INDIA - Lado Oriental "terra de São Tomé" 02 - 08/1545

[*Mortificação de Xavier por uma conversão -  FRANCISCO XAVIER, depois de se ter combinado com Miguel Vaz, como vimos, embarcou para Cambaia, com o fim de obter do vice-rei a expedição que desejava contra o tirano de Jafanapatão.
Logo que entrou no navio, reconheceu um daqueles fidalgos portugueses cujos escândalos faziam a maior dor do seu coração, e não quis perder esta bela ocasião de ganhar para Deus uma das almas que eram em extremo nocivas à sua glória nas Índias.
Para render este homem refaz-se o nosso Santo de todo o encanto do seu espírito, de toda a sua graça pessoal, de tudo; finalmente, quanto possuía de atrativo e sedutor, até ao entusiasmo.
O fidalgo português sente o encanto; procura a companhia do Padre Francisco, não pode passar sem ele, não se julga feliz senão junto dele. Mas cada vez que o apóstolo lhe fala da sua alma, não colhe mais que sarcasmos e ironias; porém insiste, ofendido contra uma impiedade que lhe sangra o coração. Xavier não desanima; quanto mais o pobre pecador mostra repugnância, mais o apóstolo lhe testemunha bondade e carinho.
O navio ancorou em Cranganor e os passageiros desembarcaram. Durante aqueles poucos dias de demora ali, o fidalgo não pôde resistir ao desejo de procurar a companhia do Padre Francisco, de passear com ele, de aproveitar; enfim, todas as ocasiões de gozar do prazer que lhe proporciona, a sua conversação.
Ao terceiro dia, passeavam eles juntos num denso palmar, quando inesperadamente Xavier, cedendo a uma inspiração divina, descobre-se até à cintura e bate em si tão rudemente com a sua disciplina, que rasga as carnes e o seu sangue corre abundantemente.
O português, que ao princípio olhara para ele com admiração, e mostrando-se abismado pelos violentos movimentos do Santo, solta gritos de horror logo que viu correr sangue.
- Meu Padre! Que fazeis! Suspendei!... Isso importa um verdadeiro suicídio!...
- Ah! meu caro senhor, vós não quereis compreender as minhas palavras! é por vás, é por amor à vossa querida alma! mas isto nada é comparativamente com o que eu deveria fazer. Custastes muito mais caro a Jesus Cristo, e a sua Paixão, a sua morte, todo o seu sangue, todo o seu amor não tem podido enternecei o vosso coração!...
Senhor acrescentou ele, deixando-se cair de joelhos e levantando para o céu os olhos cheios de lágrimas, Senhor! lançai a -vista sobre o vosso sangue adorável e não sobre o de um pecador como eu!...
- Meu Padre! meu Padre! eis-me aqui! exclama o fidalgo lançando-se aos pés de Xavier; suplico-vos que me confesseis aqui mesmo, não adiemos para mais tarde! não retardemos um só instante!
E fez uma confissão geral, prometeu viver cristãmente e foi fiel à sua palavra. Aquela conversão, tão difícil até ali, consolou e alegrou muito mais o coração do nosso Santo, porque dela esperava colher importantes resultados em benefício dos interesses da religião.

Xavier pede ajuda ao Rei para destronar um rei insano com os cristãos - Chegado a Cambaia, obteve Xavier o que desejava: o vice-rei expediu ordens para reunir as tropas e formar um considerável exército em Nagapatão, a fim de cair de surpresa sobre o tirano de Jafanapatão, que devia ser entregue a Xavier sem condições; porque o Santo apóstolo que esperava o sangue das vítimas intercederia por ele e seus olhos se abririam à luz da fé.

Predição em Cranganor do jovem pecador para religioso - Xavier tomou a estrada de Cochim, e tendo de demorar-se em Cranganor, hospedou-se em casa dum cristão cujo filho vivia numa deplorável devassidão.
O infeliz pai testemunhou ao Santo tão viva dor pela inutilidade das suas observações e dos seus conselhos no espírito do jovem, que Xavier, empregou as mais amáveis expressões para o consolar, e suspendendo-se por um instante, recolheu-se como arrebatado por uma iluminação súbita; depois, com o acento da inspiração e da certeza, disse ao desventurado pai:
- Vós sois o mais feliz dos pais! Agradecei a Deus, meu amigo, porque este filho, que para vós é hoje um objecto de tão amarga dor, se converterá, será religioso da Ordem de S. Francisco e terá a glória de morrer mártir!
Esta predição cumpriu-se literalmente. O jovem pecador converteu-se, entrou na Ordem de S. Francisco, foi mandado para o reino de Candia para evangelizar os bárbaros daqueles países e teve a felicidade de ali morrer mártir.

Predição sobre a condição da navegação - De volta a Cochim, encontrou ali, o nosso Santo, Cosme Anes que ele havia recomendado ao rei e por quem tinha particular afeição. Em uma das suas conversações, perguntou-lhe Xavier se o ano era bom para os negociantes portugueses.
- Excelente, meu santo Padre, lhe respondeu ele, não pode ser melhor. Em muito poucos meses expedimos para a Europa sete carregações magníficas! Eu envio ao rei um diamante dos mais raros, que não custou menos de dez mil ducados em Goa, e que valerá trinta mil em Lisboa!
- Qual é o navio que leva esse diamante?
- É o Atouguia, meu Padre. Confiei-o ao capitão João de Noronha.
- Eu sentiria grande pesar se tivesse remetido aquele diamante, tão precioso, por esse navio...
- Então por que, meu Padre? Por que o Atouguia fez água uma vez? Mas ele está completamente restaurado, e vós o suporíeis novo se o vísseis hoje.
O Santo guardou silêncio. Anes, persuadido de que ele tivesse conhecimento da sorte desta importante embarcação, acrescentou:
- Meu Padre, o vosso silêncio faz-me recear pelo Atouguia. Recomendai-o a Deus, porque se ele se perde vou sofrer um considerável prejuízo. Eu não tinha autorização para comprar aquele diamante; se ele se perde, perco eu o seu preço e outras despesas que tive de fazer.
- Farei o que desejais, meu amigo, respondeu simplesmente Xavier.
Algum tempo depois, jantando o- nosso Santo com Cosme Anes, lhe disse:
- Rendei mil graças a Deus, meu amigo; o vosso belo diamante está já em poder da rainha de Portugal.
Mais tarde, recebia Anes uma carta do capitão do Atouguia; ele mandava-lhe dizer que poucos dias antes de chegarem a descobrir as costas de Portugal, se abrira uma veia de água por baixo do mastro grande; o rombo era tão considerável, era tão iminente o perigo para toda a equipagem, que se falava já em abandonar o barco e lançarem-se ao mar. Cortara-se o mastro grande, receava-se que o navio sossobrasse antes de se poder salvar a maioria dos passageiros que queriam lançar-se todos por uma vez às embarcações...
Mas eis que repentinamente a água desaparece! Que prodígio seria este! A abertura é tão grande! Como se operou isto?!... Examina-se a parte aberta e ela estava de todo fechada por si mesma... e o Atouguia, não tendo mais que duas velas, navegava admiravelmente e podia desafiar o melhor navio da armada real! Chegou em muito bom estado ao porto de Lisboa e não parecia ter sofrido; nenhuma avaria se dera também na sua rica carregação.

Ressurreição: meio mais rápido para conversão de família muçumana - O Padre Xavier deixara Cochim para ir reunir-se armada portuguesa em Nagapatão, em um navio que tocava a ilha da Vaca; desembarcou ali e percorreu o interior da ilha. Encontrou uma família chorando inconsolável a morte duma criança cujos tristes despojos iam ser entregues à terra.
Aquela dor comoveu o nosso Santo; ele consola a família banhada em lágrimas, sabe que é muçulmana e ordena à criança morta que ressuscite em nome de Jesus Cristo Filho de Deus; a criança ressuscita àquele nome.
O apóstolo não tem tempo de instruir aquele povo; porém deixando-lhe a lembrança do prodígio, espera pelo futuro e volta ao mar implorando a misericórdia infinita para aquele povo, que não tivera tempo de evangelizar.

Caridade e intercessão de Xavier para acabar com a epidemia - Passando à vista da ilha de Manar, pediu para ali se demorar alguns dias. Logo que desembarcou naquela terra ensopada do sangue de tantos mártires, dirigiu-se à povoação de Passim... Toda a ilha estava infestada pela peste. Quando viram chegar o grande Padre, que tanto amavam já sem o conhecerem, os consternados Manarenses recuperam a coragem, convencidos de que o bom Padre não os deixará sem os ter livrado do horroroso flagelo. Expedem emissários para todas as aldeias vizinhas com o fim de anunciar a chegada do grande Padre dos Paravás, e imediatamente todos os válidos, que excediam ao número de três mil, correm a cercar Francisco Xavier.
- Grande Padre! exclamam eles, livrai-nos da peste! Grande Padre, tudo morre aqui! Contam-se mais de cem mortos por dia! Grande Padre, livrai-nos
- A vossa dor corta-me o coração, meus queridos Manarenses, respondeu-lhes Xavier! Sim, eu vou pedir a Deus, que é o Todo-Poderoso, e cuja bondade e misericórdia são infinitas, que vos livre deste flagelo pelos merecimentos de Jesus Cristo seu Filho, e pelos dos mártires de Manar que vão também orar por vós., Esperai! Eu vos peço que espereis somente três dias. Orai também, orai ao Deus das misericórdias infinitas que tenha piedade de vós, e tende confiança.
Ao terceiro dia a peste cessou, todos os doentes se viram instantaneamente curados e à mesma hora. Tudo quanto restava de pagãos na ilha de Manar pediu o batismo com instância, não obstante a perseguição aberta contra os cristãos. O Santo apóstolo, depois de os ter baptizado a todos, deixou-os, para voltar à armada naval onde era esperado.

Difícil missão - Quando chegou a Nagapatão, teve o desgosto de saber que a armada recusava atacar o rei de Jafanapatão. Um navio português, ricamente carregado que vinha do Pegu, naufragara na costa de jafanapatão; o rei estava de posse da preciosa carregação, e os mercadores portugueses, persuadidos de que não obteriam nada, se a armada começasse as hostilidades, combinaram-se a seduzir os oficiais a preço de ouro, e estes recusavam-se ao ataque ordenado pelo vice-rei.
Xavier viu nisto oposição da Providência ao plano que formara; renunciou também a ele e tornou a embarcar para voltar a Travancor. Passando em frente da ilha de Ceilão, lançou sobre ela um triste olhar.
"Ah! desgraçada ilha, disse ele, vejo-te coberta de cadáveres! Rios de sangue te banham por todos os lados"!
Algum tempo depois, Constantino de Bragança, e depois dele Furtado de Mendonça, faziam passar a fio de espada todos os habitantes da ilha, e o tirano que reinava em Jafanapatão e seu filho foram desapiedadamente massacrados]
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AO PADRE FRANCISCO MANSILHAS
(COSTA DA PESCARIA)
Negapatão, 7 de Abril 1545
Cópia em português, feita em 1746
Caríssimo Padre1 e Irmão meu
 Desejaria mais falar que escrever a Mansilhas
1. Deus sabe quanto mais folgara de vos ver, que escrever-vos, para vos informar do modo que nesta Costa haveis de ter em servir a Deus Nosso Senhor, olhando por esses cristãos2. Isto vos digo, porque não sei até agora o que será de mim.

Pendente da vontade de Deus se há-de ir ou não a Macassar (Celebes) onde desejam missionários
2. Deus Nosso Senhor, por tempo, nos dê a sentir sua santís­sima vontade. Requer de nós que sempre estejamos prestes para a cumprir, todas as vezes que no-la manifestar e der a sentir dentro, em nossas almas. Para bem ser nesta vida havemos de ser peregri­nos, para ir a todas as partes onde mais podemos servir a Deus Nosso Senhor3.
3. Eu tenho por noticias certas que, nas partes de Malaca, há muita disposição para servir a Deus. À míngua de quem nisso trabalhe, se deixam de fazer muitos cristãos, e de acrescentar-se a nossa santa fé. Não sei o que será disto de Jafanapatão4. Por isso, não me determino se irei a Malaca ou ficarei: por todo o mês de Maio determinarei [acerca] de me ir. Se for caso que Deus Nosso Senhor [se] queira ser­vir de mim, indo eu às ilhas de Macassar5 – onde agora novamente6 se fizeram cristãos, e mandou o rei daquelas ilhas7 a Malaca por Pa­dres, e não sei os Padres que de lá foram8, para que lhes ensinassem a nossa fé e lei – se for o caso que eu me determine a ir lá por todo o mês de Maio, mandarei patamar9 a Goa, ao senhor Governador, fazendo-lhe saber que parto para aquelas partes, para que mande ao capitão de Malaca10 que me dê [a] ajuda e favor que, para servir a Deus Nosso Senhor, se tem necessidade. Se for caso que me vá para as ilhas de Macassar, eu vos escreverei.

Exorta Mansilhas a percorrer continuamente os lugares de cristãos para adminis­trar sacramentos e animar catequeses
4. Rogo-vos muito que não [vos] canseis de trabalhar com essa gente, pregando continuamente por todos esses lugares, batizando com muita diligência as crianças que nascem, e fazendo ensinar por todos os lugares as orações. De João da Cruz11 cobrareis dois mil fanões12, que nesta pescaria arrecadou13, para ensino dos meninos; e os fanões que deixastes ao P. João de Liçano, também arrecadareis. Com muita diligência fareis ensinar por toda essa Costa as orações. Não estareis de assento em nenhum lugar, senão continuadamente andareis de lugar em lugar, visitando todos esses cristãos, como eu fazia quando lá estava14, porque desta maneira servireis mais a Deus.
1 Mansilhas, entretanto, tinha sido ordenado sacerdote em Goa (cf. Selectae Indiarum Epistolae 14).
2 Xavier, ocupado em preparar a expedição contra os perseguidores de Jaffna, ainda se encontrara com Mansilhas depois da ordenação sacerdotal.
3 Refere-se a uma das características básicas dos Jesuítas (cf. MI Const. I 10 17-18).
4 Expedição contra Jaffna.
5 Celebes, então considerada um arquipélago, umas vezes é chamada Macassar, outras vezes Celebes.
6 Ultimamente.
7 O rei do distrito de Supa enviou, por meio de Paiva, um anel de ouro a D. João III e o rei do distrito de Sião enviou um neófito como delegado seu a Malaca, em companhia do mesmo Paiva (Selectae Indiarum Epistolae 42; SCHURHAMMER, Quellen 1754). O senhor de ambos os reis, imperador de Sidenreng, era pagão (Sel. Ind. Epp. 42).
8 Foi Vicente Viegas.
9 Correio terrestre.
10 O capitão de Malaca era então Simão Botelho, sucedendo-lhe em Maio desse ano Garcia de Sá, vindo da Índia.
11 D. João da Cruz, da casta Chetti, nascido na cidade de Calicute em 1498, em 1513 veio a Lisboa como legado do seu rei, Samorim de Calicute, onde foi batizado e recebeu um título de nobreza. Regressando a Calicute em 1515, foi expulso por ser cristão. Em 1535, como negociante de cavalos, veio para o Cabo de Comorim, onde convenceu os paravas, oprimidos pelos maometanos, a rece­berem o batismo e a passarem-se para a tutela dos portugueses.
12 Daqueles 4.000 fanões que o Governador Martim Afonso de Sousa tinha concedido como tributo anual à missão (Xavier-doc. 20,8).
13 Em 1537, João da Cruz tinha pedido a D. João III que lhe concedesse, por quatro ou cinco anos, a cobrança dos impostos da pesca de margaridas (SCHURHAMMER, Die Bekehrung 209).
14 João de Artiaga em 1556 deu este testemunho sobre Xavier: «Nunca estava um mês nem vinte dias num lugar; sempre andava num lugar, noutro, visitando sempre a pé e, às vezes, descalço» (MX II 378).
Recomendações sobre administração de dinheiros da missão e responsabilidade sobre novos sacerdotes indianos a ela destinados
5. Tomai conta também, em Manapar, dos gastos que fizeram naquela igreja, porque a Diogo Rebelo15 dei eu guarda dos dois mil fanões que deu Iniquitriberim para fazer igrejas nas suas terras16. O P. Francisco Coelho sabe o que se gastou. O que sobejou dos dois mil fanões gastareis em ensinar os meninos. Visitareis os cristãos que se fizeram na praia de Travancor, repartindo por todas essas terras, como melhor vos parecer, estes Padres malabares. Olhareis [por que vivam] muito bem e castamente, trabalhando em serviço de Deus, dando bom exemplo de si17.
6. Ao P. João de Liçano dareis cem fanões, que me emprestou, estando vós em Punicale, para coisas dos cristãos: estes, pagareis dos fanões do ensino dos meninos. Em nenhuma outra coisa gastareis os fanões dos ensinos dos meninos, senão em mestres que ensinam aos meninos as orações com muita diligência.
7. Duas coisas vos encomendo muito: a primeira, que andeis peregrinando continuadamente de lugar em lugar, batizando as crianças que nascem, e fazendo com muita diligência ensinar as orações; a segunda, que olheis muito por esses Padres malabares18 que não se danem [a si e aos outros]. E se virdes que fazem mal, repreendê-los-eis e castigá-los-eis, pois é muito grande pecado não dar castigo a quem o merece, principalmente aos que com seu viver escandalizam a muitos.

Admoestações e ameaças a fazer ao capitão Cosme de Paiva para que se emende do mal que tem
feito na região
8. A Cosme de Paiva ajudareis a descarregar sua consciência dos muitos roubos que nessa Costa tem feito, e dos males e mortes de homens que por muita sua cobiça se fizeram em Tutucorim. E mais: aconselhá-lo-eis, como amigo de sua honra, que torne o dinheiro que tomou dos que mataram os portugueses, pois é coisa tão feia vender por dinheiro o sangue dos portugueses19. Não escrevo, porque não espero emenda nenhuma nele. Mas lhe direis da minha parte que o aviso [de] que tenho de escrever ao Rei as suas malfeitorias, e ao senhor Governador para que o castigue, e ao infante D. Henrique que, por via da Inquisição, castigue os que perseguem aqueles que se convertem à nossa santa lei e fé. Por isso, que se emende20.

Desliga Arteaga do serviço à missão e recomenda um possível candidato à Companhia de Jesus
9. Se aí for João de Artiaga, não consintais que esteja mais nessa Costa. Direis a Cosme de Paiva, que não lhe pague nenhuma coisa, porque não é para estar nessa terra. A Vasco Fernandes21, que esta minha carta leva, agazalhareis, porque espero em Deus Nosso Se­nhor que será da nossa Companhia. Parece-me muito bom filho, e com grandes desejos de servir a Deus. É razão que o favoreçamos. Escrever-me-eis largamente de vós e desses cristãos, e de Cosme de Paiva se [se] emenda e se restitui o que leva desses cristãos.

Nosso Senhor seja sempre em vossa ajuda, como desejo que seja em minha.
De Negapatão22, a 7 de Abril de 1545
Vosso em Cristo Irmão, FRANCISCO

15 Diogo Rebelo chegou à Índia em 1537. Em 1520 esteve com Albuquerque em Ormuz. Em 1532-1535 foi capitão da Pescaria. Nos anos 1535 e 1538 em­preendeu viagens a Bengala como capitão naval. Regressou a Portugal em 1541, mas consta que esteve novamente na Índia em 1545. Não confundir com um marinhei­ro que em 1545 e 1548 veio à Índia .
16 Em 1547, Iniquitriberim teve de ceder a parte sul do distrito de Tinnevelly ao imperador Vijayanagar. Aqueles dois mil fanões tinha-os dado Iniquitriberim a Xavier, em Novembro de 1544, como prenda por ter intercedido a seu favor junto do Governador.
17 Numa memória, redigida por Pedro Fernandes Sardinha em 1549, lemos que os indianos não devem ser promovidos ao sacerdócio antes dos 25 ou 30 anos, «porquanto, por alguns serem ordenados moços, no Cabo de Comorim e em Cranganor se seguiram escândalos e desarranjos» (SCHURHAMMER, Quellen 4327; cf. Xavier-doc. 119,16).
18 Naquela altura deviam ser Francisco Coelho, com Manuel, Gaspar e outro minorista, talvez chamado Ferrão (Xavier-doc. 119,16), que em 1542 tinham par­tido com Xavier para a Pescaria e que, entretanto, tinham recebido a ordenação sacerdotal.
19 Paiva tinha vendido a Vettumperumâl os cavalos de guerra com que este invadiu Tuticorim e lutou contra Iniquitriberim, aliado dos portugueses.
20 Cosme de Paiva veio a morrer em 10 de Novembro de 1546 na batalha da libertação de Diu, mortalmente atingido por um mouro ao escalar as muralhas da cidade.
21 Vasco Fernandes não chegou a entrar na Companhia de Jesus. Não con­fundir com outro Vasco Fernandes, morto no cerco de Diu em 1546 (CORREA, Lendas da Índia IV 559).
22 A expedição punitiva contra Jaffna, devia partir desta cidade.
[*Sete dias de jejum na semana Santa e predição da tempestade - Na sua chegada a Nagapatão, encontrou Miguel Ferreira que acabava de fretar o seu navio, e que se achava prestes a partir para (São Tomé de) Meliapor. Xavier aproveita esta circunstância e embarca com ele a 29 de Março, domingo de Ramos, com o fim de ir implorar as luzes divinas junto do túmulo de S. Tomé.
Somente no Sábado Santo, a pedido de Diogo Madeira, concordou em beber um pouco de água, na qual pediu que se fizesse cozer uma cebola. Este facto foi atestado por todo os passageiros.
Naquele mesmo dia, 5 de Abril, tornando-se melhor o tempo, puderam levantar âncora e voltar ao mar.
E Xavier exclama:
- Capitão, o vosso navio é bastante forte para resistir a uma violenta tempestade?
Ele responde: - Oh! não, santo Padre; é, ao contrário, um velho barco; porém eu não o exponho nunca quando o tempo não está seguro.
- É necessário, pois, tornar a ganhar o porto, senhor.
- Oh! Padre Francisco! como, pois, tendes vós medo com um tempo assim? Eu iria a Meliapor em uma cascazinha de noz com um vento como este. E Xavier avisa:
- Não vos confieis nisso, capitão, poderíeis enganar-vos!
- Meu Padre, olhai para este belo céu, nunca vi melhor tempo para o mar, eu conheço-o; a mais frágil barca estaria em segurança com este vento. Nada temais, Padre Francisco! Confiai em mim, que sou um velho homem do mar. Vós chegareis a salvamento.
Xavier não insistiu mais; além disto os passageiros recusavam voltar ao ancoradouro que haviam deixado. Mas no mesmo instante o mar mostra-se agitado; um ponto negro se apresenta no horizonte; avança e sobe ràpidamente, e o navio, jogando em todos os sentidos, ameaça sossobrar, quando uma violenta rajada de vento, retrocedendo-o com uma força prodigiosa , o lança precisamente no porto de Nagapatão, de onde haviam partido.
Imagine-se o pesar do capitão e da equipagem, ao recordarem-se que nenhum de entre eles atendera as advertências do santo Padre.
Xavier tinha de fazer a sua peregrinação ao túmulo do primeiro apóstolo das Índias; para evitar novas demoras, tomou o partido de fazer a viagem por terra e a pé, não obstante a distância e as dificuldades dos caminhos.

Francisco Xavier na terra de São Tomé - Toda a cidade de Meliapor conhecia pela reputação o nosso Santo; causou por isso um movimento geral a sua chegada ali. Gaspar Coelho, vigário da paróquia de São Tomé, veio pedir-lhe instantemente que aceitasse a sua casa e não teve dificuldade em o conseguir, porque o presbitério se achava ligado à igreja onde estava o túmulo do primeiro apóstolo das Índias, e Xavier lembrou-se que poderia ali passar uma parte das noites.
Reclamavam já o seu ministério, e com o zelo que lhe conhecemos, previa ele já que os seus dias seriam absorvidos pelos trabalhos apostólicos, em vista do deplorável estado de relaxação de costumes em que se achava a cidade de Meliapor.
Logo nos primeiros dias da chegada, fez ouvir a sua poderosa voz sempre abençoada, sempre apoiada pela mais eminente santidade de vida, e logo também nos primeiros dias viu-se cercado dum grande número de pecadores que a sua palavra havia esclarecido e convertido.
A exaltação do povo chegou a ponto de se propalar o boato de que todos aqueles que resistissem às exortações do santo Padre morreriam como réprobos; citavam-se até exemplos horrorosos, e o número de pecadores crescia em torno do santo Padre para ouvir as suas prédicas, para aliviar a sua consciência e para procurar a paz da alma a fim de serem admitidos à graça de Deus.

Sabedoria virtuosa na conversão - Alguns pecadores, contudo, - mas em muito pequeno número-, evitavam ver e ouvir o santo Padre, a quem ninguém resistia.
Um deles, rico fidalgo português, cujas devassidões eram o maior escândalo da cidade, fugia de Xavier com tanto maior cuidado, quanto mais conhecido ele se tornava. Um dia, no momento em que ia à mesa do jantar, o Padre Xavier apresentou-se em sua casa e lhe disse afavelmente:
- Jacinto, desde a minha chegada, aqui, desejo ver-vos e não vos encontro em parte alguma!
- Meu Padre...  (logo Xavier interrompe)
- Eu tenho pouco tempo de meu, não posso fazer visitas e venho pedir-vos de jantar; aceitais-me, não é assim? Não achei outro meio de vos ver. E Jacinto continuou:
- Certamente... meu Padre... é uma grande honra para mim, balbuciou Jacinto.
Xavier foi amável, insinuante, jovial, espirituoso, atraente como o era sempre que a glória de Deus e a salvação duma alma o chamava, porém não falou absolutamente nada ao seu hospedeiro dos escândalos da sua culpável vida.
Jacinto via-se confundido. Perguntava a si mesmo como era que um Santo como o Padre Xavier, que nunca deixava escapar uma só ocasião de conquistar uma alma, e que buscava os pecadores com tamanhas fadigas e. um tão ardente zelo, não lhe dissesse uma palavra sequer com relação à sua consciência. A sua admiração cresceu ainda quando viu que o amável Santo o deixava e se retirava com a mesma afabilidade que mostrara à chegada.
Então operou-se na sua alma uma perturbação inexplicável; Jacinto, oprimido pelo pensamento de que o apóstolo havia julgado inútil ocupar-se da sua salvação, porque o supunha incorrigível, não gozou um só instante mais de repouso, e resolveu-se a ir procurar o santo Padre.
- Meu Padre, lhe disse ele, o vosso silêncio confundiu-me! Será porque me olheis como um réprobo que nunca obterá o perdão dos seus pecados?
- Certamente que não, caro senhor. E porque razão? - Viestes a minha casa, meu Padre, e nem uma palavra me dissestes com respeito à minha consciência!...
- Ah! vós não me teríeis escutado! Preferi guardar silêncio...
- Oh! meu bom Padre, foi este silêncio que me perturbou. Não tenho tido um só momento de descanso depois da vossa visita; sou o mais desgraçado dos homens! Se é tempo ainda, -meu caríssimo Padre Francisco, não me abandoneis!
- Sempre é tempo de recorrer à misericórdia infinita de Deus, querido senhor; porém vós tendes grandes sacrifícios a fazer para pôr em ordem a vossa consciência...
- Farei tudo que quiserdes, meu bom Padre! Tudo sacrificarei, obedecer-vos-ei cegamente, uma vez que não desespereis da minha salvação.
O Santo ouviu-lhe uma confissão geral, e Jacinto completamente regenerado na sua vida, veio a ser um fervoroso e exemplar cristão.

Devoção a Maria e prodígio do rosário no mar - Os prodígios acompanhavam por toda a parte o grande Xavier. Bento Cabral, mercador português em Meliapor, achando-se de partida para Malaca, foi pedir-lhe a sua bênção e suplicar-lhe que lhe desse em lembrança um objecto qualquer que ele pudesse conservar.
- Eu nada tenho, respondeu-lhe o humilde Santo; não vos posso dar mais que este rosário, que vos será útil, se tendes confiança em Maria.
Bento embarcou e o seu navio quebrou-se contra um rochedo; todos os passageiros e a maior parte dos marinheiros desapareceram submergidos, e os outros salvaram-se sobre uma rocha à flor da água; o mercador está entre eles com o seu rosário na mão. Eles reúnem algumas pranchas, restos do navio quebrado, e lançam-se nelas à mercê da Providência!
O nosso mercador não largava o seu rosário; invoca a Estrela do Mar, oferece os, méritos do santo Padre Xavier e perde o sentimento e o conhecimento da sua situação. Não supõe que se acha no mar, supõe-se em Meliapor junto do santo Padre, julga estar a falar-lhe e a ouvi-lo... E eis que de repente torna a si... Vê-se em terra, sobre uma costa que lhe parece desconhecida e cujo nome pergunta aos estranhos que o cercam, porque os marinheiros, seus companheiros de infortúnio, não estão a seu lado. Respondem-lhe que está 'em Nagapatão, e ele publica, com todo 0 entusiasmo do seu elevado reconhecimento, a maneira milagrosa como foi salvo das ondas.

Milagre, providência e caridade: uma só ação - O navio de Jerónimo Fernandes de Mendonça fazia toda a sua fortuna, e aquele navio foi aprisionado pelos corsários do Malabar em frente do cabo Comorim. Jerónimo, para salvar a sua vida, lança-se ao mar, ganha, a nado, a costa de Meliapor e ali encontra o santo Padre a quem expõe a sua cruel situação.
- Se eu pudesse lastimar-me por ser pobre, respondeu-lhe o caritativo apóstolo, lastimá-lo-ia neste momento! Mas tende coragem, meu caro amigo! A divina Providência não vos abandonará, ela virá em vosso auxílio.
Dizendo isto, o Padre Xavier revolvia a sua algibeira, e como penalisado de nada achar nela, dirigiu um olhar suplicante para o Céu e afastou-se alguns passos orando. Torna a meter a mão na algibeira, e voltando-se para Jerónimo, diz-lhe:
- Caro senhor, tomai isto, o Céu vo-lo envia, aceitai, mas não digais nada a ninguém!
E dava-lhe cinquenta ducados de oiro. Jerónimo Fernandes, ébrio de alegria, por ter com que restabelecer os seus negócios e por ser devedor daquela fortuna a um milagre da Providência, empenhou-se em o fazer publicar, não obstante a oposição do santo Padre. Deus quis que o prodígio não pudesse ser contestado, porque aquelas peças de oiro foram reconhecidas como de uma matéria mais pura e de maior valor que a de todas as moedas em circulação nas Índias.
A grande santidade de Xavier produzia em Meliapor tão salutar fruto como a sua palavra, e a cidade inteira reformava-se com um empenho bem consolador para o coração do apóstolo amado de Deus.
Pobreza e missão - Uma das mais satisfatórias conversões para Xavier, foi a de João de Eiro que depois de haver servido na armada portuguesa, se enriquecera no comércio das Índias, conquanto não tivesse ainda senão trinta e cinco anos. Veio um dia procurar o santa Padre e disse-lhe:
- Meu Padre, venho comunicar-vos um pensamento que me preocupa há muitos dias. Eu desejava servir a Deus o mais completamente possível, mas a pobreza aterra-me; permiti, pois, que me una a vós, que vos acompanhe por toda a parte, e que tome parte em todos os vossos cuidados; eu vos auxiliarei da melhor vontade nas vossas missões.
- Não está nisto a perfeição evangélica, respondeu-lhe Xavier. Lembrai-vos do conselho dado por Nosso Senhor Jesus Cristo ao jovem do Evangelho que lhe perguntou o que deveria fazer para ser perfeito: Se quereis ser perfeito, lhe disse o divino Salvador, vendei tudo quanto tendes e dai o seu valor aos pobres.
- Pois bem, meu Padre, dar-vos-ei tudo que tenho e vós o dareis aos pobres.
- Não é também desse modo que isto se deve levar à execução. Examinai primeiramente a maneira como vos enriquecestes nos vossos negócios. Pode acontecer que encontreis algumas restituições necessárias; preparai-vos a fazer uma boa confissão geral, e com a vossa consciência purificada por esta confissão e pelas restituições, obtereis mais facilmente a graça de conhecer a vontade de Deus para convosco.
João de Eiro submeteu-se à direção de Xavier; mas bem depressa a pobreza tornando-se-lhe intolerável, fretou misteriosamente uma pequena embarcação e dispunha-se a partir, às ocultas do santo Padre, a fim de recomeçar as suas empresas comerciais, quando o catequista Antônio veio ter com ele e disse-lhe
- Senhor João, vinde depressa falar ao Padre Francisco; ele espera-vos.
- Enganais-vos, Antônio; é algum outro João que o Padre procura, não pode ser comigo.
- Sois vós mesmo, por que ele me disse: João de Eiro; é urgente, vinde depressa!
Ei-lo, algum tanto desconcertado, e temendo que o Santo, sempre esclarecido por Deus, conhecesse já o seu plano secreto satisfez ao chamamento que lhe era feito.
Disse-lhe Xavier logo que o viu: - Vós pecastes!
João respondeu: - É verdade, é verdade, meu caro Padre! pequei; cedi a uma violenta tentação de voltar ao meu comércio!
- Penitência, pois, meu amigo, penitência! lhe respondeu o apóstolo levantando-o e abraçando-o.
Porque João de Eiro, não podendo sustentar a suavidade e a penetração do angélico olhar de Xavier, se prostrara a seus pés. Rendeu-se de todo contrito da sua falta, confessou-se, tratou em seguida de vender tudo quanto possuía, deu toda a sua importância aos pobres, reuniu-se ao santo Padre, e o seguiu na qualidade de seu catequista.
Antes de largar Meliapor, onde ia deixar tão gratas recordações, escrevia o nosso Santo à Companhia de Jesus, em Goa]
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A MESTRE DIOGO E AO PADRE MICER PAULO (GOA)
Meliapor, 8 de Maio 1545
Autógrafo de Xavier, escrito em português

Caríssimos e em Cristo Jesus amantíssimos Irmãos:
A graça e amor de Cristo Nosso Senhor seja sempre em nossa ajuda e favor. Amen.
A expedição contra Jaffna foi adiada até recuperar o carregamento duma nau aí aprisionada. Xavier, impedido de desembarcar na Costa da Pescaria, seguiu para o santuário de S. Tomé de Meliapor a pedir luz para possível missão em Malaca e Celebes
1. Não se tomou Jafanapatão, nem se pôs de posse aquele rei que havia de ser cristão1. Deixou-se de fazer, porque deu à costa uma nau do Rei, que vinha de Pegu,2 e tomou-[lhe] a fazenda o rei de Jafana­patão3 e, até se cobrar o que o rei de Jafanapatão tomou, não se fez o que o senhor Governador mandava. Prazerá a Deus que se fará, se for seu serviço4.

Em Negapatão estive alguns dias, e os ventos não me deram lugar para poder tornar ao Cabo de Comorim. Então foi-me forçado vir a São Tomé5. Nesta santa casa6, tomei por ofício ocupar-me em rogar a Deus Nosso Senhor [que] me desse a sentir dentro, na minha alma, a sua santíssima vontade, com firme propósito de a cumprir, e com firme esperança que «dará realização quem deu o querer»7. Quis Deus, por sua acostumada misericórdia, lembrar-se de mim e, com muita consolação interior, senti e conheci ser sua vontade eu ir àquelas partes de Malaca8, onde novamente9 se fizeram cristãos, para dar-lhes razão e doutrina da nossa santa e verdadeira fé, sacando os artigos e manda­mentos da nossa lei e fé na sua língua deles10, com alguma explicação. E pois voluntariamente vieram a fazer-se cristãos, em razão está, ca­ríssimos Irmãos, serem muito favorecidos de nós. E para que saibam pedir a Deus acrescentamento de fé e graça para guardar sua lei, sacarei [também] na sua língua o Pai-nosso e a Avè-Maria e outras orações como é a Confissão geral para que confessem a Deus os seus pecados quotidianamente. Esta lhes servirá em lugar de confisssão sacramental, até que Deus proveja de sacerdotes que entendam sua língua11. 

[*O que poderíamos dizer do zelo do nosso admirável apóstolo que não estivesse muito abaixo desta ardente e magnífica expansão da sua alma?!...
Ele não pôde partir tão depressa como desejava, e conservou-se em Meliapor até aos princípios de Setembro, e só então embarcou para Malaca, deixando em lágrimas a população que acabava de reformar, e cuja vida se tornara tão edificante, que ao deixar a cidade disse:
"Meliapor é uma cidade das mais cristãs; Deus a abençoará: em poucos anos ela virá a ser uma das mais ricas e florescentes cidades de toda as Índias!"

E aquela predição cumpriu-se, poucos anos depois.]

Quando parti da Índia, foi de um lugar de São Tomé, onde di­zem os gentios da terra que está o corpo de S. Tomé Apóstolo. Há, em São Tomé, mais de cem portugueses casados. .
Há uma igreja muito devota10, e todos têm [por certo] que está ali o corpo do glo­rioso Apóstolo11. 
10 A igreja sepulcral de S. Tomé, antiquíssima, estava em ruínas quando ali chegaram os portugueses em 1517, mas nos anos 1523-1532 foi restaurada. Desaparecida em 1673 com a destruição da cidade, foi pouco depois reconstruída pelos portugueses (SOUZA, Oriente Conquistado). Em seu lugar ergue-se hoje a catedral, construída em 1893-1896.
11 O sepulcro do Apóstolo S. Tomé está em Meliapor, segundo tradição constante dos cristãos daquela região. Aber­to o sepulcro em 1523, foram aí encontradas relíquias de ossos decompostos, um vaso cheio de terra ensanguentada e o ferro duma lança. Existe um amplo relatório de testemunhas de 1533 e, além disso, uma carta original dos portugueses de S. Tomé, enviada ao Rei em 1538, assinada por 21 pessoas. As principais relíquias do sagrado corpo tinham sido enviadas para Edessa no sec. III e daí para Chio em 1544 e de lá para Ortona (Itália) em 1258. Parte das relíquias encontradas em 1523 pelos portugueses, foram enviadas para Cochim, Goa e Baçaim; e um pedaço de costela e o ferro da lança ficaram em S. Tomé. 

Comunicada, do santuário de S. TOMÉ Apóstolo (Meliapor), aos compa­nheiros de Goa, a decisão aí tomada de ir explorar as esperanças que se abriam ao cristianismo em Macassar (Celebes), Xavier segue viagem para Malaca em fins de Agosto de 1545, para ali esperar nau que o leve ao Extremo Oriente.