, dos quais se pode dizer: “Risquem-se do livro dos vivos e com os justos não se inscrevamSl 68,29.

34 Regressou a Ternate em Dezembro (cf. SCHURHAMMER, Quellen 4380).
35 De Dezembro até à Páscoa de 1547, 10 de Abril. Ao chegar a Ternate, Xavier encontrou o capitão Freitas e a procuradora do reino, Niachile Pokaraga, depostos dos seus cargos e, em seu lugar, Bernardino de Sousa e o rei Hairun, que tinham chegado ali a 18 de Outubro de 1546, na nau Bufara (REBELLO, Infor­mação 240-242).
36 Desde 23 de Fevereiro até 9 de Abril.
38 Nas de Amboino. 

Intenso trabalho pastoral em Malaca antes de seguir para a Índia e desejo do povo que funde ali casa da Companhia de Jesus
13. Em Malaca estive quatro meses54, esperando tempo para na­vegar e vir para a Índia. Nestes quatro meses, tive muitas ocupações, espirituais todas. Pregava duas vezes, todos os domingos e festas: aos portugueses, pela manhã, na Missa e, depois de almoçar, aos cristãos da terra, explicando em cada festa, aos novamente cristãos, um artigo da fé. Acorria tanta gente que foi necessário ir para a igreja maior55 da cidade. Em confissões contínuas estava muito ocupado. Tanto que, por não poder cumprir com todos, estavam muitos mal comigo. Mas, por serem estas umas inimizades fundadas num abor­recimento de pecados, não me escandalizava deles: antes me edifi­cavam vendo os seus santos propósitos. Aos domingos e festas eram muitos os que comungavam.

47 Sobre os costumes depravados de Hairun, pode ver-se SCHURHAMMER, Quellen 1378, 1438, 6117. Rebello, que era favorável ao rei, assegura que ele tinha cem mulheres contando as escravas. Escrevia isto em 1561, quando Hairun era já velho, acrescentando que não queria ser cristão para não renunciar aos seus vícios. Refere o mesmo autor que os reis da Molucas têm geralmente todas as mulheres que podem sustentar.
48 Alfaquis: o mesmo que caciz, isto é, sacerdote maometano.
49 Segundo Rebello, Hairun tinha em 1561 onze ou doze filhos. O menciona­do no texto não era o primogénito.
50 Hairun não cumpriu a promessa e, por isso, Xavier fez que fossem revoga­dos os decretos obtidos a favor do pretendente (cf. Xavier-doc. 82,4; 126, 1.3; SCHURHAMMER, Quellen 4175).
51 Nuno Ribeiro, S.I., entrou na Companhia de Jesus em Coimbra em 1543. Em 1546, já sacerdote, partiu para a Índia e em 1547 saiu de Goa com João da Beira para Malaca, a caminho das Molucas, onde trabalhou incansavelmente durante dois anos. Morreu lá mesmo a 22 de Agosto de 1549, envenenado pelos maometanos (F. RODRIGUES, Hist. I/1 468; SOUSA).
52 Nicolau Nunes, S.I., nascido entre 1525 e 1528, entrou na Companhia de Jesus em Coimbra em 1545. No ano seguinte partiu para a Índia, trabalhou desde 1547 nas ilhas de Moro e em 1557 foi ordenado sacerdote. Morreu em Goa em 1572.
53 Xavier partiu para Malaca em princípios de Junho (Doc. Indica I 364). Em princípios de Agosto saíram os três companheiros para Ternate (REBELLO, In­formação 299).
54 Mais de cinco meses, pois em Dezembro partiu para a Índia (Doc. Indica I 367).
55 Nossa Senhora da Assunção.

Todos os dias, depois de almoçar, ensinava a doutrina cristã. A esta doutrina acorria muita gente. Vinham os filhos e filhas dos portugueses, mulheres e homens da terra novamente convertidos à nossa fé. A causa por que vinham muitos, parece-me que era por­que sempre lhes explicava alguma parte do Credo. Neste tempo, estive muito ocupado em [re]fazer muitas amizades, por causa de os portugueses da Índia serem muito belicosos. Acabada de ensinar a doutrina cristã, ensinava aos meninos e à gente cristã da terra, uma Explicação que fiz sobre cada artigo da fé, em linguagem que todos entendem(*carta 58), conformando-me com as capacidades do que podem conseguir entender os naturais da terra, novamente convertidos à nossa santa fé. Esta Explicação, em lugar de orações lhes ensinava em Malaca como o fiz em Maluco, para fazer neles firme funda­mento de crer bem e verdadeiramente em Jesus Cristo, deixando de crer em vãos ídolos. Esta Explicação pode-se ensinar num ano, ensinando cada dia um pouco, palavras, que podem bem decorar. Depois que vão entendendo a história da vinda de Jesus Cristo, e repetidas muitas vezes estas explicações sobre o Credo, ficam mais fixas na memória. Desta maneira vêm em conhecimento da verdade e aborrecimento das vãs ficções que os gentios, passados e presentes, escrevem dos seus ídolos e de suas feitiçarias.
14. Nesta cidade deixei muito encomendado a um Padre de Missa57, que ensinasse aquela doutrina todos os dias, da maneira que eu ensinava. Assim mo prometeu de fazer. Espero em Deus Nosso Senhor que o levará adiante.
Fui muito requerido, à minha partida, de todos os principais de Malaca, para que fossem para lá dois da Companhia para pregar a eles e a suas mulheres e cristãos da terra, e para ensinar a doutrina cristã aos seus filhos e filhas e a todos os seus escravos e escravas, da maneira que eu o fazia. Fui tão importunado deles, e vejo que é tanto serviço de Deus Nosso Senhor, e uma dívida que lhes devemos todos pelo muito que amam a nossa Companhia, que me parece que tenho de fazer tudo o possível para que vão dois da Companhia este mês de Abril do ano de 1548: é que, neste tempo, partem os navios da Índia para Malaca e para Maluco58.