ILHAS MOLUCAS (Oceania) 01/1546 - 06/1548

[*Um Pentecostes - FRANCISCO XAVIER embarcou (de malaca) ao primeiro de janeiro de 1546, com João de Eiro, em um navio português que fazia vela para Banda, mas que devia deixá-los em Ambóino.
Todos os passageiros eram índios, os marinheiros eram-no também, e uns e outros, maometanos ou pagãos, pertenciam a diversas raças, cujas línguas diferiam por tal modo que não se entendiam senão com os da sua própria tribo.
Em poucos dias o Padre Xavier viu-se tão estimado, tão procurado de todos, que julgou oportuno o momento de dar a Deus todas aquelas almas,, cujo único senhor havia sido até ali o inferno, e sem se inquietar com a diversidade das línguas, começou a falar das verdades cristãs aos que o cercavam. Viu-se então operado um maravilhoso prodígio, desconhecido desde a origem da Igreja Cristã!... Xavier é compreendido de todos ao mesmo tempo, como se falasse a língua materna de cada um; todos se vêem surpreendidos do mesmo assombro, todos experimentam a mesma admiração, o mesmo respeito pelo apóstolo que desde logo lhes havia inspirado tão agradáveis e benéficos sentimentos.
Nenhum de entre eles pensava em recuar diante duma religião que opera tais maravilhas; todos solicitam a graça do batismo, todos se mostram ávidos pela santa palavra de Xavier, todos se fazem cristãos pelo ministério, mil vezes abençoado, do apóstolo tão querido de todos.

Perigos no mar e confiança de Francisco - Depois de seis semanas de navegação, o capitão, não descobrindo as costas de Ambóino, julgou ter-se enganado na direção; o piloto, partilhando aquele receio, disse-lhe um dia:
- Capitão, eu creio que nós temos seguido uma rota falsa; pelos nossos cálculos de ontem, deveríamos ter hoje Ambóino à vista...
- Estai tranqüilos, disse o Padre Xavier; nós estamos no golfo, e descobrireis Ambóino amanhã antes do nascer do sol.
E efetivamente na manhã seguinte, desde a aurora, descobriam-se as costas de Ambóino. Como o navio não devia ancorar senão em Banda, Xavier e João de Eiro, passaram para uma canoa com alguns outros passageiros, e a embarcação continuou a , sua viagem.
Quando a canoa ia a atracar, foi descoberta e perseguida pelos piratas costeiros; o navio, já muito longe, não a podia socorrer, ia ser presa, as fustas [Pequenos barcos indianos.] aproximavam-se, era necessário e urgente tornar a ganhar o alto mar à força de remos, não obstante o perigo que corria uma tão frágil embarcação, cuja carga devia acelerar a sua perda... Mas aquele frágil esquife levava o grande apóstolo e não podia perder-se.
- "Vamos, agora podeis ganhar o porto, disse Xavier aos remeiros; os corsários perderam-nos já de vista e retiraram-se. O perigo está passado e nós aportaremos sem novidade".
De fato, chegaram, pouco depois, impelidos pelo melhor vento, a 16 de Fevereiro de 1546.
O nosso humilde apóstolo, convencido de que ele se livrara de igual sorte por um milagre da bondade divina, escrevia aos Padres da Companhia de Jesus, em Roma:
Nas suas frequentes viagens por mar, conservava o nosso Santo um sossego de espírito e sangue frio que excitava a confiança e a admiração da equipagem e dos passageiros. No momento em que se desenvolvia uma tempestade, ele fazia um apelo às consciências, exortava a todos a se prepararem para a morte e ouvia as confissões de cada um, depois entregava-se à oração e ali permanecia durante todo o tempo que durava a tormenta, ou pelo menos até que não fosse reclamado o seu ministério; então despertava no mesmo instante da sua contemplação, mas voltava a ela logo que tivesse cumprido o seu dever].
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AOS SEUS COMPANHEIROS DA EUROPA
Amboino, 10 de Maio 1546
Duma cópia em castelhano, feita em 1553

Caríssimos em Cristo Irmãos
A graça e amor de Cristo Nosso Senhor Seja sempre em nossa ajuda e favor. Amen.

Providas de missionários as missões da Pescaria e Ceilão, resolve partir para Macassar (Celebes). Converte um mercador a deixar tudo e acompanhá-lo
1. No ano de 1545 vos escrevi largo, fazendo-vos saber como, numa terra chamada Macassar, se fizeram cristãos dois reis com muita outra gente1. Pela muita disposição que naquela terra havia, para se acrescentar nossa santa fé – segundo a informação que me deram2 – parti do Cabo de Comorim para Macassar por mar, por­quanto não se pode ir por terra. Há, do Cabo de Comorim até às ilhas de Macassar, mais de 900 léguas. [Mas] primeiro que do Cabo de Comorim partisse, dei ordem para que os cristãos daquela terra fossem providos de coisas espirituais, deixando com eles cinco Pa­dres: três naturais da terra e Francisco Mansilhas com outro Padre espanhol3. Com os cristãos da ilha de Ceilão, que está perto do Cabo de Comorim, ficaram cinco frades da Ordem de S. Francisco4, com outros dois clérigos5. Vendo que [eu] não era necessário, nem menos fazia falta aos cristãos do Cabo de Comorim nem aos de Ceilão – porque não há outros cristãos novamente convertidos na Índia fora das fortalezas do Rei6 e, aos que estão nas fortalezas, os vigários têm cargo de os ensinar e batizar – determinei partir para Macassar.

1 Xavier-doc. 48,5.
2 António Paiva tinha trazido quatro garotos da ilha Celebes para o colégio de S. Paulo em Goa. Por ele e seus companheiros tinha Xavier sido informado de todas estas coisas, como refere João da Beira em 1545: «Já estava bem in­formado… e isto de pessoas que tinham ajudado a fazer muitos deles cristãos» (Doc. Indica I 60).
3 Juan de Lizano.
4 Em 1543, embarcaram seis franciscanos, de Lisboa para Ceilão. Aparecem os nomes de cinco, na documentação de 1543-1545: Frei João de Vila do Conde (guardião), Fr. António Padrão, Fr. Francisco de Montepadrone, Fr. Simão de Coimbra, Fr. Gonçalo SCHURHAMMER, Ceylon 125).
5 Um deles era o setubalense João Vaz Monteiro (+1586), vigário da cidade de Colombo e primeiro vigáro da ilha de Ceilão, como refere a lápide do seu sepulcro. O outro é-nos desconhecido. O vigário não tinha beneficiários.
6 Esta afirmação de Xavier, não é rigorosamente exacta, como ele mesmo irá descobrindo e referindo noutras cartas.

Indo ao porto (*de São Tomé) do qual me havia de embarcar para fazer a minha viagem, achei um mercador8 com um navio seu, o qual me pediu que o confessasse. E ele que, com muita prudência humana não acabara de se determinar, com muita violência se venceu e escolheu o caminho do céu. Quis Deus, por sua misericórdia, dar-lhe tanto dentro da sua alma a sentir, que um dia se confessou e no outro, seguinte, se determinou [no mesmo lugar onde mataram S. Tomé9] a vender o navio e tudo o que tinha, dando tudo aos pobres, sem guardar nada para si, como liberal despenseiro. E assim nos embar­camos [ambos] a caminho de Macassar.
Em Malaca espera o regresso dos primeiros missionários que dali tinham ido a Macas­sar. Trabalho pastoral na cidade
2. A metade do caminho, chegamos a uma cidade chamada por nome Malaca, na qual o Rei tem uma fortaleza10. O capitão dessa fortaleza11 disse-me que tinha mandado um clérigo, pessoa muito religiosa12, com muitos portugueses, num galeão bem fornecido de tudo o necessário, para favorecer aos que se fizeram cristãos e, até que tivéssemos noticias suas, não lhe parecia que [eu] devia partir para aquela ilha. Assim, estive em Malaca três meses e meio, esperando noticias dos Macassares.
Neste tempo, não me faltaram ocupações espirituais, assim em pregar nos domingos e festas, como em confessar muitas pessoas: tanto enfermos do hospital onde pousava13, como outros sãos. Em todo este tempo ensinei, aos moços e cristãos novamente converti­dos à fé, a doutrina cristã. Com a ajuda de Deus Nosso Senhor, fiz muitas pazes entre soldados e moradores da cidade. Às noites, ia pela cidade, com uma campainha pequena, encomendando as almas do purgatório, levando comigo muitos dos meninos a quem ensinava a doutrina cristã.
Como não chegam notícias de Macassar, resolve ir para Amboino (Molucas) onde encontra já 7 aldeias cristãs e uma armada portuguesa que tem de atender
3. Passados os três meses e meio, acabaram por soprar os ventos com que vêm os navios de Macassar. Não sabendo nenhumas noticias do Padre14, determinei partir para outra fortaleza do Rei, chamada Maluco15. É a última de todas. Cerca desta fortaleza, a 60 léguas dela, há duas ilhas16: uma, é de 30 léguas em redondo, muito povoada. Chama-se Amboino. Desta ilha fez mercê o Rei a um homem, mui­to de bem e bom cristão, o qual há-de vir viver nela, daqui a um ano e meio, com sua mulher e casa17.

8 João de Eiró. Já em Colombo tinha pedido a Xavier para se confessar. Mas só em S. Tomé acabou por ser atendido.
9 Monte Pequeno (Chinna Malai, Little Mount, Calvário, N. Srª da Saúde), situado na margem sul do rio Adyar, distante três quartos de hora da igreja sepul­cral no caminho para o Monte Grande, foi tido por todos até 1547 como o lugar do martírio de S. Tomé, como ainda agora pensam os que na Índia são chamados «cristãos de S. Tomé». Aí teria sido trespassado com uma lança S. Tomé, enquan­to orava. No tempo de Xavier, além do matagal bravio, só se via naquele lugar sagrado uma rocha áspera, um vestígio do apóstolo e uma fonte, como testemunha Nuno Álvares de Faria, que ali vivia em 1546 e lá tinha edificado uma casa e uma igreja que em 1579 deixou à Companhia de Jesus. Em 1547, no Monte Grande (Peria Malai, Great Mount, St. Thomas’ Mount, Madre de Deus, N. Srª do Monte, N. Srª da Conceição, Our Lady of the Expectation), foi encontrada uma lápide com uma cruz e carac­teres em letras pehlevi inscritos. Isso levou autores europeus e até indianos, sem suficiente fundamento, a pensar que o martírio se deu no Monte Grande; não os cristãos de S. Tomé que conservam intacta a tradição que foi no Monte Pequeno (COUTO 7,10,5; LUCENA ). Seja como for, o encontro de Xavier com Eiró foi certamente no Monte Pequeno.
10 A fortaleza de Malaca, construída nos anos 1511-1514 estava situada no extremo noroeste da cidade, entre a catedral, a ponte do rio e o forte marítimo de S. Pedro.
11 Quando Xavier chegou em fins de Setembro a Malaca, já era capitão da cidade, desde Junho, Garcia de Sá (CORREA, Lendas da Índia, IV 423) a quem sucederá em Outubro Simão de Melo (ib. 446; SCHURHAMMER, Quellen 1687). Mas aqui Xavier ainda fala do capitão antecessor Simão Botelho, que foi quem no princípio de 1545 tinha enviado o sacerdote Viegas à ilha de Macassar (Celebes) (EREDIA, Malaca 42v-43; SIE 42).
12 Vicente Viegas permaneceu pelo menos três anos na ilha das Celebes (Se­lectae Indiarum Epistolae 42). Foi a Vicente Viegas que Xavier deixou a igreja e residência dos jesuítas em Malaca, quando em 1552 mandou o P. Francisco Pérez cessar a missão naquela cidade (Xavier-doc. 131,9; 135,6-7.9).
13 Em 1556, António Mendes testemunhou para a causa de Canonização de Xa­vier, em Malaca, que quando o apóstolo chegou à cidade em 1545 foi hospedar-se no hospital e aí permaneceu «alguns dias» (MX II 420). Mas Rodrigo de Siqueira, testemunhando para a mesma causa, diz que ele mesmo foi habitar com Xavier numa pequena casa junto ao mar (ib. 213). Como ambos são testemunhas oculares, é de crer que a casita pertencia ao hospital. Testemunhando para a mesma causa em 1616, João Soares de Albergaria diz que a primeira habitação do apóstolo em Ma­laca, segundo «fama antiga e certa», era junto ao forte de S. Tiago e às muralhas da cidade. Isso é também confirmado por outro testemunho (Ajuda 49-6-9; CROS II 399). Mas, como o hospital ficava também junto às muralhas e não longe do forte, parece que Siqueira e Soares Albergaria se referem à mesma casa.
14 Vicente Viegas.
15 A fortaleza de Ternate (Gam Lamo ou cidade grande, S. João de Ternate) foi construída nos anos 1522-1540 a sudoeste da ilha, junto à povoação do mes­mo nome e destruída mais tarde pelos espanhóis em 1663 quando tiveram de a abandonar. Actualmente a cidade de Ternate estende-se pela parte oriental da ilha (VAN DEN WALL).
16 Amboina e Moro (Halmaheira).
17 Jordão de Freitas, nascido na ilha da Madeira, «fidalgo da casa real», par­tiu para a Índia em 1528 e participou nas batalhas de Mombaça, Bahrein, Diu, Baçaim e Goa. Em 1534 levou preso a Goa o rei de Ternate, Tabarija, e ali o convenceu a receber o batismo. Este fez-lhe doação das suas ilhas de Amboina e Selan em feudo hereditário, sendo-lhe depois confirmada pelo Rei D. João III em 1543. Como defensor de Tabarija, veio em 1538 a Portugal e conseguiu que o Rei o absolvesse. Em 1543 voltou à Índia e em 1544 partiu para as Molucas como capitão de Ternate. Injustamente acusado, porém, foi destituído do cargo em 1546 e trazido preso a Goa, onde se defendeu e conseguiu a libertação. Voltando a Ternate em 1549 para aí terminar o mandato, regressou novamente a Goa onde morreu em 1555).
[*Logo que chegou, o primeiro pensamento, a primeira ocupação do nosso Santo foi o de batizar todas as crianças, porque aquelas povoações eram cristãs desde a conquista, mas somente de nome:]
Nesta ilha encontrei sete lugares de cristãos18: as crianças que achei por batizar, batizei. Morreram muitos, depois de batizados. Parece que Deus Nosso Senhor os guardou até que estivessem em caminho de salvação. Depois de ter visitado todos estes lugares, chegaram a esta ilha oito navios de portugueses19. Foram muitas as ocupações que tive, em três meses, que ­aqui estiveram, em pregar, confessar, visitar os enfermos e ajudá-los a bem morrer  os ­­pecados contínuos, sem querer desacostumar-se deles..  o que é muito trabalhoso de fazer, com pessoas que não viveram muito conformes à lei de Deus. Estes morrem mais desconfiados da misericórdia de Deus do que confiados viviam. Fiz, com a ajuda 20 de Deus, muitas amizades entre soldados, que jamais vivem em paz nesta ilha de Amboino21 Eles, partiram para a Índia em Maio22 23 e eu, e, meu companheiro João de Eiró partimos para Maluco(*Ternate), que está daqui a 60 léguas.

Deseja ir a uma das ilhas mais perigosas, a que ninguém se atreve
4. Da outra costa de Maluco [norte de Tenarte], está uma terra que se chama Moro25, a sessenta léguas de Maluco26. Nessa ilha de Moro, haverá muitos anos, se fizeram cristãos, grande número27. Por morte dos clérigos que os batizaram28, ficaram desamparados e sem doutrina29. Por ser a terra de Moro muito perigosa – porquanto a gente dela é muito cheia de traição, pela muita peçonha que dão no comer e beber – dei­xaram de ir àquela terra de Moro pessoas que olhassem pelos cristãos.
18 No tempo de Xavier, toda a península de Leitimor, na sua parte oriental, excepto a aldeia de Hutumuti que também acabou por se converter em 1570, era cristã. Também na península de Hitu, situada a oeste, a aldeia de Hatiwi e as vi­zinhas Tawira e Hukanalo eram cristãs (8.000-8.500 cristãos ao todo). Xavier, no pouco tempo que esteve em Amboino, não pôde fazer uma evangelização a fundo. Completaram-na so seus sucessores. Os sete lugares de cristãos mencionados pelo apóstolo, eram mais ou menos estes: Hatiwi (com Tawiri e Hukunalo), Soya (com Amantelo), Nussaniwi, Ema, Kilang, Halong, Urimesen. Polanco diz que em 1555 havia em Amboino e nas ilhas vizinhas cerca de 10.000 cristãos (POLANCO).
19  Era a armada de Fernando de Sousa de Távora, enviada pelo Governador Martim Afonso de Sousa para expulsar os espanhóis que, com Rodrigo López de Villalobos tinham entrado nas Molucas. Com seis navios e 150 soldados chegou a Ternate no dia 18 de Outubro. A 4 de Novembro foi assinado o pacto de rendição, sob condição de os portugueses os reconduzirem à Europa. No dia 18 de Fevereiro, a armada portuguesa com 130 espanhóis a bordo regressou a Goa. Constava de 1 galeão (comandado pelo próprio Távora), duas naus S. Spirito (por João Criado) e Santa Cruz (por António de Freitas), 3 fustas (por Manuel de Mesquita, Leonel de Lima, João Galvão), uma nau de passagem em Ternate (por Garcia de Sá) e a nau espanhola S. Juan.
20  Que as rivalidades entre espanhóis e portugueses chegaram a momentos perigosíssimos, mostra-o claramente o relatório de Escalante (ESCALANTE, Relación, 205-209). Devem ter morrido em Amboino uns 13 espanhóis.
21 Chegou primeiro uma nau de exploradores espanhóis. Segundo Escalante, «chegamos ao porto de Amboino dia de Carnestolendas», ou seja, a 9 de Março (Relación 197).
22 A armada partiu de Amboino para Malaca a 17 de Maio (ESCALANTE, Relación 198).
23 De facto, só Xavier embarcou para Ternante, deixando Eiró em Amboino (MX II 381).
25 Moro (depois mais exactamente chamada ilhas de Moro) incluía então o litoral nordeste da ilha Halmaheira (distrito Galela), chamado pelos indígenas Morotia (Moro terrestre) e duas ilhas em frente, Morotai e Rau, chamadas tam­bém por eles Morotai (Moro marítimo) (REBELLO, Informação 192; REPETTI, Arch.Hist.S.I. 5(1936)35-56).
26 O litoral ocidental de Halmaheira dista de Ternate uns 15 km; daí para Tolo, capital das ilhas de Moro, eram 270 Km por mar.
27 Em 1533-1534 os príncipes dos distritos de Mamoya e Sugala, nas ilhas de Moro, juntamente com 5.000 a 6.000 habitantes foram batizados por Simão Vaz e Francisco Álvares, vigários de Ternate. Em 1538-1539 Fernando Vinagre batizou mais alguns. Em 1539-1544, sendo capitão Jorge de Castro, passaram para o cristianismo as restantes aldeias . Em 1543 nas ilhas de Moro havia mais de 10.000 cristãos e em 1547 mais de 40.000 (ib. 2938). Mas N. Nunes em 1556, calcula-os com mais precisão em 20.000 (ib. 6117).
28 O vigário Simão Vaz, numa rebelião do povo em 1535, foi morto em Tjawo (Morotai) e Francisco Álvares fugiu ferido para Ternate (SCHURHAMMER, Quellen 188; CASTANHEDA 8,115-116).
29 Fernando Vinagre tinha feito batismos em tempo de expedição militar; de­saparecendo da região sacerdotes e catequistas, deixou de haver qualquer instrução religiosa (cf. REBELLO, 194).
Eu, pela necessidade que estes cristãos da ilha de Moro têm de dou­trina espiritual e de quem os baptize para salvação das suas almas, e também pela necessidade que tenho de perder a minha vida temporal por socorrer a vida espiritual do próximo, determino ir ao Moro: para socorrer nas coisas espirituais os cristãos, oferecido a todo o perigo de morte, posta toda a minha esperança e confiança em Deus Nosso Senhor, desejando conformar-me, segundo as minhas pequenas e «Quem quiser salvar a sua alma, perdê-la-á; mas quem a perder por mi.
Ainda que seja fácil entender o latim particularizá-lo, para se dispor a determinarpara achá-la nele – oferecendo-se casos perigosos, nos quais provavelmente se presume perder a vida nisso a que se quiser determinar – faz-se [tudo] tão obscuro que o latim, sendo tão claro, vem a obspor mais douto que seja, a quem Deus Nosso Senhor, por sua infinita misericórdia, o quer em casos particulares declarar. Em semelhantes Muitos dos meus amigos e devotos procuraram comigo que não fosse a terra tão perigosa. Vendo que não podiam acabar comigo que não fosse, davam-me muitas coisas contra peçonha. Eu, agradecendo-fracas forças, com o dito de Cristo nosso Redentor e Senhor que diz: ­nha causa, há-de encontrá-la»30e a frase em geral, deste dito do Senhor, quando um homem vem a 31 perder a vida por Deus ­­curecer-se. Em tal caso, me parece que só o vem a entender aquele, casos se conhece a condição da nossa carne: quão fraca e enferma é! 32-lhes muito o seu amor e boa vontade, por não carregar-me de medo sem tê-lo e, mais, por haver posta toda a minha esperança em Deus e por não perder nada dela, deixei de tomar os defensivos que com tanto amor e lágrimas me davam, rogando-lhes que, em suas orações, tivessem contínua memória de mim, que são os mais certos remédios contra peçonha que se podem achar.

Perigos em que se viu no mar até Amboino
5. Em muitos perigos me vi, nesta viagem do Cabo de Comorim para Malaca e Maluco, assim entre tormentas do mar como entre inimigos33. Em um, especialmente, me achei, numa nau de 400 toneladas em que vinha. Com vento fortíssimo, navegámos mais de uma légua, tocando sempre o leme em terra: se acertássemos, em todo este tempo, com algumas pedras, a nau ter-se-ia desfeito; se achássemos menos água em uma parte que em outra, ficaríamos em seco. Muitas lágrimas vi, então, na nau34. Quis Deus Nosso Senhor, nestes perigos, provar-nos e dar-nos a conhecer para quanto somos, se em nossas forças esperamos, ou em coisas criadas confiamos. Mas também para quanto [somos], quando destas falsas esperanças saí­mos, desconfiando delas, esperando no Criador de todas as coisas, em cuja mão está fazer-nos fortes quando os perigos por seu amor são recebidos. Tomando-os só por seu amor, crêem sem duvidar, os que se acham neles, que tudo o criado está à obediência do Criador, conhecendo claramente que são maiores as consolações em tal tem­po, que os temores da morte, ainda que o homem acabasse os seus dias. Findados os trabalhos e acabados de passar os perigos, não sabe um homem contar nem escrever o que por ele passou, ao tempo em que estava neles, ficando [só] uma memória imprimida do passado, para não [se] cansar de servir a tão bom Senhor, assim no presente como no porvir, esperando no Senhor, cujas misericórdias não têm fim, que lhe dará forças para o servir.

Escreve a chamar para as Molucas dois companheiros entretanto chegados a Goa
6. Estando em Malaca, que fica a metade do caminho da Índia para Maluco, deram-me a notícia de que chegaram três compa­nheiros35 nossos a Goa, no ano de 1545. Já me escreveram e me mandaram as cartas que de Roma traziam, com as quais Deus Nosso Senhor sabe quanta consolação recebi e com saber tão boas notícias da nossa Companhia36.

30 Mt 16,25.
31 Refere-se ao momento de fazer opções decisivas, segundo o método propos­to por Inácio de Loyola nos seus Exercícios Espirituais (cf. EE, nn.149-157 164--168 175-188).
32 Da variedade de venenos usados pelos habitantes de Moro escreve RE­BELLO 164-165 195. Os antídotos mais em uso naquele tempo eram, segundo Garcia da Orta: «pedra bezar, triaga, pau da cobra, pau de Malaca de contra herva, esmeraldas, terra segillata, coco das Maldivas, corno de rinoceronte» (Colóquios I 240-241; II 75 233).
33 Eram temíveis sobretudo as tempestades no Oceano Índico e os piratas achens (atjeh) junto à ilha de Sumatra.
34 Xavier fez a viagem na nau régia da carreira de Coromandel (MX II 417, 201).
35 Criminali, Lancillotto e Beira.
36 A 2 de Setembro de 1545 chegaram a Goa (SIE 7). Mais ou menos por 15 de Setembro partia de Goa para Malaca a nau régia da carreira de Banda, que trazia as cartas.

Um deles, vinha para ensinar gramática no colégio da Santa Fé37 e, os outros dois, para andar pelas partes onde a mim me parecesse que teriam mais serviço a Deus Nosso Senhor. Eu lhes escrevi que ficasse, um deles, que vinha para ler gramática, em Santa Fé e, os [outros] dois, que fossem para o Cabo de Comorim a ter companhia a Francisco de Mansilhas. [Mas] agora lhes escrevo, neste ano de 1546, que venham para Maluco, para o ano que vem, pois há maior disposição para servir a Deus nestas partes que não onde estão.

Mouros e pagãos a converter e necessidade de mais missionários
7. Estas partes de Maluco, todas são ilhas, sem se ter descoberto, até agora, terra firme. São tantas, estas ilhas, que não têm número e quase todas são povoadas. [Os seus habitantes], por falta de quem lhes requeira que sejam cristãos, deixam de o ser. Se houvesse em Maluco uma casa da nossa Companhia, seria muito o número da gente que se faria cristã. A minha determinação é como neste cabo do mundo de Maluco se faria uma casa, pelo muito serviço que a Deus Nosso Senhor se faria.
8. Os gentios, nestas partes de Maluco, são mais que os mouros. Querem-se mal os gentios e os mouros. Os mouros querem que os gentios ou se façam mouros ou sejam seus cativos, e os gentios não querem nem ser mouros nem menos ser seus cativos. Se houvesse quem lhes pregasse a verdade, todos se fariam cristãos, porque mais querem os gentios ser cristãos que mouros. De 70 anos a esta parte se fizeram mouros38, que primeiro todos eram gentios. Dois ou três cacizes39, que vieram de Meca –que é uma casa onde dizem os mou­ros que está o corpo de Maomé – converteram grande número de gentios à seita de Maomé. Estes mouros, o melhor que têm é que não sabem coisa nenhuma da sua seita perversa. Por falta de quem lhes pregue a verdade, deixam estes mouros de ser cristãos.
9. Esta conta vos dou, tão particular, para que tenhais especial sentimento e memória de tanta perdição de almas, quantas se per­dem por falta de espiritual socorro. Os que não tiverem letras e ta­lento para ser da Companhia40, sobrar-lhes-á o saber e talento para estas partes, se tiverem vontade de vir para viver e morrer com esta gente. Se, destes, viessem todos os anos uma dezena, em pouco tem­po se destruiria esta má seita de Maoma e se fariam todos cristãos. Assim, Deus Nosso Senhor não se ofenderia tanto como se ofende, por não haver quem repreenda os vícios e pecados de infidelidade.

Pede orações aos companheiros. Traz sempre consigo as assinaturas das cartas deles juntamente com a fórmula da sua profis­são religiosa
10. Por amor de Cristo Nosso Senhor e de sua Mãe santíssima e de todos os santos que estão na glória do paraíso, vos rogo, carís­simos Irmãos e Padres meus, que tenhais especial memória minha, para encomendar-me a Deus continuamente, pois vivo em tanta necessidade do seu favor e ajuda. Eu, pela muita necessidade que tenho do vosso favor espiritual contínuo, por muitas experiências te­nho conhecido como, por vossa invocação, Deus Nosso Senhor me tem ajudado e favorecido em muitos trabalhos do corpo e espírito.

37 Lancillotto.
38 O autor da obra, composta por alturas de 1543, Tratado de las islas de los Malucos, que até 1539 viveu em Ternate, observa, fundado na tradição dos cânticos da região, que o primeiro rei que ali se filiou no islamismo por 1470, foi Tidore Yongue, pai de Boleife, em cujo reinado chegaram os portugueses a Ternate (1513). REBELLO, referindo-se ao que afir­mavam os indígenas, escreve que o islamismo se infiltrou no país pouco antes da chegada dos portugueses (Informação 155). VALENTYN, apoiado como o ante­rior na tradição indígena, escreve em 1724 que o rei Marhu já velho, falecido em 1486, foi o primeiro que em Ternate aderiu ao islamismo (Oud en Nieuw Oost-Indien I 2) e acrescenta que sabe certamente que Djamilu, príncipe de Gilolo, foi o que em 1480 introduziu pela primeira vez o islamismo em Amboino (III 1,19).
39 O autor da obra antes mencionada, Tratado de las islas de los Malucos, diz que os chineses foram os primeiros estrangeiros a chegar a Ternate, segundo a tradição dos próprios ternatenses. Posteriormente chegaram navios do sul com malaios, javaneses, persas e árabes e estes foram os que, havia uns oitenta ou noventa anos, tinham implantado o islamismo na região. Em 1540, um celebérrimo caciz árabe, da estirpe de Maomé, nascido em Ternate, abraçou a fé cristã (CASTANHEDA 9,9). Segundo REBELLO foi um caciz indígena, que tinha estado em Meca, que persuadiu em 1513 o rei de Ternate a chamar os portugueses (201). Os primeiros missionários islâmicos de Ternate mencionados por VALENTYN foram: na ilha de Ternate, o mercador javanês Hussain pelo ano de 1480 e o sacerdote javanês Tuhubahahul pelo ano de 1496 (I, 2,140, 143; na ilha de Amboino, Pati Puteh (Pati Tuban), habitante da ilha Goram (para oriente de Seran) no ano de 1510, segundo a crónica malaia Hikayat Tanah Hitu composta pelo amboiano Ridjali em 1648).
40 Só pelo Breve Exponi nobis de 5 de Junho de 1546 Paulo III concedeu que fossem admitidos como religiosos da Companhia de Jesus auxiliares leigos e sa­cerdotes não diplomados em teologia. Até essa altura, os que agregavam não eram considerados religiosos (MI Const. I 170).
41 Quando Xavier morreu, encontraram no relicário que trazia ao pescoço, uma relíquia do apóstolo S. Tomé, a fórmula da sua profissão religiosa e uma as­sinatura de S. Inácio de Loyola que recortara das suas cartas (Epp. Xav. app. VI).

Para que jamais me esqueça de vós, por contínua e especial memó­ria, para muita consolação minha vos faço saber, caríssimos Irmãos, que tomei das cartas que me escrevestes, vossos nomes, escritos por vossas próprias mãos e, juntamente com o voto da profissão que fiz, os levo continuamente comigo41, pelas consolações que deles recebo. A Deus Nosso Senhor dou graças primeiramente e, depois, a vós, Irmãos e Padres suavíssimos, pois vos fez Deus tais que tanto me consolais levando os vossos nomes. E pois depressa nos veremos na outra vida com mais descanso que nesta, não digo mais.
De Amboino, a 10 de Maio, ano de 1546
Vosso mínimo Irmão e filho, FRANCISCO
(Carta adjunta, no original escrita aparte):

Costumes bárbaros das Molucas
11. A gente destas ilhas é muito bárbara e cheia de traição. É mais baça que negra, gente ingrata em grande extremo. Há ilhas, nestas partes, nas quais se comem uns aos outros. Isto, é quando uns com outros têm guerra e se matam em combate, e não de outra manei­ra42. Quando morrem por enfermidade, dão, em grande banquete, as mãos e calcanhares [do morto] a comer43. É tão bárbara esta gen­te, que há ilhas onde um vizinho pede a outro [quando quer fazer uma festa grande] o seu pai, se é muito velho, emprestado para o comerem, prometendo-lhe que lhe dará o seu, quando for velho, e quiser fazer algum banquete44. Dentro de um mês, espero ir a uma ilha, na qual se comem uns aos outros, quando se matam na guerra. Nessa ilha também se emprestam uns aos outros os pais, quando são velhos, para fazer banquetes. Os dessa ilha querem ser cristãos. Esta é a causa por que vou lá45. Há abomináveis pecados de luxúria entre eles, quais não poderíeis crer, nem eu me atrevo a escrever.

Descrição da região: montes altíssimos, terramotos e maremotos, vulcões
12. São estas ilhas temperadas e de grandes e espessos arvoredos. Chove muitas vezes. São tão altas, estas ilhas de Maluco, e trabalho­sas de andar por elas que, em tempo de guerra, sobem a elas para sua defesa, de maneira que são as suas fortalezas46. Não há cavalos, nem se pode andar a cavalo por elas. Treme muitas vezes a terra47 e o mar48. Tanto, que os navios que navegam quando treme o mar, parece aos que vão neles que tocam em algumas pedras. É coisa para espantar, ver tremer a terra e, principalmente, o mar. Muitas destas ilhas deitam fogo de si, com um ruído tão grande que não há tiro de artilharia, por mais grande que seja, que faça tanto ruído. Pelas partes donde sai aquele fogo, com o ímpeto grande com que vem, traz consigo pedras muito grandes49. Por falta de quem pregue nestas ilhas os tormentos do inferno, permite Deus que se abram os infer­nos, para confusão destes infiéis e dos seus abomináveis pecados.

Língua e escrita dos habitantes. Fez um catecismo em língua malaia
13. Cada uma destas ilhas tem língua para si50. Há ilha que, quase cada lugar dela, tem fala diferente. A língua malaia, que é a que se fala em Malaca, é muito geral por estas partes. Nesta língua malaia [no tempo que eu estive em Malaca] com muito trabalho traduzi o Credo com uma explicação sobre os artigos, a Confissão geral, Pai-nosso, Ave-Maria, Salve-Rainha e os Mandamentos da lei, para que me en­tendam quando lhes falo em coisas de importância.

42 Sobre o antropofagismo destas regiões, cf. J.G.F. RIEDEL, De sluik-en kro­esharige rassen fusschen Selebes en Papua, ‘s Gravenhage 1886: 52, 267, 279, 371, 349, 445; REBELLO, Informação 189; COUTO, Da Asia 9,29.
43 «Dizem ser o calcanhar e o peito do pé o melhor bocado» (REBELLO, In­formação 189; cf. COUTO, Da Ásia).
44 Patranha inventada por marinheiros maometanos e difundida depois por vários autores (por ex. RAMUSIO). Mas missio­nários mais peritos na matéria negaram tudo isso, não só em relação a Moro, mas também às ilhas vizinhas de Amboino.
45 Parece referir-se à sua ida à região de Moro (cf. Xavier-doc. 56,1).
46 Missionários que escrevem em 1603, dizem que é necessário às vezes tre­par com mãos e pés nos rochedos para chegar às aldeias situados nos altos (Goa 55,112). As povoações parecem ninhos nas rochas (K. MARTIN, Reisen in den Molukken,).
47 Sobre os frequentes terramotos em Amboino cf. WESSELS, Histoire d’Amboine 44; VALENTYN.
48 O primeiro maremoto experimentado por portugueses foi frente a Chaul (Índia) em 1524 (CORREA II 816-817; BARROS 3,9,1). Na região das Molucas é referido um pelos espanhóis nas Filipinas em 1544, de que Xavier também teria ouvido falar (AGANDURU MORIZ, Historia General de las Índias occidentales… In Documentos inéditos para la História de España, Madrid 1882: t.79,50).
49 Ainda hoje há vulcões activos nas ilhas de Banda, Makian, Ternate, Hal­maheira.
50 Conta Rebello: «Cada ilha tem diferente língua, salvo a de Ternate e Tidore que diferem como a castelhana e portuguesa. Machiem tem três, e os mais dos lugares da Batochina (Halmaheira), cada um sua, tão diferentes que se não enten­dem senão por meio da ternata ou tidora» (REBELLO). Riedl, na ilha de Amboino e nas três ilhas Uliaser, classificou 14 dialectos.

Têm uma grande falta em todas estas ilhas: que não têm escrituras, nem sabem escrever, a não ser muito poucos. A língua em que escrevem é a malaia, e as le­tras são as arábicas, que os mouros cacizes ensinaram a escrever e ensi­nam no presente51. Antes de se fazerem mouros, não sabiam escrever.
Cabrão raro que também dá leite

14. Nesta ilha de Amboino tenho vista uma coisa que jamais na minha vida vi e é que vi um bode, que continuadamente tem leite e gera muito: não tem mais de uma teta junto às partes genitais e dá, cada dia, mais de uma escudela de leite; os cabritos lhe bebem o leite. Por ser coisa nova, o leva um cavaleiro português para a Índia, para o enviar a Portugal52. Eu, por minhas próprias mãos, lhe ordenhei uma vez o leite, não crendo que era verdade, parecendo-me ser coisa impossível.

[*As tripulações dos navios espanhóis vinham infestadas duma moléstia contagiosa de que o humilde Xavier pouco fala, por isso que só ele foi capaz de desempenhar todos os cuidados que reclamava aquela dolorosa situação. Ia de um a outro navio, ou em terra às palhoças, acudir aos atacados.
Viam-se aqueles pobres doentes disseminados pelas praias ao longo da costa, para diminuir a acumulação nos navios por que os insulares recusavam recebê-los no interior e perto deles.
Francisco Xavier exerceu prodígios de caridade para com todos, parecendo multiplicar-se de dia e de noite para distribuir os seus cuidados às almas e aos corpos.            Levou a sua abnegação a ponto de enterrar por suas mãos os mortos.
Não se pode compreender, finalmente, como ele podia satisfazer a todos aqueles trabalhos. Contudo, ainda achava tempo para percorrer as casas dos habitantes, a fim de lhes pedir medicamentos e socorros, que algumas vezes lhe recusavam.

Amor pelos doentes e indignação pelo avarento - João de Araújo em cuja companhia havia feito a viagem de Malaca a Ambóino, auxiliava-o muito no socorro dos pobres espanhóis; porém, como a doença se prolongava muito, a caridade de João de Araújo mostrou esfriar-se em prover às necessidades dos doentes que cresciam sucessivamente.
Um dia o caritativo apóstolo mandou-lhe pedir vinho para fortificar um pobre soldado cuja excessiva debilidade carecia daquela bebida; João de Araújo, fazendo aquela esmola, respondeu que era a última vez que lhe dava do seu vinho:
- Quando já o não tiver para mim, onde quererá o Padre Francisco que eu o compre?
Aquela resposta, contada ao Padre Xavier, indignou-o a ponto de não poder conter o sentimento que nele produziu:
- Como! exclamou, Araújo quer guardar o seu vinho para si e recusa-o aos membros de Jesus Cristo! Pois daqui a pouco tempo ele morrerá e todos os seus haveres serão distribuídos pelos pobres!
Aproximava-se o mês de Maio que traz o inverno àquelas regiões, e conquanto a doença não estivesse de todo extinta, a esquadra espanhola devia largar daquele porto e fazer-se à vela para Goa.
Francisco Xavier escreveu muitas cartas aos seus amigos de Malaca, onde ela devia tocar; e aos Padres de Goa, onde devia invernar, pedindo-lhes todo o seu interesse, toda a sua caridade para com os pobres doentes dos quais se separava com grande pesar, depois de lhes ter procurado os necessários socorros até ao último momento da partida.

Missão realizada em Amboino: novos cristãos -


NOTA: Amboina ou Ambon é uma ilha do Arquipélago das Molucas.
Foi descoberta em 1512 pelos portugueses António Abreu e Francisco Abreu.
Foi evangelizada em meados do século XVI por São Francisco Xavier.
Passou, em 1605, ao domínio dos neerlandeses, que, se aproveitando da decadência das forças portuguesas no Oriente, a tomaram sob o comando do almirante Steven van der Hagen. Assim fizeram da ilha o primeiro ponto de apoio para o desenvolvimento do seu império no Oriente, principalmente no Oceano Índico.


Xavier recolheu frutos abundantes na ilha de Ambóino. Muitas famílias das costas, querendo abrigar-se da pilhagem contínua dos piratas, haviam-se refugiado para o interior das florestas e das cavernas; ele procurou-as, visitou-as, instruiu-as com uma solicitude digna do seu zelo e da sua caridade.
Converteu todos os pagãos e muçulmanos; fez erigir uma igreja em cada aldeia e designou aquele que devia presidir às reuniões que ali deviam promover, até que chegassem os missionários; numa palavra, fez prodígios em Ambóino como em toda a parte.
A Providência seguia com tanto amor do seu divino olhar, os trabalhos do ilustre apóstolo, que ia levar o nome de Jesus Cristo às extremidades do mundo, que quis dar-lhe um testemunho da sua terna solicitude, de que ele foi o único objecto.
Até ali todos os milagres operados pelo nosso Santo tiveram, por fim a conversão dos pagãos, dos infiéis ou dos grandes pecadores. Alguns escapavam à sua solicitude; seu coração tão sensível à voz da dor, não resistia aos seus lamentos e à sua fé. Mas Deus queria fazer para Xavier especialmente um prodígio que parecesse não ter por fim senão provar--lhe o seu amor.
Depois de ter evangelizado a ilha de Ambóino, quis o Padre Xavier visitar as pequenas ilhas circunvizinhas, enquanto não se lhe oferecesse ocasião oportuna de passar às outras terras mais afastadas.

Ilha de Baranura: milagre do crucifixo no mar - Acompanhado de João Ragoso e Fausto Rodrigues, deixando João de Eiro na direção dos cristãos de Ambóino, dirigiram-se numa ligeira embarcação para Baranura.      Bem depressa se declarou uma tempestade tal que os próprios marinheiros ficam aterrados; já se julgavam perdidos. Francisco Xavier toma o seu crucifixo, inclina-se sobre a borda do barco para mergulhá-lo naquele mar em fúria... e o crucifixo escapa-lhe da mão! O Santo apóstolo mostra-se em extremo consternado por aquela perda, chora aquele tesouro, que havia operado tantos prodígios, tesouro que o consolara tantas vezes nas amarguras do seu laborioso e penoso apostolado.
Ragoso e Rodrigues tomam viva parte naquela dor do seu Santo amigo, pesarosos ainda mais por não terem meio algum de substituírem, ao menos materialmente, o precioso objecto que as vagas lhe arrebataram.
Na manhã seguinte aportaram à ilha de Baranura, depois da mais perigosa travessia, com o mar constantemente mau e a tempestade permanente.

                Decorrera já mais de vinte e quatro horas que o crucifixo caíra ao mar. O Padre Xavier, acompanhado de Rodrigues, dirigia-se para o bairro de Tálamo, seguindo pelo litoral, quando, depois de terem caminhado uns quinhentos passos, próximamente, viram sair do mar e vir para eles um caranguejo trazendo entre as suas garras, que trazia levantadas, o crucifixo de Francisco Xavier! O caranguejo vai direito ao Santo apóstolo e pára junto dele. Xavier ajoelha-se, prostra o rosto no chão, toma o seu amado crucifixo que lhe será dali em diante muito mais precioso, beija-o com todo o amor e reconhecimento de que está cheio o seu coração, e o caranguejo, voltando sobre os seus passos, desapareceu nas ondas

 {Teremos ocasião de tornar a falar sobre este caranguejo, e sobre a tradição conservada entre os índios com respeito a este milagre}.

Fausto Rodrigues, testemunha deste milagre, acrescenta, na sua narração, que o Padre Xavier, depois de, ter beijado muitas vezes o seu maravilhoso crucifixo, conservou-se por meia hora em oração, com as mãos cruzadas sobre o peito, agradecendo à divina Bondade um tão admirável prodígio.
Rodrigues agradecia também, pela sua parte, por lhe ter sido permitido presenciar aquela sublime maravilha, de que ele deu testemunho sob a fé de juramento, e que menciona a bula da canonização.

Predição ao único convertido na Ilha de Baranura - O grande apóstolo teve, contudo, o desgosto de não ser escutado em Baranura, e passou dali a Rosalau, onde também foi mal sucedido. Só encontrou ali um coração acessível à verdade, e por isso só fez um cristão, a quem deu, no batismo, o nome de Francisco e lhe predisse que morreria na graça de Deus, invocando o santo nome de Jesus; aquela predição foi cumprida quarenta anos mais tarde.
Francisco, servindo na armada de D. Sanches de Vasconcelos, governador de Ambóino, foi mortalmente ferido, e até ao seu último suspiro lhe ouviram repetir: "Jesus, assisti-me! Jesus, tende piedade de mim!"

Milagre da chuva em Ulata: De Rosalau, passou Xavier a Ulata. Toda aquela ilha estava nessa ocasião envolvida em guerra; o inimigo interceptara os víveres, o rei, cercado por todos os lados, achava-se a ponto de se render. Faltava absolutamente a água e não havendo esperanças de chuva, era necessário depor as armas ou deixar morrer de sede homens e cavalos.
Xavier, cheio de confiança, pede para ser conduzido à presença do rei, oferecendo-se a procurar-lhe água que restituísse ao seu exército a força e a vida prestes a extinguir-se.
O rei recebeu-o com a maior satisfação:
- "Eu venho, disse-lhe o nosso Santo, anunciar-lhes o Deus que é o Senhor Supremo da natureza, que pode à sua vontade abrir as fontes do céu e fazer cair a chuva sobre a terra. Permiti que eu eleve aqui uma cruz, tende confiança no Deus que eu prego, e prometei-me reconhecer o seu nome e submeter-vos à sua lei, se ele vos conceder a chuva que eu vou pedir para vós".
O rei teria prometido tudo naquele momento; deu a sua palavra e permitiu a colocação da cruz.
Xavier fê-la levantar no ponto culminante da mais alta montanha, e, em meio da multidão que aquele espetáculo havia atraído, implora em alta voz as misericórdias celestes pelos merecimentos do Salvador crucificado, e solicita um pouco de água para a salvação daquelas almas por quem Jesus Cristo deu todo o seu sangue.
E eis que o céu se cobre de nuvens e uma chuva abundante cai durante três dias sobre aquele povo atribulado!
Os inimigos levantam o cerco, cessa a chuva, a palavra abençoada do ilustre apóstolo é compreendida e fortificada, e a ilha toda, arrancada do inferno, se submete à lei evangélica, outorgada pela Igreja de Jesus Cristo.
Iguais resultados coroam as suas pregações em todas as ilhas circunvizinhas.

Fúria do mar na viajem para Tenarte: O Infatigável Xavier volta a Ambóino, donde embarca para Ternate. Partiu em um barco índio, chamado Carácora que ia de reserva de outro navio pertencente a João Galvão, mercador português, e cujo precioso carregamento fazia toda a sua fortuna. Logo que entraram no golfo, de noventa léguas de extensão e perigoso em todo o tempo, os dois navios foram separados pela tempestade; o que levava o "vaso de eleição" salvou-se dos grandes perigos e aportou em Ternate, o de Gaivão perdeu-se de vista.
Desde a sua chegada, Francisco Xavier fez ouvir a sua poderosa voz e atraiu a si um grande número de indivíduos que crescia todos os dias. No domingo imediato, detém-se no meio da sua instrução, parece recolher-se, e depois diz aos seus ouvintes:
"Meus irmãos, orai por João Galvão que acaba de morrer no golfo!"
Três dias depois, o corpo de Galvão e os destroços do seu navio, eram arrojados pelas vagas às praias de Ternate].
56
AOS SEUS IRMÃOS RESIDENTES NA ÍNDIA
Amboino, 10 de Maio 1546
Original ditado por Xavier em português
IHUS
A graça e amor de Deus Nosso Senhor seja sempre em nossa aju­da e favor. Amen.
Ordens que tinha dado na carta anterior, escrita de Malaca. Chegada a Maluco, trabalhos pastorais com duas armadas de espanhóis e portugueses que se encontram em negociações de paz na ilha, esperanças que se abrem entre indígenas
1. No ano de mil e quinhentos e quarenta e cinco vos escrevi de Malaca por duas vias: por elas vos rogava, pelo amor de Deus, a vós Padre João da Beira e a vós Padre António Criminal, que fôsseis, vista a presente, para o Cabo de Comorim, a doutrinar e favorecer aqueles pobres cristãos, e a terdes companhia ao Padre Francisco de Mansi­lhas, o qual deixei com os cristãos no Cabo de Comorim, e com o Pa­dre João de Liçano e três outros Padres naturais da terra. E, para maior merecimento vosso, em virtude da santa obediência vo-lo mandava.

Eu parti de Malaca para Maluco ao princípio de Janeiro e che­guei a esta ilha de Amboino a catorze dias do mês de Fevereiro. E, chegando, logo visitei os lugares de cristãos que nesta ilha há, batizando muitas crianças que estavam por batizar. Acabando de as batizar, chegou a esta ilha a armada de Fernão de Sousa1 com os castelhanos que vieram da Nova Espanha2 a Maluco. Eram oito navios. Foram tantas as ocupações espirituais com esta armada, as­sim [em] confissões contínuas como em pregar-lhes aos domingos e fazer pazes e visitar os enfermos confessando-os e ajudando-os a bem morrer, que me minguava tempo para cumprir com todos. De maneira que não me minguavam ocupações, assim em Quaresma3 como fora dela. Eu tenho visto a disposição desta terra. Espero em Deus que, logo que vier o senhor desta ilha morar nela – que é Jor­dão de Freitas, capitão que ao presente é de Maluco, homem muito de bem e zeloso do acrescentamento da nossa santa fé4 – toda esta ilha se fará cristã. Virá morar nela, deste Novembro que vem de 546 a um ano, que será no ano de 547(5). Esta ilha de Amboino é de vinte sete lugares de cristãos. Há outra terra, que está de Amboino a cento e trinta léguas, chamada Costa do Moro, onde há muitos cristãos sem nenhuma doutrina, ao que me dizem. Nela6 há  cinco até trinta léguas em redondo e é muito povoada e eu parto para lá o mais cedo que puder.

[ *Poder de conversão de Xavier recompensado por Deus - A ilha de Ternate era ainda mais cheia de vícios do que Malaca; mas a voz e a palavra do nosso grande apóstolo, sempre abençoada, sempre fecunda, produziu ali resultados maravilhosos de conversão e de penitência.
Poucos dias depois de haver anunciado a morte de Galvão aos seus ouvintes, Francisco Xavier, celebrando a missa, voltava-se para dizer o "Orate fratres", quando, subitamente, esclarecido por um poder oculto acrescentou, em linguagem vulgar: "Orai também por João de Araújo que acaba de morrer em Ambóino".
Dez dias depois, um navio procedente de Ambóino trazia a notícia daquela morte; acrescentava-se que, não tendo Araújo herdeiro algum, os seus bens tinham sido distribuídos pelos pobres, conforme a lei.
Aquelas duas predições, tão prontamente verificadas pelos próprios factos, contribuíram poderosamente para os brilhantes sucessos das pregações de Xavier. Ele não saía do confessionário senão para pregar, catequizar ou administrar os sacramentos. Perguntava-se como era que ele podia satisfazer a todos aqueles trabalhos e chegava-se à convicção de que seria impossível suportá-los a não ser por efeito dum permanente milagre.

Neaquila, rainha de Ternate, destronada pelos portugueses, sentira redobrar o seu ódio pelos cristãos, por causa da injustiça de que havia sido vítima. Porém aquela princesa ouve a palavra do apóstolo do Oriente, e os seus sentimentos de ódio afrouxam-se, a sua irritação acalma-se, sua alma abre-se para a luz do Evangelho. Xavier batiza, dá-lhe o nome de Isabel e, descobrindo-lhe disposições piedosas, dirige-a com o maior cuidado e leva-a, em pouco tempo, a uma grande perfeição].


[*CELEBES, MACASSAR E TERNATE - PARTE PARA AS ILHAS DE MORO
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/65/Sulawesi_Topography.png/250px-Sulawesi_Topography.png      25 mil batizados e uma nova fé em Celebes -  A ilha de Celebes, completamente infiel e muito considerável pela sua extensão e população, atraía o zelo apostólico do nosso Santo; para lá foi, evangelizando em primeiro lugar a cidade de Tolo, a mais importante, e bem depressa conseguiu baptizar mais de vinte e cinco mil habitantes. Ali, como em toda a parte, fez erigir igrejas e levantar cruzes, e deixando as suas instruções para a manutenção da fé, adentrou-se pela ilha.
Deve aqui ser consignada a época do seu apostolado em Macassar; os documentos têm a lacuna da data; sabe-se tão somente que ele pregou naquela capital com um tal resultado, que baptizou o rei e sua família.
A princesa Leonor, filha do rei de Macassar, levada pelas circunstâncias para a cidade de Malaca, narrara muitas vezes a Dona Joana de Melo, esposa do governador, os prodígios operados por Francisco Xavier na capital da ilha de Celebes, prodígios cuja memória conservava, conquanto não pudesse precisar a data.

Dá a vida pelo nome de Cristo: lema do exercito de Xavier: Enquanto o apóstolo ampliava o reino de Jesus Cristo nas principais cidades daquela ilha, vieram comunicar-lhe que o rei de Tolo, que recusara renunciar aos seus deuses para viver mais comodamente no gozo das suas paixões, fazia destruir as igrejas e derribar as cruzes; acrescentava-seque ele obrigava os neófitos a calcar aos pés as cruzes abatidas, e que o terror dominava tudo.
A esta noticia, exalta-se o zelo de Xavier. Reúne os seus amigos portugueses, em número tão somente de oito, e diz-lhes
- Deixaremos impune um tal atentado à Majestade divina? Mereceremos o glorioso título de soldados de Jesus Cristo, se não acudirmos em sua defesa, se não soubermos fazer respeitar a sua lei e castigar os revoltosos do seu império? Partamos! tomemos os quatrocentos cristãos indígenas que nos cercam, vamos atacar o rei na sua praça-forte de Tolo, sem nos importar com o número avultado dos seus guerreiros! Que nos importa o número! Deus está por nós; eu vos prometo a vitória!...
- Marchemos, meu Padre! respondem todos os portugueses; estamos prontos a dar o nosso sangue e a nossa vida, se necessário for, por uma só das vossas ordens!
O santo apóstolo abraça-os, aperta-os ao coração, assegura-lhes sobretudo a mais brilhante vitória e enche-os de entusiasmo. Prontamente se organiza o pequenino exército, marcha-se sobre Tolo e quando se achavam já a pouca distância, o grande Xavier detém-se e prostra-se para orar. A sua gente também se detém e ora a seu exemplo, feliz e orgulhosa por se ver comandada por um tal chefe. Ouve-se no mesmo instante uma horrorosa detonarão... e as chamas do mais violento incêndio cobrem a cidade e a devoram!
Tolo era dominada por uma montanha... Aquela montanha acabava de abrir-se repentinamente, e lançava, com a mais desesperadora impetuosidade, pedras, cinza, a lava incendiária e enxofre inflamado! Os estilhaços das rochas voam em bocados encandescentes e caem sobre as habitações que abatem e consomem! A terra treme, o solo parece faltar sob os pés dos habitantes que fogem e vão buscar um abrigo nas florestas. O montão de pedras e a lava, que não cessa de sair do vulcão, excede bem depressa a altura das muralhas da cidade, onde não fica nem um só indígena!...
Finalmente cessa o flagelo, o Padre Xavier e os seus soldados entram na praça e tornam-se facilmente senhores dela. Então os culpados correm a cair aos pés do grande apóstolo, confessam publicamente os seus crimes, obtêm o perdão, e a penitência a que se sujeitam prova a sinceridade do seu arrependimento.
Celebes estava conquistada; a fé veio a ser ali viva e ardente; Xavier embarcou para voltar a Ternate, com disposição de levar mais longe o nome de Jesus Cristo ]


59
AOS SEUS COMPANHEIROS RESIDENTES EM ROMA
Cochim, 20 de Janeiro 1548
Duma cópia em castelhano de 1548
A graça e amor de Cristo Nosso Senhor seja sempre em nossa ajuda e favor. Amen.

Visita à ilha de Amboino, onde encontrou sete lugares de cristãos
1. Caríssimos Padres e Irmãos em Cristo Jesus. No ano de 1546 vos escrevi largamente1, das ilhas de Amboino, que estão a 60 léguas da cidade de Maluco2. Esta cidade de Maluco, onde o Rei de Por­tugal tem uma fortaleza, está povoada de portugueses3. Senhoreiam [lá] os portugueses todas as ilhas que dão cravo: não outras ilhas que dão cravo, senão estas de Maluco4. Três meses estive nas ilhas de Amboino5, onde achei sete lugares de cristãos. O tempo que aí esti­ve, ocupei-me em batizar muitas crianças, que estavam por batizar por falta de Padres6. É que um, que tinha cargo deles, morrera havia já muitos dias.

Trabalhos sacerdotais com marinheiros portugueses e espanhóis entretanto chegados e em negociações de paz na ilha. Partida para a ilha de Ternate
2. Em acabando de visitar estes lugares, e de batizar os meninos que estavam por batizar, chegaram a estas ilhas de Amboino sete navios de portugueses e, entre eles, alguns castelhanos que vieram das Índias do Imperador7 a descobrir novas terras8. Estiveram em Amboino, toda esta gente, três meses9. Neste tempo, tive muitas ocupações espirituais: em pregar aos domingos e festas, em confis­sões contínuas, em [re]fazer amizades e visitar os doentes10. Eram de maneira, as ocupações, que não esperava achar tantos frutos de paz, estando entre gente não santa e de guerra. É que, a poder estar em sete lugares, em todos eles acharia ocupações espirituais. Louva­do seja Deus para sempre jamais, pois comunica tanto a sua paz às pessoas que fazem quase profissão de não querer paz com Deus nem menos com os próximos.

1 Xavier-doc. 55.
2 Ternate, fortaleza central dos portugueses na região.
3 Em 1543, na cidade e redondezas, havia 123 portugueses que, com suas mulheres, filhos, escravos e empregados perfaziam 1.600 pessoas. Em 1547, havia lá 60 casados e 60 lascarins (tropas indíge­nas auxiliares dos portugueses).
4 «As ilhas do Cravo são cinco, o que se deve entender falando sumariamente, porque fazemos Bachão uma, sendo na verdade muitas… também não é de crer que só nestas cinco há cravo, por o haver em alguns lugares da Batochina, Irez, Meitara, Pulo Cavali e em muitas partes de Amboino» (REBELLO, Informação 173).
5 Desde 14 de Fevereiro (Xavier-doc. 56,1) até ao mês de Junho (Xavier-doc. 55,3.11; 56,1; cf. VALIGNANO).
6 Se supomos que os cristãos estiveram cinco anos sem sacerdotes, deduz-se que Xavier deve ter encontrado por batizar, em Amboino, cerca de 1.200 crian­ças abaixo dos 5 anos, pois havia ali então uns 8.000-8.500 cristãos.
7 México, ou Nova Espanha.
8 Na instrução de 8 de Outubro de 1542, o fim da expedição de Villalobos era descobrir e ocupar o Mar do Sul e as Ilhas do Ocidente e estabelecer colónias. Nada disto se fez (SCHURHAMMER, Quellen 1001).
9 Desde 9 de Março até 17 de Maio (ESCALANTE, Relación 197).
10 Do que fez Xavier nestes dias, deram testemunho Palha, Dias Pereira, Soveral da Fonseca (MX II 198) e Fausto Rodrigues (SCHURHAM­MER, Quellen 6191). Na armada espanhola vinham quatro Padres agostinhos e quatro sacerdotes diocesanos: Cosme de Torres, Juan Diaz, Martin e o comenda­dor Laso (ESCALANTE, Relación 205). Cosme de Torres e Juan Diaz, impressio­nados com o exemplo de Xavier, entraram na Companhia de Jesus (Doc. Indica I 479-476).

Passados estes três meses, partiram estes sete navios para a Índia do Rei de Portugal11 e eu parti para a cidade de Maluco12, onde esti­ve três meses13. Neste tempo, ocupei-me nesta cidade em pregar aos domingos e festas todas e [em] confessar continuadamente; todos os dias ensinava, aos meninos e cristãos novamente convertidos à nossa fé, a doutrina cristã14; e todos os domingos e festas, depois de comer [almoço]15, pregava, aos novamente convertidos à nossa fé, o Credo: em cada dia de festa um artigo da fé. De maneira que, todos os dias de guarda, fazia duas pregações: uma, na Missa, aos portugueses e outra, aos novamente convertidos16, depois de almoçar.

Atividades com portugueses e cristãos nativos em Ternate
3. Era para dar graças a Nosso Senhor o fruto que Deus fazia em imprimir nos corações de suas criaturas, em gente novamente convertida à sua fé, cantares de seu louvor e glória. Era de maneira que, em Maluco, pelas praças, os meninos e, nas casas de dia e de noite, as meninas e mulheres e, nos campos, os lavradores e, no mar, os pescadores, em lugar de vãs canções, cantavam santos cantares, como o Credo, Pai-Nosso, Ave-Maria, Mandamentos, Obras de misericórdia e a Confissão geral e outras muitas orações. Todas em linguagem17 [indígena]. De maneira que todos as entendiam, assim os novamente convertidos à nossa fé, como os que não o eram. Quis Deus Nosso Senhor que, nos portugueses desta cidade e na gente natural da terra, assim cristãos como infiéis, em pouco tempo [eu] achasse graça diante de seus olhos18.

Partida para as perigosas ilhas de Moro, onde os cristãos ficaram sem missionários. Descrição da região e das gentes
4. Passados os três meses, parti desta cidade de Maluco para umas ilhas, que estão a 60 léguas de Maluco, que se chamam as ilhas do Moro19. É que nelas havia muitos lugares de cristãos20 e eram passa­dos muitos dias que não eram visitados21, assim por estarem muito apartados da Índia como por haverem morto, os naturais da terra, um Padre que lá foi22. Naquelas ilhas batizei muitas crianças que achei por batizar. Estive nelas três meses23. Visitei neste tempo to­dos os lugares de cristãos. Consolei-me muito com eles e comigo.

11 Os sete navios (em rigor, oito) partiram para Malaca a caminho de Cochim no dia 17 de Maio, dois meses e oito dias depois de terem chegado a Amboino, e três meses depois de Xavier ali ter chegado.
12 Cerca de 13 de Junho partiu Xavier de Amboino para Ternate, aonde che­gou em Julho, segundo Valignano (MX I 74; VALIGNANO, Hist. 98), numa coracora indígena, barco à vela e a remos (MX II 423).
13 De pricípios de Julho até princípios ou meados de Setembro, «cerca de dois meses» segundo cálculos de Valignano (MX I 74), durante os quais compôs a Explicação do Credo (Xavier-doc. 58).
14 O Catecismo breve (Xavier-doc. 14), ou antes, a sua tradução em malaio.
15 O almoço: os espanhóis chamam «la comida», ao almoço.
16 Os neo-cristãos que Xavier encontrou em Ternate, uns eram mesmo de Ter­nate, outros da ilha da Celebes, que viviam em Ternate (REBELLO), outros empregados dos portugueses, oriundos de várias regiões. Em 1538, Francisco de Castro trouxe muitas crianças de Mindanau (Filipinas) para Ternate, as quais o capitão Galvão teve o cuidado de mandar educar na fé cristã. Também com mulheres de Mindanau estavam casados alguns portugueses.
17 A palavra linguagem, tanto pode significar a língua portuguesa como a indígena.
18 Est. 7, 3.
19 As ilhas de Moro compreendiam o litoral noroeste da ilha de Halmaheira, desde Tolo até Bissoam (Morotia, hoje distrito de Galela) e as ilhas Morotai e Rau (Morotai).
20 Podem ver-se os nomes de 28 aldeias cristãs das ilhas de Moro em SCHURHAMMER, Quellen 6183 e em SOUSA, Oriente conquistado 2,3,1,31. Em 1553 calculava A. de Castro que havia uns 35.000 cristãos, dos que em 1550-51 tinham sido batizados em massa em 29 aldeias daquelas ilhas: 8 em Morotia, 18 em Morotai e 3 em Rau.
21 No tempo do capitão Jorge de Castro (1539-1544) foram batizados os últi­mos cristãos morenses (REBELLO, Informação 193). O mesmo capitão, em 1543--44, para proteger os cristãos e os interesses de Portugal contra o rei de Gilolo e os espanhóis seus aliados, enviou tropas contra Moro. O mesmo fez Freitas, com tan­ta infelicidade que, de 4.000 cristãos, 1.000 pereceram. «Careceram de doutrina até os visitar o Padre Mestre Francisco» (REBELLO, ib. 194). Os cristãos batizados em Sugala em 1534, renegaram da fé em 1535 (CASTANHEDA; Xavier-doc. 82,4).
22 Simão Vaz, morto em 1535 na aldeia Tjawo, no litoral sudoeste da ilha Morotai (SCHURHAMMER, Quellen).
23 Desde 13 de Setembro a 13 de Dezembro de 1546. As aldeias cristãs ficavam todas no litoral e podia deslocar-se dumas para outras nos pequenos barcos à vela e a remos (coracoras).

[*Notava-se uma tal inspiração na expressão do celeste semblante de Xavier, que todos o ouviam sem ousarem interrompê-lo, não obstante o enternecimento que cada uma das suas palavras produzia nos corações, que tão carinhosamente o amavam.
Os seus, ouvintes. eram seus amigos e não se achavam privados de todos os sentimentos humanos para com aquele que tão profundamente amavam e veneravam! O apóstolo tão querido continuou:
Vendo o governador de Ternate, D. João de Freitas, que os amigos do nosso Santo não conseguiam destruir a sua firmeza, fez publicar um édito impondo penas severas contra todo e qualquer capitão que recebesse a bordo do seu navio o Padre Francisco Xavier, com destino para a Morica, ou ilhas do Moro" [ Gilolo e as ilhas que a cercam].
A esta notícia, dirige-se o heróico apóstolo à presença do governador em audiência pública, e, não tendo em consideração senão o seu zelo, diz-lhe com o acento de nobreza que lhe era natural e a dignidade que lhe conhecemos:
Enfim o embarque tão temido - Viam-se lágrimas em todos os olhos. O amável e Santo apóstolo era tão querido em Ternate, que logo que o édito ficou revogado, todos disputavam a graça de acompanhar Xavier às ilhas de Moro, e tais foram os pedidos e as instâncias, que o forçaram a aceitar a companhia de alguns dos seus amigos, e consolar aqueles que não podia levar consigo.
O povo cobria a praia no momento do seu embarque, e só se ouviam gritos de consternação e soluços de dor da parte dos índios, porque cada um deles lhe previa uma morte inevitável e o choravam como chorariam pelo mais carinhoso pai.
Era grande a comoção de Xavier; copiosas lágrimas corriam também dos seus olhos, mas originadas pela dor do povo: era ele o objeto daquela viva dor, via quanto era querido daquela gente que arrancara ao demônio e dera a Jesus Cristo, e o coração do nosso Santo não podia deixar de estar vivamente comovido por tanto reconhecimento e tanto amor.
De pé, sobre a tolda do navio, solicitou as bênçãos celestes para aquele querido rebanho, cujo pastor e pai era ele, deu o sinal de partida, a âncora subiu, e a multidão, ajoelhada na praia, levantou-se, subiu para os rochedos sobranceiros e ali se conservou por todo o tempo que foi possível avistar-se a embarcação que conduzia o objecto venerado que os deixava cheios de pesares e da mais dolorosa solicitude. Ninguém esperava tornar a vê-lo nesta vida.
"Deus me chama às ilhas de Moro", dissera o ilustre apóstolo ao governador de Ternate e aos que se achavam reunidos em sua casa naquele momento.
Deus o chamava efetivamente e não tardou em prová-lo.

27_59_G04 - NAS ILHAS DE MORO - RETORNO A MALACA   
Recepção virtuosa aos selvagens - A viagem foi curta e feliz, o mar bonançoso e calmo; jamais viagem alguma foi tão fácil, e tão isenta de perigos. Num momento de êxtase, Xavier soltou um grito de dor que atraiu a atenção de toda a equipagem. Tinham-no deixado em oração; correram para junto dele, ouviram-lhe distintamente pronunciai:
"Senhor, Jesus!... Matam aquela pobre gente!"
E o seu olhar, fixo sobre um ponto do mar, permanecia imóvel:
- Que é isso, Padre Francisco? o que vedes? a quem matam? perguntou-lhe um dos seus amigos.
O Santo continua em êxtase, nada ouve, nada responde, o seu olhar conserva-se fixo no mesmo ponto, parecia que um raio celeste se soltara.
Os seus amigos depois de o terem contemplado com admiração por alguns instantes, deixaram-no de novo e retiraram-se penetrados do maior respeito e veneração.
Quando o santo Padre saiu da sua contemplação e voltou a terra, dirigiram-lhe novas perguntas sobre o grito aflitivo e as palavras estranhas que lhe tinham escapado. A sua humildade confunde-se, não responde e faz desviar a conversação com a graça e encanto tão conhecido nele. Porém logo que chegaram a uma das ilhas de Moro, viram oito cadáveres de portugueses vertendo ainda sangue!... os naturais da ilha acabavam de os assassinar e tinham abandonado os seus corpos na praia! Deram-lhes sepultura com a convicção de que era aquela "a pobre gente" que o santo Padre vira matar.
Cumprido aquele dever, Xavier, acompanhado dos seus amigos, dirigiu-se com todo o ânimo para a primeira aldeia. Ào verem os europeus, os naturais fogem, persuadidos de que vinham pedir-lhes contas do sangue português que acabavam de derramar.
O santo apóstolo encontra um meio de retê-los: com sua meiga voz canta a doutrina cristã. A voz de Xavier era sã, harmoniosa, simpática como uma voz angélica. Os insulanos detém-se, escutam-no e voltam para aquele que encanta os seus ouvidos e faz vibrar nos seus corações uma corda até ali desconhecida.
Dirigindo os olhos admirados para o celestial semblante de Xavier, encontram o seu olhar atrativo, e magnético, ao qual bem poucos índios resistiam, e vieram para ele atraídos irresistivelmente. Avançando para os selvagens, o amável Santo estende-lhes os braços; acolhe-os, transmite-lhes o desejo que experimentava há muito tempo de vir trazer-lhes a felicidade da vida presente e a da vida futura... E é atendido, é acolhido, é amado!
"Estas ilhas, disse ele, não se chamarão daqui em diante ilhas de Moro; mas sim da divina Esperança!"

Na mais difícil missão, Xavier é bem suscedido - E não se enganava; teve um resultado prodigioso em todo o país, chamado então de Morica. Sofreu grandes privações entre aqueles selvagens; foi até mesmo perseguido pelo ódio de alguns, mas a docilidade da maior parte, a felicidade de haver vencido aqueles povos, de quem pessoa alguma se atrevia a aproximar, e de ter estabelecido naquele país tão temido, o império da Cruz, o reino de Jesus Cristo, eram para o coração apostólico do nosso Santo mananciais de consolações que mal podia exprimir: Assim escrevia a seus irmãos.
"...Todos os perigos a que a gente se expõe aqui, todas as privações e incomodidades que se experimentam pela glória de Nosso Senhor Jesus Cristo, são outros tantos tesouros donde dimanam imensas consolações.
As lágrimas que aqui se derramam são tão deliciosas, que não me recordo de haver experimentado alegrias interiores que lhes sejam comparáveis! Nunca suportei com tamanha facilidade os trabalhos que me impus; jamais me lancei aos perigos com tanta intrepidez!
E contudo, eu estava cercado, desde o primeiro dia, de inimigos de natureza feroz, em ilhas desprovidas de todos os meios habituais da vida, e que não oferecem recursos nem no estado de saúde, nem no estado de doença. O verdadeiro nome daquelas ilhas deve ser daqui para o futuro o da divina Esperança.
Encontra-se ali uma raça de selvagens chamada Javares, que julga e crê adquirir a imortalidade matando os cristãos que encontram. A falta de sangue estrangeiro derramam ode suas mulheres e filhos; mas procuram, sobretudo, o sangue cristão.
Uma daquelas ilhas é constantemente agitada por tremores de terra; umas vezes é envolvida por nuvens de cinza e de fumo lançada pelos vulcões, outras vezes é alumiada por chamas vomitadas por esses abismos aterradores.
Os insulanos estão convencidos de que a sua ilha é uma imensa fornalha que consome o próprio rochedo sobre o qual a povoação esta estabelecida. Isto parece verosímil, porque nas frequentes explosões daqueles vulcões, se vêem enormes massas de rochedos lançados pelos ares a uma altura prodigiosa, e nas ocasiões dos temporais, as suas cavernas expelem para as alturas tamanha quantidade de cinza incandescente, que os lavradores dos campos ficam desfigurados ...
...Em dia de São Miguel, durante a minha missa, houve ali um tremor de terra tão violento que julguei ver o altar de todo voltado. Veio-me então ao pensamento que se travava um combate entre este valoroso arcanjo e os demônios daquelas ilhas que ele expulsava dos seus terríveis esconderijos...".      
Os insulanos que assistiam ao santo sacrifício, fugiram precipitadamente, temendo serem vítimas se permanecessem ali até ao fim; o seu santo apóstolo ficou só no altar, e concluiu a missa.

Retorno aos lugares onde evangelizou na volta para a Índia: despedidas - Em três meses o heróico Xavier, que os Moroenses olhavam como um ser sobrenatural, fizera para Deus a difícil conquista daquele grupo de ilhas, apesar dos meios empregados por alguns rebeldes para lhe obstar e destruir os resultados da sua missão. Tentaram até tirar-lhe a vida; mas a Providência o salvou sempre das traições que lhe armava o inferno.
Perseguido um dia por alguns selvagens, o Santo vê-se detido por um rio largo; descobre próximo de si uma longa vara, lança-a sobre o rio, aventura-se sobre aquela fraca ponte, confiado na proteção divina, e salva-se.
Chegara o momento de deixar os Moroenses. Recomendou-lhes as suas instruções, e voltou a Ternate onde foi recebido com demonstrações da mais notável alegria.
Desde a manhã seguinte o seu confessionário via-se tão concorrido e com tanto empenho, como o havia sido antes da sua partida; não lhe deixavam nem um só instante de descanso.
Feliz pelas disposições dos seus queridos Ternatenses, o santo apóstolo, que não aspirava senão pelo descanso da eternidade, prestou-se alegremente aos desejos de cada um, e voltou aos seus trabalhos habituais.
Todos os habitantes de Ternate, sem exceção, se chegaram aos sacramentos com a mais fervorosa devoção. Depois de lhes ter concedido três meses, separou-se deles o grande Xavier para voltar a Malaca e dali para o cabo Comorim a fim de tornar a ver os seus estremecidos Paravás, seus primeiros filhos da Índia. Desejava também fazer uma viagem a Goa para os interesses da Companhia de Jesus nas Índias, porque ela começava a progredir de modo que dava as mais belas esperanças.]


Estas ilhas são muito perigosas, por causa das muitas guerras [que há entre eles]. É gente bárbara, carecem de escrituras, não sabem ler nem escrever. É gente que dá muita peçonha aos que mal querem e, desta maneira, matam a muitos. É terra muito fragosa: todas [as ilhas] são serras e muito trabalhosas de andar. Carecem de manti­mentos corporais. Trigo, vinho de uvas24, não sabem que coisa são. Carnes nem gados nenhuns há, a não ser alguns porcos, por grande maravilha. Porcos monteses há muitos. Muitos lugares carecem de águas boas para beber. Há arroz em abundância, e muitas árvores, que se chamam sagueiros, que dão pão e vinho25, e outras árvores de cuja casca [se] fazem vestidos com que todos se vestem26. Esta conta vos dou, para que saibais quão abundosas ilhas são estas de consolações espirituais. É que todos estes perigos e trabalhos, volun­tariosamente tomados só por amor e serviço de Deus Nosso Senhor, corporais carecem e de quase todas as ajudas de causas segundas para conservação da vida, melhor é chamar-lhes ilhas de esperar em Deus, que não ilhas de Moro.são tesouros abundosos de grandes consolações espirituais. Em tanta maneira, que são ilhas muito dispostas e aparelhadas para um homem, em poucos anos, perder a vista dos olhos corporais com a abundância de lágrimas consolativas. Nunca me recordo haver tido tantas e tão contínuas consolações espirituais, como nestas ilhas, com tão pouco sentimento de trabalhos corporais. Andar continua­damente em ilhas cercadas de inimigos e povoadas de amigos não muito fixes, e em terras que de todos os remédios para enfermidades

Barbaridades da tribo dos tavaros. Vulcões, terramotos e maremotos
5. Há, nestas ilhas, uma gente que se chama os tavaros27. São gentios. Põem toda a sua felicidade em matar os que podem. Dizem que, muitas vezes, matam os seus filhos ou mulheres quando não acham quem matar. Estes matam muitos cristãos28.
Uma ilha destas quase sempre treme29. A causa é porque nesta mesma ilha há uma serra que continuamente deita fogo de si e muita cinza30. Dizem, os da terra, que o grande fogo que debaixo está, quei­ma as serras de pedra que estão debaixo de terra. Isto parece ser verda­de, porque muitas vezes acontece sairem em fogos pedras tão grandes como grandíssimas árvores. Quando faz grande vento, deitam os ventos daquela serra tanta cinza para baixo, que os homens e mulheres que estão trabalhando nos campos, quando vêm a suas casas, vêm to­dos cheios de cinza: não lhes aparecem senão os olhos e narizes e boca. Parecem mais demónios que homens. Isto me disseram os naturais da terra, porque eu não o vi. No tempo que lá estive, não foram estas tormentas de vento. Mais me disseram: que quando aqueles ventos reinam, a muita cinza que os ventos consigo trazem, cega e mata mui­tos porcos monteses, porque passados os ventos os acham mortos.
Efeitos da cinza dos vulcões
6. Também me disseram os da terra que, quando estes tempos cur­sam, acham à beira mar muitos pescados mortos e que isto o causava a muita cinza que os ventos trazem daquela serra: que os pescados que bebiam água misturada com tal cinza morriam. Quando eles me per­guntavam que era aquilo, lhes dizia que era um inferno, para onde iam todos os que adoravam ídolos. Era o tremor da terra tão grande, que um dia de S. Miguel31, estando [eu] na igreja a dizer Missa, tremeu tanto a terra que tive medo que caísse o altar32. Talvez33 S. Miguel, por virtude divina, aos demónios daquelas partes que impediam o serviço de Deus, os punia e mandava que se fossem para o inferno.

24 Lembra, sobretudo, o que faz falta para celebrar Missa.
25 Cf. REBELLO, Informação 169-170. Os antigos missionários chamavam a estas ilhas o celeiro de Ternate.
26 A única veste de homens e mulheres (como ainda hoje é frequente na ilha de Seran) era uma faixa à cintura feita de casca de árvores (tjidako).
27 A tribu Tabaru, como eles se chamam, é gente pagã que vive na costa no­roeste da ilha Halmaheira, nos distritos de Ibu e Sidangoli. Em 1891 era ainda de uns 7.000 habitantes. Dependia dos maometanos de Gilolo que a usavam nas guerras contra os cristãos (cf. REBELLO, Informação 253; CASTANHEDA 6,68; 8,113).
28 Nos anos de 1539 a 1551, os maometanos de Gilolo aliaram-se aos tabaru para fazer guerra aos cristãos das ilhas de Moro.
29 A ilha Morotia (Halmaheira), como se deduz do que se segue.
30 Do monte Tolo, que deita fogo, diz Rebello: «No mais alto dele, meia légua de vista, está uma cova de que sai continuamente grande quantidade de fumo, e como o Tolo é mais longe e se lhe antepõe o seu outeiro, vê-se dele menos o fumo e fogo» (REBELLO, 198) e o fumo «é sempre igual», «não tem as desordens do de Ternate» (id. História, 86r-v).
31 29 de Setembro. Xavier estava provavelmente na cidade de Tolo ou na al­deia de Mamuja, ambas no sopé do monte Tolo. O chefe (sengadji) da aldeia de Mamuja, D. João de Mamuja, tinha sido um dos primeiros a receber o batismo em 1533 e lutar pelos cristãos de Moro (SCHURHAMMER, Quellen; REBELLO; CASTANHEDA).
32 Os templos da região eram ordinariamente de madeira; muitas vezes os templos pagãos eram transformados em igrejas.
33 Forte, em latim, que significa «talvez».

Segunda demora em Ternate
7. Depois de haver visitado todos os lugares de cristãos destas ilhas, tornei outra vez para Maluco34, onde estive outros três meses35. Pregava duas vezes todos os domingos e festas: uma, pela manhã, aos portugueses; e outra, depois de almoçar, aos cristãos da terra. Confessava continuadamente pela manhã e pela tarde e, ao meio-dia, ensinava todos os dias a doutrina cristã. Depois da doutrina cristã acabada, nos domingos e festas, pregava aos cristãos da terra os artigos da fé, guardando esta ordem: que em cada festa explicava um artigo da fé, repreendendo-os muito das idolatrias passadas. Nestes três meses, que estive em Maluco desta segunda vez, pregava às quartas e sextas às mulheres dos portugueses somente, as quais eram naturais da terra. Pregava-lhes sobre os artigos da fé e mandamentos e sacramentos da confissão e comunhão, porque neste tempo era Quaresma36. E assim, pela Páscoa, (*10 de abril) muitas comungavam que antes não comungavam.
Com a ajuda de Deus Nosso Senhor, nestes seis meses que estive em Maluco, se fez muito fruto, assim nos portugueses e suas mulhe­res, filhos e filhas, como nos cristãos da terra.
*Esta segunda ausência de Ternate dilacerou o coração de Xavier
Que sensibilidade naquele coração de apóstolo, e que enternecimento, doçura e encanto na maneira franca e sincera como aquele grande e magnífico conquistador de almas exprime o bem que produziu, e a promessa do Padre que o devia substituir: "ele consolou-nos". A sua humildade não lhe permite supor que os seus queridos neófitos sentissem tanto a falta da sua pessoa quando um outro lhes prodigalizasse os mesmos cuidados; parecia ignorar o poder que Deus lhe dera!
Levava o nosso Santo para o colégio de Goa trinta jovens índios para ali serem educados e instruídos com o fim de entreterem e conservarem a fé nas Molucas quando voltassem.
No momento em que o navio que conduzia o apóstolo venerado levantou ferro, um grito de consternação se elevou da praia e retiniu até ao fundo do coração tão sensível e amável de Xavier; novas lágrimas se escaparam dos seus olhos, retirou-se, entregou-se à oração e ofereceu a Deus a sua dor e os seus votos pelo estremecido rebanho dó qual a divina vontade o separava.

De novo em Amboino: predições de morte e naufrágio - Em Ambóino demorou-se Francisco Xavier alguns dias com o fim de reavivar o fervor religioso dos seus neófitos. Quatro navios portugueses se achavam então no porto; visitou as equipagens e fez erigir uma capela à borda do mar:
"Passei vinte dias entre os marinheiros e soldados, escrevia ele; preguei três sermões, confessei muitos, acabei com as suas desavenças e lhes disse ao despedir-me: A Paz esteja convosco".
Um dia, enquanto ele pregava às equipagens, parou e disse-lhes, depois de um instante de silêncio
"Orai por Diogo Gil; recomendai-o a Deus, por que ele está em agonia em Ternate".
Soube-se pouco depois que Diogo morreu no mesmo dia.
Quando os navios portugueses estavam para se fazer à vela de volta a Malaca, Xavier observou aquele navio que parecia o mais forte e que sabia estar mais ricamente carregado, e dirigindo-se a Gonçalo Fernandes, a quem o navio pertencia, disse-lhe:
- "Senhor Gonçalo, este navio passará por um grande perigo! Que Deus vos livre dele!"
No estreito de Sabon, o navio choca contra um rochedo, despedaçando o leme e ameaçando abrir infalivelmente o casco; todos se preparam para se lançarem ao mar... Uma onda, porém, levanta o navio, desencalha-o e leva-o ao largo...
Xavier havia dito: "Que Deus vos livre!" Deus o havia ouvido, o navio estava "salvo".

Devoção a Cruz que milagrosamente faz chover - O nosso Santo visitou todas as povoações da ilha de Ambóino e fez erigir uma cruz em cada uma; uma destas cruzes, colocada pelo próprio Santo, adquiriu no futuro uma grande celebridade por ocasião dum milagre que julgamos dever referir aqui com a maior simplicidade.
A estiagem assolava o pais, e alguns habitantes falavam já em recorrer aos seus antigos ídolos e fazer-lhes oferendas para obter a chuva desejada, quando uma mulher exclamou entusiasticamente:
- "Voltar ao ídolo? Ah! o que diria o santo Padre? Não ternos nós a cruz da margem do rio, e o santo Padre, quando a colocou, não nos disse: Meus queridos filhos, vós vireis para ao pé desta cruz pedir ao nosso Pai que está rio Céu, as coisas de que carecerdes, e tudo quanto lhe pedirdes pelos merecimentos de Jesus crucificado, ela vos concederá?"
"O santo Padre o disse e ele nunca nos enganou! Antes de recorrerdes ao ídolo vinde à cruz comigo!"
A índia arrasta assim toda a povoação para junto da cruz, pede a Deus que lhes conceda a chuva, pois que o santo Padre prometera que se obteria tudo quanto se pedisse pela virtude da cruz; suplica-lhe não permita que se volte ao ídolo, que não é mais do que um demônio. Enquanto ela ora com aquela simplicidade de fé, cobre-se o céu de espessas nuvens, a chuva cai brandamente e continua a cair sem interrupção por todo o tempo necessário para reparar os prejuízos que a seca produzira.

Obediencia: primeira virtude do religioso - Francisco Xavier deixou, finalmente, aquele bom povo que comparava muitas vezes aos primeiros cristãos, e embarcou para Malaca, onde chegou em julho de 1547. Encontrou ali os padres João da Beira, Nunes Ribeira e Nicolau Nunes, aos quais ele ordenara que fossem para as Molucas, e esperavam que algum navio se fizesse à vela com aquele destino.
O Padre Francisco Maneias recebera igualmente ordem de partir com eles, porém, persuadido de que a sua presença era necessária no cabo Comorim e que o seu superior não podia avaliar bem as coisas de tão longe, deixou de obedecer. Xavier, apreciando diversamente a santa obediência e considerando-a como a primeira virtude necessária em um bom religioso, não hesitou em expulsai da Companhia aquele membro recalcitrante.
Dois dos missionários que vinham auxiliar o ilustre apóstolo haviam chegado a Goa com mais sete Padres europeus, de entre os quais alguns estavam na Costa da Pescaria. Os filhos de Santo Inácio tinham-se já multiplicado a ponto de poderem destacar nove duma vez para as Índias, mas Xavier pedia ainda e pedia sempre!
Esperando que algum navio se fizesse à vela para as Molucas, deu as suas instruções aos três Padres que para ali mandava; instruiu-os mesmo na missão de Malaca no modo de exercer o apostolado naqueles países, onde tantos frutos respondiam aos seus incríveis trabalhos, e foi para ele uma verdadeira alegria poder guardá-los junto de si por aquele tempo todo, porque embarcaram só pelos fins de Agosto.

Regresso a Malaca com despedidas muito sentidas
8. Acabada a Quaresma, com muito amor de todos, assim dos cristãos como dos infiéis, parti de Maluco para Malaca. Pelo mar não me faltaram ocupações. Numas ilhas38 em que achei quatro navios39, estive com eles [os marinheiros] em terra alguns 15 ou 20 dias, onde lhes preguei três vezes, confessei a muitos e fiz muitas pazes40. Quando parti de Maluco, para evitar choros e prantos dos meus devotos, amigos e amigas na despedida, embarquei quase à meia-noite. Isto não me bastou para os poder evitar, porque não me podia esconder deles. De maneira que a noite e o apartamento de meus amigos e filhas espirituais me ajudaram a sentir alguma falta que, porventura, a minha ausência lhes poderia fazer para a salvação das suas almas.

Organização pastoral que recomenda ao vigário que fica
9. Deixei ordenado, antes que de Maluco partisse, que todos os dias se continuasse a doutrina cristã numa igreja, e uma Explicação breve que fiz sobre os artigos da fé41 se continuasse e a aprendessem, em lugar das orações, os novamente convertidos à nossa fé. Um Padre clérigo, devoto e amigo meu42, ficou que na minha ausência os ensinaria, todos os dias duas horas e, um dia na semana, pregaria às mulheres dos portugueses sobre os artigos da fé e sacramentos da confissão e comunhão.
Também no tempo em que estive em Maluco, ordenei que todas as noites, pelas praças, se encomendassem as almas do purgatório e, depois, todos aqueles que vivem em pecado mortal. Isto causava muita devoção e perseverança nos bons e temor e espanto nos maus. E assim, elegeram os da cidade um homem que, vestido em hábi­tos da (*confraria da) Misericórdia, todas as noites, com uma lanterna numa das mãos e uma campainha na outra, andasse pelas praças e, de quando em quando, parasse encomendando com grandes vozes as almas dos fiéis cristãos que estão no purgatório e, depois, pela mesma ordem, as almas de todos aqueles que perseveram em pecados mortais sem querer sair deles44, dos quais se pode dizer: “Risquem-se do livro dos vivos e com os justos não se inscrevamSl 68,29.

34 Regressou a Ternate em Dezembro (cf. SCHURHAMMER, Quellen 4380).
35 De Dezembro até à Páscoa de 1547, 10 de Abril. Ao chegar a Ternate, Xavier encontrou o capitão Freitas e a procuradora do reino, Niachile Pokaraga, depostos dos seus cargos e, em seu lugar, Bernardino de Sousa e o rei Hairun, que tinham chegado ali a 18 de Outubro de 1546, na nau Bufara (REBELLO, Infor­mação 240-242).
36 Desde 23 de Fevereiro até 9 de Abril.
38 Nas de Amboino.
39 A nau Bufara, que tinha saído de Ternate a 16 de Fevereiro de 1547 com Jordão de Freitas prisioneiro, uma embarcação de Bando (Kwanto) às odens de Garcia de Sousa e outras duas (SCHURHAMMER, Quellen 3576; MX II 176 193 191).
41 Xavier-doc. 58.
42 Pela época a que se refere, o vigário de Ternate era Rodrigo Vaz a quem assistia um be­neficiado.
44 Semelhante costume introduziu Inácio de Loyola em Azpeitia em 1535 (MI Epp. I 163; Fontes narrativi I 104). O hábito dos confrades da Misericórdia era azul celeste.

Amizade do rei local e maus costumes que o impedem de se converter
10. O rei de Maluco(*Hairun) é mouro e vassalo do Rei de Portugal. Honra-se muito de o ser. Quando nele fala chama-o «o Rei de Por­tugal meu senhor». Fala este rei muito bem o português. As princi­pais ilhas de Maluco são de mouros. Maluco não é terra firme, são todas ilhas. Deixa este rei de ser cristão, por não querer deixar os vícios carnais e não por ser devoto de Mafoma. Não tem outra coisa de mouro senão ser, de pequeno, circuncidado e, depois de grande, ser cem vezes casado, porque tem cem mulheres principais e outras muitas menos principais47. Os mouros daquelas partes não têm dou­trina da seita de Mafoma: carecem de alfaquis48 e os que têm, sabem muito pouco e [são] quase todos estrangeiros.

11. Este rei mostrava-me muitas amizades. Em tanto, que os mouros principais do seu reino o tinham a mal. Desejava que eu fos­se seu amigo, dando-me esperanças de que, em algum tempo, se faria cristão. Queria que o amasse com esta tacha de mouro, dizendo-me que cristãos e mouros tínhamos um Deus comum e que, em algum tempo, todos seríamos unos. Folgava muito quando o visitava. Nun­ca pude acabar com ele que fosse cristão. Prometeu-me que faria um dos seus filhos cristão, de muitos que tem, com esta condição: que depois de cristão fosse rei das ilhas de Moro49. Daqui a quatro meses, Deus Nosso Senhor querendo, lhe mandará o Governador da Índia todos os despachos que lhe manda pedir50, para que seu filho, depois de cristão, seja rei das ilhas de Moro.