S. F. Xavier em Portugal

Saudação milagrosa ao irmão jesuíta - Entretanto chegava Francisco Xavier a Lisboa, e não obstante todas as instâncias de Pedro, foi pedir hospitalidade onde Simão Rodrigues a recebia, no hospital de Todos-os-Santos. O Padre Rodrigues, doente dumas febres intermitentes, esperava o acesso no momento em que o seu querido irmão Xavier se apresentou na sua presença: a alegria de o receber, e a natural virtude do nosso Santo foram mais eficazes que todos os remédios até então empregados: abraçando o seu santo amigo, o Padre Rodrigues sentiu-se curado e a febre não lhe voltou mais. Os dois amigos achavam-se separados desde longo tempo e por isso foi mútua a alegria de se tornarem a ver.
Eis o que escreveu o Padre Francisco Xavier à Companhia de Jesus, em Roma; ouçamo-lo na narração que faz das suas impressões e do acolhimento que recebeu do rei. Dá-se ali a conhecer melhor, pela expressão dos íntimos sentimentos que patenteia.]

Simão Rodrigues recupera da febre quartã à chegada de Xavier. Disposições de muitos para o serviço de Deus
3. No dia em que cheguei a Lisboa, achei Mestre Simão5, que naquele mesmo dia esperava a febre quartã. Com a minha vinda, foi tal o prazer que recebeu, e foi tanto o meu com o seu, e juntados ambos os prazeres causaram tal efeito, que deitaram fora a quartã de tal maneira que, nem naquele dia nem noutro o tomou a febre. Isto há já um mês. Ele está muito bom e faz muito fruto. – De cá vos faço saber que há muitas pessoas devotas nossas. Tantas que temos muito trabalho em não poder cumprir com todas, por serem elas pessoas de qualidade e por não termos [nós] tempo.
4. Cá há muitas pessoas boas, que vivem com desejos de servir a Nosso Senhor, se houvesse quem as ajudasse, dando-lhes alguns Exercícios Espirituais6 para porem em obra o bem que, de dia para dia, adiam em fazer. Na verdade, por depressa que comecem os ho­mens a fazer o que sabem ser bom, hão-de dar conta, querendo bem reparar nisso, que tardam em pô-lo por obra. Este conhecimento inteiro ajuda a muitos a despertar e a não achar paz onde não a há, principalmente aqueles que, contra toda a razão, procuram trazer Nosso Senhor aonde que eles desejam, não querendo ir aonde Deus Nosso Senhor os chama, deixando-se guiar mais por suas desorde­nadas afeições que pelos bons desejos que neles habitam. Destes é de ter mais compaixão que inveja, vendo-os caminhar tanto costa arriba e por caminho tão difícil e perigoso e, em paga de tantos trabalhos, virem a parar num fim tão trabalhoso.

Conversa dos Padres com o Rei e a Rainha, aos quais informam sobre a nascente Companhia de Jesus
5. Passados três ou quatro dias depois que chegámos a esta cida­de, o Rei mandou-nos chamar e recebeu-nos muito benignamente. Estava ele só com a Rainha, numa sala, onde estivemos mais de uma hora com eles. Perguntaram-nos muitos pormenores acerca do nos­so modo de proceder e do modo como nos conhecemos e nos jun­támos e quais foram os nossos primeiros desejos, e [também acerca] das nossa perseguições em Roma. Muito gostaram de saber como se manifestou a verdade e de termos levado tanto a coisa avante que viesse a conhecer-se a verdade do que nos imputavam. Deseja muito Sua Alteza ver a sentença que se deu em nosso favor7. Todos cá se edificam de que tenhamos levado tanto a coisa avante até que se des­se a sentença. Tanto se edificam que lhes parece que, se a coisa não se fizesse como se fez, nunca faríamos fruto nenhum. Ao parecer dos de cá, nunca coisa melhor fizemos que resolvê-lo por sentença e que se visse a verdade. O Rei e a Rainha mostraram-se muito contentes connosco, ao ficarem ao par das nossas coisas. No fim de toda a con­versa, Sua Alteza mandou chamar a sua filha a Infanta8 e o seu filho o Príncipe9, para que os conhecêssemos e deu-nos parte dos filhos e filhas que Nosso Senhor lhe tinha dado, dos que se lhe morreram e dos que estão vivos10.

5 Simão Rodrigues.
6 Retiro de «exercícios espirituais», segundo o conhecido método de S. Inácio (Trad. portug.: INACIO DE LOYOLA, Exercícios Espirituais, A. O., Braga, 1999 – cf. n.1).
7 Sobre a perseguição romana de 1538 pode ver-se TACCHI VENTURI II 153-169. A sentença pronunciada pelo governador B. Conversini em 18 de Nov. 1538 encontra-se em MI Scripta I 627-629.
8 D. Maria.
9 D. João, nascido em Évora em 1537, falecido em Lisboa em 1554 (F. AL­MEIDA, História da Igreja em Portugal II 371).
10 Além destes dois, D. João III tinha estes filhos: Afonso (nascido em 1526, morreu na infância), Isabel (nascida em 1529, morreu na infância), Beatriz (nasci­da em 1530, morreu na infância), Manuel (nascido em 1531, morreu em 1537), Filipe (nascido em 1533, morreu em 1539), Dionísio (nascido em 1535, morreu em 1537), António (nascido em 1539, morreu em 20 de Janeiro de 1540). Destes, mais dois filhos ilegítimos: Eduardo (nascido em 1521, morreu em 1543) e Manuel, que morreu na infância (Ib. 370-371).



Recomendam aos Padres que confessem os moços fidalgos da corte
6. Assim o Rei como a Rainha, mostraram-nos muito amor. Recomendou-nos muito Sua Alteza, naquele mesmo dia em que falámos com ele, que confessássemos os moços fidalgos da sua corte, porque o Rei fez uma constituição na sua corte, que todos os moços fidalgos se confessem de oito em oito dias. Recomendou-nos muito que olhássemos por eles, dizendo-nos Sua Alteza que, se de moços conhecerem e servirem a Deus, quando forem grandes darão mui­to boa estimação; e que, sendo eles quais devem ser, a outra gente baixa tomará exemplo deles e, assim, se reformarão os seculares do seu Reino: tem por certo que, reformados os nobres, grande parte do seu Reino será reformada. Coisa é muito para maravilhar e para dar muitas graças a Nosso Senhor, ver quão zeloso da glória de Deus Nosso Senhor é o Rei e quanto é afeiçoado a todas as coisas pias e boas. Todos os da Companhia lhe devemos muito, pela boa vonta­de que nos tem, assim a todos os daí como aos de cá. Disse-me o Embaixador, que falou com o Rei depois de ele ter falado connosco, que lhe disse o Rei, seu senhor, que gostaria muito de nos ter cá a todos os que somos da Companhia, ainda que lhe custasse parte da sua fazenda.

Alguns procuram reter os Padres em Portugal
7. Procuram cá, muitas pessoas conhecidas nossas, impedir a nossa partida para as Índias11, parecendo-lhes que faremos cá mais fruto em confissões, conversas em particular, Exercícios Espirituais, administração de sacramentos, exortação das pessoas à confissão e comunhão frequentes e pregações, do que se fôssemos para as Índias. Procura o confessor do Rei(12) e o pregador13 que não vamos, senão que fiquemos cá, dizendo que faremos mais fruto.
[Mas] coisa é para maravilhar o fruto que dizem que havemos de fazer nas Índias. Isto dizem pessoas que estiveram lá muitos anos, por verem a gente mui­to preparada para receber a fé de Cristo Nosso Senhor. Dizem que, se este modo de proceder tão remoto de qualquer espécie de avareza tivermos lá, como o temos aqui, não duvidam que em poucos anos converteremos dois ou três reinos de idólatras à fé de Cristo, quando em nós virem e conhecerem que não buscamos outra coisa senão a salvação das almas. Grande é a esperança que aqui nos dão, os que estiveram muitos anos nas Índias, do fruto que lá havemos de fazer em serviço de Deus Nosso Senhor.

Os Padres procuram companheiros aptos para a missão na Índia. Esperanças que têm  
8. Aqui, muito procuramos encontrar alguns clérigos que, unica­mente por serviço de Deus e salvação das almas, queiram ir para as Índias connosco. Parece-nos, presentemente, que em nenhuma coisa podemos aqui servir mais ao Senhor, que em buscar alguma com­panhia. É que, sendo uma dozena de clérigos, todos de uma mesma vontade e querer, não será menos senão muito o fruto que havemos de fazer. Aqui já se vão descobrindo alguns. Um clérigo, conhecido nosso de Paris14, prometeu-nos ir connosco, e morrer e viver como nós, e ir com os mesmos desejos que vamos. Este, cremos que será muito certo, porque tem dado muitas provas de si. Há outro, de epístola15, que em breve será clérigo, que se oferece de muita vonta­de.
Além deste, está um doutor médico, muito conhecido nosso de Paris16, que já prometeu ir conosco e somente usar da medicina se­gundo vir que o ajuda a salvar as almas e a trazê-las ao conhecimen­to de seu Criador e Senhor, e não por interesse temporal. Sempre procuramos e muito olhamos por juntar-nos com pessoas apartadas de toda a avareza. E não nos contentamos com que sejam apartadas de avareza, mas até de toda a aparência de avareza, de tal sorte que ninguém possa suspeitar de nós que andamos buscando mais o tem­poral que o espiritual.

11 Entre elas, Bento Ugoccioni (MX I 216).
12 Frei João Soares de Albergaria, OESA.
13 Parece referir-se a Fr. Francisco de Villafranca, OESA, então pregador prin­cipal da corte e confessor da Rainha. Nascido em Toledo em 1474, morreu em Lisboa em 1555. Sobre ele tratam J. ANTONIO, Flos Sanctorum Augustiniani I (Lisboa 1721); RODRIGUES, Hist. Além dele, pregavam também na corte, como refere Barros, Frei Soares (Compilação de várias obras de J. de Barros, Lisboa 1785, p. 207) e Frei Luís de Montoya (Corpo Diplomático Português V 136).
14 Nome desconhecido. Talvez Gonçalo de Medeiros, o qual, porém, não era ainda clérigo (cf. MX; RODRIGUES, Hist.).
15 Deve referir-se a um subdiácono, cujo nome se desconhece.
16 Dr. Lopo Serrão, nascido na diocese de Évora, é mencionado juntamente com João Codure entre os «jurados» da Universidade de Paris no dia 20 de Outubro 1534 (Acta Rectoria Universitatis Parisiensis, Bibl. Nat. Paris, Mss. Lat. 9953, 3r). Lá mesmo fez Exercícios Espirituais sob a orientação de Fabro (Xavier-doc. 7,5). Nenhum destes três foi com Xavier para a Índia.

Preparam-se para começar a pregar
9. O Rei falou a um Bispo, que muito nos ama17, e a um confes­sor seu18, para que pregássemos. Nós, adiando por alguns dias, para primeiro entrar pelas coisas baixas, não mostramos vontade de que­rer pregar, ainda que todos os que nos conhecem não desejam outra coisa. Sua Alteza mandou-nos chamar um dia e, depois de muitas coisas passadas, disse-nos que gostava que pregássemos. Então nos oferecemos de muita vontade para o fazer, assim por lhe obedecer como pela esperança que temos em Cristo Nosso Senhor que nos há-de favorecer, para que possamos fazer algum fruto nas almas. Começaremos, deste domingo que vem a oito dias, e não será de menos que façamos algum fruto, ao ver como os desta cidade nos são afeiçoados. O que a Nosso Senhor muito rogamos é que aumente a fé daqueles que de nós têm alguma expectativa ou opinião. E pela opinião que de nós têm, confiamos muito em Deus Nosso Senhor que, não olhando a nós mas à fé dos que nos desejam ouvir, nos há-de dar saber e graça para que possamos não só consolá-los, mas também dizer o que for necessário ou útil à salvação das [suas] almas.

Saudação final
De Lisboa, a 23 de Julho do ano 1540
Por todos estes vossos no Senhor caríssimos, FRANCISCO

17 Parece falar de D. Ambrósio Pereira, OESA, bispo titular de Ruskoi (Trácia), coadjutor do Arcebispo de Lisboa. Sobre os dados incertos da sua vida, cf. RODRI­GUES I/1, 285, n. 2.
18 Fr. João Soares.
[A humildade de Francisco Xavier convencia-o que alguém influenciava no ânimo do rei; não acontecia porém assim. O rei, encantado pelo bem que os dois Padres haviam já feito, tanto à corte como à cidade, desejava ardentemente retê-los, e o seu confessor assim como o seu capelão eram do mesmo parecer. Ele desejava até que Xavier habitasse no paço, e lhe fizera preparar um aposento que o nosso Santo recusara, preferindo mil vezes o hospital onde, podia estar junto dos doentes pobres e do Padre Rodrigues, e onde podia mais livremente servir a Deus.
O rei queria também que os Padres comessem à sua mesa; porém eles preferiram continuar esmolando o pão de cada dia, e sobretudo conservar a liberdade de seguir a regra, à qual haviam feito voto de serem fiéis até à morte.]

7
AOS PADRES INÁCIO DE LOYOLA
E PEDRO CODÁCIO (ROMA)
Lisboa, 26 de Julho 1540
Autógrafo de Xavier, em castelhano

A graça e amor de Cristo nosso Senhor seja sempre em nossa ajuda e favor.

Pede o Breve de confirmação da Companhia de Jesus e o manualzito dos «Exercícios Espirituais» para os mostrar ao Rei. Grandes desejos do Embaixador de receber cartas dos primeiros companheiros jesuítas
1. Depois de ter escrito muito longamente de tudo o de cá1, aparecerem algumas coisas que nos esquecemos de escrever, entre as quais se contam as que se seguem. Se o Breve referente a toda a Companhia já tiver sido expedido2, enviai-nos uma cópia, porque o Rei e os que nos são afeiçoados gostarão de o ver, assim como a sen­tença que o governador deu a nosso favor3. Os Exercícios4 pediu-os o Rei, com desejo de os ver. Se nos enviásseis uma cópia dos corrigi­dos5, parecendo-vos, também Sua Alteza gostará de os ver, pois está muito bem com toda a Companhia. Parece que todos os serviços lhe devemos, pelo acrescido amor que nos tem.
Recebemos duas cartas vossas, ambas muito breves: uma, escrita a 8 de Junho e a outra, no primeiro dia de Maio. O senhor Em­baixador6 gostará de receber alguma carta vossa. Algumas que lhe tendes escrito, recebidas no caminho de Roma a Portugal, sabei que as tem guardadas7. Se não puderdes escrever, fazei que as cartas que escreve Estrada8 as possamos mostrar ao Embaixador, e nelas fale dele.

1 Xavier-doc. 6.
2 Lit.: Despedido. Trata-se da aprovação pontifícia da Companhia de Jesus, ocorrida dois meses depois desta carta pela Bula «Regimini militantis Ecclesiae», 27.Set.1540.
3 Sobre esta sentença, cf. Xavier-doc. 6.
4 Cópia do manualzito dos Exercícios Espirituais de S. Inácio, que só foi im­presso em 1548.
5 Cf. Epp. Mixtae I 25; 29.
6 D. Pedro de Mascarenhas.
7 O Embaixador recebeu uma carta de Inácio em Bolonha. A sua resposta está editada em MX II 134. Mas no arquivo da família Mascarenhas não se conserva hoje nenhuma carta de Inácio.
8 António de Estrada (Strata), S.I.

Os Padres dão Exercícios Espi­rituais a algumas pessoas e preparam outras para isso
2. Agora, neste momento, estamos a dar Exercícios a dois licen­ciados em teologia: um, muito famoso pregador9 e o outro, mestre de um irmão do Rei: do infante dom Henrique10. Com outras pessoas de qualidade fazemo-nos desejar, crendo que quanto mais os deseja­rem fazer, mais aproveitarão em fazê-los. Coisa é para louvar a Deus Nosso Senhor, a de ver muitos que se confessam e comungam.

Vejam em Roma se Francis­co de Estrada deve fazer os estudos em Coimbra. Oportunidade de ali fundar Colégio e noutros lugares alguma Casa própria
3. Vede o que vos parece de Francisco de Estrada vir para a uni­versidade de Coimbra, porque não faltará cá, para ele e para outros, o necessário para os seus estudos11. Como a gente de cá é muito bem inclinada a todas as coisas pias e boas, não duvidamos que em breve se fará cá, nesta universidade, algum colégio. Nós, com o andar do tempo, não deixaremos de falar ao Rei sobre uma casa de estudantes. Para isso seria necessário sabermos a vossa intenção acerca da manei­ra que se há de ter, e de quem os há-de governar e o regulamento que hão-de ter para crescerem mais em espírito que em letras, para que, quando falarmos ao Rei, o informemos do modo de viver que hão-de ter os que estudarem nos nossos colégios. De tudo isto escre­vei-nos longamente.
Não vemos dificuldade para que cá se edifique uma casa de colé­gio e outras das nossas. Muito gostariam os de cá fazer-nos casas, se houvesse pessoas para as habitar.

[*Humildade: “que não seja feita a minha vontada, mas a de Deus” - A sua vida tão mortificada, tão humilde, tão perfeita fazia a admiração geral, e quando se comparava com o que Francisco Xavier havia sacrificado, redobrava a admiração pela sua pessoa, e o rei encontrava sempre calorosas aprovações quando expunha os seus desejos de o conservar em Lisboa.
Xavier, conquanto ambicionasse sempre a missão das Índias não mostrava contudo nenhuma preferência, e esperava que Deus dispusesse de si segundo a sua vontade. Escrevia então o seguinte ao seu prezado Padre Inácio:]

Incertezas da partida para a Índia
4. O Bispo, nosso amigo12, disse-nos que o Rei não está de todo resolvido a enviar-nos para as Índias, parecendo-lhes que não menos serviremos cá a Nosso Senhor que lá. Contestaram13 dois Bispos, parecendo-lhes que de nenhum modo devemos cá ficar, mas ir para as Índias, parecendo-lhes que alguns reis havemos de converter.
Nós sempre nos esforçamos por buscar companhia, e creio que não nos há-de faltar, à medida que se vão manifestando. Se ficarmos, faremos algumas casas, os que ficarmos. Para ficarem, apareceriam mais que para irem. Se formos, e Deus Nosso Senhor nos der alguns anos de vida, faremos, com a ajuda de Deus, algumas casas entre os índios e negros.

Pede, contudo, alguns poderes e instruções para agregar companheiros na Índia
5. Se o Breve que se refere a toda a Companhia não estiver despachado, fazei que nos dêem licença de edificar casas da nossa profissão entre infiéis. Tanto se ficarmos cá, como se formos para as Índias, por amor e serviço de Deus Nosso Senhor, escrevei-nos o modo e ordem que havemos de ter em fazer companhia, e isto muito por longo, pois estais ao par do nosso pouco talento. E se não nos ajudais, por falta de não saber negociar deixar-se-á de acrescentar o maior serviço de Deus Nosso Senhor.
De Lisboa a 26 de Julho, ano [1540
Por todos estes vossos, FRANCISCO]

(Postscrito da mão do doutor L. Serrão): Eu sou um doutor médico, [chamado M. Lopo] Serrão, que fiz os Exercícios em Paris com Mestre Pedro Fabro. Dado que pouco me aproveitei neles, agora, se Deus quiser, farei aqui, com os Irmãos, as eleições para ir para a Índia. Por amor de Nosso Senhor, roguem a Deus por mim, para que me faça bom médico nas coisas espirituais e, nas temporais, en­quanto isso me ajuda às espirituais. - SERRÃO, DOUTOR14
9 Talvez Fr. Luís de Montoya, OESA, um dos pregadores da corte e dos pri­meiros fautores da Companhia de Jesus (Epp. Mixtae II 672-673) nascido em Belmonte (Cuenca) em 1497, admitido na Ordem dos Agostinhos em 1514, fale­cido em Lisboa com fama de santidade em 1569 (SANTIAGO VELA V 589-597; Corpo Diplomático Português V 136).
10 D. Henrique, irmão de D. João III, nascido em 1512, administrador da Ar­quidiocese de Braga em 1533, seu Arcebispo em 1539, Arcebispo de Évora em Set. 1540, de Lisboa em 1564, cardeal desde 1545, Rei em 1578-1580, falecido em 1580; História de Portugal II 430-460). O nome deste mestre do Infante ignoramo-lo.
11 Francisco de Estrada (Strata), S.I., nascido em Dueñas (Palencia) pelo ano de 1519, admitido à Companhia de Jesus em Roma em 1538, morreu em Toledo em 1584 (ASTRAIN, Historia de la Compañia de Jesus en la Assistência de España I 204; TACCHI VENTURI, Storia della Compagnia di Gesù in Italia II 223-225. Em Fevereiro de 1541 foi enviado a completar os seus estudos em Paris; daí, a Lovaina e, finalmente, em 1544, a Coimbra.
12 Provavelmente D. Ambrósio Pereira, de que se falou no Doc. 6.
13 Lit.: instaron. Segundo TELLES e FRANCO, o infante D. Henrique queria enviar os Padres para a Índia. Mas RODRIGUES (Hist. I/1, 259, n.3) baseado em sólidas razões acha falsa esta opinião. Talvez se trate antes de D. Diogo Ortiz de Vilhegas, bispo de S. Tomé e, no ano de 1540, capelão da capela real.
14 Sobre ele, ver Xavier-doc. 6.
8
A MARTÍN DE AZPILCUETA
Lisboa, 28 de Setembro 1540
Autógrafo de Xavier, em castelhano
IHUS
Mui reverendo senhor1
Agradece cartas recebidas
1. Recebi duas cartas de v. mercê desde que estou nesta cidade, e todas elas cheias de amor e caridade para comigo2. Cristo Nosso Senhor, por cujo amor se moveu a escrever-me, pague tanta cari­dade e vontade, pois eu, mesmo que o queira, não posso cumprir a obrigação que [lhe] devo, nem corresponder à muita vontade que me tem. Conhecendo a minha fraqueza e, isto pela bondade divina, quão inútil sou para tudo, depois de ter tido de mim mesmo algum conhecimento, ou ao menos uma sombra dele, procurei pôr toda a minha esperança e confiança em Deus, ao ver que eu a ninguém dou as devidas graças. Isto grandemente me consola: que poderoso é Deus para dar por mim, à santa alma de v. mercê e a outras seme­lhantes, larguíssima remuneração e prémio.

Deseja informar o doutor por palavra sobre o Instituto da Companhia de Jesus
2. Para dar conta das minhas coisas, sobretudo do meu instituto de vida3, muito gostara que se oferecesse ocasião de nos vermos, porque ninguém neste assunto o poderia informar melhor do que eu. Praza a Deus Nosso Senhor, entre muitas mercês que de sua divina Majestade tenho recebido, fazer-me esta: que nesta vida nos vejamos, antes de o meu companheiro e eu partirmos para as Índias. Então poderei dar inteira conta do que v. mercê por suas cartas me pede, pois por carta, para evitar prolixidade, não se pode fazer como­damente. Quanto ao que v. mercê por sua carta diz – que, segundo é costume dos homens, se dizem muitas coisas sobre o nosso instituto de vida – pouco importa, doutor egrégio, ser julgados pelos homens, sobretudo por aqueles que julgam duma coisa antes de a conhecer.

Recomenda-lhe o portador da carta
3. O portador da presente, que é Brás Gomes4, deseja ser mui servidor de v. mercê e seu discípulo. Ele é muito meu amigo e eu dele. Da minha parte lhe suplico que, se as minhas súplicas podem algo com v. mercê – e podem muito por vossa amabilidade – aceite uma tão inteira vontade que ele lhe tem, desejando servi-lo e ser seu discípulo. Além de que, em recebê-lo por seu, fará serviço a Nosso Senhor, a mim me fará mui assinalada mercê em tomá-lo a seu cargo acerca do estudo, pois é pessoa que deseja empregar a sua juventude em boas letras. E a isto veja v. mercê a obrigação que tem, uma vez que Deus Nosso Senhor lhe deu tão amplíssimo talento em letras: e não só para ele, mas para muitos através dele.
Nosso Senhor esteja sempre em nossa guarda. Amén.
De Lisboa, a 28 de Setembro, ano 1540.
Vosso em Cristo enquanto viver, FRANCISCO DE XABIER

(1) Martin de Azpilcueta y Jaurequízar, conhecido como doutor Navarro, ce­lebérrimo professor de Direito civil e canónico, nasceu em Barasoáin (Valdorba, Navarra) em 1492. Cónego dos regulares de S. Agostinho de Roncesvalles, en­sinou com geral aplauso nas universidades de Cahors, Salamanca e, nos anos de 1538-1555, também em Coimbra. Morreu em Roma em 1586. Quanto ao parentesco com Xavier, note-se que o pai do doutor Navarro era Martín de Azpilcueta , que era filho de Miguel de Azpilcueta. Ora, um irmão deste Miguel era João, o qual foi pai doutro Martín, que foi o pai de Maria de Azpilcueta, mãe de Xavier (CROS, Doc. Nouv. II 10r-v).
(2) Martín de Azpilcueta, neto dum irmão do doutor Navarro e seu herdeiro, testemunhava assim em 1614: «Quando o Padre Xavier foi para Portugal, o Dr. Martín de Azpilcueta Navarro era Lente da cátedra de prima na universidade de Coimbra, em Portugal, e teve notícia, por uma carta dum comerciante de Navar­ra, de que o dito Padre Francisco Xavier tinha chegado àquele reino… e escreveu o dito Dr. Navarro uma carta ao Rei D. João, queixando-se muito que o dito P. Xavier não o fosse ver a Coimbra… e que suplicava a Sua Alteza lhe mandasse que fosse a Coimbra… e que depois, quando fosse jubilado, iriam os dois juntos, tio e sobrinho, para as Índias» (MX II 672).
(3) O Dr. Navarro, posteriormente amigo sincero da Companhia de Jesus, ao princípio teve alguns preconceitos contra ela, como ele mesmo confessa em 1550: «Concordava com os preconceitos de muitos sobre este vosso instituto de vida».
(4) Fr. Bernardo da Cruz, reitor da universidade de Coimbra, em carta de 11 de Setembro de 1543, escrita daquela cidade para D. João III, entre os novos bacha­réis canonistas da universidade nomeia em sétimo lugar este Brás Gomes: «7. Um Brás Gomez, creo que natural de Santarém, mancebo segun dizem bem docto e virtuoso e de quem se esperava muito; mas nom lhe socedeo bem na lição» (TdT CC 1-73-117). Não confundir com Braz Gomes, S.I., nascido na Vidigueira em 1536 e professor em Coimbra em 1559-1560.
9
AOS PADRES PEDRO CODÁCIO E INÁCIO DE LOYOLA (ROMA)
Lisboa, 22 de Outubro 1540
Autógrafo de Xavier, em castelhano
[*Renovação de fé em Lisboa com Xavier e Rodrigues - A cidade de Lisboa achava-se já transformada, devido ao abençoado ministério dos dois santos jesuítas; e o rei cada vez mais satisfeito nutria maiores desejos de conservar estes apóstolos com o fim de fazer reviver a fé e a piedade em todo o reino.
A santa vida dos missionários atraiu-lhes discípulos que se ofereceram a segui-los até às Índias, e Xavier, considerando-se feliz por encontrar jovens decididos a secundar o seu zelo, escrevia a Santo Inácio:]

A graça e amor de Cristo Nosso Senhor seja sempre em nossa ajuda e favor.
Cresce o número de companheiros em Lisboa
1. Pela muita pressa do correio, é-nos forçoso escrever com bre­vidade1. De cá vos fazemos saber que estamos com muita saúde e nos vamos acrescentando, pois já somos seis, todos conhecidos de Paris2, a não ser Dom Paulo e Manuel de Santa Clara. Praza a Nosso Senhor dar-nos graça para aumentar o seu Nome entre gentes que não o conhecem.

Trabalhos sacer­dotais
2. Aqui, com o vosso favor daí, Deus Nosso Senhor faz-nos mer­cê de o servir, pois o fruto que aqui se faz excede o nosso poder, saber e entender: as confissões são tantas, e de pessoas de qualidade, que nos falta tempo para atender a todos. O infante D. Henrique, inqui­sidor mor deste reino, irmão do Rei, recomendou-nos muitas vezes que olhássemos pelos presos da Inquisição, e por isso os visitamos todos os dias e os ajudamos a conhecer a mercê que Nosso Senhor lhes faz em detê-los lá. A todos juntos, fazemos-lhes uma prática todos os dias e, em exercícios da primeira semana3, não pouco se vão aproveitando. Dizem-nos muitos deles que Deus Nosso Senhor lhes fez muita mercê em os trazer ao conhecimento de muitas coisas necessárias para a salvação das suas almas.

O Rei envia cartas de recomendação da Companhia ao Papa e ao seu Embaixador em Roma
3. Nos dias passados, enviamo-vos cartas do Rei para o Papa e para o seu Embaixador4 a recomendar as nossas coisas como as suas próprias5: para cartas de recomendação dos desta corte, já não temos necessidade de intercessores. Se não fosse por causa da morte do in­fante D. Duarte6, teria escrito Sua Alteza outra vez a Sua Santidade, e ao cardeal Santiquatro7, e a todas as outras pessoas que aí, com a sua intercessão, vos podem fazer favor. Está o Rei tão recolhido que ninguém lhe fala em negócios: sentiu muito a morte de seu irmão, o Infante. Passados alguns dias, [já] faremos que escreva a todas essas pessoas que nos fazeis saber.

Pede um rescrito para que o candidato M. G. Medeiros possa receber ordens sacras fora de têmporas; e também para ele mesmo poder conceder, a seis clérigos, licença de rezar pelo novo Breviário. Urge o envio do Breve respeitante à Índia
4. Um estudante de Paris decidiu-se a ficar connosco: chama-se Mestre Gonçalo Mederes8, e não é clérigo. Por serviço de Deus Nos­so Senhor, enviai-nos um despacho para que, em três festas, possa receber todas as ordens, para se tornar clérigo antes de irmos para as Índias; e também licença para seis clérigos, de poderem rezar pelo breviário novo: isto para que nós [mesmos], a seis, possamos dar a tal licença dos que hão de ir connosco para as Índias9. Por amor de Nosso Senhor: que com toda a brevidade possível nos envieis o nosso despacho do Breve para as Índias, porque o tempo se vai já acercando! Esperamos em Deus Nosso Senhor que havemos de fazer muito fruto.

1 No dia 22 de Outubro de 1540, Afonso Fernandes, correio régio, partiu com esta carta para Roma (Corpo Dipl. Português.
2 Os seis aludidos eram provavelmente estes: Xavier, Simão Rodrigues, Micer Paulo, Manuel de Santa Clara, Gonçalo de Medeiros, Francisco Mansilhas. Este último é, de facto, mencionado por Xavier como «companheiro» em Março de 1541; mas, se é de crer Sebastião Gonçalves, já tinha sido conquistado por Simão Rodrigues, antes da chegada de Xavier (RODRIGUES, Hist. I/1, 255-256). Não sendo assim, o sexto seria talvez o Dr. Serrão.
3 Cf. Exercícios Espirituais de S. Inácio de Loyola, n. 23-90.
4 Cristóvão de Sousa.
5 Por essa altura, S. Inácio andava empenhado em obter cartas de recomenda­ção de toda a parte, para conseguir a aprovação papal da Companhia de Jesus.
6 D. Duarte, irmão do Rei, nasceu em Lisboa em 1515 e aí morreu no dia 20 de Outubro de 1540 (F. ALMEIDA, H. de P.).
7 Antóni Pucci, florentino, bispo de Pistoia, feito cardeal em 1531 com o título dos Santos Quatro Coroados, donde lhe veio o nome. Era o protector de Portugal junto da cúria romana. Morreu em 1544 (GULIK-EUBEL, Hierarchia Catholica Medii).
8 Gonçalo de Medeiros, o primeiro a entrar na Companhia de Jesus em Por­tugal, nasceu em Mesão Frio (Trás-os-Montes) e morreu em Lisboa em 1552 (RODRIGUES, Hist. I/1, 255). Nas Acta Rectoria Universitatis Parisiensis, no ano 1526, é mencionado entre os jurados (Bibl. Nat. Paris, Mss. Lat. 9951, f. 156v).
9 Trata-se do Breviário, composto pelo cardeal Quiñones e aprovado por Paulo III. Foi impresso pela primeira vez em Roma em 1536: para cada dia, designa apenas três leituras. Pelo Doc. 18, sabemos que Xavier obteve a licença aqui pedida.
Dos estudantes que irão estudar em Paris e da fundação de colégio em Coimbra
5. Fazei-nos saber o que aqui podemos fazer acerca dos que foram e hão de ir para Paris estudar e a resposta às cartas que vos escreve­mos, acerca do de Estrada10 ou de outro, para fazer alguma casa de estudantes na universidade de Coimbra, porque aqui temos muito favor e autoridade para obras pias. De tudo nos fazei saber, para que aqui, com parecer vosso, negociemos o que vos parecer mais convir para louvor de Deus.
Esta, servirá de carta; e a de Mestre Simão, de folhazita [anexa], dada a muita pressa do correio11.

De Outubro a 22 de 1540
(Por mão de Simão Rodrigues): Vosso irmão em nome dos dois, MESTRE SIMÃO

[*Era chegado o momento de se tomar uma resolução imediata. D. João III reuniu o seu conselho e pediu-lhe a opinião sobre este objecto, depois de ter feito conhecer a sua, ou antes o seu grande desejo de reter os dois apóstolos.
À exceção do infante Henrique, todos os conselheiros foram da opinião do rei; e anunciou-se aos Padres que não sairiam do reino, onde prestavam tão grandes serviços.
Qualquer que fosse a dor de Francisco Xavier, submeteu-se às ordens do soberano como à voz da Providência e continuou os seus trabalhos. Não se queixou nem mesmo ao seu Padre Inácio, limitando-se a expor-lhe somente os factos com a humildade e submissão habituais, e aguardou a sua decisão.]
10 Francisco de Estrada.
11 Vê-se que, pela pressa do correio, não houve tempo para a folhazita anexa, e que Rodrigues se contentou com pôr na carta a despedida e a assinatura.
______________
[*Esperança do tio de Xavier em vê-lo - A primeira cadeira de teologia, na Universidade de Coimbra, era ocupada por um sábio professor de tão grande reputação, que perdera no público o seu nome de família, e só era conhecido em todo Portugal pelo do país em que nascera: chamavam-lhe o doutor Navarro. Estudara na França, em Cahors, e depois na Universidade de Tolosa, onde recebeu os seus graus e em seguida exerceu o professorado com brilhante distinção. Daquela cadeira havia ele sido chamado para a primeira de Coimbra; porém conservava uma constante recordação de reconhecimento pela França, confessando que tudo quanto sabia o havia adquirido em Tolosa.
Esta cidade devia orgulhar-se, porque o doutor Navarro, tão recomendável pela sua elevada piedade e grandes virtudes, como pela sua ciência e pelas obras que deixou, era irmão de D. Maria, a piedosa e veneranda castelã de Xavier e portanto tio materno do nosso Santo.
Martinho de Azpilcueta soubera da chegada de seu sobrinho a Lisboa, assim como da reputação de santidade que adquirira na corte e na cidade, e as bênçãos que Deus se dignava derramar sobre o seu ministério. Satisfeito com estas notícias, o doutor Navarro escreveu a Xavier pedindo-lhe que viesse a Coimbra e não recusasse esta consolação ao único irmão de sua mãe.
Xavier testemunhou a Martinho o seu reconhecimento pela afeição que lhe exprimia na carta que recebera e lhe respondeu que não podia abandonar os seus trabalhos apostólicos; que ele o tornaria a ver no Céu donde não se separariam jamais.
Martinho, convencido de que as suas instâncias não influiriam em seu sobrinho, escreveu ao rei rogando-lhe que ordenasse a Xavier que fizesse uma viagem a Coimbra, donde ele não podia sair por aqueles tempos; oferecia-se, para obter aquele favor, a dar duas lições a mais, sem aumento de honorários, uma de Direito Canônico, outra de Teologia mística, e comprometia-se até a acompanhar seu sobrinho às Índias, a fim de ali se dedicar com ele à conversão dos infiéis.
Xavier, pelo seu lado, conjurou o rei para que lhe não desse uma ordem com a qual a sua consciência se assustava, e o príncipe, desejando ser-lhe agradável, respondeu negativamente.
Francisco Xavier escreveu então a seu tio convencendo-o a que não pensasse na viagem às Índias, cujas fadigas e trabalhos a sua, avançada idade não poderia suportar.
"Eu teria acabado ali os meus dias, diz D. Martinho no seu Manual, se Xavier, por causa da minha idade, me não tivesse julgado incapaz de suportar as grandes fadigas da sua missão, e se ele me não tivesse pedido, na sua partida, que me consolasse da sua ausência coxas a esperança de nos vermos no Céu".
Este santo Padre, cônego regular de Santo Agostinho, era venerado pela sua piedade, suas mortificações e sua grande caridade. Morreu em Roma, na idade de 85 anos, e foi enterrado na igreja de Santo Antônio dos portugueses, no Campo de Marte.]

10
A MARTÍN DE AZPILCUETA (COIMBRA)
Lisboa, 4 de Novembro 1540
Autógrafo de Xavier, em castelhano
Mui nobre e reverendo senhor:

Felicita-o pelas suas boas obras e magistério e anima-o a perseverar. Promete escrever ao Prior de Roncesvalles
1. Com uma carta de v. mercê, escrita a 25 de Outubro, a mi­nha alma recebeu tanto gozo e consolação que, depois da sua vista, desejada por mim já há muitos dias, coisa nenhuma me podia dar mais descanso que1 saber dos seus trabalhos e ocupações tão santas, como são, em obras de piedade, em ensinar aos que só desejam saber para com isso servir a Cristo Nosso Senhor. Não lhe tenho aquela compaixão que teria se pensasse que o amplíssimo talento, que Cristo Nosso Senhor lhe deu, não o emprega como fiel servo, tendo por certo que o prémio do trabalho será maior que a fadiga de o ter ganhado, quando «sobre muita coisa for constituído, aquele que no pouco for fiel2». E se trabalhos se lhe oferecem no presente em ler alguma lição a mais do que é costume, uma coisa3 lhe deve dar forças para com muita vontade aceitar semelhantes trabalhos: ver que algum [ou outro] dia deixou de pôr os que devia, em em­pregar o seu muito talento em letras. E os que gostamos do seu bem, gozamos muito de ver que assim paga dívidas passadas, não », sobretudo ». se fiando nos seus herdeiros: com efeito4, muitos penam no outro mundo por ter-se remetido demasiado aos seus testamenteiros. E «horrenda coisa é, cair assim nas mãos do Deus vivo5«para dar contas da administração6
2. Praza a Deus Nosso Senhor, a quem tão liberalmente aprouve dar a v. mercê tantas letras para as repartir com outros, que [tam­bém] v. mercê seja assim liberal em as repartir com aqueles que só desejam saber para, com isso, ao Criador e Senhor de todas as coisas servir. E, tendo a sua glória diante, e aumento dela desejando, lhe dará o Senhor forças. E assim se fará, Doutor egrégio, que na outra vida venhamos a ser companheiros nas consolações, se nesta formos companheiros nas penas7.
Ao senhor Prior de Roncesvalles8 escreverei, como v. mercê mo manda, pelo senhor Francisco de Motilloa9, quando para Navarra partir, que será daqui a 20 dias. Quanto ao mais, remeto-me para o nosso encontro, o qual será quando menos pensar, pois o amor que pelas suas cartas me mostra tão crescido, me obriga a que nesta parte lhe seja obediente10. Eu, porém, calo o meu vínculo de amor com v. mercê: o Senhor, o único que penetra os segredos de nós ambos, sabe quão íntimo me é v. mercê.
Vale, doctor egregie, e ame-me como costuma.
De Lisboa, a 4 de Novembro, ano 1540
Humilde servo de v. mercê no Senhor, FRANCISCO DE XAVIER



1 Lit.: e.
2 Cf. Mt 25,21.
3 Lit.: isto.
4 Lit.: pois.
5 Hebr 10,31.        
6 Cf. Lc 16,2.
7 Cf. 2Cor 1,7.


8 D. Francisco de Navarra, nascido em Tafalla em 1498, de nobre estirpe, ligado por amizade às famílias dos Xavier e dos Azpilcueta, Prior do convento de Roncesvalles em 1518-1542, Bispo diocesano de Ciudad Rodrigo (1542) e Bada­joz (1545), Arcebispo de Valencia em 1556, morreu em Torrente em 1563.
9 Francisco de Motilloa, senhor do palácio Zubiza, parente de Xavier, co­merciante opulento na cidade de Pamplona, onde deixou uma fundação para Missas na igreja de S. Saturnino
10 Já não se puderam encontrar.
[Mudanças de planos, enfim as Índias - Santo Inácio de Loiola havia comunicado ao Papa a resolução do rei de Portugal com respeito aos dois missionários, e o Papa deixara ao rei a liberdade de dispor dum e doutro como julgasse mais conveniente para a glória de Deus.
Inácio escreveu então a Xavier pedindo-lhe que obedecesse às ordens do rei como vindas de Deus e se conservasse em Portugal.
Humilhou-se profundamente o nosso Santo com a leitura daquela carta. Até então esperava que Deus faria resolver de outro modo o seu querido superior; hoje reconhecia que era julgado indigno do grande apostolado que desde tão longo tempo era o objeto de seus votos; submeteu-se, pois, e redobrou de zelo nos trabalhos do seu ministério em Lisboa.
Poucos dias depois, Pedro de Mascarenhas veio procurá-lo, e lhe disse
- Caro Padre Francisco, as vossas malas estão feitas?
- Sempre o estão, senhor; para onde devo ir? Estou pronto a obedecer às ordens de Sua Alteza.
- Muito bem! meu Padre, preparai-vos para uma grande missão!
- Eis-me aqui, senhor.
- Às Índias! meu caro Padre, às Índias!
- Às Índias, senhor?... Eu?
Vós, sim, Padre Francisco Xavier! O rei faz-vos embarcar com Martim Afonso de Sousa!...
Xavier ficou satisfeitíssimo; lágrimas de alegria e reconhecimento inundavam o seu rosto, que naquele momento tinha uma expressão mais celeste ainda que de ordinário. Abraçou D. Pedro com enternecimento, e Pedro cheio de admiração por um tão grande zelo e dedicação, agradecia a Deus, no íntimo da sua alma, por conceder às Índias um apóstolo de tamanho valor e de uma santidade tão eminente.
Xavier não lhe perguntou absolutamente nada sobre aquela mudança nas intenções do rei. Ele ia evangelizar os idólatras, partia para as missões mais longínquas e mais perigosas; o seu zelo pela glória de Deus não via outra coisa, não tinha outro fim, e ele julgava-se portanto completamente feliz:

Decisão de Inácio – Pedro disse-lhe: Não me perguntais, meu Padre, como foi que o rei tomasse uma resolução tão contrária aos seus desejos?
- Basta-me, senhor, saber que Deus tenha manifestado a sua vontade. Sou tão feliz em partir para as Índias!
- "Eu quero, porém, que vós saibais tudo; estou mesmo encarregado de vo-lo dizer.
O Padre Inácio escreveu-me encarregando-me de propor ao rei a deixar ficar o Padre Rodrigues em Portugal e a enviar-vos para as Índias. Quando o rei leu a carta do Padre Inácio, viu nela uma ordem de Deus, e fez o sacrifício que lhe. era pedido.
Eis aqui, pois, meu caro Padre, o que ocorreu e que fez com que eu pudesse trazer-vos uma nova que vos torna feliz e nos aflige, conquanto rendamos graças a Deus por dar às Índias um apóstolo do vosso mérito.
Embarcareis a 7 de Maio próximo com o vice-rei".
Xavier, exultando de felicidade, escreveu imediatamente ao Pai da sua alma, como ele chamava a Santo Inácio, e alguns dias antes do seu embarque dirigiu uma longa carta à Companhia de Jesus em Roma, com o fim de lhe dar conta do seu apostolado em Portugal, das suas esperanças no das Índias e dos sentimentos que ocupavam completamente a sua grande e bela alma.

Carta de agradecimento de Xavier a Inácio - Esta carta faz conhecer tão exuberantemente a ternura de coração, a extrema humildade e ardente zelo do nosso Santo, que não nos podemos dispensar de a transcrever:]

11
AOS PADRES INÁCIO DE LOYOLA E JOÃO CODURI (ROMA)
Lisboa, 18 de Março 1541
Autógrafo de Xavier, em castelhano
IHUS.
A graça e amor de Cristo nosso Senhor seja sempre em nossa ajuda e favor.

Alegra-se do bom estado da Companhia e dos trabalhos dos compa­nheiros
1. Recebemos as vossas cartas, de nós muito desejadas, com as quais gozaram tanto as nossas almas quanta a obrigação que temos de saber, quer da saúde de toda a Companhia, quer das ocupações tão santas e pias em que todos vos ocupais, a saber: em edificar, tanto espirituais casas como materiais, para que os presentes e os que hão de vir1, tendo meios necessários para trabalhar na vinha do Senhor2, possam levar por diante o que tão em serviço de Nosso Senhor está começado. Praza a Nosso Senhor que a nós, ausentes apenas em corpo mas presentes em espírito3, agora mais do que nunca nos dê a sua santa graça para vos imitar, pois dessa maneira nos mostrais o caminho para servir a Cristo Nosso Senhor.

O Rei decidiu erigir duas casas da Companhia em Portugal
2. De cá vos faço saber que4 o Rei, parecendo-lhe bem o nosso modo de proceder, tanto pela experiência que tem do fruto espi­ritual que se faz, como por esperar [ainda] maior quantos mais formos, está resolvido a fazer um colégio e uma casa para os nossos, a saber, os da Companhia de Jesus. Para os edificar, ficam cá três: Mestre Simão, Mestre Gonçalo5 e outro sacerdote douto em câno­nes6. E outros muitos se vão descobrindo para entrar na Compa­nhia. Tomou o Rei muito a peito e deveras fazer estas casas. Todas as vezes que o temos visitado, nos tem falado sempre disso, sem nós nunca lhe termos falado, nem por nós nem por terceiras pessoas. Só por sua única e pura vontade se moveu a querê-las construir. Este Verão, na universidade de Coimbra, construirá o colégio; e, a casa, penso que na cidade de Évora. E creio que vai escrever a Sua Santidade, para que lhe envie alguns ou algum da Companhia para estes princípios, para que ajudem Mestre Simão. O Rei, ao ser tão afeiçoado à nossa Companhia, e desejar o aumento dela como um de nós, e tudo só por amor e honra de Deus Nosso Senhor, a nós faz-nos sentir obrigados por Deus a ser-lhe perpétuos servos, pare­cendo-nos que, a uma vontade tão crescida, [mostrada] em obras tão cumpridas, se não reconhecêssemos a obrigação que temos aos que ao serviço de Deus Nosso Senhor assim se assinalam, diante do acatamento divino cairíamos em grande falta. Por isso, nas nossas orações e indignos sacrifícios, sentimos7 tanta obrigação, que pensa­ríamos cair em pecado de ingratidão se, nos dias que vivermos, nos esquecêssemos de Sua Alteza.
Micer Paulo8 e um outro, português9, e eu, partimos esta sema­na10 para as Índias. E segundo a muita disposição que há naquelas terras para converter almas, pelo que nos dizem todos os que por lá andaram muitos anos, esperamos em Deus Nosso Senhor que have­mos de fazer muito fruto.

1 Por altura de 1 de Fevereiro de 1541 Inácio e seus companheiros mudaram--se para uma casa alugada, «frontero a Santa Maria della Strada apresso Santo Marco, in Roma» (Fabri Mon. 80; cf. TACCI VENTURI, Le case abitate in Roma).
2 Cf. Mt 20,1.
3 Cf. 1 Cor 5,3.
4 Liter.: como.
5 Gonçalo de Medeiros.
6 Manuel de Santa Clara.
7 Liter.: conhecemos.
8 Micer quer dizer meu Senhor. Tinha sido, antigamente, um título honorífico da coroa de Aragão e, no sec. XIX, ainda se aplicava, por exemplo, aos letrados e legistas, nas ilhas Baleares. Micer Paulo, é o Padre Paulo Camerte ou de Camerino. Nasceu em Camerino. Já sacerdote, entrou na Companhia de Jesus em Roma em 1540, para ir com Simão Rodrigues para a Índia. Embarcou com Xavier em 7 de Abril de 1541 e, em Goa, trabalhou primeiro no colégio de S. Paulo, do qual veio a ser reitor quando passou para a direcção da Companhia. Na ausência de Xavier para o Extremo Oriente, ficou a Superior das missões da Índia. Morreu em Goa em 1560. (RODRIGUES, Hist. I/1, 230-231 264; SCHURHAMMER, Ceylon 97; Serapeum 19 (1858) 181).
9 Francisco Mansilhas, depois companheiro de Xavier na Costa da Pescaria (Índia), ordenado sacerdote em Goa em 1545, despedido da Companhia de Jesus em 1548, falecido piedosamente em Cochim em 1565 (SCHURHAMMER, Ceylon 97).
10 Por causa de ventos contrários e da guerra que se preparava no norte de África, a frota só pôde partir a 7 de Abril de 1541 (Epp. Broeti 521; cf. EX, Xa­vier-doc. 15,2).

Sua próxima partida para a Índia com dois companheiros
3. Envia-nos o Rei muito favorecidos11. E recomendou-nos mui­to ao Vice-Rei12 que neste ano vai para as Índias, em cuja nau vamos nós. Este mostra-nos muito amor: tanto, que até da nossa embar­cação ele não quer que outro se encarregue senão ele. E das coisas necessárias para o mar [ele] se encarregou de prover-nos [chegando] até a pôr-nos à sua mesa. Estas particularidades vos escrevo, apenas para que saibais que, com o seu favor, muito fruto podemos fazer entre aqueles reis gentios, pelo muito crédito que um Vice-rei tem naquelas terras.
Louvores ao novo Vice-rei da Índia que o acompanha
4. O Vice-rei que neste ano vai para as Índias, já esteve nelas muitos anos13. É homem muito de bem: essa fama tem em toda esta corte e, lá nas Índias, é mui quisto de todos. Ele me disse, este outro dia, que na Índia, numa ilha só de gentios sem mistura de mouros nem de judeus14, havíamos de fazer muito fruto e, ele, não vê dificul­dade em virem a fazer-se cristãos, o rei15 daquela ilha com os do seu reino.
Esperanças de muitas conversões
5. Creio em Deus Nosso Senhor, pela muita fé dalgumas pessoas que de nós têm algum apreço, e [também] pela necessidade que têm dos nossos pequenos e fracos serviços gentes que ignoram a Deus16 e prestam culto aos demónios, que não podemos duvidar que, posta toda a nossa esperança em Deus, havemos de servir a Cristo Nosso Senhor e ajudar aos nossos próximos, trazendo-os ao verdadeiro co­nhecimento da fé.

Pede instruções para o modo de proceder com infiéis
6. Por amor e serviço de Deus Nosso Senhor, vos rogamos que, para Março que vem, quando partirem as naus de Portugal para a Índia, nos escrevais muito longamente sobre as coisas que aí vos parecer acerca do modo que devemos ter entre os infiéis. Porque, dado que a experiência nos há-de mostrar parte do modo que de­vemos ter, esperamos em Deus Nosso Senhor que o mais, no que se refere à maneira como o havemos de servir, há-de prazer a sua divina Majestade dar-nos por vós a conhecer a maneira como o havemos de servir, como o tem feito até agora. E temendo-nos do que costuma ser [real] e a muitos acontecer – que, ou por descuido ou por não querer perguntar e aceitar de outros, costuma Deus Nosso Senhor negar-lhes muitas coisas, as quais daria se, baixando os nossos entendimentos pedíssemos ajuda e conselho, no que ha­vemos de fazer, principalmente àquelas pessoas por meio das quais aprouve a sua divina Majestade dar-nos a sentir em quê, de nós, se manda servir – rogamo-vos, Padres, e vos suplicamos uma e outra vez no Senhor17, por aquela nossa estreitíssima amizade em Cristo Jesus, que nos escrevais os avisos e meios para mais servir a Deus Nosso Senhor que aí vos parecer que devemos seguir, pois tanto desejamos a vontade de Cristo nosso Senhor ser-nos por vós manifestada. E nas vossas orações, além da costumada memória, outra mais par­ticular vos pedimos que tenhais, pois a longa navegação e o novo trato com gentios, com o nosso pouco saber, pede mais e mais favor do que o costumado.

Intercâmbio de correspondência. Mostras de zelo apostólico do Rei
7. Das Índias vos escreveremos mais longamente, pelas primeiras naus que de lá vierem, dando-vos inteira informação das coisas de lá. Disse-me o Rei, quando dele me despedi, que por amor de Nosso Senhor lhe escrevesse muito longamente acerca da disposição que por lá haja para a conversão daquelas pobres almas, doendo-se muito da miséria em que estão metidas e muito desejoso de que o Criador e Redentor delas não seja perpetuamente ofendido por criaturas, à sua imagem e semelhança criadas e a tanto preço compradas. É tanto o zelo que Sua Alteza tem da honra de Cristo Nosso Senhor e da sal­vação dos próximos, que é coisa para dar infinitos louvores e graças a Deus o ver um Rei que tão bem e piamente sente das coisas de Deus: e tanto é assim que, se eu não fosse testemunha de tudo como sou, não poderia acreditar no muito que nele vi. Praza a Deus Nosso Senhor acrescentar-lhe os dias da sua vida por muitos anos, pois tão bem os emprega, e é tão útil e necessário ao seu povo18.

11 Cf. SCHURHAMMER, Quellen 715 804.
12 Martim Afonso de Sousa, nascido em Vila Viçosa em 1500, gov. da Índia em 1541-1545, falecido em Lisboa em 1571.
13 1534-1539.             /              14 Ceilão (SCHURHAMMER, Ceylon 98).        
15 Bhuvaneka Bâhu, rei da cidade de Kôttê, ao qual Martim Afonso de Sousa tinha libertado da tirania dos maometanos.
16 Cf. 1Tess 4,5.                            /                 17 Cf. 1Tess 4,1.
18 Alusão ao que se diz de S. Martinho, na 5ª leitura do Breviário antigo (11 de Novembro).
Frequência de sacramentos na corte
8. De cá vos faço saber quanto esta corte está reformada: tanto, que participa mais de religião que de corte. São tantos os que, sem faltar, de oito em oito dias se confessam e comungam, que é coisa para dar graças e louvores a Deus. Estamos tão ocupados em con­fissões que, se fôssemos o dobro dos que somos, teríamos peniten­tes de sobra para nos ocupar o dia inteiro e parte da noite. E isto só de cortesãos sem incluir outra gente. Os que vinham tratar de negócios à corte, quando estávamos em Almeirim19, ficavam mara­vilhados de ver a gente que comungava todos os domingos e festas, e eles, vendo o bom exemplo dos da corte, faziam o mesmo. De maneira que, se fôssemos muitos, não haveria nenhum negociante que primeiro não buscasse negociar com Deus que com o Rei. Por causa das muitas confissões não temos tido ocasião de pregar. E, julgando servir mais a Deus Nosso Senhor ocupando-nos em con­fissões que em pregações, por haver muitos pregadores nesta corte, temos deixado de pregar.

Espera encontrar--se com os companheiros só na outra vida
9. Daqui não há mais que fazer-vos saber, senão que estamos para embarcar. Terminamos rogando a Cristo Nosso Senhor que nos dê a graça de nos vermos e juntarmos na outra vida corporalmente, pois nesta não sei se jamais nos veremos, tanto pela grande distância de Roma à Índia, como pela grande messe que lá há sem ter de ir bus­cá-la a outra parte. E quem primeiro for para a outra vida e lá não encontrar o irmão que ama no Senhor20, rogue a Cristo Nosso Senhor que a todos lá na sua glória nos junte.
De Lisboa, a 18 de Março, ano 1541
Por todos estes vossos dilectos no Senhor
FRANCISCO DE XABIER

19 Durante o Inverno, a corte residia em Almeirim, perto de Santarém. Xavier e seus companheiros acompanharam a família real. No dia 9 de Março o Rei vol­tou à capital e a Rainha no dia 4 de Abril (SCHURHAMMER, Quellen).
20 Cf. Cant 3,4; 2Cor 2,13.
12
AOS PADRES CLÁUDIO JAYO E DIOGO LAÍNEZ 1(ROMA)
Lisboa, 18 de Março 1541
Duma cópia em castelhano, feita por 1666

Impossibilidade de o Rei de Portugal contribuir para a construção da casa da Companhia de Jesus em Roma, por causa da guerra com os mouros
1. Acerca do assunto com o Rei sobre a esmola para a construção da casa2, escrevo a Pedro Codácio3 o que aí deve fazer. Para este Ve­rão não vejo muita disposição, por causa da grande guerra que se está a preparar em defesa contra os mouros, os quais, segundo notícias que aqui chegam, vêm com grande poder4.

Pessoas que poderiam interceder junto dele para conseguir essa esmola
  2. Aproveitaria muito que alguns cardeais, amigos do Rei, escre­vessem ao Rei sobre isso, informando-o de quão bem empregada seria a esmola que, para a construção dessa casa, viesse a dar. Creio que o cardeal Carpi5 é amigo do Rei, porque é muito amigo de D. Pedro6. As suas cartas seriam de proveito, juntamente com as de Santiquatro7, assim como as de outros cardeais que sentirdes ser amigos de Sua Alteza. Se se excusarem de escrever ao Rei, ao menos que escrevam a D. Pedro, para que sobre isto fale ao Rei, e tome cargo de fazer esta boa obra. E se o embaixador que está aí for muito devoto da Companhia, aproveitaria que escrevesse ao Rei, informan­do-o da necessidade que há do seu favor.

1 Nos começos de 1541, Inácio chamou a Roma os companheiros dispersos por Itália, para que subscrevessem as Constituições e elegessem o Superior Geral. Entre os convocados estavam também Jaio e Laínez, vindos respectivamente de Brescia e Parma (POLANCO, Chron. I 90).
2 Inácio e os seus companheiros, a 19 de Agosto de 1540, tinham adquirido em enfiteusis perpétuo um pequeno terreno junto à igreja de Santa Maria della Strata (junto à actual igreja do Gesù), para aí construírem casa (TACCI VENTU­RI, Le).
3 Perdeu-se esta carta. Sobre Codácio ver Xavier-doc. 5.
4 Os mouros cercavam já com numerosas tropas o castelo de Santa Cruz do Cabo de Gué e encaminhavam-se também para Mazagão. D. João III teve de or­ganizar imediatamente a defesa contra os atacantes.
5 Rudolfo Pio, nascido em Carpi em 1499, bispo de Faenza em 1528-1544), criado cardeal em 1536, morreu em 1564.
6 Mascarenhas.                  /                 7 António Pucci.

Cartas que convém escrever a D. Pedro de Mascarenhas e ao Rei de Portugal
3. Não deixeis de escrever a D. Pedro Mascarenhas, porque, com as vossas cartas, é tanto o prazer e consolação que recebe, que não saberia descrevê-lo. Eu vos certifico que muito vos ama no Senhor. As vossas cartas tem-nas bem guardadas, e lê-as a miúde, e não sem muita consolação e alegria da sua alma. Vendo quão vosso é, sinto-me obrigado, nos dias em que eu viver, a ser todo seu.
Parece-nos cá, salvo melhor parecer, que aproveitaria que escre­vêsseis ao Rei a dar-lhe graças pelo colégio e casa que quer construir para a Companhia8, porque aqui são muito de cumprimentos. Sei que o Rei gostaria da vossa carta, a julgar pelo que D. Pedro lhe tem dito de vós. Podereis dizer na vossa carta que nós vos escrevemos acerca do colégio e casa que em nome da nossa Companhia quer edificar, porque até isto aproveitará para se dar mais pressa em fazê--las construir: sei que a vossa carta há-de cá ser vista por muitos.

Possível ordenação sacerdotal de Francisco Mansilhas
4. De Francisco Mansilha faço-vos saber que não tem ordens nenhumas. Lá na Índia há um Bispo9; esperamos em Deus que lá se possa ordenar. O bom homem mais participa de muito zelo, bonda­de e grande simplicidade, que de muitas letras. Se Dom Paulo não parte com ele, com as muitas que tem, se Deus nosso Senhor não nos ajuda, não será muito que, lá nas Índias, acerca de ordená-lo, nos vejamos em que fazer. Ele deseja muito, se porventura lá [assim] não o ordenarem, que lhe enviásseis uma dispensa para que, fora de têmporas, em três festas, se pudesse ordenar a título de voluntária pobreza e suficientíssima simplicidade10; e supra a sua muita bondade e santa simplicidade o que por letras não alcança. Porque se tivesse conversado tanto com Bobadilla11 como conversou com Cáceres12, talvez se lhe tivesse pegado mais de uma conversação que da outra e, assim, não nos veríamos agora nestes trabalhos, porque içaria as velas da Escritura em vez das de ciência13. Ele e micer Paulo muito desejariam alcançar de Sua Santidade esta graça: que todas as vezes que dizem Missa possam tirar uma alma do purgatório14.

Missas oferecidas pelo cardeal Gui­diccioni
5. As Missas que, pelo cardeal Guidación15, se disseram da nossa parte, são duzentas e cinquenta, desde que partimos de Roma até agora. Praza a Deus Nosso Senhor que nas Índias acabemos as que restam. Penso para mim uma coisa: é tanta a consolação que acho em celebrar por Monsenhor reverendíssimo que, nos dias que eu viver, tenho de celebrar por sua intenção.

Deseja saber se alguns amigos entraram na Companhia
6. Muito desejamos saber, agora que está confirmada a nossa regra16, se aquelas pessoas – que em amor muito lhes devemos, pela muita vontade que mostravam às nossas coisas, com desejos de que se realizassem – entraram ou estão para entrar nela. Tenho receio de que haja alguns que desejam achar paz não entrando nela; mas, até que entrem, pode ser que não a achem. Não digo isto só por Francisco Zapata17, porque não quero excluir o senhor Licen­ciado18, do qual receio que não viva consolado seguindo palácios de Bobadilha.
Enfim, de Diogo Zapatae de semelhantes a ele, não sei que dizer senão que o mundo, por não se poder aproveitar deles, os há-de deixar; e terão depois muito que fazer para achar quem os queira. Do senhor Doutor Iñigo Lopez19, tenho por muito averiguado que deixaria de ter gosto em curar, se de todo se ausentasse algum dia, de modo a não poder socorrer o estômago do Padre Iñigo20 e as maleitas21 22 ­23.

O Padre Araoz e outros que poderiam ir para a Índia
7. Não sei que é: que, desde que o Rei ordenou que alguns de nós ficassem e outros fossem, não consigo tirar do meu pensamento António de Araoz24, nosso caríssimo irmão, parecendo-me que nos há de vir a ver nas Índias com meia dúzia de clérigos. E, a vir ele com alguma companhia, mesmo que não tenham muitas letras, se tiverem muito ânimo de acabar os seus dias ao serviço de Nosso Senhor e carecerem de toda a espécie de avareza, parece-nos que se fará muito fruto com a vinda deles. E ainda que neste ano não nos enviásseis nenhuns – entendo neste Março que vem – senão deste a dois anos, ao ter resposta nossa das Índias, não pensamos que se perderia coisa nenhuma; contanto que daqui a dois anos enviásseis algum número. Olhai por isso como vos parecer, porque vos faço sa­ber que acredito que se há-de fazer muito fruto nas Índias, segundo todos os que lá estiveram muitos anos nos dizem. De lá, das Índias, vos escreveremos muito longamente, ao ter experiência das coisas de lá. Muito nos há-de ajudar o favor do Vice-rei25, porque lá, com aqueles reis que têm paz com o Rei de Portugal, tem muito crédito.

Pede graças espirituais e cartas cheias de notícias
8. Se algumas graças espirituais vos parecer que lá nos podem ajudar para mais servir a Deus Nosso Senhor, olhai por isso, se vos parece, para que daí no-las envieis. Ao menos a de que possam receber ordens, os que para lá forem da nossa Companhia: fora de têmporas, sem património e sem benefício [e apenas] com voto de pobreza voluntária, e poder para legitimar. Quando nos escreverdes para as Índias, escrevei-nos nomeadamente de todos, pois não há de ser senão de ano a ano. E nessa [carta] muito longamente: que tenhamos que ler oito dias, que nós faremos o mesmo.

De Lisboa a 18 de Março, ano 1541
Por todos estes vossos em Cristo caríssimos irmãos, FRANCISCO DE XABIER

8 Em Coimbra e Évora.
9 Fr. João de Albuquerque, OFM, nascido em Albuquerque (Extremadura), entrou na Ordem franciscana cerca de 1500, foi sagrado Bispo de Goa em 1538, morreu em Goa em 1553 (SCHURHAMMER, Ceylon 138).
10 «Para os clérigos seculares, o título canónico para receberem as ordens sacras é o título de benefício e, faltando este, o de património ou duma pensão… tem de ser verdadeiramente suficiente. Nos clérigos regulares, o título canónico é o título de pobreza»
11 Alude à facilidade que tinha Bobadilha em alardear Escritura (cf. Bobad. Mon., p. XII; EX Ep. 8a,3).
12 Diogo de Cáceres (cf. Xavier-doc. 2).
13 Lit.: revezando ciência. Cf. parecida expressão em Laínez, dia 22.Jan.1540 (Hist. Soc. 67, 67v; Bobad. Mon.).
14 Faculdade de altar privilegiado, pessoa e quotidiano, como têm, por ex., os cardeais (CIC 1917, can 239, § 1, 10).
15 Guidiccioni. A aprovação da Companhia de Jesus, feita de viva voz pelo Papa a 3 de Setembro de 1539, tinha de ser declarada e determinada por letras apostólicas. Paulo III confiou este assunto sucessivamente a três cardeais: o ter­ceiro era Bartolomeu Gudiccioni, decididamente contrário à aprovação. Para que desistisse de tão inflexível atitude, Inácio pediu aos seus sacerdotes que celebras­sem 3.000 Missas (TACCI VENTURI) e quis que o informassem das que iam celebrando.
16 A fórmula do Instituto da Companhia de Jesus foi confirmada por Paulo III com a Bula «Regimini militantis Ecclesiae» de 27 de Setembro 1540 (MI, Const. I 24-32). Sobre a palavra «regra», ocorrente também na carta 20,14
17 Francisco Zapata, nascido em Toledo, sacerdote na cúria romana, acom­panhou como candidato à Companhia de Jesus os Padres Broet e Salmerón na expedição à Irlanda (1541-1542). Entrou na Ordem em Roma, mas em 1547 saiu dela. Entrou depois na Ordem de S. Francisco, onde perseverou eminentemente em virtude e ciência.
18 Licenciado Cristóbal de Madrid, nascido em Daimiel (1503), foi para Roma (1540) como teólogo do cardeal Cupis e lá entrou na Companhia de Jesus em 1555. Morreu em Roma em 1573
19 Doutor Iñigo Lopez, clérigo da diocese de Toledo, médico, fez Exercícios Espirituais em Roma em fins de 1537 ou princípios de 1538 sob a direcção de Santo Inácio e ficou muito amigo da Companhia de Jesus. Morreu em 1549. 20 Inácio de Loyola sofria do estômago.
21 Lit.: merachia, palavra latina que não se encontra nos dicionários. Xavier usa-a em tom de brincadeira com Bobadilha, que costumava dizer das suas do­enças: «costuma-se dizer que o sujeito da medicina é o corpo humano, menos o bobadilhano» (Bobad. Mon, 631).
22 Diogo Zapata, membro da Confraria da Graça, (parece ter sido o quarto filho do primeiro conde de Barajas, a quem Francisco de Holanda menciona nos seus diálogos romanos, juntamente com D. Pedro de Mascarenhas e outros contemporâneos de Xavier (FRANCISCO DE HOLANDA, Da Pintura Antigua, Porto 1918, p.43).
23 Nas cartas daquele tempo, outros amigos e conhecidos dos jesuítas em Roma são mencionados, como o Dr. Miguel Torres, António Zapata, Dr. Carri­ón, o Licenciado Cavallar, etc. (Epp. Mixtae I 25 97; Epp. Broeti 268).
24 António de Araoz, S.I., nascido em Vergara (Guipúzcoa), entrou na Compa­nhia de Jesus em Roma (1539) e morreu em Madrid (1573). Foi o primeiro Supe­rior provincial da Companhia de Jesus em Espanha. A sua irmã de pai, Madalena de Araoz, era esposa de Martín, irmão de Inácio de Loyola.
25 Martim Afonso de Sousa, governador da Índia.

[AS DESPEDIDAS - AUDIÊNCIA REAL - O EMBARQUE    

De mãos vazias numa grande missão: Providencia Divina - Via-se apinhado o porto de Lisboa; oficiais, soldados e marinheiros, iam e vinham da praia para a cidade e vice-versa, com carregamentos consideráveis que conduziam para a frota ancorada no porto. Tratava-se de prover de armamentos e víveres cinco grandes navios e alguns galeões reais de que se compunha a frota, prestes a partir para as Índias Orientais.
Solícito na execução das ordens que recebera do rei, D. Antônio de Ataíde, conde da Castanheira, intendente da armada real, veio procurar Francisco Xavier:
- Padre Francisco, lhe disse ele, o rei quer que sejais abundantemente provido de tudo que desejardes para a viagem. Tende a bondade, pois, de enviar-me uma nota 'dos objetos que devo embarcar para vós.
Confesso-me infinitamente grato às bondades de Sua Alteza, senhor; mas eu de nada careço.
- Meu Padre, as ordens do rei são formais; ele insistiu fortemente para que nada faltasse a bordo, do que tiverdes desejado.
- Nada falta, senhor, quando se não carece de nada; rendo-vos mil graças, vejo-me extremamente reconhecido pelo muito que devo ao rei; porém devo muito mais à Providência, senhor, e vós não querereis, por certo, que me desanime e duvide dela neste ponto!
- Muito bem, meu caro Padre, vós sois admirável! permiti que vos diga que devo obedecer ao rei.
- Já o fizestes, senhor.
- Acrescentarei, meu Padre, que a Providência não faz sempre milagres, e não acha que seria provocá-la embarcando-vos para uma tal viagem sem a menor provisão pessoal?
- Ora pois! senhor, vou dar-vos uma pequena relação de livros religiosos que será útil espalhar entre os portugueses das Índias, que deles estarão privados, e vos pedirei para mim um fato de fazenda grossa, pois que o frio é perigoso, segundo dizem, ao dobrai o cabo da Boa-Esperança.
- Rogo-vos, meu Padre, fazei-nos o obséquio de pedir mais do que isso! fazei-o pelo rei!
- Não sei o que mais possa pedir, senhor, pois que eu de nada mais careço.

Servir e não ser servido, eis a Santidade - Não podereis servir-vos a ti mesmo, senhor, acrescentou impacientemente D. Antônio; aceitareis pelo menos o criado que se vos der.
- Enquanto eu tiver estas duas mãos, senhor, espero que Deus me fará a graça de permitir que me sirva a mim mesmo
- As conveniências exigem, meu Padre, que tenhais ao menos um! Ides revestido de uma dignidade que não deveis aviltar; o rei disse-me que partíeis na qualidade de núncio apostólico. Será conveniente ver-se um núncio do Papa a lavar a sua roupa a bordo, e a preparar por si a sua comida?
- Peço perdão, senhor, por não poder ceder às vossas tão grandes instâncias; porém, tenho a intenção e mesmo vontade de me servir e de servir os outros o mais possível e conto fazê-lo sem desonrar o meu caráter. Quando não pratico o mal, não temo nem escandalizai o próximo, nem menosprezar e rebaixar a autoridade de que 'a Santa Sé se dignou revestir-me... Não nos iludamos, senhor; cifram-se nisto as misérias humanas, são idéias falsas de decoro e de dignidade que tem feito à Igreja o mal que nós vemos!
 Antônio não insistiu mais; o tom enérgico de Francisco Xavier, conservando, contudo, a sua extrema doçura, tinha ao mesmo tempo tão grande dignidade e tal nobreza, que o intendente convenceu-se que uma natureza daquela têmpera nunca rebaixaria em nada a autoridade que lhe estava confiada.
Francisco Xavier sabia impor o respeito humilhando-se: é este o segredo dos santos em geral; porém ele parecia possuir esse dom em maior grau do que os outros. Deus assim lho permitia, sem dúvida em vista das inúmeras conquistas a que o destinava.

Núncio Apostólico e recomendações do Rei de Portugal - O rei desejou ver o nosso Santo antes da sua partida e lhe entregou, em mão própria, quatro breves do Soberano Pontífice: um nomeava o Santo missionário núncio apostólico; outro dava-lhe poderes amplos para estabelecer e manter a fé em todo o Oriente; um terceiro recomendava-o ao rei David, imperador da Etiópia, e o quarto a todos os príncipes soberanos das ilhas e da terra firme, desde o Cabo da Boa-Esperança até além do Ganges.
Xavier recebeu aqueles breves das mãos do rei, com o respeito devido ao Soberano Pontífice e à majestade real:
- Senhor, respondeu ele, eu me esforçarei por sustentar o pesado fardo que Deus me impõe e os seus representantes sobre a terra. A minha incapacidade é grande, mas Deus é todo-poderoso; deposito n'Ele somente, toda a minha confiança.
- Examinai tudo, disse-lhe o rei; visitai todas as fortalezas portuguesas, vede se Deus é ali servido, e dai-nos conta do que há a fazer de melhor para se estabelecer o Cristianismo nas nossas novas conquistas. Escrevei muitas vezes e extensamente acerca disto, não somente aos ministros, unas diretamente à aninha pessoa. Recomendo-me às vossas orações, meu Padre; orai também pela rainha, pelos infantes e por Portugal.
- Durante toda a minha vida, senhor, não me esquecerei das bondades e obséquios com que Vossa Alteza se dignou honrar-me.
- E eu vos agradeço do bem que nos tendes feito a todos, Padre Francisco; vejo-vos partir com dor!... mas é necessário obedecer às ordens de Deus!
Chegara o dia do embarque. O Padre Paulo de Camerini, italiano, e Francisco Mancias, português, que não era ainda sacerdote, acompanhavam o nosso Santo às Índias. O Padre Rodrigues ia ser separado do irmão que tanto prezava; mas o Padre Xavier ia sê-lo da Europa inteira, desta parte do mundo onde deixava as suas mais caras, mais ternas e mais preciosas afeições, e considerava-se feliz em oferecer a Deus um tão grande sacrifício. Dissera muitas vezes:
"A ausência da cruz é a ausência da vida".

Despedida e revelação ao irmão jesuíta - O dia da partida para as Índias era, pois, para a sua grande alma, um dia de excesso de vida. Simão Rodrigues acompanhou-o até à ponte da São Diogo que o vice-rei devia comandar. Nó momento da separação, o rosto de Rodrigues inundou-se de lágrimas; Xavier torna a anão do seu amigo, aperta-a coxas afeição e diz a este seu irmão querido:
"Meu querido Simão, eis as últimas palavras que vos vou dizer, porque não nos tornaremos a ver mais neste mundo. Soframos paciente e generosamente a dor amarga da nossa separação. Se nos conservarmos bem unidos a Deus, achar-nos-emos sempre ligados como o estamos hoje e nada haverá que possa romper a nossa união em Jesus Cristo! Para vos consolar, quero, ao deixar-vos, descobrir-vos um dos meus mais secretos pensamentos e a maior das alegrias da minha alma.
"Lembrar-vos-eis, de certo, que numa noite, no hospital de Roma, me ouvistes gritar: Ainda mais, Senhor! ainda mais! Muitas vezes me perguntastes e me pedistes vos explicasse o motivo daquela exaltação, e sempre respondi que preferia nada dizer. Ora pois! agora vo-lo direi, em memória da confiança e da amizade que depositou no vosso coração de irmão."
"Vi então, se em sonho ou acordado, Deus o sabe, tudo quanto devia sofrer pela glória de Jesus Cristo. Nosso Senhor deu-me naquele momento tamanha avidez pelos sofrimentos, que os que se me apresentavam me pareciam insignificantes e eu ardentemente desejava mais. Era esta exaltação da minha alma que me fazia gritar com transporte: Ainda mais! ainda mais! E espero que a divina bondade me concederá nas Índias o que me fez ver em Itália, e que os ardentes desejos que me inspirou ao coração serão imediatamente satisfeitos!"
Os dois irmãos abraçaram-se em seguida e separaram-se derramando copiosas lágrimas, mas lágrimas suaves como eram os seus desgostos, doces e silenciosas como são as lágrimas dos Santos.
Francisco Xavier acabava de revelar toda a grandeza e toda a energia da sua alma na consolação que deixava ao seu amigo. Via-o pesaroso e aflito pela sua partida, pela idéia de o não tornar mais a ver nesta vida, e de ficarem separados por uma distância que lhe parecia infinita:

Certeza do sofrimento - "Consolai-vos, lhe disse ele, eu vou sofrer e sofrer muito!".
Era esta a verdadeira consolação dada por um Santo a um coração digno dele e capaz de o compreender! Repugnava à humildade de Xavier fazer conhecera Rodrigues o que Nosso Senhor lhe havia descoberto; era um sacrifício; porém a generosidade de Xavier era superior a todos os sacrifícios. O seu magnânimo coração supõe no do seu amigo tanto amor por Jesus Cristo como ele próprio nutria, outro tanto desejo de sofrer por ele, e de zelo pela sua glória; supõe-lhe todos os sentimentos sobre-humanos que o animam, o desligam da terra e o têm unido a Deus... repete-lhe:
"Consolai-vos, eu vou sofrer e sofrer muito!"
E Rodrigues, bastante Capaz de apreciar e de acolher aquela consolação, estende os braços para Xavier, aperta-o ternamente ao coração, abraça-o sem poder responder-lhe, e deixa-o com o sentimento de não ter sido julgado digno de o seguir para partilhar os seus trabalhos, os seus sofrimentos e. os seus perigos.
O Padre Rodrigues deixou a São Diogo dirigindo-se para terra, quando se deu o sinal; cada navio levantou ferro e a frota aproou para o alto mar sob as vistas de Deus e o comando de Maninho Afonso de Sousa, que quisera levar Francisco Xavier a bordo do navio em que ele embarcava.
Era a 7 de Abril de 1541, dia aniversário do nascimento do nosso Santo; entrava ele no trigésimo sexto ano.]

Depois de longos meses de espera em Lisboa (Junho-Abril) Xavier embarca para a Índia a 7 de Abril de 1541, precisamente no dia em que fazia 35 anos. Por conveniência para a Missão, entendeu-se que era melhor ficar Simão Rodrigues em Portugal a preparar mais missionários para o futuro e ir apenas ele. Pensava ele que ia apenas abrir caminho a novos missionários jesuítas. Mas, na despedida, com grande surpresa sua, o Rei entrega-lhe 4 Breves pontifícios em que o Papa o nomeia Núncio apostólico para todo o Oriente, lhe confere todos os poderes que para isso necessita e o recomenda a todos os reis cujos países vier a visitar (cf. Xavier-doc. 121).
Com ele, partiram apenas dois candidatos a jesuítas: Micer Paulo Camerino, sacerdote italiano, e Francisco Mansilhas, colega de estudos em Paris.