98.ÍNDIA - retorno ao Cabo Comorim 01/1544 - 01/1545

[*Em qualquer oportunidade deve evangelizar - De volta à Costa da Pescaria, o nosso Santo dedica-se a formar os dois Padres, dos quais procura fazer dois santos apóstolos; volta às suas prédicas, suas instruções, suas fadigas habituais de povoação em povoação, sem que o embaracem as chuvas, os calores, ou outro qualquer obstáculo. O seu zelo não conhece limites. Entretém mui frequente correspondência com o Colégio de Goa, o qual dirige por cartas, e com o Padre Mancilhas a quem não cessa de animar no novo cargo que lhe confiara.
 Em todas as suas cartas a Francisco Mancilhas, Xavier se assinava: "Vosso irmão que muito vos ama em Jesus Cristo: Francisco".]

21
A FRANCISCO MANSILHAS (MANAPAR)
Punicale, 23 de Fevereiro 1544
Cópia em português, feita em 1746

A graça e amor de Cristo Senhor nosso esteja em nosso contínuo favor e ajuda.
Caríssimo irmão
Deseja notícias, insiste nas recomendações que lhe fez e exorta-o à paciência.
1. Muito desejo saber notícias vossas. Rogo-vos muito, por amor de Jesus Cristo, que me façais saber muito largamente notícias de vós e de vossos companheiros1. Quando eu chegar a Manapar2, eu vo-lo farei saber. Recordai aquelas coisas que vos dei por escrito3. Rogai a Deus que vos dê muita paciência para tratar com essa gente, e fazei de con­ta que estais no purgatório purgando os vossos pecados. É que Deus vos faz muita mercê em purgar aqui, nesta vida, vossos pecados.

De certa quantia de dinheiro a restituir ao capitão
2. Direis a João d’Artiaga4 que o capitão5 me escreveu que lhe deu6 dez pardaus7 para mim; mas que eu escrevo ao dito capitão, que nem vós, nem João d´Artiaga, nem eu temos necessidade de dinheiro até que venha da pescaria8. Que os torne a dar ao capitão, porque eu assim lho escrevo, ao capitão, para que logo o arrecade. Mas se o capitão os deu em pagamento de um alvará que o senhor Governador lhe deu, poderá com eles comprar um topaz9; e se não os deu por via daquele alvará, dizei-lhe que logo os torne ao capitão.
Nosso Senhor vos dê sua graça para o servir, e tanta como eu para mim desejo.

De Punicale10, a 23 de Fevereiro de 1544
A João d’Artiaga não escrevo, porque esta carta vai para vós e para ele.
Vosso caríssimo irmão, FRANCISCO

1 Artiaga e Mateus (cf. Xavier-doc. 22).
2 Manapar (Manappâd, Trichendur Taluk), grande localidade de paravas, entre Punicale e o Cabo de Comorim, em 1644 tinha 2.513 habitantes e, em 1914, andava pelos 2.942. No sopé do Cabo encontra-se a gruta em que, segundo a tradição, Xavier habitou e celebrou Missa (PATE, Madras District Gazetteers).
3 Instrução que Xavier costumava dar aos seus companheiros, ao começarem a vida missionária.
4 João de Artiaga, «moço d’estribeira da rainha», promovido a «escudeiro da casa real», foi com Xavier para a Índia em 1541. Como colaborador leigo, acompa­nhou-o na missão da Pescaria, até que em 1544 se desligou para trabalhar por conta própria e, em 1545, desistiu definitivamente da vida missionária (Xavier-doc. 25-26 34-36 50). Em 1548 foi designado para «meirinho do campo e alcaide do mar» em Baçaim, cargo que só em 1551 começou a exercer. Aí o encontramos em 1556 a testemunhar, com sua esposa, sobre Xavier (MX II 374-378; SCHURHAMMER).
5 Cosme de Paiva, irmão de António de Paiva, «cavaleiro fidalgo da casa real», embarcou para a Índia em 1537 e mais tarde, de novo, em 1541 com Xavier. Casou em Goa e foi capitão-mor da Pescaria em 1543-1545. Levado pela ganância, tanto oprimia os cristãos que Xavier chegou a ameaçá-lo de pedir ao Rei que o castigasse. Morreu na batalha de Diu a 11 de Novembro de 1546 (Xavier-doc. 35, 37-38, 42, 50;).
6 Lit.: desse. Pelo contexto entende-se: Artiaga pediu ao capitão que lhe desse, e ele lhe deu.
7 O pardau de prata, no tempo de Xavier, equivalia a 300 réis; o pardau de ouro, a 360 réis.
8 Quer dizer, da pesca de margaridas, que se realizava em Março, sobretudo a noroeste de Ceilão.
9 Topaz (tuppâsi), intérprete.
10 Punicale (Punnaikâyal, ou Kâyal-novo, Trichendur Taluk), grande loca­lidade de paravas, entre Manapar e Tuticorim, na foz do rio Tâmbraparni, que em 1644 contava 4.000 cristãos e 4.131 em 1914 (Statistical Appendix).

22
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 14 de Março 1544
Cópia em português, feita em 1746

Caríssimo em Cristo Irmão
Trate os indígenas como um bom pai aos seus filhos maus. Envia um vigilante que não deixe beber vinho de palma
1. Muito folguei com vossas cartas. Rogo-vos muito que, com essa gente, vos hajais como se há um bom pai com maus filhos. Não canseis, por muitos males que vejais, porque Deus, a quem tantas ofensas fazem, não os mata, podendo-os matar. Não os deixa de­samparados de tudo o necessário para o seu mantimento, podendo tolher-lhes as coisas com que se mantêm.
2. Não canseis, porque mais fruto fazeis do que cuidais. Se não fazeis tudo o que quereis, contentai-vos com o que fazeis, pois a cul­pa não é vossa.
Aí vos mando um meirinho, que sirva até que eu vá aí. Eu lhe dou, de cada mulher1 que bebe urraca2, um fanão3; e, mais, que es­ teja presa três dias. Assim o fareis apregoar a todo o lugar. Direis aos patangatins4 que, se eu sei que, daqui por diante, se bebe mais urraca em Punicale, eles mo hão-de pagar muito bem pago.

Mateus que seja bom filho e os regedores do lugar que se emendem a sério
3. A Mateus,5 direis que seja muito bom filho e eu lhe farei mais bem do que lhe hão-de fazer seus parentes.
Até que eu vá aí, fareis com estes patangatins que mudem os cos­tumes, porque, doutro jeito, todos os tenho de mandar a Cochim, presos, e não virão mais a Punicale, pois eles são causa de todos os males que aí se fazem.

Baptize os recém-nascidos, catequize as crianças e reúna os adultos em oração e instrução aos domingos. Não deixe fabricar ídolos
4. Os meninos que nascem batizareis com muita diligência. Os [outros] meninos ensinareis, como vos tenho recomendado e, aos domingos, as orações a todos, com alguma pregaçãozinha. Proibi6 os pagodes: que não se façam. E aquela carta, que me mandou Álvaro Fogaça7, me guardareis até que venha8.
Deus Nosso Senhor vos dê tanta consolação, nesta vida e na ou­tra, quanto para mim desejo.
De Manapar, a 14 de Março de 1544.
Vosso em Cristo caríssimo Irmão,
FRANCISCO
1 Xavier, nesta carta, só fala de mulheres e crianças, porque os homens estavam para a pesca de margaridas.
2 Urâk, vinho de palma (DALGADO, Glossário Luso-Asiático I 49).
3 Pequena moeda da Costa da Pescaria e da parte meridional de Travancor, equivalente a 25 réis daquele tempo. No Cabo de Comorim, em 1548, com um fanão podiam-se comprar três boas galinhas (SIE 39). Para pagamento de imposto de pesca, porém, equivalia a 30 réis (cf. Xavier-doc. 20, nota 25).
4 Pattankatti, «regedor duma aldeia dos paravás na Costa da Pescaria» (DAL­GADO, Glossario II 188).
5 Rapazito catequista que ajudava voluntariamente os missionários. Xavier ali­mentava-o e dava esmolas à sua família (Xavier-doc. 23-26; 29; 32; 35; 38; 40).
6 Liter. «Defendei», isto é, proibi. Pagodes, aqui, são os ídolos, não os templos deles.
7 Álvaro Fogaça, «cavaleiro da casa real», em 1551 era testemunha em Co­chim; em 1552 Xavier recomendou-o ao Rei pelos seus méritos; em 1555 o Vice-rei pagou-lhe 100 pardaus de ouro por uma loriga feita de pele de couro; Xavier-doc. 99; Quellen 4578. Não parece ser o mesmo que combateu no Malabar em 1507 (CORREA I 720).
8 Xavier nunca se demorava muito tempo em cada lugar, mas andava de lugar para lugar a visitar os cristãos (cf. Xavier-doc. 50) «sempre a pé e, às vezes, descal­ço» (MX II 378).
23
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 20 de Março 1544
Cópia em português, feita em 1746

Caríssimo em Cristo Irmão

Agradeça a Deus as consolações e missão que tem. Recomendação a Mateus. Desejo de certas informações
1. Muita consolação foi para mim escreverdes-me vós quão con­solado viveis. E pois Deus tanto se lembra de vós, lembrai-vos vós d’Ele, não cansando de fazer e perseverar no que começastes. Dai sempre graças a Deus, porque vos escolheu para um ofício tão gran­de como este que tendes: não vos quero encomendar mais do que [o que] por aquela lembrança vos dei. Lembrai-vos de mim, pois de vós nunca me esqueço.
Dizei a Mateus que seja bom filho, e que eu lhe serei bom pai. Olhai muito por ele e dizei-[lhe] que aos domingos fale alto o que vós lhe disserdes: que o ouçam todos, e que também estando em Manapar o ouçam1! Fazei-me saber notícias dos cristãos de Tuticorim: se lhes fazem alguns agravos os portugueses que lá ficaram. E se há notícias do Governador: se vem governar a Cochim2.

Grande acontecimento se prepara para serviço de Deus. Procedimento a ter com toda a gente
2. Aqui vai-se descobrindo uma coisa muito grande de serviço de Deus. Rogai ao Senhor Deus que tenha efeito, de jeito que venha a lume3. Rogo-vos muito que, com essa gente – digo com os principais e, depois, com todo o povo – vos hajais com muito amor. Porque se o povo vos ama e está bem convosco, muito serviço fareis a Deus. Sabei relevar suas fraquezas com muita paciência, cuidando que, se agora não são bons, nalgum tempo o serão.
3. E se não acabais com eles tudo o que quereis, contentai-vos com o que podeis, que assim faço eu. O Senhor Deus seja sempre convosco, e nos dê sua graça para que sempre o sirvamos.

De Manapar, a 20 de Março de 1544
Vosso em Cristo Irmão, FRANCISCO

1 Diz por graça, pois Mateus, em Punicale, estava a 30 km de Manapar!
2 Na temporada chuvosa de Inverno, o Governador residia em Goa. Xavier pergunta por ele, porque desejava falar-lhe, como consta do que diz a seguir.
3 O rei Iniquitriberim e os seus adversários pediram auxílio ao Governador ao mesmo tempo.

24
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 27 de Março 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo Irmão
Agradece notícias e anima à perseverança
1. Muito folguei de saber notícias vossas, e com a vossa carta, e de ver o fruto que fazeis. Deus vos dê força para sempre perseverar de bem em melhor.



Lamenta agravos feitos aos cristãos, e procura obter castigo para raptores de escravas
2. Dos agravos que fazem a esses cristãos, assim os gentios como os portugueses, não posso deixar de o sentir dentro, na minha alma, como é razão. Estou já tão acostumado a ver as ofensas [que] a esses cristãos se fazem, e não [os] poder favorecer, que é uma mágoa que sempre trago comigo. Já escrevi ao vigário de Coulão1 e ao de Co­chim2 sobre as escravas que os portugueses roubaram em Punicale, para que eles, por excomunhões grandes, saibam quais foram aqueles que [as] roubaram. Esta diligências fiz há três dias, logo que recebi a ola3 dos patangatins.

Trate bem Mateus, que é liberto
3. A Mateus dareis tudo o necessário para seu vestuário. Fazei-lhe boa companhia para que vos não deixe, pois é liberto4. Tratai-o com muito amor, que assim fazia eu quando estava comigo, por amor de que não me deixasse.

Indica algumas correcções a fazer na tradução do Credo
4. No Credo, quando dizeis «enaquvenum», em lugar de «ve­num», direis «vichuam», porque «venum» quer dizer «quero», e «vichuam» quer dizer «creio»: é melhor dizer «eu creio em Deus», do que dizer «eu quero em Deus»5. Não direis «vão pinale», porque quer dizer «por força»6, e Cristo padeceu por vontade e não por força.

Recomenda os doentes e alegra-se de os cristãos já não beberem vinho de palma nem fabricarem ídolos
5. Quando vierem da pesca, visitareis os doentes7, fazendo a al­guns meninos dizer as orações, como está na lembrança que vos dei; por derradeiro, direis vós um evangelho. Sempre com muito amor tratai com essa gente, e fazei obra em que dela sejais amado. Muito folguei de saber que não bebem urraca, nem fazem pagodes, e que acorrem todos, aos domingos, às orações: se desde o tempo em que estes eram cristãos, houvesse quem os ensinasse, como vós agora os ensinais, seriam melhores cristãos do que são.
Nosso Senhor vos dê tanta consolação nesta vida, e glória na ou­tra vida, quanta eu para mim desejo.
De Manapar, a 27 de Março de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

1 Em 1510, era vigário de Coulão um tal Bona e, em 1519, um tal Francisco Álvares (Cartas de Albuquerque).
2 Em 1544, era vigário de Cochim Pedro Gonçalves, amigo de Xa­vier. Fora ele, com outros companheiros, que, em 1536-37, evangelizara os pa­ravas e que, em 1542, entregara a missão da Pescaria a Xavier. Morreu em 1569).
3 Ola ou carta escrita em folha de palma (DALGADO, Glossário II 117-120).
4 Lit.: forro, palavra já em desuso neste sentido.
5 Enakku vênhum (tenho necessidade); enakku vichuam (tenho fé). Devia di­zer-se Vicchuvasikkirên.
6 Vampinale (necessidade) que depois foi substituída por Pâdupattu.
7 Pela dureza da pesca de margaridas, pelo mau cheiro das conchas em putre­fação e pela afluência de gente de todas as partes da Índia, geravam-se naquela altura muitas doenças e epidemias.

25
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 8 de Abril 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo Irmão
Alegra-se do fruto conseguido
1. Muito folguei com a vossa vinda a visitar os lugares de cristãos que vos disse, e mais folgo do grande fruto que todos me dizem que fazeis. Eu espero um recado, hoje ou amanhã, do Governador1. Se for como eu espero, não deixarei de chegar lá; e irei em caminho por onde vós estais, porque desejo muito ver-vos, ainda que em espírito sempre vos vejo.

João de Artiaga demite-se da Com­panhia de Jesus, para trabalhar por conta própria
2. João de Artiaga vai despedido de mim, cheio de tentações, sem conhecê-las. Não leva caminho para as conhecer. Diz que irá a Combuturé2, a ensinar aquele povo, e para estar perto de vós. Eu creio pouco nos seus propósitos, porque, como vós bem sabeis, ele é muito mudável. Se for aí, onde vós estais, não percais muito tempo com ele.

Diversas recomendações
3. Já escrevi ao capitão para que vos proveja do necessário. Tam­bém disse a Manuel da Cruz3 que vos emprestasse dinheiro [todas] as vezes que houvésseis mister, e ele me prometeu que o faria de muito boa vontade.
Olhai muito pela vossa saúde, pois com ela tanto servis ao Senhor Deus.
A Mateus, direis da minha parte que vos sirva bem; e, se vós es­tiverdes contente com ele, que em mim tem pai e mãe; e, se não vos for muito obediente, que não o quero ver, nem olhar por ele. Dai--lhe tudo o que for necessário para vestir.

Método a seguir nas visitas missionárias às povoações
4. Pelos lugares aonde fordes, fareis juntar os homens em uma parte, um dia, e as mulheres, outro dia, noutra parte. Fareis que [se] digam as orações por todas as casas, batizando os que não estão batizados, assim meninos como grandes, fazendo esta conta: que se a água não for ao moinho, que vá o molinão aonde há esta água4.

Nosso Senhor seja sempre em vossa guarda e ajuda.
De Manapar a 8 de Abril de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

1 Xavier andava empenhado em tratar com o Governador a ajuda a prestar ao rei Iniquitriberim - Xavier-doc. 23; 26.
2 Kombuturê, povoação mencionada por Henriques em 1558 e habitada por careas, estava situada entre Talambulim e Punicale. Lopes, em 1644, atesta que estava a uma légua a norte de Virapândyanpattanam, tinha uns 200 cristãos e uma igreja dedicada a S. Estêvão aonde acorriam muitos peregrinos (Goa 55,530). Caldwell, em 1881, afirma que se trata da actual localidade de Kombukireiyûr, pequena aldeia de pescadores, a 3 km para sudoeste de Kâyalpatanam. Em 1890, havia ali uns 50 cristãos (Epistolae, Hongkong II 440). A capela de Santh Esteve Krusadi ainda hoje é lugar de peregrinação e pertence à paróquia de Virapândyanpattanam (cf. BESSE, La mission du Maduré 523-524).
3 Manuel da Cruz era um rico parava de Punicale, grande amigo de Xavier que a ele recorria com facilidade para que lhe emprestasse dinheiro. Em Maio vêmo--lo empenhado na construção da igreja e em Junho a prestar socorro aos cristãos careas de Kombuturê (cf. Xavier-doc. 28-32; 35; 38-40; 43).
4 Provérbio português: «Já que a água não vai ao moinho, vá o moinho à água»
[*Tal era, pois, a firmeza que o grande Xavier sabia juntar à sua tão amável e tão insinuante caridade.
Todos os cuidados que ele empregava nas missões de que se achava afastado, não diminuíam em coisa alguma os seus trabalhos e as suas conquistas; adentrava-se por aquelas terras, sozinho, sem guia e sem conhecimento dos lugares.]
26
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Livar, 23 de Abril 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo em Cristo Irmão
Deseja encontrar-se com Mansilhas. Espera o «pula» de Travancor. Estabelece reuniões para as mulheres e para os homens na igreja
1. Muito desejo tenho de ver-vos. Prazerá a Deus que será cedo, ainda que não deixo de ver-vos em espírito cada dia, o que vós tam­bém fazeis: de maneira que somos presentes de contínuo. Por amor de Deus: que me escrevais notícias vossas e de todos os cristãos! Como vos vai? Escrevei-me muito miudamente.
Eu espero ao pula1 de Travancor2, esta semana sem falta nenhu­ma, porque assim me tem escrito: espero em Deus que se fará algum serviço a Deus3. De tudo o que passar, eu vos farei saber, para que deis graças ao Senhor Deus.
Já escrevi aos patangatins sobre a ramada4. Parece que seria bem que as mulheres fossem à igreja, aos sábados pela manhã, como vão em Manapar e, aos domingos, os homens: fazei disto como melhor vos parecer. Quando tiverdes necessidade de escrever ao capitão, seja com tempo para que ele vos proveja.

Pede notícias de Artiaga. Ele encontra-se bem. Recomendações a Mateus. Deseja saber como vai a catequese às crianças
2. Fazei-me saber de João de Artiaga, onde está e se serve a Deus, porque me temo muito de que não perseverará em servi-lo: é mui­to mudável, como vós sabeis. O Padre5 e eu estamos de saúde. A Mateus, direis que seja bom filho, e que fale alto, e que diga de boa maneira o que vós dizeis6. Quando eu aí for, lhe darei alguma coisa com que ele folgará muito. E escrevei-me se os meninos acorrem às orações e quantos são os que as sabem. De tudo me escrevereis larga­mente, pelo primeiro que vier.
Nosso Senhor esteja convosco, como eu desejo que esteja comigo.
De Livar7 a 23 de Abril de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

Os meninos cristãos eram de ordinário os seus mensageiros para levarem as suas cartas; alguns de entre eles tanto se afeiçoaram ao Santo que não o quiseram deixar; destes se servia ele para catequistas e intérpretes. Deixara um ao Padre Maneias, de quem falava na sua correspondência com o interesse de pai; nada é mais comovedor da parte do admirável apóstolo, preocupado e absorvido por tantos e tão magnânimos trabalhos.
1 Pula (pilla): «título duma classe superior de sudras, no Malabar, especialmen­te em Coulão» (DALGADO, Glossário II).
2 Sem dúvida, o mensageiro de Iniquitriberim.
3 Iniquitriberim tinha prometido a Xavier que, se lhe alcançasse a ajuda do Governador, havia de proteger os cristãos e ajudar a missão (cf. Xavier-doc. 39; SCHURHAMMER, Ceylon 460).
4 Igreja coberta com folhas de palmeira.
5 Francisco Coelho, sacerdote indígena, colaborador de Xavier na Costa da Pescaria, mencionado várias vezes desde 1544 a 1548 (Xavier-doc. 26-27; 30; 32; 36; 39-40; 42; 44; 50; 64).
6 Mateus era, portanto, intérprete de Mansilhas.
7 Livare, «provavelmente Koulasegarapattanam, pequeno porto de mar perto de Manapar, onde há 800 cristãos paravas. O lugar chama-se também Levâdhi» (Eppistolae, Hongkong II 442).
27
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Nar, 1 de Maio 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo em Cristo Irmão
Alegra-se das boas notícias recebidas. Ele esteve com febre. Espera ain­da o «pula» de Travancor
1. Hoje, primeiro de Maio, recebi uma carta vossa, com a qual re­cebi tanta consolação que não poderei acabar de escrever-vos quanto fiquei consolado. Porque vos faço saber que estive uns quatro ou cinco dias com febre contínua e, duas vezes, [fui] sangrado. Agora acho-me melhor. Espero em Deus ir-vos ver a Punicale, na semana que vem. O pula de Travancor espero que há-de vir hoje ou amanhã. Quando aí for, falaremos do que aqui passei. Praza a Deus que se faça algum serviço, com que Ele seja servido.

Francisco Coelho envia dois guarda-sóis. Em breve se encontrarão
2. Aí vos manda o P. Francisco Coelho dois sombreiros1. E já que em breve nos veremos, não digo mais, senão que Deus Nosso Senhor nos dê sua santa graça com a qual o sirvamos.

De Nar2, ao primeiro de Maio de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

1 Guarda-chuva ou guarda-sol. Pode ter os dois significados.
2 Nare, talvez Nare Kinher (poço mal cheiroso), hoje pequena aldeia, habitada apenas por pagãos sanar, perto de Kulasêkharapattanam, para sul (Epistolae, Hon­gkong II 444; FERNANDES 46)
[*Entretanto o nosso Santo ampliava o reino de Jesus Cristo com um progresso maravilhoso. Em Tuticorim, recebeu ele cartas do Padre Mancias que lhe causaram o maior pesar pela impossibilidade em que se via de poder ir ter com ele imediatamente, como desejava.
O coração e a alma de Xavier manifestam-se completamente na resposta àquele Padre, e que não podemos resistir ao desejo de dar aqui, quase integralmente, visto ser o nosso interesse fazer conhecer, sobretudo, a vida intima do grande apóstolo do Oriente.]

28
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Tuticorim, 14 de Maio 1544
Cópia em português, feita em 1746

Caríssimo em Cristo Irmão
Mediador de paz para os indígenas
1. Deus sabe quanto mais folgara estar alguns dias convosco, do que ficar por certos dias em Tuticorim1. Mas, como isto é necessário – estar aqui por alguns dias para apaziguar esta gente2, pois é tanto serviço de Nosso Senhor – consolo-me em estar onde a Deus Nosso Senhor mais sirva.

Anima Mansilhas a ter paci­ência e a trabalhar só o que puder
2. Rogo-vos muito que não vos agasteis por nenhuma coisa com essa gente tão trabalhosa. E, quando vos virdes com muitas ocupa­ções, e que a todas não podeis satisfazer, consolai-vos fazendo o que podeis. Dai muitas graças ao Senhor que estais em parte onde, ainda que queirais estar ocioso, não vos deixam as muitas ocupações que se vos oferecem, e todas de serviço do Senhor Deus.

Troca de ajudantes com Mansilhas, insistência na construção da igreja local, recados vários, paciência com os cristãos sem deixar de castigar quando for preciso
3. Aí vos mando Pedro3. Logo que estiver de saúde António4, que seja daqui a seis ou oito dias, o mandareis. A Manuel da Cruz escrevi uma ola [folha], rogando-lhe muito que faça cedo a igreja5. Mandar-me-eis o meu caixãozinho [cofrezinho] pelo primeiro tone6 que vier. Logo que acabarem as coisas daqui, vos irei ver, porque desejo estar convosco alguns dias, mais do que vós cuidais. Sempre que tiverdes necessidade de alguma coisa, escrevei-me pelos que daí vierem. Com essa gente fazei sempre, quanto puderdes, por levá-la com muita paciência. E, quando por bem não o quiserem, usai da obra de misericórdia que diz: castigarás a quem precisa castigo.

Nosso Senhor seja em vossa ajuda, como eu desejo que seja à minha.
De Tuticorim, a 14 de Maio de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

1 Xavier tinha ido ali, ao que parece, para falar com Iniquitriberim, que andava em guerra contra Vettumperumâlem, senhor de Tuticorim. Ali tinha também residência o capitão português da Pescaria.
2 Iniquitriberim queria obter, por meio de Xavier, ajuda militar do Governador de Goa. Se o conseguisse, os cristãos desse território de Vettumperumâlem (Tutico­rim e Cael Velho) seriam perseguidos. Por isso queria Xavier transferir esses cristãos para território do Grande Rei, Iniquitriberim (Xavier-doc. 32; 39; 44; cf. 19). Por essa causa, ao que parece, tinham-se formado duas facções em Tuticorim: uma, a favor da emigração, outra contra (Xavier-doc. 44). O mesmo veio a acontecer mais tarde, em 1603, quando se tratou da transferência para a Ilha Régia. Pelos que estavam contra, estava também o capitão português que, levado pela ga­nância, vendia cavalos de guerra a Vettumperumâlem (Xavier-doc. 34; 38; 50).
3 Talvez Pedro Fernandes, cristão parava, de Vîrapândyanpatanam, colabora­dor catequista de Xavier desde 1543.
4 Vários colaboradores cristãos de Xavier na Costa da Pescaria são referidos com o mesmo nome: o parava Henriques, Cheruquil, Miranda. Um destes seria o «António parava» (Xavier-doc. 43), outro seria o António Fernandes «um cristão malavar», que em 1544 seguiu com Xavier para Travancor.
5 Trata-se da igreja a construir em Punicale, onde residia Mansilhas.
6 «Tone (tôni), pequeno barco costeiro, de um mastro e de remo, na Índia meridional» (DALGADO, Glossário II).
29
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Virapândyanpatanam, 11 de Junho 1544
Cópia em português, feita em 1746
Encontra-se bem, pede notícias, que mande certas cartas ao capitão por pessoa segura, que não descure a catequese das crianças e o batismo dos recém-nasci­dos, que se dê bem com toda a gente e com as autoridades locais.

Caríssimo em Cristo Irmão
Faço-vos saber que, com a ajuda do Senhor Deus, me acho muito bem. Praza a Ele, que me dá saúde, me dê graça para com ela o ser­vir. Far-me-eis saber notícias vossas e dos cristãos, de contínuo. Dai--vos pressa a fazer igreja1: quando for acabada, far-mo-eis saber.
Essas cartas que mando ao capitão, mandá-las-eis por pessoa mui­to certa2. O ensino dos meninos vos encomendo muito. As crianças que nascem, com muita diligência as batizareis: pois os grandes, nem por mal nem por bem querem ir para o paraíso, ao menos que vão as crianças que, depois de batizadas, morrem.
A Manuel da Cruz me encomendareis muito. A Mateus, que seja bom filho, digo, bom homem. Haver-vos-eis sempre com amor com essa gente: assim com eles como com os adigares3.

Nosso Senhor seja sempre convosco
De Virapândyanpatanão4, a 11 de Junho de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

1 A igreja de Punicale, onde Mansilhas residia.
2 Não sabemos o que fez Xaxier desde 14 de Maio até 11 de Junho, altura em que andava em negociações com Iniquitriberim. Provavelmente é dessas negocia­ções que fala nas cartas enviadas para o capitão.
3 «Adigar (adhigâri), no sul da Índia, o título do chefe de aldeia; mas parece que em certas regiões designava outras autoridades como governador de distrito» (DAL­GADO, Glossário).
4 Virapândyanpatanam («cidade do próprio Vira Pândya»), ao norte de Tiru­chendûr (Trinchendur Taluk) em 1644 tinha 2.420 habitantes, 2.433 em 1931, quase todos eles paravas.
30
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 16 de Junho 1544
Cópia em português, feita em 1746

Caríssimo em Cristo Irmão
Às notícias da invasão dos badegás e de muitos cristãos refugiados nos ilhéus da costa, parte com 20 barquitos em seu socorro e manda rezar as crianças
1. Eu cheguei sábado à tarde (*dia 14 de junho de 1544) a Manapar. Deram-me, em Com­buturé, muito más notícias dos cristãos do Cabo de Comorim2: que os badegás3 os levaram cativos; e [que alguns] cristãos, para se salvarem, se meteram por aquelas pedras que estão dentro no mar4. Lá morrem de fome e à sede. Esta noite (*dia 16/06 cf. Xavier-doc. 31) parto, para os socorrer, com vinte tones6 de Manapar. Rogai a Deus por eles e por nós. Fareis que os meninos, especialmente, roguem a Deus por nós.

Manda Mansilhas tratar da construção doutra igreja em Combuturê e visitar vários povoados ao modo habitual
2. Em Combuturé, prometeram-me que fariam uma igreja, e Manuel de Lima (*Paravá) prometeu que daria cem fanões para ajuda do custo. Ireis a Combuturé, e dareis ordem para que se faça esta igreja. Podeis ir quarta ou quinta-feira. Na outra semana que vem, Deus querendo, ireis visitar os cristãos que estão desde Punicale até Alan­dale8, batizando os que não estão batizados: de casa em casa, visi­tareis os cristãos e, as crianças que nascem, com muita diligência as batizareis. Os que ensinam os meninos e os que ajuntam, olhareis se fazem bem o seu ofício.

Encarrega ao catequista Manuel da Cruz algumas comunidades cristãs, com vigilância especial sobre a idolatria e a fidelidade às reuniões. Pede a Francisco Coelho que venha ter consigo
3. A Manuel da Cruz, que está em Combuturé, encomendareis que olhe muito por aqueles dois lugares9 de cristãos careás10, assim acerca da união dos inimigos, como [acerca de] que não façam pago­des11 nem bebam urraca; e, aos domingos, que se ajuntem os homens à tarde e as mulheres pela manhã para dizer as orações.
Se for aí Francisco Coelho, dir-lhe-eis que venha cedo: que o digo eu.
Deus seja em vossa guarda.
De Manapar, hoje, segunda-feira, 16 de Junho de 1544.
Já paguei, a este mouro, que leva esta minha carta, o que lhe pro­meti por ir até Careapatam12.
Vosso caríssimo em Cristo Irmão, FRANCISCO

2 Aqui, entende-se Cabo de Comorim lugar e não região assim chamada.
3 Badaga, palavra da língua Kanara, que significa «homens setentrionais». As­sim se chamavam os habitantes do reino de Vijayanagar (DALGADO, Glossário I 76). O texto refere-se às tropas do imperador de Vijayanagar. Embora os badagas estivessem confederados com Iniquitriberim, aproveitaram a ocasião para saquear os cristãos.
4 No extremo sudoeste do Cabo de Comorim há três ilhéus quase submersos.
6 O caminho por terra estava impedido pelos badegas.
8 Alantalai, aldeia parava entre Tiruchendûr e Manapar, que em 1644 tinha 1.178 cristãos e 1.500 em 1914.
9 Provavelmente a actual aldeia Kadayakkudi, a norte de Kâyalpatanam, e Kombuturê.
10 Carea (Kadayan), da casta Pallan, que ainda hoje se dedicam à pesca de mar­garidas
11 Aqui, ídolos (não templos, também assim chamados).
12 Talvez Careapatão (Kadiapattanam), na ilha de Manar. Mansilhas residia em Punicale, a norte da povoação maometana Kâyalpatanam.
[*Xavier socorre os cristãos - A 19 de junho de 1544, pela tarde, chegava Francisco Xavier a Coimbatur; a população apinhava-se em volta do seu apóstolo tão amado, regozijando-se pela sua volta, há tanto tempo desejada, quando Manuel da Cruz, aproximando-se dele, e esperando que acabasse de falar ao povo, lhe disse em seguida:
- Santo Padre, são muito más as últimas notícias da Pescaria!
- O que há, o que aconteceu lá, meu menino? perguntou o Santo.
- Os Badegás desceram! Saquearam tudo; os Paravás fugiram; morrem de fome nas florestas e nas cavernas!
- Meus queridos Paravás! meu Deus!
E o Santo tinha naquele momento, as mãos juntas e os olhos levantados para o Céu; parecia orar, ao mesmo tempo que as lágrimas lhe corriam pelo rosto.
- Vou para Manapar, onde encontrarei recursos para os meus queridos neófitos, replicou ele; parto imediatamente; amanhã correrei a socorrê-los. Pobres Paravás!
E partiu efetivamente, não obstante ser de noite, não obstante a dificuldade dos caminhos, e a dor que causava aos habitantes de Coimbatur, muitos dos quais quiseram acompanhá-lo para o defender em caso de ataque.
Os Badegás pertenciam a um povo aguerrido do reino de Visnagar, que de tempos a tempos invadiam as Costas e cometiam as mais horrorosas atrocidades.
Deixemos falar sobre isto o nosso Santo:]
           
31
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 30 de Junho 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo em Cristo Irmão
Não conseguiu chegar aos ilhéus para socorrer os cristãos ali refugiados. Procura esmolas para os outros despojados
1. Terça-feira1 cheguei a Manapar. Deus Nosso Senhor sabe os trabalhos que nesta viagem tive. Fui com vinte tones a socorrer os cristãos que estão fugidos dos badegás nas pedras do Cabo Comorim, morrendo à fome e à sede. Foram os ventos tão contrários que, nem a remos nem à sirga pudemos chegar ao Cabo. Abrandando estes ventos, tornarei outra vez e farei o que puder para ajudá-los. É a pie­dade maior do mundo ver como estão aqueles coitados cristãos: em tantos trabalhos! Muitos [outros] vêm cada dia para Manapar: vêm roubados e [tão] pobres que não têm que comer nem vestir. Escrevo aos patangatins de Combuturé, Punicale e Tuticorim que mandem alguma esmola para estes coitados cristãos, e que não [a] saquem dos pobres. Os campanotes2 que quiserem dar de sua vontade, que dêem, e que a ninguém façam força: não consentireis que saquem nada dos pobres, porque eu assim escrevo aos patangatins. Eu não espero nenhuma virtude deles. Não consintais que de nenhum pobre nem rico saquem por força esmola nenhuma: a esperança mais está em Deus que nos patangatins.

Pede notícias da igreja a construir em Combuturê e das visitas missionárias aos povoados
2. Rogo-vos muito que me escrevais largo: se a igreja de Combu­turé se faz, e se Manuel de Lima deu cem fanões, e como vos foi nessa visitação que fizestes, e se [os catequistas] ensinam os meninos por esses lugares, que eu tenho a todos pagos e não sei o que na minha ausência fazem. De tudo me escrevereis muito largamente, porque desejo saber notícias vossas e desse lugar3. Oito dias estive no mar, e bem sabeis que coisa é andar em tones com ventos tão fortes como foram.
Nosso Senhor seja continuamente em vossa guarda.
De Manapar, 30 de Junho de 1544.
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

1 Dia 24 de Junho.
2 «Senhores de uma champana, barco pequeno». Em Espanha é um batelão, de fundo raso, para andar nos rios.
3 Punicale.
32
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 1 de Agosto 1544
Cópia em português, feita em 1746

Caríssimo em Cristo Irmão
Louva a diligência de Mansilhas em olhar pelos cristãos
1. Nosso Senhor continuamente seja em vossa guarda, e vos dê muitas forças para que o sirvais. Muito folguei com uma carta vossa que me deram, [por ver] a diligência que fizestes acerca de olhar por essa gente, [de modo] que estes badegás não os tomassem desapercebidos1.

Visita aos cristãos perseguidos e recolha dos mais pobres em Manapar
2. Eu fui a caminho do Cabo, por terra, a visitar estes coitados cristãos, que vinham fugidos e roubados dos badegás2. Era uma pie­dade, a maior do mundo, vê-los: uns, não tinham de comer; outros, de velhos, não podiam vir; outros, mortos; outros, maridos com as mulheres que pariam no caminho; e outras muitas piedades que, se vós as vísseis como eu as vi, teríeis mais piedade. A todos os pobres mandei vir para Manapar, e há agora muita gente necessitada neste lugar. Rogai ao Senhor Deus que mova os corações dos ricos: que tenham piedade destes pobres.

Próxima visita a Punicale e proibição a António Fernandes e aos patangatins de instalar gente em Cael Velho
3. Espero ir a Punicale quarta-feira (*dia 06 de agosto de 1544). Olhai muito por essa gen­te, até que se vão estes badegás para a sua terra4. Direis a António Fernandes, o Gordo5, e a estes patangatins de Cael Velho6, que lhes mando eu, que não vão povoar Cael Velho; senão, que eles mo paga­rão muito bem pago7. A Manuel da Cruz me encomendareis muito e a Mateus.

Nosso Senhor seja convosco, e nos dê a sua graça para que o sir­vamos.
De Manapar, ao 1º de Agosto de 1544
Vosso em Cristo Irmão, FRANCISCO

1 Os badagas, entretanto, deslocando-se do Cabo de Comorim para o norte, ameaçavam Punicale.
2 Xavier gastou todo o mês de Julho neste percurso até ao Cabo de Comorim. Durante ele persuadiu os saqueadores badagas a cessar com as suas pilhagens, fato notável que, com o tempo, foi ganhando fama de milagroso ( Saint François Xavier I)
4 Muito ao norte de Maduré.
5 Certo parava, que é bom distinguir doutros com o mesmo nome, por ex. de António Fernandes, malabar, de quem fala Xavier noutra carta (Xavier-doc. 45).
6 Cael Velho, nome português da povoação Palaiyakâyal (Srivaikuntam Ta­luk), situada entre Punicale e Tuticorim. Em 1644 tinha 800 cristãos paravas e 648 em 1914 numa população de 1.497 habitantes (Nalguns lugares havia vários patangatins ao mesmo tempo.
7 Os patangatins tinham o direito de exigir, sob pena de exclusão da casta, que os habitantes de uma povoação se mudassem para outra. Assim aconteceu, por ex., em 1605, quando ordenaram que fugissem de Tuticorim até que o rei Nayaka do Maduré depusesse o tirano tuticorinês sucessor de Vettumperumâl. Por semelhante causa, Xavier apelou a este direito para que mandassem mudar os cristãos de Cael Velho, território de Vettumperumâl, para os territórios de Iniquitriberim.
33
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 3 de Agosto 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo em Cristo Irmão
Alegra-se da visita que fez Mansilhas aos cristãos perseguidos e sente a opressão em que vivem
1. Deus [seja] sempre convosco. Em parte, folguei muito, com a vossa carta, ao ver a consolação que recebestes nesta visitação que fizestes. [Mas] senti muito e sentirei a vossa opressão, até que o Se­nhor Deus vos livre: a nós, que não nos faltam opressões, louvado seja Deus.

Prepara protecção e defesa contra outros ataques aos cristãos
2. Aí mandei o Padre1, por todos esses lugares para que lanças­sem os navios ao mar e embarcassem quando fosse tempo. Porque me parece que, de certo, vos hão-de assaltar e cativar a estes cristãos, segundo temos por certo que hão-de vir à praia2. Estas notícias sei-as por um principal canacar3, amigo destes cristãos, veio-me ver e ajudar, por amor de ser tão amigo desses cristãos desta Costa e tem muitos parentes cristãos.. Mandei lá um canacar, com uma carta para o rei que é meu amigo, a este homem, a este canacar, que é privado deste rei Iniquitribirim4, escrevi para que me desse aviso do que lá passar e me fizesse saber quando virão à praia, para que tivéssemos tempo de [nos] re­colhermos ao mar. Escrevi – pois é amigo do senhor Governador5 – que não consinta que estes badegás nos façam mal, pois o Gover­nador se há-de desgostar muito do mal que a estes cristãos o vier6:

Aconselha pôr vigias nas aldeias para alertarem o povo a tempo de fugir
3. Já escrevi ao capitão, para que proveja em mandar um catur7 para guarda dessa gente e vossa. Fareis que essa gente mantenha muito grande vigilância em terra firme8, porque estes badegás vêm de noite, a cavalo, e nos tomam, em tempo que não termos tempo para nos embarcar. Olhai muito por essa gente, porque é para tão pouco que, por não gastar dois fanões, deixarão de mandar vigiar. Fa­reis que lancem logo ao mar todos os navios e metam seu fato neles. Às mulheres e meninos, fareis que digam as orações, mais agora que nunca, pois não temos quem nos ajude senão Deus.

Pede papel para escrever e notícias de como está organizada a vigilância contra os assaltantes
4. Mandai-me o papel que ficou na caixa, que não tenho em que vos escrever. Isto me mandareis logo por um cule9. Far-me-eis saber notícias: se lançaram os navios ao mar e puseram seu fato neles, e a diligência que nisso fazem. A António Fernandes, o Gordo, direis da minha parte que olhe muito por esse povo, se quer ser meu amigo. Aos pobres mesquinhos, não [os] cativa esta gente, senão aos que podem haver resgate. Sobretudo fareis que, de noite, tenham muita vigilância e que, em terra firme, tenham seus espias, porque eu tenho muito medo que, de noite, com este luar (*lua cheia), venham a essa praia e roubem a esses cristãos. Por isso, mandareis vigiar muito de noite.

Nosso Senhor seja em vossa guarda.
De Manapar, a 3 de Agosto de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

1 Francisco Coelho.
2 Os badagás.
3 Kanakkar: inspector da organização territorial no antigo Malabar; «colector de impostos»; ou sim­plesmente «um homem da casta Kanakkar» Epistolae, Hongkong.
4 Iniquitriberim, em rigor, Uni Kêrala Tiruvadi (Uni=filho; Kêrala=Travancor, também nome de rei; Tiruvadi=príncipe), título de Rama Varma, o mais velho da família Jayatunganâdu, rei de todo o território de Coulão e do Cabo de Comorim até ao rio Tâmbraparni, nos anos 1541-1549.
5 Martim Afonso de Sousa.
6 Com esta passagem se prova que os badagas eram confederados de Iniquitri­berim e não do rei Vettumperumâl, como era opinião comum dos autores.
7 Catur: «pequena, estreita e ligeira embarcação indiana» (DALGADO, Glos­sário I 239).
8 Punicale estava situada numa ilha da foz do rio Tâmbraparni.
9 Cule (culi): «operário, jornaleiro, moço de recados» (DALGADO, Glossário I 331).
34
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 19 de Agosto 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo em Cristo Irmão
Receia novos ataques aos cristãos e pede a Mansilhas que não se ausente enquanto estiverem em perigo
1. Esta manhã vos escrevi que esforçásseis essa gente nessa tribu­lação1; e que me fizésseis a grande caridade de me fazer saber notícias certas de Tuticorim2. Tenho medo que venha algum mal a esses pobres cristãos pelas cavalarias de Tuticorim3. Esta gente tem tanto medo que não vo-lo saberia dizer: nunca me pareceu bem deixar essa gente e de vos irdes com João Artiaga, senão quando a terra estiver fora destas perseguições de badegás4. Rogo-vos muito que, quando souberdes notícias certas, logo mas façais saber.

O rei Iniquitribirim negoceia com o capitão por­tuguês a pacificação da região. Pede notícias de portugueses e cristãos apanhados nestas invasões
2. Iniquitribirim manda um brâmane com o topaz do capitão, para assentar pazes com essa gente5. Não sei que farão eles. Estão aqui em Manapar e partem logo por mar. Rogo-vos que miudamen­te me escrevais daí notícias dos portugueses de Tuticorim, logo que as souberdes, para me aliviar do muito cuidado que tenho: se alguns portugueses estão feridos ou mortos, e assim dos cristãos. Acerca da vossa ida, ver-nos-emos ou vos escreverei depois de ser passada esta fúria dos badegás.

Ele tem recebido más notícias
3. Agora me deram uma ola [folha] de Guarim6, em que o vosso caríssimo irmão7 me faz saber: que os cristãos que andam fugidos no mato, os roubaram os badegás, e que feriram um cristão e outro gentio. De todas as partes temos más notícias, louvado seja o Senhor Deus para sempre.
Nosso Senhor seja sempre convosco. Amen.
De Manapar, a 19 de Agosto de 1544
Vosso Irmão em Cristo caríssimo, FRANCISCO

1 Pelos vistos, os badegás andavam ainda nas proximidades de Punicale, na fronteira extrema entre os reis Iniquitriberim e Vettumperumâl.
2 Vettumperumâl, irritado por o Governador andar em tratados com Iniqui­triberim, avançou sobre Tuticorim para se vingar em cristãos e portugueses.
3 O capitão da Pescaria, Cosme de Paiva, tinha vendido cavalos de guerra a Vettumperumâl.
4 Mansilhas e Artiaga estavam para ir a Mannâr batizar os careas (cf. Xavier--doc. 36).
5 Com Vettumperumâl ou seu representante.
6 Provavelmente o Kanakkar mencionado no Xavier-doc. 33. O nome (Ka­rîm) parece muçulmano: os muçulmanos costumavam ser e ainda são cobradores de impostos.
7 Companheiro, talvez Artiaga.
35
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 20 de Agosto 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo Irmão!
Poucos favorecedores das missões. Deus lhes dará a paga
1. Deus seja sempre convosco. Amen. Pelo dito do Senhor que diz (*Mt 12,30) «quem não é por mim é contra mim», podeis ver quantos amigos temos, nessas partes, que nos ajudem a fazer esta gente cristã. Não desconfiemos, porque Deus, por derradeiro, dará a cada um a paga. E, se quer, [tanto] se pode servir de poucos como de muitos. Mais piedade tenho dos que são contra Deus, do que desejo de os castigar, porque, por derradeiro, castiga Deus aos seus inimigos fortemente, como podemos ver pelos que estão no inferno.

Apoio a dar a um brâmane delegado dos badegás. Pede notícias e anima à missão
2. Aí vai este brâmane2 com despacho dos badegás para o rei Be­tebermal3. Por amor de Deus: que lhe mandeis logo dar embarcação para ir a Tuticorim! Fazei-me saber notícias de Tuticorim, do capitão e dos portugueses e dos cristãos, porque estou com muito cuidado. A João de Artiaga me encomendareis muito, e a Manuel da Cruz. E, a Mateus, direis que não se canse, que não trabalha em vão: que eu farei com ele melhor do que cuida. Por amor de Deus: que logo deis aviamento a este brâmane! E falai ao capitão, para que ao menos lhe faça honra4.
Nosso Senhor seja sempre convosco. Amen.
De Manapar, a 20 de Agosto de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

2 Brahmana, legado de Iniquitriberim, enviado, com despacho dos badagas, a Vettumperumâl (Xavier-doc. 34).
3 Vettumperumâl, que aparece escrito de formas variadas (cf. Xavier-doc. 40), era rei do distrito de Kayattâr com jurisdição sobre a a cidade de Tuticorim (1531-1555).
4 Cosme de Paiva, capitão da Pescaria. Como enriquecia com a venda de cava­los de guerra para Vettumperumâl, pouco lhe interessava a paz.
36
A FRANCISCO MANSILHAS (TUTICORIM)
Punicale, 29 de Agosto 1544
Cópia em português, feita em 1746

Caríssimo em Cristo Irmão. Deus seja sempre em vossa ajuda. Amen.
Alegra-se das notícias recebidas e pergunta se a terra já está segura de incursões para o substituir por Francisco Coelho e enviá-lo a outra missão
1. Muito folguei com as cartas que me mandastes. Far-me-eis saber quando estará segura dos badegás essa terra, para [que] – sem escândalo dessa gente, mandando [para] aí a Francisco Coelho em vosso lugar1 – possais [vós] ir fazer esse serviço de Deus tão grande de batizar aos de Careapatão2, assim como aos careás de Beadala3, e ao mudaliar4. Porque o capitão de Negapatão5 pode muito com o rei de Jafanapatão6, de quem são essas ilhas de Manar7, e se encarregará de vos favorecer com o rei. Logo que estiver segura dos badegás essa terra, mandar-me-eis o patamar8, para que logo vos mande Francis­co Coelho com dinheiro e olas [folhas] e um regulamento do que haveis de fazer em Manar.

Empenho por ajudar Artiaga. A vida que leva sem intérpretes. Terra livre de incursões de badegás
2. Encomendo-vos muito o nosso irmão (*colaborador) João de Artiaga. De tudo o que tiver necessidade me escrevereis, para que proveja como é razão. Aqui ando entre esta gente só, sem topaz (*intérprete). António11 está doente em Manapar. Rodrigo12 e António13 são os meus topazes. Por aqui podeis ver a vida que levo e as exortações que posso fazer, que nem eles me entendem nem menos os entendo [eu]: [por] aqui po­deis ver as falas que a esta gente faço. Batizo as crianças que nascem e aos outros que acho por batizar: para isto não tenho necessidade de topaz. Os pobres, sem topaz, me dão a entender as suas necessida­des e eu, em vê-los, sem topaz, os entendo. Para as coisas mais prin­cipais não tenho necessidade de topaz14. Os badegás, que estavam por estas partes, todos estão já unidos a Calecaté15. Está agora a terra assegurada dos badegás. Os da terra fazem o mal que podem16, até que esteja assentado17 por Iniquitriberim.
Nosso Senhor seja sempre convosco. Amen.
          De Punicale, a 29 de Agosto de 1544. Esta noite parto para Talle18, onde está muita pobre gente.
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

1 Xavier já se tinha mudado de Manapar para Punicale e, Mansilhas de Puni­cale para Tuticorim, onde já decorriam as negociações de paz e as coisas pareciam ir acalmando.
2 Patim, «lugar pequeno dos careas» na ilha de Mnanar (SCHURHAMMER, Ceylon 135, n. 6).
3 Vêdâlai, frente a Râmesvaram, no continente indiano, aldeia que em 1914 tinha 1.665 habitantes, dos quais 24 eram cristãos.
4 Mudaliar (mudaliyâr): «chefe, capitão indígena» (DALGADO, Glossário II 61).
5 António Mendes de Vasconcelos, capitão dos portugueses residentes na cida­de de Negapatam, nos anos 1543-46
6 O rei de Jaffna era Chekarâsa Sêkaran (Sankily) nos anos 1519-1561 (ib. 136).
7 Todas as ilhas entre Jaffna e o continente indiano, excepto Râmesvaram, pertenciam aos domínios de Jaffna.
8 Patamar: «correio, mensageiro» (DALGADO, Glossário II 186).
11 Sobre os vários Antónios ajudantes de Xavier, pode ver-se Xavier-doc. 28, nota 4. Este era seu intérprete.
12 Criado indígena, em nenhuma outra ocasião mencionado.
13 Talvez António parava, referido no Xavier-doc. 43.
14 Aqui claramente confessa Xavier que não conhecia a língua indígena, não dando assim fundamento à opinião de que já sabia a língua tamul, como dizem alguns biógrafos do santo.
15 Calecaté (Kalakkâd), cidade a sudoeste da província de Tinnevelly foi capi­tal do reino do «Grande Rei».
16 Não os badagas, mas os habitantes pagãos da região.
17 Os habitantes da região tinham-se rebelado contra Iniquitriberim, a favor dos reis Pândya.
18 Talvez Alantalai (cf. Xavier-doc. 37).
37
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Alendale, 5 de Setembro 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo em Cristo Irmão
Apreensões pelo desamparo dos cristãos em Tuticorim
1. Deus Nosso Senhor seja em vossa ajuda continuadamente. Amen. Estou com muito cuidado [acerca] dos cristãos de Tuticorim por estarem desamparados de quem olhe por eles. Por amor de nosso Senhor: que me façais logo saber o que se passa! Se virdes que é ser­viço de Deus irdes com muitos tones de Combuturé e de Punicale, para trazer aquela gente daquelas ilhas para Combuturé , Punicale e Trinchandur1, logo a essas horas vós partireis com todos os tones que há em Punicale, mandando aos de Combuturé que vão logo atrás de vós.

Se for preciso, mandar embarcações para tirá-los de lá
2. Não consintais que morra à fome e à sede aquela pobre gente, por amor de Betebermal e seus cavalos. Melhor contado lhe fora ao capitão olhar pelos cristãos, que não por Betebermal nem por seus cavalos2. Aí mando uma ola [folha] aos patangatins de Punicale e Combuturé, em que lhes mando que logo se façam prestes com seus tones, para irem convosco trazer os cristãos de Tuticorim, que estão morrendo à fome e à sede naquelas ilhas.

Deixa tudo ao parecer de Man­silhas
3. Se a vós vos parecer que há necessidade da vossa ida e de [os] mandar por aquela gente, dareis a ola [folha] aos patangatins e ireis [com eles] socorrer aquela gente. Se vos parecer que não há necessi­dade, não ireis. Em tudo me remeto ao que bem vos parecer. Se aca­so acontecer que vades, fazei que os tones levem água e mantimentos. Nosso Senhor seja sempre convosco. Amen.
Far-me-eis saber como está Manuel da Cruz e Mateus, que os deixei desconsolados.

A 5 de Setembro de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

1 Tiruchendûr, povoação situada entre Virapândyanpatanam e Alentalai, céle­bre por seu templo.
2 O capitão da Pescaria continuava a enriquecer no seu negócio de cavalos de guerra com o rei Vettumperumâl (cf. Xavier-doc. 50, 8).
38
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Alendale, 5 de Setembro 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo em Cristo Irmão
Tristes notícias do capitão. Que Mansilhas e os patangatins lhe prestem imediato socorro
1. Tristes notícias me deram1 do capitão: que lhe queimaram a sua nau e casas2, e que está refugiado nas ilhas3. Por amor de Deus: que vades logo com toda essa gente de Punicale, levando toda a água que puderem levar todos esses tones! Eu escrevo aos patangatins muito rijo, para que vão logo convosco ver do capitão: que levem água em muitos tones, para trazer essa gente.

Também ele deseja ir em seu auxílio, mas teme que o capitão ainda o não queira ver
2. Se eu cuidara que o capitão folgaria com a minha ida, iria eu e vós ficaríeis em Punicale. Mas, porque ele me escreveu uma carta, na qual me dizia que não podia escrever, sem muito grande escândalo, o mal que lhe tenho feito – Deus e todo o mundo sabe [por]que não me pode escrever sem grande escândalo – não sei como folgaria de me ver. Por isso e por outras coisas deixo de ir aonde está.

Que ao menos os que puderem, o ajudem
3. Eu escrevo aos patangatins de Combuturé e aos de Bembar4 que logo vão com todos os tones e, passados aonde está o capitão, lhe levem água e mantimento. Por amor de Deus: que façais mui­ta diligência, pois vedes [que] o capitão está em tanta opressão e todos aqueles cristãos! Por amor de Deus: que façais muito grande diligência!

Nosso Senhor seja sempre convosco. Amen.
De Arandale5, a 5 de Setembro de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

[*Missão perigosa e coragem de Xavier - O Santo corre imediatamente em auxílio da cristandade novamente acometida; ao mesmo tempo escreve ao rei de Travancor pedindo-lhe que promova todos os meios a seu alcance para fazer suspender a insânia e as devastações dos Badegás.
Aquele príncipe, que se fazia chamar o grande monarca e que ardentemente desejava conhecer o santo Padre, cujos milagres e atos apostólicos levaram a sua reputação grande nome a todos os Estados da península, aquém do Ganges, enviou-lhe embaixadores pedindo-lhe que fosse vê-lo, e prometendo tomar para com os Badegás todas as medidas necessárias, a fim de assegurar a tranquilidade dos Paravas. Em extremo satisfeito o nosso Santo pela ocasião que se apresentava de levar o nome de Jesus Cristo àquela nação inteiramente idólatra, preparou-se para a partida:]
1 Depois de enviada já a carta anterior (Xavier-doc. 37), recebeu Xavier as notícias sobre o capitão português.
2 Falhadas as negociações de paz, recomeçou a perseguição de Vettumperumâl aos cristãos e portugueses em Tuticorim, onde residia também o capitão da Pes­caria. Por isso, recomeçada a guerra, Mansilhas teve de adiar a ida para Vêdâlai e ilhas de Mannâr.
3 Três são as ilhas situadas em frente de Tuticorim: Koswari, Vân Tivu (Ilha dos Reis, ilha da Igreja), Pândyan Tivu (Ilha das Lebres).
 4 Bembar (Vêmbâr), última povoação de paravas ao norte da Pescaria, tinha 1.300 cristãos em 1644 e contava 4.744 habitantes em 1914 (BESSE, La mission du Maduré 499-507).
5 Alantalai.
39
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Trichandur, 7 de Setembro 1544
Cópia em português, feita em 1746

Caríssimo em Cristo Irmão
Andando a visitar várias cristandades, recebe notícias de mais amea­ças aos cristãos do Cabo de Comorim
1. Deus nos dê sua santíssima graça, pois nesta terra não temos outra ajuda senão a sua. Eu estava em Trichantur1 para ir a Viravan­dianpatanão2 visitar os cristãos, como fiz em Arandale3, P[udicorim]4 e Trichantur: tinham eles muitas necessidades de ser visitados. Es­tando para partir, deram-me notícias de que a terra se alevantava5, porque os portugueses levavam um cunhado de Betebermal e [os indígenas] queriam levar os cristãos do Cabo de Comorim6.

Carta do P. Francisco Coelho a pedir que vá em socorro desses cristãos
2. Escreveu-me o Padre Francisco Coelho que logo a essas horas partisse para onde estão os cristãos do Cabo de Comorim7, porque se eu não fosse lhes havia de vir muito mal. E mais me escreveu: que era chegado um príncipe, sobrinho de Iniquitriberim8, sobre aquela triste gente, e que estava para fazer-lhes muitos males se eu não fosse9.

Iniquitriberim pede um encontro com ele
3. Mais me escreveu: que Iniquitriberim me mandava uma ola [folha] por três ou quatro criados seus, os quais ficaram cansados em Manapar, e por suas olas [folhas] me rogava que fosse lá a vê-lo10, porque deseja[va] muito falar-me coisas que muito lhe importam. Parece-me que tem muita necessidade do favor do senhor Gover­nador, porquanto os pulas11 estão muito prósperos e com muito di­nheiro: parece-me que se teme que os pulas não dêem [assim] tanto dinheiro ao senhor Governador, para que seja em ajuda deles12.

Parte ao seu encontro
4. Mais me escreve Iniquitriberim: que estão seguros os cristãos em suas terras, e que lhes fará muito boa companhia. Eu parto logo esta noite para Manapar e daí – por amor dos cristãos de Tuticorim e Bembar, para que estejam seguros em terra do Rei Grande – irei ver Iniquitriberim para concertar com ele como estejam seguros em sua terra13.



1 Tiruchendûr.
2 Virapândyanpatanam.
3 Alantalai.


4 Pudukudi («aldeia nova»). A lista das missões em 1571 apresenta duas aldeias com este nome: uma ao sul de Alantalai e outra a norte de Manapar (Japsin. 7, 86).
5 Os habitantes da terra, não os invasores badagas.
6 Refugiados em Manapar (cf. Xavier-doc. 32).
7 Manapar. Em 1558, Henriques fala de uma localidade de paravas, Puducare («aldeia nova»), situada entre Manapar e Periya Tâlai; era talvez aí que viviam provisoriamente os refugiados.
8 Chegou a Talle (Periya Tâlai), como se deduz do Xavier-doc. 40.
9 Temores infundados, ao que parece pelos Xavier-doc. 40 e 42.
10 Iniquitriberim estava em acampamento militar no interior do distrito de Tinnevelly.
11 Partidários dos reis Pândya, que consideravam Iniquitriberim usurpador.
12 Por fim, Iniquitriberim superou os pulas nas dádivas (Xavier-doc. 44, 1).
13 A vontade de Xavier era mudar os cristãos do norte para sul do rio Tâmbra­parni, para terras de Iniquitriberim.

Pede para trazer para lugar seguro os cristãos ainda refugiados nos ilhéus da Costa, e que não deixe de visitar os outros centros missionários
5. Fareis de jeito que aqueles cristãos de Tuticorim, que estão naquelas ilhas morrendo, venham para Combuturé e Punicale14. Escrever-me-eis mais miudamente as coisas de todos os cristãos e, principalmente, do capitão e dos portugueses: como estão. Se tiver­des tempo de poder visitar os cristãos de Combuturé e os careas, e o lugar de Tomé da Mota15, e aquele que está perto de Patanão16, mui­to folgaria, porque sei que têm muita necessidade de serem visitados. Folgaria eu muito de ir visitar esses lugares.
Pa­gamento aos catequistas. Pede notícias
6. Para ensino dos meninos, tomareis emprestados em poder de Manuel da Cruz de Punicale, vosso amigo, cem fanões, os quais gas­tareis em pagar aos que ensinam os meninos, informando-vos deles o que eu lhes costumava pagar, e nisto fareis muito serviço a Deus. Aí vai esse homem17, a meu parecer muito de bem e desejoso de ser­vir a Deus. Fazei-lhe muito boa companhia até que eu torne aonde está Iniquitriberim e, se vos parecer que servirá a Deus, deixá-lo-eis aí. Escrevereis logo por um barbeiro18, muito largamente, as coisas daí, porque estou em muito cuidado, assim dos portugueses como dos cristãos.
Nosso Senhor nos dê mais descanso na outra vida do que nesta temos.
De Trinchandur19, a 7 de Setembro de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

14 Ambas povoações situadas em território de Iniquitriberim.
15 Kombuturê é considerada por Henriques (em 1558) como aldeia de careas. Provavelmente as outras aldeias aqui mencionadas são aquelas que no Xavier-doc. 30 se referem como «dois lugares de cristãos careas». Tomé da Mota parece ser o regedor da aldeia.
16 Talvez Kadayakuddi a norte de Kâyalpatanam.
17 Talvez Paulo Vaz, de quem se fala em Xavier-doc. 40-41.
18 Texto original pouco legível. Mal se entende que se envie a carta por um barbeiro. Talvez deva ler-se barqueiro.
19 Tiruchendûr.
40
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 10 de Setembro 1544
Cópia em português, feita em 1746

Alegra-se das notícias recebidas. Envia Francisco Coelho ao príncipe, sobrinho de Iniquitriberim, para conseguir víveres e protecção para os cristãos daquela região em perigo. Fala-se de nova guerra de Betebermal contra Iniquitriberim. – Espe­ra de volta Francisco Coelho para escrever novamente. Diversos encargos.

Caríssimo em Cristo Irmão
Folguei tanto com as vossas cartas, que o não poderia acabar de escrever, porque estava em muito cuidado [acerca] do capitão e de toda a outra gente1. Nosso Senhor seja sempre com eles, como eu desejo que seja comigo. Terça-feira2, duas horas ante-manhã, man­dei o P. Francisco Coelho falar com o príncipe que está em Tale3, a duas léguas de Manapar. Fez-lhe muito gazalhado o príncipe, sobri­nho de Iniquitriberim. Pareceu-me ser necessário mandá-lo visitar, por deixar esta terra em paz, que estava quase meio alevantada. Diz que Betebermal ia por mar aonde está o rei, a grande pressa, a pelejar desta terra que deixassem vir mantimentos para Punicale, e que aos cristãos fizessem boa companhia. Em alguma maneira folgaria deixar esta praia em paz, antes de partir para onde está Iniquitriberime, de lá, vir provido para resistir a estes contra Iniquitriberim4. E também o mandei para que mandasse aos adigares que deixassem trazer arroz e mantimentos. Terça-feira, de­pois do meio-dia, recebi as vossas cartas, e logo mandei um homem com uma carta, aonde está o príncipe, ao P. Francisco Coelho, para que mandasse umas olas [folhas] mandando aos adigares 5 adigares
Ao capitão escreverei amanhã. Agora não posso, pela muita pres­sa deste homem6. Esta noite espero por Francisco Coelho. Amanhã vos escreverei mais largo. A Paulo Vaz7 me encomendareis muito. E, a Mateus, direis que aí escrevo a Manuel da Cruz, para que lhe dê doze fanões que me pede para seu pai e uma irmã pobre que tem. Vindo o P. Francisco Coelho, vos escreverei muito largo.

Nosso Senhor nos ajunte no seu reino. Amen.
De Manapar, a 10 de Setembro de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

1 Mansilhas tinha cumprido o encargo de Xavier de ajudar o capitão e os ou­tros refugiados nas ilhas que estão em frente de Tuticorim. Em 1557, ele mesmo deu testemunho, esclarecendo que tinham fugido de Tuticorim não na guerra dos badegas, mas em «outra guerra de outros ladrões» (MX II 318).
2 Dia 9 de Setembro.
3 Periya Tâlai e Alantalai distam duas léguas a sul de Manapar. Periya Tâlai significa Tâlai maior, para a distinguir da aldeia vizinha Sinna Tâlai (Tâlai me­nor). Em 1644, Periya Tâlai tinha 1.200 cristãos e contava 2.705 habitantes em 1914.
4 Desta expedição de Vettumperumâl, nada mais se sabe.
5 Iniquitriberim residia na parte meridional do distrito de Tinnevelly, junto ao mar.
6 Vê-se que a ajuda prestada ao capitão em momento de angústia, o levou a reconciliar-se com Xavier.
7 Parece referir-se àquele colaborador português de que fala no Xavier-doc. 39,6. Talvez fosse o padrinho daquele cristão da casta dos careas com o mesmo nome, nascido em Kombuturê por 1500 e que ali mesmo se encontrava com Xa­vier em 1543.
41
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 11 de Setembro 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo em Cristo Irmão
Problemas por causa de um criado do príncipe local, preso por um português em território do próprio príncipe
1. Não acabaria nunca de vos escrever o desejo que tenho de ir por essa Costa (*a Punicale). Eu vos certifico que é verdade: que se hoje achasse embarcação para partir, logo iria. Agora me vieram três gentios, ho­mens do rei2, com queixumes [de] que um português prendeu em Patanão3 um criado deste príncipe de Iniquitriberim4, e que o levou preso a Punicale, e que dizia que daí o havia de levar a Tutocurim. Sabendo o que é, escrevereis ao capitão sobre isso. E, se estiver aí aquele português, quem quer que for, que o soltem logo [o criado]: se alguma coisa lhe dever esse gentio, que venha diante deste prín­cipe requerer sua justiça. E que não alevantem a terra mais do que está alevantada: por causa destes, nunca nós fazemos mais. Se não, parece-me que deixarei de ir ver o rei, de tal modo esta gente está agastada, porque assim os desonram e os prendem na sua terra, o que fos­sem castigados, não fariam os portugueses o que agora fazem. Não será muito que este príncipe faça algum mal a estes cristãos, porque lhe prenderam o seu criado. nunca fizeram em tempo dos pulas5. Não sei que faça, senão que não percamos mais tempo, estando entre gente que não tem cura. E tudo isto por míngua de castigo: se os que foram roubar aquele paró6.
2. Escrevereis ao capitão quanta paixão recebi sobre a prisão do criado deste príncipe. Eu não quero mais escrever, pois esta gente diz que há-de fazer mal e que ninguém há-de falar nem ir-lhes à mão. Se o homem, que aquele português prendeu, está em Tutocorim, ide logo, por amor de Deus, aonde está o capitão, e fá-lo-eis soltar; e que venha o português aqui a requerer sua justiça.
3. Porque, assim como pareceria mal se, indo um gentio aonde estão os portugueses, prendesse lá um português, estando lá o capi­tão, e o trouxesse para terra firme, assim a estes lhes parece mal um português prender um homem na terra deles e levá-lo ao capitão, tendo eles justiça na sua terra e estando de paz. E se vós não puder­des ir, mandareis com uma carta vossa Paulo Vaz ao capitão.

2 Iniquitriberim, que não foi rei de Travancor.
3 Kâyalpatanam.
4 Sobrinho de Iniquitriberim.
5 Deduz-se desta afirmação de Xavier que em tempos (sec. XV), esta parte meridional da região de Tinnevelly estava submetida aos reis Pandya e foi depois conquistada por Mârtânda Varma, antecessor de Iniquitriberim.
6 Paró (padavu): «pequena embarcação de guerra e de mercadoria» (DALGA­DO, Glossário II). Nada mais sabemos deste facto. Talvez esteja relacionado com o rapto de mulheres cristãs, de que fala Xavier no Xavier-doc. 24,1.

Pede a Mansilhas que verifique o que há sobre isto
4. Eu vos certifico que foi tanta a paixão que recebi, [que] não vo-la saberei dizer. Nosso Senhor nos dê paciência para sofrer tan­tos desarrazoamentos. Escrever-me-eis logo o que passa sobre este criado deste príncipe: se é verdade que o prendeu um português, e porquê, e se o leva a Tutocurim. Porque, se isto é verdade, não [me] determino a ir onde está Iniquitriberim: dos criados, quanto esta gente sentiu prenderem-nos em sua terra, e o que de nós se diz, [já o podereis julgar].

Desgostado, deseja ir para a terra do Preste João
5. Para não ouvir estas coisas, e também para ir aonde desejo, à terra do Preste7, onde tanto serviço se pode fazer a Deus Nosso Senhor sem ter quem nos persiga, não será muito que tome aqui em Manapar um tone e me vá para a Índia8 sem mais tardar.
Nosso Senhor vos dê sua ajuda e graça. Amen.
De Manapar, a 11 de Setembro de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

7 Abissínia.
8 Índia, na linguagem dos portugueses, era sobretudo a costa ociden­tal desde Gujarath até ao Malabar ou Cabo de Comorim.
42
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 12 de Setembro 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo Irmão em Cristo
O príncipe que mora em Tale favorece os cristãos e quer saber o nome dos adigares que lhes fizeram mal
1. Este príncipe que está em Tale1, sobrinho do Iniquitriberim, é tão nosso amigo que, logo que soube os males que aí faziam os adigares aos cristãos, mandou logo um criado seu, com uma ola [folha], em que lhes mandava que deixassem vir todos os manti­mentos da terra firme e que fizessem bons feitos, esses adigares, aos cristãos: que lhe digam os nomes dos adigares e a mim [também] o nome deles, para que, se eu for ver o rei, [possa] dizer com verdade o que cá passa.

Façam bom acolhimento e paguem bem ao enviado que o príncipe manda pacificar os adigares
2. A este criado do príncipe – pois vai por bem dos cristãos – fa­reis com que os patangatins lhe façam muita honra e lhe paguem seus trabalhos, pois é justo. O que gastam em bailadeiras mal gasto, seria melhor gastar em semelhantes coisas, pois é razão e provêm a todo o povo. Vós também lhe dareis alguma coisa, para que, com melhor vontade, fale aos adigares que não façam mais males e façam boa companhia.

Quer saber como está o caso do criado do príncipe, aprisionado por um português. Sem estar resolvido, não quer ir visitar o rei, que até acaba de fazer mais mercês aos cristãos
3. Fazei-me saber se foi verdade que um português levou um criado deste príncipe preso até Tutocorim, e porquê. Ontem vos escrevi largo sobre este caso2. Se é verdade, parece-me que será me­lhor ficar que ir ver o rei, uma vez que esta gente faz o caso tão feio e tanto sentiu prenderem um homem do príncipe. Fez muita honra ao P. Francisco Coelho, e acabou com ele tudo o que é em proveito destes cristãos: para fazer-lhes mais honra, faz patangatins quatro homens de Manapar, sem lançar nenhum [dinheiro] ao povo, como o costumavam fazer em tempo dos pulas3; e, de outros lugares, fez três patangatins, sem nada. Para fazer honra ao Padre, que foi vê-lo, levou muita gente destes lugares.

Pede ao capitão que não faça nem deixe fazer mais males aos gentios das terras do rei, pois ele é tão amigo
4. Por amor de Deus: que escrevais ao capitão, de minha parte, que lhe rogo muito que, por todo este mês de Setembro me há-de fazer mercê que não mande nem consinta que se façam males aos gentios da terra do Rei Grande4! Pois todos são tão nossos amigos nas coisas dos cristãos, [que] é escusado rogar que não lhes façam mal. E, se eu houver de ir ver este rei, por todo este mês acabarei de ir e vir e partir para Cochim; e não queria que neste tempo fossem queixumes de nós ao rei, por nenhuma coisa.

1 Periya Tâlai.
2 Xavier-doc. 41.
3 No tempo dos pulas, o povo tinha de se pagar um tanto para manter cada nomeado.
4 Iniquitriberim.
Escreva por mão própria o que tanto deseja falar em encontro pessoal. Se for coisa que possa remediar, adiará as próximas viagens, sendo preciso
5. Escrever-me-eis por vossa mão, por que [motivo] me escre­vestes que, sem que nos víssemos, não podíeis escrever. Porque, se for coisa de muita importância e serviço de Deus, que eu puder re­mediar, assim coisa do capitão e portugueses como dos cristãos, por nenhuma coisa irei aonde está Iniquitriberim, nem a Cochim, sem ver se posso remediar esses males5.

Nosso Senhor seja sempre em nossa ajuda e favor.
De Manapar a 12 de Setembro de 1544
Vosso em Cristo Irmão caríssimo, FRANCISCO

5 Por fim, Xavier acabou por ir a Tuticorim, como se vê pela carta seguinte (Xavier-doc. 43).
43
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Tuticorim 20 de Setembro 1544
Cópia em português, feita em 1746

SUMÁRIO: Pede substituição dum criado doente que lhe fazia a comida. Vai pedir ao rei que dê ordens aos adigares para tratarem bem os cristãos. Manda pagar salários aos catequistas.

Caríssimo em Cristo Irmão
António1 está doente e não me pode servir; mandar-me-eis logo, a Manapar2, a António Paravá, porque tenho necessidade dele para fazer de comer. Escrever-me-eis logo, porque estou em muito cuidado de toda essa gente. E, logo que chegar onde está Iniquitriberim3, [tratarei de alcançar suas olas [folhas] e logo vo-las mandarei]4 para que todos os adigares desses lugares [deixem vir os mantimentos], e para que façam boa companhia aos cristãos. Rogai a Deus por mim.
Aos meninos direis que, em suas orações, se alembrem de rogar a Deus por mim.
A Manuel da Cruz escrevo uma ola [folha] para que vos dê cem fanões para o ensino dos meninos: aí vos mando a ola.

Nosso Senhor seja em vossa ajuda e favor. Amen.
De Tutucorim, a 20 de Setembro de 1544
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

1 Parece ser o mesmo que já tinha estado doente em Manapar, como refere outra carta (Xavier-doc. 36).
2 Este segundo António deve ser o outro que também é referido na carta atrás mencionada (Xavier-doc. 36, 2).
3 Também noutras cartas Xavier fala de lugar indeterminado onde se en­contra o rei, como aqui. É que, em tempo de guerra, Iniquitriberim estava em acampamento militar, ora num lugar ora noutro. Várias inscrições de 1545-1547, referentes a Iniquitriberim, encontram-se em acampamentos militares (SCHURHAMMER, Quellen).
4 Cf. Xavier-doc. 40.
44
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Manapar, 10 de Novembro 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo em Cristo Irmão
Recebe recados que o obrigam a falar com o rei. O portador, Aleixo de Sousa, foi para Coulão aborrecido com os pulas. De caminho para o rei, irá visitando as cristandades
1. Logo que cheguei a Manapar1, estando já de partida para ir aonde estava Aleixo de Sousa2, chegaram dois naires3 com uma carta de um português, o qual me escreve que fica, batizando as crianças que estão em Boarime4 e traz uma carta do vedor da fazenda (*Aleixo de Sousa) para mim e certos despachos6, pelos quais me é forçado ver-me com Iniquitriberim7. Aleixo de Sousa foi para Coulão e dizem que foi muito descontente com os pulas8. Não sei se é verdade. Eu parto a caminho do Cabo de Comorim por terra, visitando os lugares dos cristãos9 por batizar.

1 Entre a carta anterior e esta (Xavier-doc. 43 e 44), decorreram 50 dias. Neste tempo, Xavier visitou Iniquitriberim para lhe pedir ordens contra os adigares e tratar de assuntos do rei com o Governador. Não sabemos bem de que se tratava.
2 Aleixo de Sousa Chichorro, parente do Governador, em 1542 foi pela se­gunda vez para a Índia, onde foi vedor da fazenda até 1545. Em Cochim estava encarregado do carregamento das naus para Portugal (CORREA, Lendas da Índia). Em 1558 voltou terceira vez para a Índia, onde morreu em 1560.
3 Nair (nâyar): «classe nobre e militar do Malabar» (DALGADO, Glossário II 92).
4 Ovari, aldeia de paravas, a sul de Periya Tâlai (Nanguneri Taluk), onde em 1644 havia 400 cristãos e em 1914 +/- 1.500.
6 Talvez com a resposta do Governador sobre o que pensava da ajuda a dar ao rei.
7 Xavier é que teria de levar estes despachos a Iniquitriberim. Em Ovari ter-se-á depois inteirado de que eram favoráveis a Iniquitriberim.
8 Parece, portanto, que o próprio Aleixo de Sousa foi à Pescaria (provavelmen­te ao Cabo de Comorim) para levar a termo as negociações. Correa informa que o vedor não ficou contente com os pulas, adversários de Iniquitriberim, pois diz: «O vedor mandou lá o homem e andaram em recados sem nunca virem a nenhuma conclusão, com que se não fez nada» ( Lendas da Índia). Por essa razão decidiu, em nome do Governador, a favor de Iniquitriberim. O rei, agradecido, deu a Xavier 2.000 fanões para a construção de igrejas nos seus territórios (Xavier-doc. 50, 5); além disso, o mesmo rei e o seu aliado, Mârtanda Varma, rei de Travancor, permitiram que 10.000 macuas fossem batizados, como refere Xavier na carta seguinte.
9 Desde Manapar até ao cabo de Comorim, numa distância de 100 km, eram 8 as aldeias cristãs: Pudukare, Periya Tâlai, Ovari, Kûttankuli, Idindakarai, Peru­manal, Kumâri Muttam, Cabo de Comorim (Kanniyâkumâri). Além disso, mais duas aldeias para lá do cabo: Kovakulam e Râjakkamangalam.

Pede que visite os cristãos de Tuticorim e diga ao chefe da pesca que exclua os pescadores que roubaram casas aos cristãos perseguidos
2. Segunda-feira10, ou quando a vós bem vos parecer, folgaria que visitásseis os cristãos de Tutucorim. [Porque naquelas choupa­nas não há lugar onde se ajuntem, ajuntai-os fora, no campo: aí os ensinareis11. Direis, da minha parte, a Nicolau Barbosa12, que não chame – os que estão nas casas dos que foram desterrados delas de fazer coisa mal feita, e que sobejam as passadas. Tutucorim13] – a fazer pesca do chanco14 os que ainda estão lá: é que não é minha vontade que gente tão desobediente, ou por melhor di­zer, cristãos arrenegados estejam gozando o fruto do nosso mar15. E dizei-lhe [a Nicolau Barbosa] que se guarde e se os de Punicale quiserem ir pescar o chanco às ilhas de Tutucorim, que vão em boa hora.

Na próxima visita ao rei não tem medo de passar por terras de perseguidores, pois até acha o mar­tírio mais proveitoso à missão
3. Nas vossas orações e nas desses meninos me encomendo muito. Eu, com tanta ajuda, não tenho medo dos medos que estes cristãos me metem, dizendo que não vá por terra, porque todos os que querem mal a estes cristãos me desejam muito mal. Eu estou tão enfadado de viver, que julgo ser melhor morrer por favorecer a nossa lei e fé, vendo tantas ofensas quantas vejo fazer, sem acudir a elas. Não pesa senão que não fui mais à mão aos que sabeis que tão cruelmente ofendem a Deus.

Nosso Senhor seja sempre em vossa ajuda e favor. Amen.
De Manapar, a dez de Novembro de 1544
Eu parto logo para Punicare16 e o P. Francisco Coelho vai visitar os cristãos que estão em Virandapatanão17.
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

10 Dia 17 de Novembro.
11 Os cristãos que tinham seguido as ordens de Xavier, viviam fora de Tutico­rim, nas ilhas e território de Iniquitriberim.
12 Deste Nicolau Barbosa, nada mais se sabe.
13 Vettumperumâl tinha expulso os cristãos e Xavier tinha-lhes proibido voltar, antes de o rei dar alguma satisfação. Os que, entretanto, tinham ocupado as casas dos fugitivos, parecem ser da fação daqueles que se recusaram a ir para território de Iniquitriberim.
14 A pesca das conchas chanco (turbinella pyrum) começava em Setembro
15 Os portugueses eram senhores do mar (Xavier-doc. 17, 6).
16 Pudukare, ao sul de Manapar.
17 Vîrapândyanpatanam.
[*Este sentimento expansivo de dor, escapado da grande alma de Xavier, justificava-se pelas prepotências e extorsões que os portugueses exerciam para com os desgraçados índios, e pelo desregramento da sua conduta, que criava obstáculos aos progressos do Cristianismo, ou levava os neófitos a deploráveis reincidências. Porém Deus reservava uma grande consolação ao seu apóstolo.

É bem-vindo à Terra perigosa e dom das línguas - Quando Francisco Xavier, acompanhado somente de Vaz Fernandes, entrou  nas terras do reino de Travancor, a população correu a cercá-lo... não para o massacrar, como haviam receado os cristãos, mas sim para o ver e ouvir...
A língua daqueles povos não tem semelhança nenhuma com a dos países já percorridos pelo nosso Santo; é uma língua inteiramente nova para ele, e contudo fala de Deus àquele povo que o cerca e o povo compreende-o, bate as palmas e aplaude as verdades que ouve!... E Xavier também compreende o que aquela gente lhe diz, e estabelecem-se desde logo entre eles relações de afecto e longa discussão que maravilha a todos!
Xavier fala aquela língua bárbara e pronuncia-a como um natural de Travancor! Exprime-se com a mesma facilidade como se falasse o português ou o francês!... Era porque o ilustre apóstolo estava sendo "guiado pelo Espírito Santo" como predissera, cinquenta anos antes, o santo mártir Pedro da Covilhã, e o Espírito Santo o favorecia com todos os seus dons, como prova incontestável da sua presença.
Até aqui tínhamos visto Francisco Xavier profetizar e operar admiráveis milagres; porém vemo-lo possuindo agora o dom das línguas. Para toda a parte para onde vá daqui em diante, os povos o compreenderão e ele também os compreenderá; e no seu entender, o compreendê-los e ser compreendido, era o mesmo que ter já feito uma conquista para Jesus Cristo e para a sua Igreja.

Grandes prodígios: Batizados e igrejas - Toda a costa de Travancor se submeteu à obediência do Evangelho à medida que Xavier a percorreu, e havendo o rei, a seu pedido, autorizado os seus vassalos a professarem abertamente o Cristianismo, foram imediatamente construidas quarenta e cinco igrejas pela piedade dos neófitos [novos cristãos]; em um mês somente baptizou o apóstolo dez mil pagãos!
Em cada aldeia que visitava, reunia todos os habitantes, homens, mulheres e crianças; conduzia-os a um campo, e ali colocava os homens de um lado, as mulheres de outro, e para ser ouvido de todos, subia a uma árvore e lhes anunciava as verdades cristãs. Era tal o entusiasmo dos pagãos quando o ouviam, que logo depois da instrução corriam aos seus pagodes e os destruíam completamente.

Perseguição a Francisco - Os brâmanes, desesperados pelos sucessos, muitas vezes o esperavam, na sua passagem, no escuro da noite, lanceando sobre ele um chuveiro de flechas, das quais só uma lhe chegou e só pôde ferir muito de leve a pele; deitou algumas gotas de sangue e nada mais sofreu: a Providência velava pelo seu escolhido.
Desconsolados os brâmanes, pelos maus resultados das suas tentativas, tentaram inutilmente outros meios; lançaram fogo a muitas casas, esperando que ele se achasse, refugiado em algumas delas: também isto foi em vão. Deus guardava o seu "vaso de eleição", e todos os esforços do inferno para o quebrar e destruir deviam ser ineficazes.
Os cristãos, aterrados e temendo pela vida do seu amado Padre, cercavam e vigiavam a distância e bem armados, a casa em que ele se abrigasse; porém numa noite o Santo viu-se forçado a fugir para evitar o incêndio de toda a aldeia em que se achava.
Acompanhado de uma numerosa guarda de neófitos fiéis, ganhou Xavier o campo, subiu a uma árvore, e aí se ocultou entre as folhas esperando o dia; aquele expediente salvou-o da raiva infernal dos sacerdotes idólatras.

Guerra aos cristãos: “a nossa arma é o crucifixo” - Neste meio tempo os Badegás, contra os quais as medidas do rei de Tranvancor haviam sido improfícuas, fizeram uma nova invasão à Costa e atacaram precisamente os pescadores de Travancor, do lado do Cabo Comorim. Desta vez era um exército sob o comando do naire de Madurá, capitão de conhecida experiência; ruão se tratava, pois, duma surpresa, mas sim duma guerra aberta e declarada.
O rei de Travancor reuniu as suas tropas, pô-las também em pé de guerra e marchou contra o inimigo. Anuncia-se a Xavier esta aflitiva notícia. O apóstolo cai de joelhos, e prostrando a fronte no pó, exclama:
"Senhor! lembrai-vos que sois o Deus das Misericórdias infinitas, o protetor de vossos fiéis cristãos! não abandoneis, pois, à raiva daqueles lobos devoradores o rebanho de que me fizestes pastor! Que os novos cristãos, tão fracos ainda na fé, não se arrependam de a ter abraçado! Que os infiéis não tenham a superioridade de oprimir aqueles que depositam as suas esperanças somente em Vós!"
Depois desta oração, ergueu-se cheio de força, de coragem e de resolução; seu semblante parecia refletir um raio divino:
"Segui-me! disse ele aos cristãos que o cercavam naquele momento; segui-me! Deus é por nós!"
E tomando o seu crucifixo, partiu à testa dos seus cristãos, como o conquistador marcha em busca da vitória. Chegado à planície, pela qual vinham os inimigos formados em linha de batalha, Xavier avançou até ao alcance da voz, ali se deteve, elevou o seu crucifixo, e em tom dum soberano. que fala aos rebeldes, disse:
- Suspendei! Em nome do Deus vivo proíbo-vos que avanceis um só passo mais! e, em seu lugar, vos ordeno que retireis imediatamente!
Os inimigos, fulminados por aquelas palavras, não se atrevem a avançar nem podem retirar-se...
- Que vem a ser isto? Gritavam os que estavam na retaguarda. Para diante!
- Não podemos avançar um só passo, respondem os da primeira linha; temos diante de nós um gigante vestido de negro, e que lança pelos olhos flechas de fogo!...
Parecia inacreditável o que ouviam, e por isso alguns de entre os mais intrépidos avançam e vão tomar a vanguarda das tropas... Porém o gigante formidável aparece-lhes ameaçador e terrível!
Eis que se resolvem a fugir, e se precipitam uns sobre os outros, despedindo gritos de raiva e de terror; a confusão e a debandada torna-se horrorosa e eles atropelam-se e despedaçam-se; a voz do chefe não é ouvida, e cada um cuida da sua segurança e salvação pessoal, acrescendo que não podem efetuar a fuga senão através de mil dificuldades.

Reconhecimento aos prodígios - Os neófitos, satisfeitos por seu lado, correm a anunciar e a propalar este maravilhoso acontecimento por todas as aldeias vizinhas; a noticia chega ao longe, e o rei de Travancor, que chegava, logo depois, à frente dos seus para combater os Badegás, exclama que quer ver o grande homem que acaba de operar aquele prodígio.
Xavier presta-se aos seus desejos; o rei abraça-o, agradece-lhe calorosamente e em termos os mais pomposos, terminando a sua arenga indiana por lhe dizer:
- Eu chamo-me o grande Rei e quero quede hoje em diante os meus vassalos vos chamem o grande Padre!
- É a Jesus Cristo unicamente, responde Francisco Xavier, é ao Deus dos cristãos que todos devemos render graças; vós não deveis ver em mim senão o instrumento, dos mais insignificantes, que nada pode fazer por si só.
Conquanto o rei não percebesse a resposta do apóstolo, não lhe pediu explicações. Ele não queria para si a religião que não permite o vício; porém pretendia que ela se propagasse nos seus estados para satisfazer a Xavier.
Com este fim, fez publicar um édito pelo qual ordenava aos seus vassalos que obedecessem ao grande Padre como a si próprio; por este édito renovava ao mesmo tempo a autorização de se poder professar abertamente a religião do seu irmão Xavier, grande Padre do reino de Travancor. Para facilitar as coisas remetia o grande Rei, repetidas, vezes, ao grande Padre, consideráveis somas de dinheiro, que ele distribuía pelos pobres.

Com o milagre fazem-se cristãos: morto que ressussita - O nosso Santo percorreu toda a Costa com o mesmo resultado que tivera à sua chegada, porém com maior liberdade. Em Coulão, próximo do Comorim, encontrou maior resistência; pregava já por espaço de alguns dias, sem ver cair a seus pés senão um pequeno número de idólatras.
Xavier não estava habituado a ver que a palavra de Deus obtivesse tão poucos frutos; sua alma contrista-se.
Um dia; cercado de pagãos que o ouviam com indiferença, o seu semblante parece inflamar-se repentinamente, sua vista fixa-se no céu e exclamou derramando copiosas lágrimas de dor: "Senhor! todos os corações são vossos! Podeis, se quiserdes, aplacar os mais obstinados, enternecer os mais duros! Dai hoje esta glória ao sangue de Jesus Cristo, ao nome do vosso divino Filho!"
E voltando-se para os seus ouvintes, diz:
- Ora bem! Não acreditais na minha palavra? Crede então no que pode ser acreditável! Que provas de verdade quereis vós que vos apresente?
Naquele momento, lembra-se que na véspera um homem fora enterrado nas proximidades do sítio em que estava a falar:
- Abri, disse ele, aquela sepultura que fechastes ontem: tirai dali o corpo, mas certificai-vos primeiro se ele está realmente morto!
Os índios dirigem-se logo em grande número à sepultura que haviam encerrado na véspera, e tiram dali o cadáver:
- Grande Padre, ele cheira já muito mal; não há dúvida que está morto, dizem eles ao Santo que se tinha aproximado do grupo.
- Colocai-o além.
Depositaram o corpo no chão, aos pés do apóstolo, que ajoelhou por um momento, e depois levantando-se cheio de segurança, dirigiu-se ao cadáver:
- Em nome do Deus vivo, te ordeno que te levantes para provar as verdades que prego!
No mesmo instante o morto levanta-se, cheio de vida, cheio de saúde, cheio de vigor, e a multidão bate palmas, chora, tripudia, lança-se aos pés de Xavier e pede o batismo, gritando e exclamando que o único e verdadeiro Deus é o do grande Padre.

Mais ressurreição - Morrera na mesma Costa, em Mutan, na antevéspera, um jovem cristão. Conduziam-no para o túmulo que lhe era destinado, acompanhado dum numeroso séquito de parentes e amigos, porque o falecido pertencia a uma das mais consideradas famílias da cidade.
Xavier encontra o préstito, e comove-se da dor profunda do pai e da mãe, que acompanhavam também os tristes e últimos restos do filho; olha para eles com terna compaixão e os desconsolados pais sentem, naquele momento, passar ante si um raio de esperança. Lançam-se aos pés do Santo e abraçando os seus joelhos, dizem-lhe:
- Grande Padre! restituí-nos nosso filho! Se dirigirdes uma palavra de oração a Deus, ele o ressuscitará! Grande Padre! uma só palavra de oração!
Xavier, enternecido por uma tão grande dor, renova o milagre operado outrora pelo Salvador do mundo, para com a viúva de Naim. Toma água benta, faz um sinal da cruz, asperge o morto e tomando-o pela mão ordena-lhe que, em nome de Deus, se levante, e o rapaz ergue-se, e Xavier entrega-o à sua ditosa família!
No mesmo lugar onde ele foi ressuscitado fez a sua família erigir uma magnífica cruz, e ali vinha, de muito longe, orar e agradecer a Deus um tal milagre. Todo o reino de Travancor quis ver e conhecer de perto o grande Padre, e todos que o vissem prostravam-se a seus pés pedindo o batismo.
Poucos meses foram bastantes para que o ilustre apóstolo conquistasse para Jesus Cristo toda aquela extensão do país. E depois de ter chamado para ali alguns missionários para cultivar aquele campo que produzia tão consoladores frutos, separou-se dos seus queridos neófitos, a fim de ir levar a luz do Evangelho às regiões mais afastadas.

Com o Mártir a cruz de Cristo engrandece - Era meia-noite; todos dormiam em Jafanapatão depois de um dia de vivas agitações e de cruéis angústias; reinava a tranquilidade por toda a parte; a lua inundava o espaço com a sua suave luz, as estrelas cintilavam no céu; era, finalmente uma das mais belas noites das regiões tropicais.
No vale, do lado ocidental da cidade, a meia encosta, na extremidade duma floresta de caneleiros, ouviu-se um ligeiro rumor, e um homem, que pelo traje e pela cor fácil era reconhecer-se por um europeu, saiu da floresta, olhou à direita e à esquerda, escutou como se temesse alguma surpresa, e seguro, sem dúvida, pela sua observação, desceu a vereda que separava a floresta duma vasta plantação de canas de açúcar, cujas altas -varas o encobriam completamente.
Chegado à base da colina, e entrando num terreno quase descoberto, dirigiu-se a uma árvore que parecia conhecer, e pôs-se a cavar a terra com toda a atividade, suspendendo o trabalho de espaço a espaço para enxugar o rosto, observar de novo e prestar ouvidos por alguns momentos.
Aquele trabalho foi longo porque o estrangeiro não estava, por certo, habituado àquela espécie de fadiga. Quando conseguiu cavar na extensão e profundidade das dimensões que pretendia, afastou-se alguns passos do lugar; ajoelhou e inclinando-se para o solo ergueu-se logo, levando nos braços o cadáver dum índio. Ainda havia sangue no cadáver!...
O estrangeiro beijou aquele sangue, levou o índio morto para a cova que acabava de abrir, tornou a deitar a terra que extraíra, orou alguns momentos, e tomando de novo pela vereda por onde viera, desapareceu na floresta.
Algumas horas depois, cada um voltava à sua vida habitual, e os primeiros índios que passaram próximo do terreno onde o estrangeiro enterrara o cadáver fizeram ouvir gritos de surpresa que atraíram de muito longe todos os insulares disseminados pelos campos. Estes por sua vez também soltam altos gritos; a grande noticia espalha-se pela cidade, o rei é sabedor, tudo corre ao vale ocidental, e os gritos crescem com uma espécie de frenesi satânico.
Sobre a terra removida de fresco, via-se distintamente estampado o sinal duma cruz; esta marca era tão perfeita que não parecia ser obra de homem; daí os gritos de raiva do povo pagão excitado pelos brâmanes que viam naquela aparição um infalível caminho para a conversão dos idólatras.
O rei de Jafanapatão ordenou que se lançasse sobre a marca milagrosa uma considerável quantidade de pedras misturadas com terra; porém pouco depois a cruz formou-se de novo sobre aquele montão, tão perfeita como de antes.
"Ordeno, disse a majestade indiana, que se remova tudo quanto ali está, que se calque aos pés, que se destrua! Eu proíbo que a cruz torne a aparecer!"
Foi obedecido com prontidão; a cruz não tornou a aparecer, a multidão retira-se, e os brâmanes fazem ouvir gritos e exclamações de vitória: triunfam finalmente, do Deus dos cristãos!
Na manhã seguinte novo alarme: a cruz reaparece tão bela, tão perfeita como na véspera! O rei é logo avisado, corre para ali e ordena que se revolva tudo de novo em sua presença; quer a todo o preço obrigar o Deus dos cristãos a bater em retirada diante de si. Põe mãos à obra...
Mas, oh! prodígio! aquela cruz, que trabalhavam por fazer desaparecer, renasce luminosa! eleva-se e cresce à medida que se distancia da terra! Chegando a uma grande altura e tomando gigantescas proporções, conserva-se suspensa por muitas horas, e os pagãos maravilhados, exclamam em altos gritos que o Deus dos cristãos é todo-poderoso, que os seus ídolos nunca operaram coisa semelhante, e que a religião do grande Padre de Travancor é a melhor, pois que é a mais forte na luta.
Aquelas palavras são denunciadas ao rei pelos brâmanes; o rei, cuja cólera não conhecia limites, fez publicar um édito pelo qual ameaçava com a morte todo e qualquer vassalo de Jafanapatão que mostrasse respeitar, por qualquer modo que fosse, a religião do grande Padre Xavier, e preferisse o seu Deus aos ídolos reconhecidos como únicas divindades do rei e de todo o país sujeito ao seu domínio.
A sepultura sobre a qual apareceu a cruz maravilhosa está ali para atestar que com um rei como aquele, que então reinava, a execução segue de perto a ameaça, e que ninguém deve contar com a sua clemência.
Aquela sepultura encerrava o corpo do seu próprio filho, o primogênito da sua família; fora votado à morte por ordem do rei seu pai! Ele fora degolado... só por que havia reconhecido a divindade da religião cristã, e por que recusara voltar ao culto dos ídolos; preferira morrer... e morrera com a coragem dos primeiros mártires!
Seu pai ordenara que o corpo fosse lançado ao campo para que servisse de pasto aos animais ferozes; mas as feras respeitaram-no, e Fernando da Cunha, negociante português que instruíra o jovem príncipe nas verdades da fé, viera nas trevas da noite, dar misteriosamente ao mártir a sepultura que lhe havia sido recusada por seu pai...
                                                                                    
Perseguição do rei de Jafanapatão aos cristãos - Eis aqui o que havia excitado a cólera do rei de jafanapatão. Os habitantes da ilha de Manaar, vassalos daquele príncipe, ouvindo falar dos prodígios operados por Francisco Xavier em toda a Costa da Pescaria, e das inumeráveis conversões que eram a sua conseqüência, enviaram-lhe emissários para pedir que os viesse instruir e baptizar.
Xavier, que não podia naquela ocasião abandonar os seus neófitos, mandara para ali um dos seus Padres, que em tempo obtivera a mais rica colheita.
Os brâmanes perdiam, assim, os meios de viver comodamente à custa da credulidade dos índios; desnorteados por se verem privados das suas oferendas, e não tendo também o direito de as exigir em nome dos seus ídolos, queixaram-se ao rei dos progressos do Cristianismo nos seus estados, e pediram justiça para um povo que ousava menosprezar a religião professada pelo seu soberano, destruir por toda a parte os pagodes, quebrar os ídolos e desacatar todos os deuses.
O rei, já inimigo da religião que reprovava os vícios a que ele se entregava, deu imediatamente ordem de massacre a todos os cristãos de Manaar, sem distinção de classes e de sexo, e aquela ordem bárbara foi fielmente executada; soubera ao depois que seu filho se dispunha secretamente a receber o batismo, e seu filho havia sido sentenciado à morte, como vimos!
A irmã daquele tirano era igualmente cristã de coração e de vontade; ela instruíra e educara naqueles preceitos o filho mais novo do rei e o seu próprio, e ambos anelavam o batismo; porém vendo a crueldade de seu irmão levada àquele excesso de raiva, a princesa temeu pelas vidas de seu filho e sobrinho, e resolveu afastá-los conquanto lhe fosse muito dolorosa aquela separação.
Confiou-os, pois, a Fernando da Cunha que os tirou secretamente de Jafanapatão e os levou a Manaar, onde deviam encontrar o pai de todos os cristãos das Índias, o nosso Santo, Francisco Xavier, cujo coração se achava dilacerado por aquela monstruosa perseguição. Ele recebeu-os com ternura inteiramente paternal; consolou-os e animou-os com a sua agradável e enérgica palavra, fazendo-os partir em seguida para Goa, onde encontraram, no colégio da Santa-Fé, uma nova família e os ternos cuidados da caridade cristã.
Sabedor o rei de Jafanapatão da fuga de seu filho e de seu sobrinho, expediu ordens para que os perseguissem e os conduzissem à sua presença a fim de mandá-los matar.
Fez mais ainda: seu irmão mais velho, a quem ele usurpara o trono e o poder, havia-se retirado para o continente; despachou emissários com ordem de descobri-lo, de o anatar e de lhe apresentarem a sua cabeça.
O fugitivo, a esta noticia, apressou-se a tomar o caminho de Goa; ali, vendo-se em segurança, sob a proteção dos portugueses, instruiu-se na religião que seu irmão perseguia cozas tanto encarniçamento, e arrebatado de prazer pela sua sã doutrina, pediu o batismo; logo que o recebeu prometeu solenemente fazer pregar o Cristianismo nos seus estados, se algum dia recobrasse seus direitos ao trono de Jafanapatão.]
45
A FRANCISCO MANSILHAS (PUNICALE)
Cochim, 18 de Dezembro 1544
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo Irmão em Cristo
Batismos em Travancor a caminho de Cochim. Próxima viagem a pedir ao Governador protecção militar para os cristãos de Jafanapatão
1. A 16 do mês de Dezembro, cheguei a Cochim. Antes de che­gar, batizei todos os macuas1, pescadores que vivem no reino de Travancor2. Deus sabe quanto folgaria de tornar logo, para acabar de batizar os que ficam3, se não parecesse ao senhor Vigário geral4 que era mais serviço de Deus ir aonde está o senhor Governador para negociar [o castigo do rei] de Jafanapatão5. Partirei para Cambaia6, daqui a dois ou três dias, num catur muito bem equipado. Espero tornar muito cedo, com tudo despachado conforme ao serviço do Senhor Deus.

Encontro com o Vigário geral que vai a Portugal. Notícias chegadas em cartas dos de Goa e dos de Portugal. Licenças para a ordenação sacerdotal de Mansilhas. Novos missionários da Europa já a caminho da Índia
2. O Senhor Bispo não virá a Cochim neste ano7. O Vigário geral parte este ano para Portugal. Espero em Deus que tornará muito cedo. Diogo8 está em São Paulo: estava muito desejoso de vir. O P. Mestre dar muitas graças a Deus Nosso Senhor os muitos bens que Diogo e Micer Paulo outro italianoportugueses. Praza a Deus trazê-los a salvamento. A nenhum deles conheço: não é nenhum dos que deixamos. Há mais de sessenta, espera de saúde com todo o colégio. Recebi notícias de Portugal, por muitas cartas que de lá me vieram. Veio a vossa licença para vos ordenardes de Missa, sem terdes necessidade de património nem de benefício. Desta licença parece-me que não tínheis neces­sidade, porquanto o Senhor Bispo, sem esta licença, vos ordenaria, como ordenou de Missa aos Padres Manuel e Gaspar9, os quais estão em Cochim para ir aí fazer fruto. Dois companheiros nossos vêm nas naus que até agora não chegaram. Parece-me que invernarão em Moçambique ou arribarão a Portugal10: um deles é português11 e o 12. O Rei escreve-me muitos bens destes nossos dois ­tudantes da nossa Companhia na universidade de Coimbra. É coisa deles me escrevem. São quase todos portugueses, do que eu muito folgo. Dos companheiros de Itália tenho muito boas notícias. Mas porque, daqui a um mês, espero que nos veremos13 e vos mostrarei todas as cartas, não digo mais.

1 Os macuas (mukkuvan) eram pescadores no mar de Malabar. Foram batizados por Xavier em Novembro de 1544, depois de os reis Iniquitriberim e Mârtânda Varma lho terem permitido, em recompensa da sua valiosíssima intercessão junto do Governador a favor de ambos. Já em 1537 o rei de Travancor tinha prometido que deixaria fazer cristãos os pescadores daquela Costa, se o Governador lhe vendesse cavalos de guerra.
2 Travancor, em sentido restrito Pûvare, pertencia a Râjakkamangalam. As aldeias, cujos habitantes foram batizados por Xavier, são as seguintes, de norte para sul: Povar (Pûvar), Colancor (Kollankod), Valevalé (Pallavilaturai), Tutur (Tuttûrturai), Puduturé (Putturai), Temguapatão (Taingapatam), União (Injam), Morala (Midalam), Vaniacur (Vanniakudi), Coléche (Kolachel), Carea­patão (Kadiapattanam), Calmutão (Muttamtura), Palão (Pallam). Assim o atesta Henriques em 1558 (SHURHAMMER, 6147). Teriam sido mais de dez mil batismos.
3 Manakkudi.
4 Miguel Vaz Coutinho, doutor em direito canónico, partiu em 1533 para a Índia como Vigário Geral. Voltou a Portugal em 1545 para tratar de assuntos rela­tivos às missões. Regressou à Índia em 1546, onde veio a falecer a 11 de Janeiro de 1547. Era leigo e ficou sepultado em Chaul (SCHURHAMMER, Ceylon 137).
5 Os careas, pouco antes batizados em Patim (Mannâr) por ordem de Xavier, provavelmente em Outubro desse mesmo ano de 1545, eram cerca de 600. Todos eles foram trucidados, por ordem do rei de Jaffna, por se terem convertido ao cristianismo (SCHURHAMMER, Ceylon 263-264; 290; Xavier-doc. 48,3).
6 Cambaia, situada entre Chaul e Bombaim, estendia-se então até ao rio Nagotana (BARROS, Compilação 4, 5, 1). Quando veio de Goa para Cochim, o Governador dirigiu-se a Cambaia para visitar Diu e Baçaim (CORREA IV 414); de regresso a Goa, no dia 18 de Dezembro já se encontrava em Chaul (SCHURHAMMER, Quellen 1322).
7 Por isso Mansilhas terá de ir a Goa para receber a ordenação sacerdotal.
8 Diogo Fernandes, candidato à Companhia de Jesus, partiu de Lisboa com Xavier em 1541 e ficou com os outros companheiros na ilha de Moçambique à es­pera de seguir para Goa (nota marginal no cod. Ulyssip. I, f.1; e carta de Lancilote a Simão Rodrigues em 20 Out. 1545, Goa 10, 6). Era ainda jovem e parente do P. Simão Rodrigues: ajudava os Padres no colégio de S. Paulo e no hospital (Lancilo­te, ib.; cf. Xavier-doc. 49,2). Os catálogos posteriores chamam-lhe, erradamente, Diogo Rodrigues (CAMARA MANUEL 129) e também Padre (FRANCO, Sy­nopsis).
9 Dois diáconos, oriundos de Tuticorim, que em 1542 tinham ido com Xavier para a Costa da Pescaria.
­­­­­­­­­­­10 Tiveram mesmo de voltar para Portugal (SCHURHAMMER, Criminali 263-264).
11 Pedro Lopes, S.I., nascido em Nogueira, no distrito de Vila Real, entrou na Companhia de Jesus em 1542.
12 António Criminali S.I., nascido em Sissa (Parma) em 1520, entrou na Com­panhia de Jesus em 1542, partiu para a Índia em 1545, morreu mártir na aldeia de Vêdâlai em Junho de 1549 (SCHURHAMMER, Criminali 231-237;).
13 Em Cochim, por onde Mansilhas deveria passar, em fins de Janeiro, a cami­nho de Goa aonde iria receber a ordenação sacerdotal.

Pede a Mansilhas que, à vinda para a orde­nação sacerdotal, visite os cristãos que deixou em Travancor, deixando lá catequeses organizadas
3. Logo, vista esta carta, pelo amor e serviço de Deus Nosso Senhor, vos rogo muito que vos façais prestes para virdes visitar os cristãos da praia de Travancor, que agora batizei. Em cada lugar, metereis uma escola para ensinar meninos, [com um mestre que os ensine. Podereis tomar do dinheiro que vos for necessário para o mestre e ensino dos meninos] até 150 fanões. Por todos os lugares dessa Costa, deixareis pagos os que ensinam os meninos, até à pesca­ria grande14. Para vossos gastos, pedireis dinheiro ao capitão.

Um cristão malabar levá-lo-á a outra aldeia para batizar macuas que lhe pediram o batismo
4. Em Manapar tomareis um tone até Careapatão15 e, antes de chegardes a Careapatão, ireis a Monchuri16, que é um lugar de macu­as, os quais não são batizados. Este lugar está do Cabo de Comorim a uma boa légua. Baptizá-los-eis, porque muitas vezes o requereram e não pude ir lá17. António Fernandes, um cristão malavar, irá em vossa busca com um catur, para andar convosco até que se acabem de batizar os que ficaram. É homem muito de bem e zeloso da honra de Deus. Conhece essa gente: sabe bem como havemos de tratar com eles. O que ele vos disser, fá-lo-eis, sem ir-lhe à mão em nenhuma coisa, porque assim o fazia eu, e achava-me sempre bem. Rogo-vos muito que vós assim o façais.

Colaboradores que há-de trazer consigo para deixar em Travancor
5. Trareis convosco Mateus e o meirinho que andava comigo, de Viravãodepatanão18, e os vossos moços e algum canacapula19, que saibam escrever, para, em cada lugar, deixar as orações escritas, para que as aprendam, grandes e pequenos. Em cada lugar haja um mestre que ensine a doutrina. Servir-vos-eis do canacapula para vos escrever, se for necessário], algumas olas [folhas], e para ler as que vos escreverem. Pagareis a este canacapula do dinheiro do Rei que, para isso, vos dará o capitão. Ao P. João de Liçano20, encomendareis o cargo que vós aí tínheis de batizar e ensinar. Pela pressa de Fran­cisco Mendes21, não vos escrevo mais largo.
Nosso Senhor seja sempre em vossa ajuda, como eu desejo que seja em minha.
De Cochim, a 18 de Dezembro de 1544.
Vosso em Cristo caríssimo Irmão, FRANCISCO

14 Assim se chamava a pesca que se realizava em Março de cada ano, para a distinguir da pescaria pequena (pescaria dos chancos) que se realizava em Setembro (cf. Xavier-doc. 44).
15 Kadiapattanam, a oeste do Cabo de Comorim, distinto de Careapatão (Pa­tim) na ilha de Mannâr.
16 Manakkudi, aldeia de macuas, a oeste do Cabo de Comorim (Agastisvaram), onde havia 660 cristãos em 1644.
17 Parece, portanto, que Xavier deve ter começado a batizar a partir do norte, perto de Pûvar.
18 Vîrapândyanpattanam.          
19 Canapula (Kanakkapillei): «escrivão, contador, administrador, catequista».
20 Juan de Lizano, sacerdote diocesano espanhol (Xavier-doc. 55,1; 56,1), em Dezembro de 1556 já tinha morrido.
21 Não há dados certos sobre ele. Talvez se trate de quem fala CORREA III 281; CASTANHEDA 7,78.
[*Ajuda de Xavier aos perseguidos - O nosso Santo experimentava então uma grande e bem intensa dor, por ver assim perseguidos e ameaçados todos aqueles que desejassem renunciar os ídolos e reconhecer Jesus Cristo; derramava perante Deus lágrimas abundantes, mas gozava ao mesmo tempo de grandes consolações
O infatigável apóstolo não se deixou ficar inactivo à vista daquela desolação.
Achava-se o vice-rei então em Cambaia, porém o coração de Xavier não cedia senão ante a vontade divina e nunca perante as dificuldades materiais, nem pela má vontade dos homens.

Chamou o Padre Mandas, confiou-lhe o cuidado das povoações da Costa da Pescaria e partiu.