178. MALACA 07 - 12/1547

Intenso trabalho pastoral em Malaca antes de seguir para a Índia e desejo do povo que funde ali casa da Companhia de Jesus
13. Em Malaca estive quatro meses54, esperando tempo para na­vegar e vir para a Índia. Nestes quatro meses, tive muitas ocupações, espirituais todas. Pregava duas vezes, todos os domingos e festas: aos portugueses, pela manhã, na Missa e, depois de almoçar, aos cristãos da terra, explicando em cada festa, aos novamente cristãos, um artigo da fé. Acorria tanta gente que foi necessário ir para a igreja maior55 da cidade. Em confissões contínuas estava muito ocupado. Tanto que, por não poder cumprir com todos, estavam muitos mal comigo. Mas, por serem estas umas inimizades fundadas num abor­recimento de pecados, não me escandalizava deles: antes me edifi­cavam vendo os seus santos propósitos. Aos domingos e festas eram muitos os que comungavam.

47 Sobre os costumes depravados de Hairun, pode ver-se SCHURHAMMER, Quellen 1378, 1438, 6117. Rebello, que era favorável ao rei, assegura que ele tinha cem mulheres contando as escravas. Escrevia isto em 1561, quando Hairun era já velho, acrescentando que não queria ser cristão para não renunciar aos seus vícios. Refere o mesmo autor que os reis da Molucas têm geralmente todas as mulheres que podem sustentar.
48 Alfaquis: o mesmo que caciz, isto é, sacerdote maometano.
49 Segundo Rebello, Hairun tinha em 1561 onze ou doze filhos. O menciona­do no texto não era o primogénito.
50 Hairun não cumpriu a promessa e, por isso, Xavier fez que fossem revoga­dos os decretos obtidos a favor do pretendente (cf. Xavier-doc. 82,4; 126, 1.3; SCHURHAMMER, Quellen 4175).
51 Nuno Ribeiro, S.I., entrou na Companhia de Jesus em Coimbra em 1543. Em 1546, já sacerdote, partiu para a Índia e em 1547 saiu de Goa com João da Beira para Malaca, a caminho das Molucas, onde trabalhou incansavelmente durante dois anos. Morreu lá mesmo a 22 de Agosto de 1549, envenenado pelos maometanos (F. RODRIGUES, Hist. I/1 468; SOUSA).
52 Nicolau Nunes, S.I., nascido entre 1525 e 1528, entrou na Companhia de Jesus em Coimbra em 1545. No ano seguinte partiu para a Índia, trabalhou desde 1547 nas ilhas de Moro e em 1557 foi ordenado sacerdote. Morreu em Goa em 1572.
53 Xavier partiu para Malaca em princípios de Junho (Doc. Indica I 364). Em princípios de Agosto saíram os três companheiros para Ternate (REBELLO, In­formação 299).
54 Mais de cinco meses, pois em Dezembro partiu para a Índia (Doc. Indica I 367).
55 Nossa Senhora da Assunção.

Todos os dias, depois de almoçar, ensinava a doutrina cristã. A esta doutrina acorria muita gente. Vinham os filhos e filhas dos portugueses, mulheres e homens da terra novamente convertidos à nossa fé. A causa por que vinham muitos, parece-me que era por­que sempre lhes explicava alguma parte do Credo. Neste tempo, estive muito ocupado em [re]fazer muitas amizades, por causa de os portugueses da Índia serem muito belicosos. Acabada de ensinar a doutrina cristã, ensinava aos meninos e à gente cristã da terra, uma Explicação que fiz sobre cada artigo da fé, em linguagem que todos entendem(*carta 58), conformando-me com as capacidades do que podem conseguir entender os naturais da terra, novamente convertidos à nossa santa fé. Esta Explicação, em lugar de orações lhes ensinava em Malaca como o fiz em Maluco, para fazer neles firme funda­mento de crer bem e verdadeiramente em Jesus Cristo, deixando de crer em vãos ídolos. Esta Explicação pode-se ensinar num ano, ensinando cada dia um pouco, palavras, que podem bem decorar. Depois que vão entendendo a história da vinda de Jesus Cristo, e repetidas muitas vezes estas explicações sobre o Credo, ficam mais fixas na memória. Desta maneira vêm em conhecimento da verdade e aborrecimento das vãs ficções que os gentios, passados e presentes, escrevem dos seus ídolos e de suas feitiçarias.
14. Nesta cidade deixei muito encomendado a um Padre de Missa57, que ensinasse aquela doutrina todos os dias, da maneira que eu ensinava. Assim mo prometeu de fazer. Espero em Deus Nosso Senhor que o levará adiante.
Fui muito requerido, à minha partida, de todos os principais de Malaca, para que fossem para lá dois da Companhia para pregar a eles e a suas mulheres e cristãos da terra, e para ensinar a doutrina cristã aos seus filhos e filhas e a todos os seus escravos e escravas, da maneira que eu o fazia. Fui tão importunado deles, e vejo que é tanto serviço de Deus Nosso Senhor, e uma dívida que lhes devemos todos pelo muito que amam a nossa Companhia, que me parece que tenho de fazer tudo o possível para que vão dois da Companhia este mês de Abril do ano de 1548: é que, neste tempo, partem os navios da Índia para Malaca e para Maluco58.

[*O apóstolo estremecido não teve pouco que fazer durante a sua permanência em Malaca; todos queriam confessar-se a ele. Que doce caridade! que tocante indulgência!

Xavier sabe tudo com o auxilio do Céu: “Pobreza sim! Avareza não”. João de Eiro viera de Ambóino com o nosso Santo, e sem nada lhe dizer, aceitou uma considerável soma que um rico português lhe deu para acudir às necessidades do santo Padre; mas era difícil ocultar-se uma coisa daquele gênero àquele a quem Deus esclarecia em tudo.
Xavier, que queria viver da pobreza evangélica em todo o seu rigor, achou tão culpável a ação de João de Eiro, que julgou dever puni-lo severamente. Ordenou-lhe que passasse' para uma ilha deserta, vizinha de Malaca, onde viveria e pão e água unicamente, e que passaria ali os seus dias em ração; acrescentando:
- Um tal ato de avareza é uma injúria feita à pobreza evangélica; ela deve ser expiada! Ide! não volteis sem que eu vos chame!
João de Eiro amava o santo Padre com tão terna afeição, que nem pensou em resistir e desobedecer; não hesitou nem um instante; deixou-o logo, fez a sua provisão de pão, foi desterrar-se na solidão que lhe era designada, e ali viveu cumprindo a ordem que recebera.
Um dia, durante a sua oração, aparece-lhe a divina Mãe com semblante severo; ele quer aproximar-se... ela repele-o e lhe diz que não deve pretender a honra de entrar na Companhia de Jesus, e desaparece.
João de Eiro, chamado poucos dias depois por Francisco Xavier, não lhe fala da sua visão; mas Xavier conta-lha com todos os detalhes. Eiro, que desde muito tempo desejava entrar na Companhia, julgou que podia negar o facto procurando persuadir-se que não passava dum sonho, tanto nele como em Xavier, e negou, portanto, resolutamente.
- Ide! disse-lhe o nosso Santo; eu sei a quem me deverei dirigir acerca disto. Vás faltastes à lealdade e amais o dinheiro; não podemos viver doravante juntos; separemo-nos, pois. Contudo, quero que saibais, para vossa consolação, que Deus vos iluminará e vos concederá a graça de vos receber um dia na Ordem de S. Francisco

[Aquela predição cumpriu-se como todas as outras do ilustre Xavier. João de Eiro era já religioso da Ordem de S. Francisco e nela vivia mui santamente, na época em que se colheram informações na índia para a canonização do grande apóstolo, informações nas quais ele concorreu com o seu testemunho, e prestou, sob juramento, todos os esclarecimentos sobre os factos que lhe diziam respeito e que, já de nós são conhecidas.].

Xavier, valente guerreiro em tempo de guerra pela honra cristã – (gritam) "Às armas! às armas! em socorro da praça! o inimigo está às portas! Às armas! bravos portugueses; às armas! bravos índios! às armas!"
Este grito de alarme retiniu subitamente no meio do silêncio da noite, nas ruas de Malaca, a 9 de Outubro de 1547.
Produziu um geral terror nos habitantes e todos correram às armas; eram duas horas da manhã. O tempo estava quente, um luar sinistro iluminava a cidade inteira; gritos longínquos, alegres e prolongados como os gritos de vitória, e multiplicados por numerosos ecos, misturavam-se com o estrondo das descargas sucessivas de uma formidável artilharia.
Homens, mulheres, crianças, índios, portugueses, toda a população enfim, está de pé em um instante. Cada um procura conhecer o perigo de que é ameaçado; dirigem-se ao porto... Está em fogo!
Todos os navios ancorados são presos das chamas, o incêndio que devora aquele rico meio de defesa, deixa a cidade à mercê dos bárbaros que a atacam tão traiçoeiramente! Contudo ela procura defender-se do interior pelo maior tempo possível, e consegue repelir os assaltantes que investem ferozmente e pretendem ocupar a fortaleza antes do dia.

Ao nascer do sol, sete pobres pescadores entram na cidade; tinham sido surpreendidos pelo inimigo, que depois de lhes cortar os narizes e as orelhas os enviava, assim mutilados, com uma carta do general em chefe do exército muçulmano a Francisco de Melo, governador de Malaca. 

[*O governador não se inquietaria absolutamente com aquela carta se pudesse dispor da sua marinha; porém todos os navios portugueses se achavam destruídos pelo inimigo, e não podia aceitar o combate naval; a situação era, portanto, embaraçosa; mandou pedir ao Padre Xavier que viesse auxiliar com o seu parecer o conselho reunido em sua casa.
Francisco Xavier acabava de celebrar a missa a Nossa Senhora do Monte; acode imediatamente ao chamamento de Francisco de Melo, que lhe dá a ler a carta de Soora, e lhe pede a sua opinião. Xavier, que, segundo a expressão de M. Crétineau-Joly, - "tinha o velho sangue de fidalgo nas veias" - respondeu-lhe:
- Senhor, o sultão é muito mais inimigo do Cristianismo do que de Portugal. Por honra da religião cristã é necessário aceitar-lhe o combate; um insulto semelhante não pode ficar impune! Se vós suportais aquela injúria deste rei muçulmano, a que se não atreverão todos os outros? Não! não! é necessário aceitar o desafio, e provar aos infiéis que o Criador do Céu e da terra é muito mais poderoso que o seu rei Alaradim.
- Mas, meu Padre, como quereis vós que vamos para a mar? Em que navios quereis que embarquemos? Dos oito que existiam no ancoradouro, só nos restam quatro cascos de fustas (barcas) arruinadas! e poderiam elas prestar-nos algum serviço contra uma esquadra tão numerosa?
- Mesmo se os infiéis tivessem um número de navios muito mais considerável ainda, respondeu Xavier, não seríamos nós os mais fortes, tendo o Céu por nós? E se Deus está por nós, quem está contra nós? Poderemos porventura ser vencidos combatendo em nome de Jesus Nosso Senhor?
O grande Xavier pronunciara aquelas palavras coze um acento tão inspirado, que não deixava hesitação por um só momento sobre a decisão a tomar, Dirigem-se todos ao arsenal; Francisco Xavier guia e anima a todos em geral e a cada um em particular: descobrem uma barca chamada Catar, em bom estado e destinam-na para o combate. Existiam sete barcas fora do serviço e ele julga que podem ser reparadas; porém Eduardo Barreto, capitão e diretor dos armamentos, declara a iniciativa impossível:
- Aos armazéns do estado, diz ele, falta neste momento tudo que é necessário para a obra da reparação e equipamento; demais, o cofre de reserva está absolutamente sem dinheiro.
Xavier agarra-se então aos sete capitães dos navios, membros do conselho; abraça-os e suplica-lhes que se encarregue cada um da reparação e do armamento duma fusta, e sem lhes dar tempo para responder, designa a cada um a sua, com tanta viveza nos movimentos, tanta grada na sua exigência e atração nas suas palavras, que todos aceitam com entusiasmo e empregam imediatamente naqueles trabalhos, mais de cem operários, à sua custa, em cada embarcação. Em cinco dias ficaram elas em estado de serem lançadas ao mar. Andréa Toscano, um dos mais distintos marinheiros, tomou o comando da Catar. Cada capitão vai comandar o barco que reparara, e recebe a seu bordo cento e oitenta soldados. Francisco Deza toma o comando da frota.
O heróico Xavier pediu para acompanhar a armada naval; os habitantes de Malaca opuseram-se tenazmente, considerando-se abandonados por Deus, se o santo Padre os deixasse num momento de tão grande ansiedade para eles. Dirigiram-se em massa à casa do governador para lhe suplicarem que retivesse o santo Padre; Francisco de Melo prometeu-lhes pedir aquele favor ao seu apóstolo deixando-lhe, contudo, a decisão:
Efetivamente, Xavier, não pôde resistir às suas solicitações e às suas lágrimas
- Sim, meus queridos irmãos, lhes respondeu ele, eu ficarei entre vós durante todo o tempo desta guerra; orarei convosco pelo triunfo da nossa valente armada, e espero que Deus, combatendo por ela, no-la restituirá vitoriosa.
Aquelas singelas palavras bastaram para acalmar a grande consternação do povo.
Últimos encorajamentos e falta de fé - Na véspera do embarque da expedição, Xavier, reuniu na igreja os oficiais e os soldados da armada naval:
- Eu vos acompanharia, lhes disse ele, de alma e coração. Vossas famílias pediram-me com tantas lágrimas que ficasse com elas para as consolar e amparar durante a vossa ausência, que não pude resistir às suas instâncias e à sua dor; mas seguir-vos-ei com os meus votos e as minhas orações. Elevarei as mãos para o Deus dos exércitos, enquanto vós arremeteis o inimigo do nome cristão. Combatei com valor, não para adquirir uma glória vã e transitória, mas uma glória sólida e imortal!
No calor do combate, dirigi a vista para o divino Salvador crucificado cuja causa defendeis e sustentais, e em vista das suas veneráveis chagas, não temais as feridas e a morte! Bem felizes vos deveríeis julgar se vos fosse permitido dar vida por vida...
- Meu Padre, exclamaram a uma voz todos aqueles bravos guerreiros, meu Padre, nós juramos aqui, perante Deus e perante vós, combater os infiéis até à morte! Juramos dar o nosso sangue até à última gota pela causa de Jesus Cristo l
-Este juramento impressiona-me profundamente, replicou Xavier, cujas lágrimas traíam a comoção que o dominava. Jesus Cristo ouviu-o, aceitou-o: vós sois de hoje em diante a falange de Jesus Cristo! e eu vou abençoar-vos em seu nome.
No mesmo instante, todos aqueles bravos guerreiros caem de joelhos, o grande apostolo implora para eles as bênçãos celestes, depois, ouve em confissão a cada um e administra-lhes a sagrada comunhão.
A expedição embarca na manhã seguinte com um entusiasmo que parece pressagiar a vitória. Levantam-se ferros... O navio almirante faz ouvir um ruído medonho!... Abre-se uma veia de água que deixa apenas o tempo necessário para salvar a equipagem, e o navio submerge-se!... O povo por toda a praia; grita vigorosamente contra a partida da frota, pede que se renuncie àquela expedição, revolta-se contra o santo Padre, não obstante toda a veneração, todo o amor que lhe inspira.
A equipagem do navio almirante estivera em tamanho perigo e tão próxima da morte, que aquele povo exasperado pelo receio duma nova desgraça, perdendo a consciência do que diz e do que faz, acusa de imprudente aquele de quem recusava separar-se dois dias antes.
O governador manda chamar o santo Padre, que o enviado encontra no altar quase no fim da missa; ele aproxima-se para lhe falar; o Santo acena-lhe que espere. Depois da missa, Xavier diz ao enviado do governador, sem lhe dar tempo de falar;
- "Ide dizer a vosso amo (governador) , da minha parte, que não nos devemos desanimar pela perda dum navio".
Conservou-se ainda por algum tempo em ação de graças aos pés do altar da Santíssima Virgem, e ouviram-lhe exclamar com todo o ardor de sua alma, antes de se retirar
"Meu Jesus, amor do meu coração! olhai-me dum modo favorável! considerai vossas adoráveis chagas! lembrai-vos que elas nos dão o direito de pedir-vos o que desejamos! E vós, Virgem Santa, sêde-me propícia!"
E, levantando-se, corre à fortaleza, onde o conselho reunido o aguardava e diz ao governador:
- Que é isto, pois! vós perdeis a coragem por tão pouco?
- Mas, meu Padre, o povo está exaltado! Fostes vós que promovestes esta triste crise...
- Vamos ao porto, senhor, tudo isto vai arranjar-se, eu vo-lo prometo.
A gente que acabava de escapar da morte estava consternada. Xavier enche-se de toda a sua coragem para lhes dizer:
- Sêde firmes na vossa resolução, não obstante esta desgraça que Deus não permitiu senão para experimentar a vossa fidelidade. Ele vos salvou do naufrágio, como fim de vos obrigar a cumprir a promessa que lhe fizestes sob juramento!
- Sim! sim, meu Padre! nós sustentaremos e cumpriremos o nosso juramento!

Xavier: o bom líder persiste e gera confiança -  Tal foi o grito de expansão unânime da guarnição do navio almirante, ao qual todas as outras respondem com o mesmo entusiasmo da véspera. Apesar disso, o governador, deixando-se influenciar pela oposição dos habitantes, persiste em declarar a guerra impossível... Eleva-se então um brado formidável das fileiras do exército; os capitães encarregam-se de pedir a palavra em nome das equipagens, e anunciam ao governador que os soldados preferem a morte do a rendição; que eles juraram solenemente a Jesus Cristo combater os infiéis até à última gota do seu sangue, e não cessam de repetir:
"Nós devemos esperar tudo das orações e das promessas do santo Padre Francisco!"
A esta última palavra, Francisco Xavier, ergue-se com tom inspirado que dominava todos os espíritos, e diz ao governador e ao conselho
- A barca perdida será bem depressa substituída; antes do pôr do sol nos chegarão melhores navios: eu vos anuncio isto em nome de Deus!
Seguiu-se um momento de silêncio, depois do qual ficou convencionado que se adiasse a resolução para a manhã seguinte.
O dia correu longo para todos!... O sol estava quase a desaparecer, quando vieram anunciar que do campanário da igreja de Nossa Senhora do Monte, se descobriram duas barcas a velas na direção do norte. O governador manda-as reconhecer por um bote: eram dois navios portugueses que vinham de Patana, mas que não deviam tocar em Malaca; pertenciam eles a Soares Galega e a seu filho Baltazar, e cada um comandava o seu.
Achava-se então o Padre Xavier em oração na igreja de Nossa Senhora do Monte; foram ter com ele a disseram-lhe:
- Meu Padre, os capitães dos navios não querem ancorar, e a vossa predição não se cumprirá!
Xavier mete-se no bote que havia reconhecido os navios portugueses e dirige-se para bordo deles. Os capitães apenas descobriram o santo Padre, viraram de bordo, aproaram para o bote, recebem-no com veneração e põem-se à sua disposição, eles, seus navios e suas equipagens, para o serviço de Deus e do rei.
Foram recebidos com entusiásticas aclamações do povo, e no seguinte dia de manhã, 25 de Outubro, logo que Xavier enviou ao almirante Deza o estandarte que haura benzido, a esquadrilha levantou ferro e partiu.
Não seguiremos a armada, pois que Francisco Xavier renunciara a acompanhá-la; aguardaremos, pois, com ele em Malaca, a notícia do seu triunfo ou da sua derrota.
Um mês depois da partida da esquadra, não se tinham recebido senão notícias indiretas, umas mais assustadoras do que outras; o nosso Santo animava a todos e prometia o mais feliz resultado. Contudo os dias sucediam-se naquela mortal incerteza para as famílias, e aquele povo, sempre pronto a voltar-se para qualquer lado, começava a queixar-se de Xavier; muitos portugueses foram até fazer em sua presencia insultantes censuras; porém o angélico Padre respondia àqueles insultos com as mais suaves e humildes palavras, acrescentando.
- Eu vos repito, porque tenho a certeza, que a esquadra voltará triunfante.

Predição da vitória na luta pelo cristianismo - Decorreram ainda alguns dias e mesmo algumas semanas na desconsoladora incerteza da sorte da expedição! Num dia dos fins de Dezembro, um domingo, pregava o Santo apóstolo na catedral, entre as nove e as dez foras da manhã. Pára de repente... os músculos do seu belo rosto contraídos pela dor e pelo sofrimento; os olhos abertos; o olhar elevado e fixo: tinha uma expressão seráfica. Depois de alguns instantes volta-se para o auditório; mas fala-lhe em termos enigmáticos e tudo quanto se pode compreender é que ele vê duas armadas, em combate e cujos movimentos e manobras segue com uma agitação que se manifesta em toda a sua pessoa. Finalmente, dirigindo o seu celeste olhar para o crucifixo que tinha diante de si, exclama em voz suplicante:
"Ó Jesus, Deus da minha alma! Pai da misericórdia! eu vos rogo humildemente pelos merecimentos da vossa santa Paixão, para que não abandoneis os vossos soldados!"
Depois abaixa a cabeça, apóia-se sobre o púlpito, conserva-se assim, como abismado pela dor, durante alguns momentos, e levantando-se em seguida todo radiante, exclama:
"Meus irmãos! Jesus Cristo venceu por nós! Neste mesmo momento, os soldados do seu Santo Nome acabam de pôr em derrota a armada inimiga. Fizeram uma carnificina horrorosa! nós não perdemos senão quatro dos nossos bravos soldados; na sexta-feira próxima recebereis notícias, e pouco depois tornaremos a ver a nossa esquadra".
O governador e as principais pessoas da cidade não duvidaram da visão do santo Padre; mas não aconteceu o mesmo com as mulheres e mães dos marinheiros e dos soldados. E o suave e caridoso Xavier, que tinha empenho de beneficiar tanto os corações como as almas, reuniu todas aquelas pobres desconsoladas ao meio-dia, e repetiu-lhes tudo quanto tinha dito de manhã, consolou-as, fortificou-as por tal modo, que elas o deixaram convencidas.
Na sexta-feira imediata o navio comandado por D. Manuel Godinho, trouxe a notícia duma brilhante vitória; a esquadra seguiu-o de perto.
O nosso Santo conduziu o povo para o porto a fim de receber a expedição, e tendo o seu crucifixo levantado, fez entoar durante- o desembarque, cânticos de ações de graças, aos quais todos os vencedores misturavam suas vozes coxas alegria.
A presença do santo Padre fazia crescer a exaltação geral, porque, se eles atribuíam a iniciativa da guerra ao poder da sua influência, atribuíam igualmente o resultado ao poder da sua oração, e não se poupavam de lho patentear com o testemunho do mais vivo reconhecimento.
Tantos elogios, tantos aplausos, apressaram a partida de Francisco Xavier, que, além disso, já se demorara quatro meses em Malaca. Fez embarcar a bordo do navio de Jorge Alvares três japoneses, dos quais falaremos mais tarde; os trinta jovens que trouxera das Molucas partiram no navio de Gonçalo Fernandes; uns e outros foram com o maior interesse recomendados ao reitor do colégio de Goa, que os esperava.

Xavier, tendo de demorar-se na Costa da Pescaria, com o fim de visitar as suas cristandades, embarcou em um outro navio que se fazia à vela para Cochim.(EM FINS DE DEZEMBRO DE 1547]