Milagres

Ressurreição de um morto sepultado há alguns dias



Missionário como ninguém, operando os mais espetaculares milagres para
converter povos inteiros para Jesus Cristo, Francisco Xavier imitou
o Divino Mestre até o fim.



Em 1622, quando Gregório XV no consistório privado propôs aos cardeais que Francisco Xavier fosse canonizado, disse: “Tanto quanto a santidade da vida,  a  reputação dos milagres e o desejo do povo concorreram no  julgamento deste  homem extraordinário, o verdadeiro apóstolo das Índias, deixando  claro que deveria ser elevado à honra da santidade”.
Os cardeais presentes deram seu julgamento por escrito, relatando quando Francisco Xavier deveria ser canonizado.  A maioria dos votos tinha somente um parágrafo, contando menos de cinquenta palavras cada um deles.  Todas as súmulas dos cardeais, incrivelmente, faziam menção a seus “claritudo mira culorum” como um sinal seguro do desejo do espírito santo, ver Francisco Xavier elevado à santidade.
Na bula de canonização assinada por Urbano VIII em 6 de agosto de 1623, os milagres de São Francisco Xavier estão contidos em dezenove páginas do documento papal. Com relação aos fenômenos ocorridos durante sua vida santificada, o papa disse: “Ele foi enriquecido com um carisma apostólico”.
A evidência de seu apostolado foi manifestada em sinais e prodígios.  Nos arquivos, os pesquisadores relatam existir uma descrição cuidadosa de cada um dos milagres na vida de São Francisco Xavier. Os biógrafos e estudiosos referem-se aos primeiros fenômenos citados no documento, mencionando a frequência com que ele era tocado em êxtase,  levitava durante a celebração da missa,  bem como a dificuldade que tinha em retornar ao seu estado normal de consciência quando meditava.  Impressionados ficavam todos ao tomar conhecimento da iluminação que irradiava em seu corpo toda vez que se ajoelhava e mergulhava em oração, particularmente, à noite quando ao recolher-se para descansar.

Créditos a: Ubirajara de Carvalho - Paroquia de São Francisco Xavier na Tijuca, Rio de janeiro-RJ 

 Milagres e procissões
Quando se estuda a missionação na índia não se pode deixar de fazer referência aos muitos
milagres que são relatados na historiografia jesuíta. Ainda que os milagres possam parecer uma
temática marginal a este artigo, a frequência com que estes são referidos, bem como a relevância
que lhes é concedida, obrigam a reflectir sobre a sua importância para a conversão dos nativos.
Sob esta perspectiva não se vai analisar o milagre em si, nem a sua veracidade, mas sim a sua
existência como um elemento de impacto fundamental para a conversão
dos nativos.
Embora a evangelização seja feita a partir da pregação, o milagre surge como um elemento
que pelo seu impacto imediato leva à conversão.
Como nos relata o padre João de Lucena: «Além destas obras houve outras que podemos
chamar mais próprias e pessoais do padre Francisco e que sem dúvida foram mais principal meio
do número e fé dos cristãos da Pescaria. Nela se publica voz e fama que ressuscitou neste tempo o
padre alguns mortos, não falando em muitos enfermos a quem milagrosamente deu saúde e em
grande número de endemoninhados a quem livrou» 65.
Este forte impacto dos milagres pode-se explicar por uma certa predisposição humana para a aceitação de situações sobrenaturais que se impõem empiricamente, o que as leva a aderir com
maior facilidade a factos extraordinários. Desta forma se explica que, muitas vezes, alguns
milagres tenham sido construídos a posteriori. Um dia, em Goa, o Padre Diogo Borba, director do
Colégio de S. Paulo, questiona Francisco Xavier acerca do milagre do ressuscitamento de um
jovem no cabo Comorim, ao que este lhe respondeu: «ai pecador de mim, trouxeram-me aquele
mancebo, dizendo que era morto, mas ele vinha vivo, mandei-o levantar em nome de Deus,
levantou-se; o povo que a tudo se espanta e faz milagres, fá-lo-ia disso» 66.
Por certo Francisco Xavier tinha a percepção de que o povo facilmente aderia a situações
onde o sobrenatural se manifesta empiricamente. Daí que talvez se encontre uma outra causa para
explicar porque é que Xavier defendia, nas suas cartas, a permanente visita aos doentes: ele sabia
que num estado de enfermidade as pessoas estavam sem pre à espera do sobrenatural, logo
procurava exaltar a piedade dos doentes convencendo-os que essa força metafísica que os podia
salvar provinha de Deus. O Padre João de Lucena relata-nos uma visita que Francisco Xavier fez a
uma doente, a morrer de parto, em Tuticorim: «[Francisco Xavier ao aproximar-se da doente]
declara em suma a substância de nossa santa fé, segura à pobre mulher se crê e se baptiza a saúde
da alma, dá-lhe grandes esperanças das do corpo. Ela com o sentimento da perda da vida corporal,
entra em desejos da espiritual.
Nasce como outras vezes, da desesperação, a confiança e onde fora do perigo nenhuma
coisa cria que haver na lei de Deus salvação eterna, j á crê que só nela tem a temporal; oferece
enfim a fé, pede o baptismo. Tudo foi um, baptizá-la o padre e ficar alumiada juntamente na alma
e no corpo. Hão os gentios que estavam presentes, a obra por milagre de Deus, pela brevidade e
facilidade do parto, pela saúde da mãe, pela vida da criança. É o espanto igual ao prazer,
rendem-se logo a Cristo os da casa, chega a nova ao tirano senhor do lugar, muda em amor o ódio
que tinha à nossa santa lei, recebe-a sem ficar alma gentia em toda a terra» 67. Ainda que possa
haver algum exagero no relato deste milagre, especialmente no que diz respeito à forma imediata
como o Cristianismo foi aceite pelo soberano, este extracto é bem demonstrativo não só do
impacto que tinha o milagre, mas também como a assistência dos jesuítas aos doentes podia ser
aproveitada convenientemente para a conversão cristã.
É ainda dentro deste contexto do uso da valorização da percepção sensorial como forma de
conseguir uma adesão mais imediata ao Cristianismo, que se devem estudar as procissões. Afinal a
valorização das procissões decorre da noção de que os sentidos são uma forma privilegiada de
apreensão da dimensão religiosa do catolicismo.
Esta visão dos jesuítas constituiu não só um contributo para a Igreja tridentina captar, de
novo, a piedade popular, mas permitiu também uma valorização da arte como mediação para
atingir Deus.
Na índia as procissões surgem, tal como na Europa, como um elemento importante para o
progresso do catolicismo. Para além de serem um símbolo de devoção tornam-se também num
mecanismo de conversão, onde o espectáculo visual e sonoro (entoação de ladainhas) surge como
um meio para cativar os nativos. O próprio Padre Francisco de Sousa refere que «daqui [Colégio
de S. Paulo] tiveraõ principio as pregações, & procissoes tam celebres, que ainda hoje continuaõ
(...) todas as tardes das sestas feyras da Quaresma, com grande concurso de toda a nobreza, &
povo, & naõ menor f r u to das almas. (...) para confusão dos mouros & gentios, que tem por
vitupério a Cruz do Redemptor.
Este nobilíssimo cortejo, & Catholica urbanidade interrupta por muiytos annos tornou a
renovar na índia a grãde Christandade » 68. É igualmente neste contexto de preferência da
transmissão de conceitos pelos sentidos e do uso da cultura popular, que se compreende o uso da
língua e da música vernacular para transmitir a fé cristã.
É na perspectiva de que os sentidos devem ser disciplinados através da contemplação do
maravilhoso que se deve compreender, também, o comportamento edificante de muitos
missionários jesuítas.
Se os missionários levam uma vida exemplar, porque a moral e a ética cristã assim o ditam,
esse comportamento edificante tem uma função pedagógica perante os que empiricamente o

Alguns milagres

01 - Cura repentina de sua perna
O primeiro sinal prodigioso (milagre) referente à pessoa de Francisco Xavier, descrito em suas biografias, aconteceu durante a longa peregrinação a pé de Paris na França até Veneza na Itália, passando pela Alemanha e Suiça, vestidos de longas batinas, levando cada um o seu bastão na mão, o breviário debaixo do braço e o rosário pendente exteriormente sobre o peito, com o fim mostrarem, nos países protestantes que tinham de atravessar, a sua dedicação à religião católica; levavam às costas pequenos malotes com alguns livros e manuscritos; esmolando pelo caminho. A guerra com Carlos V tornava impraticável uma grande parte da fronteira. Isso, entre 15 de novembro de 1536 a 08 de janeiro de 1537.
Aconteceu que, como mortificação, Xavier amarrou uma corda entre as pernas na altura da coxa e pôs a caminho. Xavier, que se considerava feliz por ver realizado aquilo que o seu zelo e fervor religioso tanto desejara, seguia corajosamente seus irmãos, havia já muitos dias, quando repentinamente lhes declarou, com a mais pungente tristeza, que não os podia acompanhar por que se não sentia com forças de prosseguir mais para diante:
- Porque motivo? perguntaram-lhe os outros imediatamente. Estais doente, não é assim?
- Sim... é verdade...
- E não há que duvidar, disse Fabro, que o conhecia mais de perto; o vosso semblante denuncia grandes sofrimentos. Que tendes?
- Tenho alguma febre... e conheço que não posso, andar mais... Continuai, meus amigos, a jornada sem mim... eu vos alcançarei em breve.
- Que vos deixemos aqui! que vos abandonemos! Por certo que não. Deve haver nesta aldeia, ou nas suas proximidades, um médico; recorreremos a ele para vos tratar e não vos deixaremos.
- À palavra médico, Francisco empalideceu e dirigindo ao seu amigo um olhar suplicante, disse-lhe:
- Oh! não, imploro-vos que me deixeis aqui e partais.
Fabro, porém, insistiu, e Xavier viu-se forçado a confessar toda a verdade àquele que possuía, há muito, toda a sua confiança. Eis o que ele veio a saber.
Que um dos maiores prazeres de Xavier, nos seus passados tempos de infância, eram as corridas e outros exercícios do corpo, nos quais se tornava notável e causava admiração, pela grande agilidade e graça dos seus movimentos. Era tão destro em todos os exercícios ginásticos, e executava-os com tal destreza e perfeição, e isto junto à sua natural elegância e notável beleza, produzia um tal entusiasmo nos espectadores, que o levaram a comprazer-se com aquele gênero de divertimento, orgulhando-se dos aplausos que recebia.
Esta vaidade foi amargamente lamentada por Francisco, desde que compreendera a ilusão dela, e no desejo de a expiar imaginou ligar fortemente as pernas, até acima dos joelhos, com rijos cordéis e por tal modo, que depois de alguns dias de jornada, lhe produziram tão grande inchação que encobria completamente as ligaduras já enterradas na carne. O jovem Santo sofrera até ali com a maior  resignação aquela tão dolorosa tortura, sem que nenhum dos seus irmãos e companheiros suspeitassem o suplício que sé impunha.
Fabro comunicou imediatamente aos seus companheiros esta triste descoberta; transportaram o querido doente até à aldeia mais próxima e chamaram um cirurgião que declarou desde logo ser a operação impraticável.
- Só Deus, disse ele, pode evitar os funestos resultados que devem sobrevir, tendo em atenção a causa porque o sacrifício foi feito. Tentar retirar as ligaduras, é expor o doente a morrer durante a operação.
Xavier, cheio de confiança na bondade infinita, e certo de que ela não permitiria que ele servisse de obstáculo à pronta partida dos seus irmãos, rogou-lhes que suplicassem a Deus esta prova da sua proteção à empresa encetada.
- O cirurgião tem razão, disse ele, é necessário pedir a Deus que me livre; Ele o fará, tenho nisso toda a confiança.
No mesmo instante todos se entregaram à oração; era quase noite. O doente dormiu e teve um sono tranqüilo; na manhã seguinte viu-se que as ligaduras tinham caído por si em pequenos fragmentos, a inchação havia desaparecido de todo, extinguira-se a inflamação, os cordéis não tinham deixado o menor vestígio sobre a pele, e Xavier sentia-se cheio de saúde.

Depois de fervorosas orações em ação de graças, puseram-se de novo a caminho. A passagem dos nossos peregrinos pela Alemanha não foi isenta de perigos. 


02 - Milagre no rio 
relato de Xavier numa carta a Inácio: "Na nossa travessia dos Alpes (~França), Deus manifestou milagrosamente a sua proteção para com um dos nossos companheiros de viagem...Uma larga corrente, de profundidade incerta, atravessava o nosso caminho; a sua temeridade levou-o a tentar o vau: fizemos-lhe todas as observações para o dissuadir daquele intento; mas tudo foi inútil; ele lança-se a cavalo através da corrente. Apenas dá alguns passos, eis que a impetuosidade das águas faz rolar, num abrir e fechar de olhos, cavalo e cavaleiro... Na margem ressoavam os nossos gritos.
Naquele momento, Deus foi sensível às orações e as lágrimas de Pedro de Mascarenhas e de toda a sua comitiva, pela vida daquele desgraçado que estava evidentemente perdido: por um milagre admirável, vimo-lo de repente sair dos abismos da morte".                        
Francisco Xavier tinha a convicção de que era devido às orações do embaixador e das pessoas da sua casa, o evidente milagre que restituíra a vida ao escudeiro; porém Pedro e os que o acompanhavam  não hesitaram um momento sequer em atribuí-lo ao Padre Francisco, que todos olhavam como um Santo.

03 - Milagre da montanha – Dá a vida pelo irmão - A neve ainda cobria uma grande parte das montanhas quando a caravana atravessou os Alpes. O secretário do embaixador apeara-se do cavalo numa passagem perigosa; mas a neve não permitia, à vista mais perspicaz, reconhecer o sítio em que se punha o pé, e cada um temia por si. Um grito desesperado se fez ouvir inesperadamente. O secretário havia desaparecido. Avança-se com precaução, e olha-se pela inclinação rápida dum imenso precipício... Os seus vestidos estavam embaraçados nas asperezas dum rochedo, estava suspenso sobre o abismo, o peso do seu corpo vai arrastá-lo, o fato vai rasgar-se pela ação do mesmo peso, e ele perecerá da mais horrível morte! Ninguém ousa socorrê-lo, o seu salvamento é impossível; quem o tentasse corria a uma perda certa...
Xavier lança-se por aquele horroroso precipício, sem escutar os gritos e as súplicas com que buscavam retê-lo. Desce com admirável facilidade até onde estava o secretário, toma-lhe a mão, puxa-o para si, e salvo o restitui ao embaixador, que, maravilhado, não pode crer o que seus olhos viam.

Os viajantes exclamam então a uma voz: "Milagre!" porque Xavier acabava de praticar uma coisa humanamente impossível; e é isto que explica o seu silêncio sobre este facto na sua carta à Companhia de Roma. Porém esta tão sublime modéstia não podia ficar ignorada; existiam muitas testemunhas, qual delas mais impressionada, de que Deus o havia recompensado por um milagre incontestável, cuja recordação não podia extinguir-se em nenhum deles.

04 - Saudação milagrosa ao irmão jesuíta (em Portugal) 
Entretanto chegava Francisco Xavier a Lisboa, e não obstante todas as instâncias de Pedro, foi pedir hospitalidade onde Simão Rodrigues a recebia, no hospital de Todos-os-Santos. O Padre Rodrigues, doente dumas febres intermitentes, esperava o acesso no momento em que o seu querido irmão Xavier se apresentou na sua presença: a alegria de o receber, e a natural virtude do nosso Santo foram mais eficazes que todos os remédios até então empregados: abraçando o seu santo amigo, o Padre Rodrigues sentiu-se curado e a febre não lhe voltou mais. Os dois amigos achavam-se separados desde longo tempo e por isso foi mútua a alegria de se tornarem a ver. 
Eis o que escreveu o Padre Francisco Xavier à Companhia de Jesus, em Roma;"... À nossa chegada a Lisboa, encontrei mestre Simão Rodrigues que esperava um acesso de febre quartã; mas desde o momento em que nos vimos e nos abraçámos, foi tal a alegria, que a febre lhe desapareceu, depois dum mês de sofrimento, e a sua saúde conserva-se perfeita.

05 - Predição em Portugal (1541)
Diz Xavier: "Meu querido Simão, eis as últimas palavras que vos vou dizer, porque não nos tornaremos a ver mais neste mundo. Soframos paciente e generosamente a dor amarga da nossa separação. Se nos conservarmos bem unidos a Deus, achar-nos-emos sempre ligados como o estamos hoje e nada haverá que possa romper a nossa união em Jesus Cristo! Para vos consolar, quero, ao deixar-vos, descobrir-vos um dos meus mais secretos pensamentos e a maior das alegrias da minha alma.
"Lembrar-vos-eis, de certo, que numa noite, no hospital de Roma, me ouvistes gritar: Ainda mais, Senhor! ainda mais! Muitas vezes me perguntastes e me pedistes vos explicasse o motivo daquela exaltação, e sempre respondi que preferia nada dizer. Ora pois! agora vo-lo direi, em memória da confiança e da amizade que depositou no vosso coração de irmão."
"Vi então, se em sonho ou acordado, Deus o sabe, tudo quanto devia sofrer pela glória de Jesus Cristo. Nosso Senhor deu-me naquele momento tamanha avidez pelos sofrimentos, que os que se me apresentavam me pareciam insignificantes e eu ardentemente desejava mais. Era esta exaltação da minha alma que me fazia gritar com transporte: Ainda mais! ainda mais! E espero que a divina bondade me concederá nas Índias o que me fez ver em Itália, e que os ardentes desejos que me inspirou ao coração serão imediatamente satisfeitos!"
Os dois irmãos (jesuitas) abraçaram-se em seguida e separaram-se derramando copiosas lágrimas, mas lágrimas suaves como eram os seus desgostos, doces e silenciosas como são as lágrimas dos Santos.
Francisco Xavier acabava de revelar toda a grandeza e toda a energia da sua alma na consolação que deixava ao seu amigo. Via-o pesaroso e aflito pela sua partida, pela idéia de o não tornar mais a ver nesta vida, 

06 - Predição em Moçambique:(1542) Navio que sumberge - 
Achava-se ainda mal restabelecido quando o vice-rei, cuja saúde sofria com a demora de residência numa atmosfera viciada por tantas moléstias epidêmicas, resolveu prosseguir a sua viagem, e não querendo deixar ali ficar o Padre Xavier, pediu-lhe que o acompanhasse.
Ia pois fazer-se de novo à vela a nau São Diogo, que era a capitânia e que o vice-rei comandara até ali. Na presença de Xavier ordenou ele que a armassem para a partida.
- Senhor, lhe disse o santo apóstolo - que começava desde então a manifestar as vistas proféticas de que foi tão abundantemente favorecido ao depois - senhor, não embarqueis naquele navio! é, sim, o mais belo e o mais forte de entre todos da vossa frota, mas ele se perderá!

O vice-rei tinha tal confiança na santidade do Santo Padre, que não hesitou em embarcar na Coulão, e a deixar a São Diogo que pouco depois se despedaçou contra um rochedo à vista da ilha de Salsete.

NA ÍNDIA -1542/44
07 - Milagre com a mulher de parto: sinal de conversão - 
DIZ XAVIER: "Encontrei nas minhas visitas um bairro inteiramente povoado de pagãos, que recusavam fazerem-se cristãos, como todos os seus vizinhos pela razão, diziam eles, de que o seu senhor lho havia defendido. Constou-me que entre eles estava uma pobre mulher que havia três dias lutava com os sofrimentos de um trabalhoso parto e que já ali se desesperava de a poderem salvar.
Aqueles desgraçados dirigiam orações ao Céu, mas o Céu não atende os rogos dos infiéis; invocavam todas as suas divindades mas os demônios também eram surdos aos seus gritos. Eu dirigi-me a casa daquela moribunda com um dos meus companheiros, e olvidando que estava em solo pagão, ou antes, lembrando-me, segundo a letra dos Livros Santos, que "a terra e tudo que ela encerra pertence ao Senhor", invoquei com confiança o santo nome de Deus. Por intermédio do meu intérprete, expus à doente os principais mistérios da nossa santa religião, e, com a divina graça em nosso auxílio, ela deu-nos grandes testemunhos de fé. Perguntei-lhe se desejava, se queria ser cristã; depois da sua resposta afirmativa, recitei o Evangelho que provavelmente nunca se lera naquele país, e baptizei-a...

Mas que aconteceu? Ela crera, ela esperara em Jesus Cristo!... Viu-se livre inesperadamente, durante as cerimônias! No mesmo momento, o pai e os outros filhos solicitaram tão insistentemente a graça do batismo que a todos administrei aquele sacramento e chamei assim para Jesus Cristo aquela numerosa família. A notícia desta milagrosa cura correu em um momento". 

08 - Cura ao leproso - Visitando o Santo uma aldeia da mesma Costa da Pescaria, encontrou um pobre Paravá coberto de úlceras, falto de tudo, inteiramente nu e sem forças já para suportai a vida. O coração de Xavier comove-se profundamente à vista de tamanha dor e miséria. Ajoelha-se junto do doente, e fala-lhe com a voz entrecortada pelas lágrimas; consola-o com uma ternura paternal; lava as suas chagas, das quais ninguém se atreveria a aproximar-se, tão repugnantes eram elas, e cedendo ao seu ardente desejo de mortificações e de sofrimentos, lembrando-se, além disto, da delicadeza da sua natureza, que outrora chegava ao excesso, bebe, uma parte da água que servira para lavar as chagas do índio!!!... Afasta-se em seguida do lado do doente, que acabava de abraçar com afecto e solícita caridade, e entrega-se à oração.
Alguns instantes depois, levanta-se e volta para junto do doente... O Paravá olha para si, examina os seus membros, palpa-os e abre os grandes olhos... Estava curado! Suas chagas estavam cicatrizadas, seu corpo estava inteiramente limpo e não parecia ter sofrido nunca!

09 - Ressurreição do catequista  
Antônio de Miranda era o catequista do nosso Santo, e por este título lhe era duplamente querido.
Uma noite, foi mordido por uma víbora que lhe causou a morte; o veneno desses répteis é mortal nas Índias. O Santa Padre é chamado; vai imediatamente, mas não vai ocupai-se dos seus funerais; precisa dele para a instrução dos índios, a glória de Deus e a salvação das almas carecem dos seus trabalhos
- "Antônio, diz-lhe o Santo, com voz forte e vibrante, em nome de Jesus Cristo, levantai-vos!"
E Antônio que morrera na noite precedente, levantou-se cheio de vida. As manchas do veneno que o matara desaparecem no mesmo instante. A multidão, presente aquele prodígio, solta gritos de alegria e de admiração ; lança-se aos pés do Santo Padre, chama-o o grande Deus, e ele vê-se obrigado a explicar-lhe que não é mais que o instrumento do grande Deus que reina nos Céus e que o enviou às Índias para se fazei conhecer, fazer-se amar, fazer-se servir por todos que o ouvem, e para bem doutros ainda, aos quais espera levar o seu nome.

10 - Mais 03 ressurreições: 
sinal de conversão - Em uma outra aldeia morreu uma menina dumas febres violentas e perniciosas do país; a família desesperada, apela para o santo Padre; ele corre e ressuscita a morta, em presença dum imenso número de pagãos, que crêem imediatamente no Deus de Xavier e solicitam a graça do batismo.
Igual prodígio se repete para com um rapaz que perecera da mesma doença, e do mesmo modo numerosas conversões coroam este milagre.
Duma outra povoação vieram pedir ao Santo para que acudisse a dar a vida a uma criança. Na véspera caixa aquele pobre inocente em um poço, donde o tiraram morto; porém o Deus do santo Padre ressuscitara outros e pode também ressuscitar este. Os pagãos ali estão, esperando e não querendo acreditar nos prodígios que tantos outros viram e de que procuravam convencê-los.
Francisco Xavier não os faz esperar; chega com o mensageiro, e vendo que a criança está moita, ora por alguns instantes a poucos passos do cadáver; depois levantando-se, ordena à morte que deixe o menino, e à vida que se aposse dele, e a morte e a vida obedecem à ordem de Xavier invocada em nome de Jesus Cristo
Os pagãos não chamavam dali em diante o Santo apóstolo, senão o grande Deus da natureza. 

11- Cura com o batismo
Na Índia, quando chegou a uma aldeia pagã, informado que uma mulher estava quase morta, Xavier foi a sua cabana. Um dos jovens que ele trouxe de Goa, conversou com a mulher e ensinou-lhe os princípios da religião em seu idioma. Xavier a batizou e ela ficou curada instantaneamente. Toda a família que estava presente se converteu. A notícia espalhou ligeiro. O rei, diante daquela realidade, autorizou que se tornassem cristãos todos que espontaneamente desejassem.

12 - Dom das línguas - (Índia 1543?)
Quando Francisco Xavier, acompanhado somente de Vaz Fernandes, entrou nas terras do reino de Travancor, a população correu a cercá-lo... não para o massacrar, como haviam receado os cristãos, mas sim para o ver e ouvir...
A língua daqueles povos não tem semelhança nenhuma com a dos países já percorridos pelo nosso Santo; é uma língua inteiramente nova para ele, e contudo fala de Deus àquele povo que o cerca e o povo compreende-o, bate as palmas e aplaude as verdades que ouve!... E Xavier também compreende o que aquela gente lhe diz, e estabelecem-se desde logo entre eles relações de afecto e longa discussão que maravilha a todos!
Xavier fala aquela língua bárbara e pronuncia-a como um natural de Travancor! Exprime-se com a mesma facilidade como se falasse o português ou o francês!... Era porque o ilustre apóstolo estava sendo "guiado pelo Espírito Santo" como predissera, cinquenta anos antes, o santo mártir Pedro da Covilhã, e o Espírito Santo o favorecia com todos os seus dons, como prova incontestável da sua presença.
Até aqui tínhamos visto Francisco Xavier profetizar e operar admiráveis milagres; porém vemo-lo possuindo agora o dom das línguas. Para toda a parte para onde vá daqui em diante, os povos o compreenderão e ele também os compreenderá; e no seu entender, o compreendê-los e ser compreendido, era o mesmo que ter já feito uma conquista para Jesus Cristo e para a sua Igreja. 

13 - Impede a guerra impondo o Crucifixo
Guerra aos cristãos: “a nossa arma é o crucifixo” - Neste meio tempo os Badegás, contra os quais as medidas do rei de Tranvancor haviam sido improfícuas, fizeram uma nova invasão à Costa e atacaram precisamente os pescadores de Travancor, do lado do Cabo Comorim. Desta vez era um exército sob o comando do naire de Madurá, capitão de conhecida experiência; ruão se tratava, pois, duma surpresa, mas sim duma guerra aberta e declarada.
O rei de Travancor reuniu as suas tropas, pô-las também em pé de guerra e marchou contra o inimigo. Anuncia-se a Xavier esta aflitiva notícia. O apóstolo cai de joelhos, e prostrando a fronte no pó, exclama:
"Senhor! lembrai-vos que sois o Deus das Misericórdias infinitas, o protetor de vossos fiéis cristãos! não abandoneis, pois, à raiva daqueles lobos devoradores o rebanho de que me fizestes pastor! Que os novos cristãos, tão fracos ainda na fé, não se arrependam de a ter abraçado! Que os infiéis não tenham a superioridade de oprimir aqueles que depositam as suas esperanças somente em Vós!"
Depois desta oração, ergueu-se cheio de força, de coragem e de resolução; seu semblante parecia refletir um raio divino:
"Segui-me! disse ele aos cristãos que o cercavam naquele momento; segui-me! Deus é por nós!"
E tomando o seu crucifixo, partiu à testa dos seus cristãos, como o conquistador marcha em busca da vitória. Chegado à planície, pela qual vinham os inimigos formados em linha de batalha, Xavier avançou até ao alcance da voz, ali se deteve, elevou o seu crucifixo, e em tom dum soberano. que fala aos rebeldes, disse:
- Suspendei! Em nome do Deus vivo proíbo-vos que avanceis um só passo mais! e, em seu lugar, vos ordeno que retireis imediatamente!
Os inimigos, fulminados por aquelas palavras, não se atrevem a avançar nem podem retirar-se...
- Que vem a ser isto? Gritavam os que estavam na retaguarda. Para diante!
- Não podemos avançar um só passo, respondem os da primeira linha; temos diante de nós um gigante vestido de negro, e que lança pelos olhos flechas de fogo!...
Parecia inacreditável o que ouviam, e por isso alguns de entre os mais intrépidos avançam e vão tomar a vanguarda das tropas... Porém o gigante formidável aparece-lhes ameaçador e terrível!
Eis que se resolvem a fugir, e se precipitam uns sobre os outros, despedindo gritos de raiva e de terror; a confusão e a debandada torna-se horrorosa e eles atropelam-se e despedaçam-se; a voz do chefe não é ouvida, e cada um cuida da sua segurança e salvação pessoal, acrescendo que não podem efetuar a fuga senão através de mil dificuldades. Os neófitos (recém batizados), satisfeitos por seu lado, correm a anunciar e a propalar este maravilhoso acontecimento por todas as aldeias vizinhas; a noticia chega ao longe, e o rei de Travancor, que chegava, logo depois, à frente dos seus para combater os Badegás, exclama que quer ver o grande homem que acaba de operar aquele prodígio. 

14 - Ressurreição (no Sri Lanka) ~1544
Em Coulão, próximo do Comorim, encontrou maior resistência; pregava já por espaço de alguns dias, sem ver cair a seus pés senão um pequeno número de idólatras.
Xavier não estava habituado a ver que a palavra de Deus obtivesse tão poucos frutos; sua alma contrista-se.
Um dia; cercado de pagãos que o ouviam com indiferença, o seu semblante parece inflamar-se repentinamente, sua vista fixa-se no céu e exclamou derramando copiosas lágrimas de dor: "Senhor! todos os corações são vossos! Podeis, se quiserdes, aplacar os mais obstinados, enternecer os mais duros! Dai hoje esta glória ao sangue de Jesus Cristo, ao nome do vosso divino Filho!"
E voltando-se para os seus ouvintes, diz:
- Ora bem! Não acreditais na minha palavra? Crede então no que pode ser acreditável! Que provas de verdade quereis vós que vos apresente?
Naquele momento, lembra-se que na véspera um homem fora enterrado nas proximidades do sítio em que estava a falar:
- Abri, disse ele, aquela sepultura que fechastes ontem: tirai dali o corpo, mas certificai-vos primeiro se ele está realmente morto!
Os índios dirigem-se logo em grande número à sepultura que haviam encerrado na véspera, e tiram dali o cadáver:
- Grande Padre, ele cheira já muito mal; não há dúvida que está morto, dizem eles ao Santo que se tinha aproximado do grupo.
- Colocai-o além.
Depositaram o corpo no chão, aos pés do apóstolo, que ajoelhou por um momento, e depois levantando-se cheio de segurança, dirigiu-se ao cadáver:
- Em nome do Deus vivo, te ordeno que te levantes para provar as verdades que prego!
No mesmo instante o morto levanta-se, cheio de vida, cheio de saúde, cheio de vigor, e a multidão bate palmas, chora, tripudia, lança-se aos pés de Xavier e pede o batismo, gritando e exclamando que o único e verdadeiro Deus é o do grande Padre.

15 - ressurreição de um Jovem em Mutan na India-
Morrera na mesma Costa, em Mutan, na antevéspera, um jovem cristão. Conduziam-no para o túmulo que lhe era destinado, acompanhado dum numeroso séquito de parentes e amigos, porque o falecido pertencia a uma das mais consideradas famílias da cidade.
Xavier encontra o préstito, e comove-se da dor profunda do pai e da mãe, que acompanhavam também os tristes e últimos restos do filho; olha para eles com terna compaixão e os desconsolados pais sentem, naquele momento, passar ante si um raio de esperança. Lançam-se aos pés do Santo e abraçando os seus joelhos, dizem-lhe:
- Grande Padre! restituí-nos nosso filho! Se dirigirdes uma palavra de oração a Deus, ele o ressuscitará! Grande Padre! uma só palavra de oração!
Xavier, enternecido por uma tão grande dor, renova o milagre operado outrora pelo Salvador do mundo, para com a viúva de Naim. Toma água benta, faz um sinal da cruz, asperge o morto e tomando-o pela mão ordena-lhe que, em nome de Deus, se levante, e o rapaz ergue-se, e Xavier entrega-o à sua ditosa família!
No mesmo lugar onde ele foi ressuscitado fez a sua família erigir uma magnífica cruz, e ali vinha, de muito longe, orar e agradecer a Deus um tal milagre. Todo o reino de Travancor quis ver e conhecer de perto o grande Padre, e todos que o vissem prostravam-se a seus pés pedindo o batismo.
Poucos meses foram bastantes para que o ilustre apóstolo conquistasse para Jesus Cristo toda aquela extensão do país.

16 - Predição em Cranganor do jovem pecador para religioso 
Xavier tomou a estrada de Cochim, e tendo de demorar-se em Cranganor, hospedou-se em casa dum cristão cujo filho vivia numa deplorável devassidão.
O infeliz pai testemunhou ao Santo tão viva dor pela inutilidade das suas observações e dos seus conselhos no espírito do jovem, que Xavier, empregou as mais amáveis expressões para o consolar, e suspendendo-se por um instante, recolheu-se como arrebatado por uma iluminação súbita; depois, com o acento da inspiração e da certeza, disse ao desventurado pai:
- Vós sois o mais feliz dos pais! Agradecei a Deus, meu amigo, porque este filho, que para vós é hoje um objecto de tão amarga dor, se converterá, será religioso da Ordem de S. Francisco e terá a glória de morrer mártir!
Esta predição cumpriu-se literalmente. O jovem pecador converteu-se, entrou na Ordem de S. Francisco, foi mandado para o reino de Candia para evangelizar os bárbaros daqueles países e teve a felicidade de ali morrer mártir.

17 - Predição sobre a condição da navegação  
De volta a Cochim, encontrou ali, o nosso Santo, Cosme Anes que ele havia recomendado ao rei e por quem tinha particular afeição. Em uma das suas conversações, perguntou-lhe Xavier se o ano era bom para os negociantes portugueses.
- Excelente, meu santo Padre, lhe respondeu ele, não pode ser melhor. Em muito poucos meses expedimos para a Europa sete carregações magníficas! Eu envio ao rei um diamante dos mais raros, que não custou menos de dez mil ducados em Goa, e que valerá trinta mil em Lisboa!
- Qual é o navio que leva esse diamante?
- É o Atouguia, meu Padre. Confiei-o ao capitão João de Noronha.
- Eu sentiria grande pesar se tivesse remetido aquele diamante, tão precioso, por esse navio...
- Então por que, meu Padre? Por que o Atouguia fez água uma vez? Mas ele está completamente restaurado, e vós o suporíeis novo se o vísseis hoje.
O Santo guardou silêncio. Anes, persuadido de que ele tivesse conhecimento da sorte desta importante embarcação, acrescentou:
- Meu Padre, o vosso silêncio faz-me recear pelo Atouguia. Recomendai-o a Deus, porque se ele se perde vou sofrer um considerável prejuízo. Eu não tinha autorização para comprar aquele diamante; se ele se perde, perco eu o seu preço e outras despesas que tive de fazer.
- Farei o que desejais, meu amigo, respondeu simplesmente Xavier.
Algum tempo depois, jantando o- nosso Santo com Cosme Anes, lhe disse:
- Rendei mil graças a Deus, meu amigo; o vosso belo diamante está já em poder da rainha de Portugal.
Mais tarde, recebia Anes uma carta do capitão do Atouguia; ele mandava-lhe dizer que poucos dias antes de chegarem a descobrir as costas de Portugal, se abrira uma veia de água por baixo do mastro grande; o rombo era tão considerável, era tão iminente o perigo para toda a equipagem, que se falava já em abandonar o barco e lançarem-se ao mar. Cortara-se o mastro grande, receava-se que o navio sossobrasse antes de se poder salvar a maioria dos passageiros que queriam lançar-se todos por uma vez às embarcações...
Mas eis que repentinamente a água desaparece! Que prodígio seria este! A abertura é tão grande! Como se operou isto?!... Examina-se a parte aberta e ela estava de todo fechada por si mesma... e o Atouguia, não tendo mais que duas velas, navegava admiravelmente e podia desafiar o melhor navio da armada real! Chegou em muito bom estado ao porto de Lisboa e não parecia ter sofrido; nenhuma avaria se dera também na sua rica carregação.

18 - Ressurreição de uma criança
meio mais rápido para conversão de família muçumana - O Padre Xavier deixara Cochim para ir reunir-se armada portuguesa em Nagapatão, em um navio que tocava a ilha da Vaca; desembarcou ali e percorreu o interior da ilha. Encontrou uma família chorando inconsolável a morte duma criança cujos tristes despojos iam ser entregues à terra.
Aquela dor comoveu o nosso Santo; ele consola a família banhada em lágrimas, sabe que é muçulmana e ordena à criança morta que ressuscite em nome de Jesus Cristo Filho de Deus; a criança ressuscita àquele nome.

O apóstolo não tem tempo de instruir aquele povo; porém deixando-lhe a lembrança do prodígio, espera pelo futuro e volta ao mar implorando a misericórdia infinita para aquele povo, que não tivera tempo de evangelizar.

19 - Fim da Epidemia em Manapar (sul da Índia)
Toda a ilha estava infestada pela peste. Quando viram chegar o grande Padre, que tanto amavam já sem o conhecerem, os consternados Manarenses recuperam a coragem, convencidos de que o bom Padre não os deixará sem os ter livrado do horroroso flagelo. Expedem emissários para todas as aldeias vizinhas com o fim de anunciar a chegada do grande Padre dos Paravás, e imediatamente todos os válidos, que excediam ao número de três mil, correm a cercar Francisco Xavier.
- Grande Padre! exclamam eles, livrai-nos da peste! Grande Padre, tudo morre aqui! Contam-se mais de cem mortos por dia! Grande Padre, livrai-nos
- A vossa dor corta-me o coração, meus queridos Manarenses, respondeu-lhes Xavier! Sim, eu vou pedir a Deus, que é o Todo-Poderoso, e cuja bondade e misericórdia são infinitas, que vos livre deste flagelo pelos merecimentos de Jesus Cristo seu Filho, e pelos dos mártires de Manar que vão também orar por vós., Esperai! Eu vos peço que espereis somente três dias. Orai também, orai ao Deus das misericórdias infinitas que tenha piedade de vós, e tende confiança.
Ao terceiro dia a peste cessou, todos os doentes se viram instantaneamente curados e à mesma hora. Tudo quanto restava de pagãos na ilha de Manar pediu o batismo 

20 - Predição do massacre no Ceilão
quando tornou a embarcar para voltar a Travancor e passando em frente da ilha de Ceilão, lançou sobre ela um triste olhar.
"Ah! desgraçada ilha, disse ele, vejo-te coberta de cadáveres! Rios de sangue te banham por todos os lados"!

Algum tempo depois, Constantino de Bragança, e depois dele Furtado de Mendonça, faziam passar a fio de espada todos os habitantes da ilha, e o tirano que reinava em Jafanapatão e seu filho foram desapiedadamente massacrados. 

21 - Predição da tempestade (sul da Índia, 1545)  
Na sua chegada a Nagapatão, encontrou Miguel Ferreira que acabava de fretar o seu navio, e que se achava prestes a partir para (São Tomé de) Meliapor. Xavier aproveita esta circunstância e embarca com  ele a 29 de Março, domingo de Ramos, com o fim de ir implorar as luzes divinas junto do túmulo de S. Tomé.
Somente no Sábado Santo, a pedido de Diogo Madeira, concordou em beber um pouco de água, na qual pediu que se fizesse cozer uma cebola. Este facto foi atestado por todo os passageiros.
Em 5 de Abril, tornando-se melhor o tempo, puderam levantar âncora e voltar ao mar.
E Xavier exclama: - Capitão, o vosso navio é bastante forte para resistir a uma violenta tempestade?
Ele responde: - Oh! não, santo Padre; é, ao contrário, um velho barco; porém eu não o exponho nunca quando o tempo não está seguro.
- É necessário, pois, tornar a ganhar o porto, senhor.
- Oh! Padre Francisco! como, pois, tendes vós medo com um tempo assim? Eu iria a Meliapor em uma cascazinha de noz com um vento como este. E Xavier avisa:
- Não vos confieis nisso, capitão, poderíeis enganar-vos!
- Meu Padre, olhai para este belo céu, nunca vi melhor tempo para o mar, eu conheço-o; a mais frágil barca estaria em segurança com este vento. Nada temais, Padre Francisco! Confiai em mim, que sou um velho homem do mar. Vós chegareis a salvamento.
Xavier não insistiu mais; além disto os passageiros recusavam voltar ao ancoradouro que haviam deixado. Mas no mesmo instante o mar mostra-se agitado; um ponto negro se apresenta no horizonte; avança e sobe ràpidamente, e o navio, jogando em todos os sentidos, ameaça sossobrar, quando uma violenta rajada de vento, retrocedendo-o com uma força prodigiosa , o lança precisamente no porto de Nagapatão, de onde haviam partido.
Imagine-se o pesar do capitão e da equipagem, ao recordarem-se que nenhum de entre eles atendera as advertências do santo Padre. 

22 - Milagre do rosário de Xavier no mar 
Os prodígios acompanhavam por toda a parte o grande Xavier. Bento Cabral, mercador português em Meliapor, achando-se de partida para Malaca, foi pedir-lhe a sua bênção e suplicar-lhe que lhe desse em lembrança um objecto qualquer que ele pudesse conservar.
- Eu nada tenho, respondeu-lhe o humilde Santo; não vos posso dar mais que este rosário, que vos será útil, se tendes confiança em Maria.
Bento embarcou e o seu navio quebrou-se contra um rochedo; todos os passageiros e a maior parte dos marinheiros desapareceram submergidos, e os outros salvaram-se sobre uma rocha à flor da água; o mercador está entre eles com o seu rosário na mão. Eles reúnem algumas pranchas, restos do navio quebrado, e lançam-se nelas à mercê da Providência!
O nosso mercador não largava o seu rosário; invoca a Estrela do Mar, oferece os, méritos do santo Padre Xavier e perde o sentimento e o conhecimento da sua situação. Não supõe que se acha no mar, supõe-se em Meliapor junto do santo Padre, julga estar a falar-lhe e a ouvi-lo... E eis que de repente torna a si... Vê-se em terra, sobre uma costa que lhe parece desconhecida e cujo nome pergunta aos estranhos que o cercam, porque os marinheiros, seus companheiros de infortúnio, não estão a seu lado. Respondem-lhe que está 'em Nagapatão, e ele publica, com todo o entusiasmo do seu elevado reconhecimento, a maneira milagrosa como foi salvo das ondas.

23 - Milagre da moeda de oiro 
O navio de Jerónimo Fernandes de Mendonça fazia toda a sua fortuna, e aquele navio foi aprisionado pelos corsários do Malabar em frente do cabo Comorim. Jerónimo, para salvar a sua vida, lança-se ao mar, ganha, a nado, a costa de Meliapor e ali encontra o santo Padre a quem expõe a sua cruel situação.
- Se eu pudesse lastimar-me por ser pobre, respondeu-lhe o caritativo apóstolo, lastimá-lo-ia neste momento! Mas tende coragem, meu caro amigo! A divina Providência não vos abandonará, ela virá em vosso auxílio.
Dizendo isto, o Padre Xavier revolvia a sua algibeira, e como penalisado de nada achar nela, dirigiu um olhar suplicante para o Céu e afastou-se alguns passos orando. Torna a meter a mão na algibeira, e voltando-se para Jerónimo, diz-lhe:
- Caro senhor, tomai isto, o Céu vo-lo envia, aceitai, mas não digais nada a ninguém!

E dava-lhe cinquenta ducados de oiro. Jerónimo Fernandes, ébrio de alegria, por ter com que restabelecer os seus negócios e por ser devedor daquela fortuna a um milagre da Providência, empenhou-se em o fazer publicar, não obstante a oposição do santo Padre. Deus quis que o prodígio não pudesse ser contestado, porque aquelas peças de oiro foram reconhecidas como de uma matéria mais pura e de maior valor que a de todas as moedas em circulação nas Índias. 

EM MALACA (Malásia) 1545
Em parte alguma operara Xavier tantas milagres como em Malaca; parecia que o poder divino se tornara seu, pois que tanto se comprazia Deus em conceder tudo às suas orações.

24 - Cura a todos os doentes que lhe procura - Um dia, Francisco Xavier toma a mão dum pobre doente, prodigalizando-lhe as consolações que o seu coração sabia achar para todas as dores... e eis que o doente se vê curado no mesmo instante! Isto foi bastante; a notícia propagou-se imediatamente, dizendo-se que bastava só tocar-se nas mãos benditas do santo Padre para ficarem curadas as doenças mais rebeldes.
Desde então, todos que sofriam  procuravam chegar-se ao Padre Xavier e tocar ao menos na ponta da sua batina os doentes que conseguiam esta felicidade voltavam curados. Bem depressa ele se viu cercado em todas as ruas por onde passava; levavam os doentes para junto dele, pediam-lhe que parasse, que os tocasse, que os abençoasse, e o coração do apóstolo, não podendo resistir àqueles lamentos de dor e de esperança, tocava os doentes invocando o doce nome de Jesus, e os doentes eram curados. Suplicavam-lhe que entrasse nas casas dos doentes impossibilitados de sair; ele entrava neles, ordenava aos enfermos que se levantassem em nome de Jesus, e os enfermos levantavam-se àquele nome.

25 - Expulsa demônios  
Antônio Fernandes, jovem de quinze anos, achava-se perigosamente doente, e sua mãe, desconsolada pelos maus resultados da ciência, vai consultar uma célebre feiticeira, apesar de ser cristã; havia sido pagã e sucumbia à tentação que a perseguia de recorrer ao seu antigo oráculo.
A feiticeira Naí leva ao jovem doente um cordão com o qual liga o seu braço e retira-se. Pouco depois, o jovem perdia a fala e lutava em horrorosas convulsões; os médicos, que foram chamados, declaram que ele não resistirá àquela crise. Uma amiga de Joana Fernandes diz-lhe então:
- Se chamásseis o santo Padre, ele curaria o vosso filho, tenho a certeza disso.
- Que lhe supliquem, pois, que venha! exclamou a infeliz mãe em soluços.
E o santo Padre correu imediatamente; mas o doente fez ouvir gritos de raiva à sua aproximação, e as suas convulsões redobraram. Xavier, oprimido pelo pensamento de que Deus permitira que o demônio se apossasse do jovem em que se haviam empregado meios culpáveis, pôs-se de joelhos, fez em alta voz a leitura da Paixão de Nosso Senhor, lançou água benta sobre o doente, e as convulsões e os gritos cessaram.
- Dai de comer a vosso filho, disse ele à mãe; amanhã celebrarei missa por ele e logo que esteja em estado de andar o levareis à missa por nove dias consecutivos, à igreja de Nossa Senhora do Monte.
Depois desta recomendação, o Santo desapareceu, e na manhã seguinte, enquanto oferecia o santo sacrifício, Antônio levantava-se cheio de saúde. Esta cura produziu alvoroço em Malaca pelas circunstâncias que a haviam precedido...

26 - Ressurreição de uma jovem filha única  
...e ocupavam-se ainda dela, quando se soube que uma mãe, no desespero de ver morrer a sua única filha, corria por todos os lados à procura do santo Padre, que se dizia ausente. Ele estava efetivamente ausente e a criança morreu deixando a mãe louca de dor, e perguntando todos os dias pela volta do santo Padre. Finalmente soube da sua chegada; corre ao hospital, põe-se de joelhos aos pés de Xavier e diz-lhe, como outrora a irmã de Lázaro a Nosso Senhor:
- Meu Padre! se vós tivésseis estado aqui, minha filha, minha única filha, não morreria! Eu vos suplico, meu santo Padre, restituí-ma! Se vós quiserdes invocar tão somente o nome de Jesus, ela ressuscitará! Eu vos suplico, meu Padre, fazei-o!
A alma do nosso Santo regozija-se pela sinceridade daquela fé; o seu coração comove-se por uma tão grande dor; eleva os olhos para o céu, invoca o santo nome de Jesus, e diz àquela desconsolada mãe:
- Ide, feliz mãe, vossa filha está viva.
- Mas, meu Padre, há já três dias que ela está sepultada!
- Não importa; ide, fazei abrir a sepultura e aí a achareis viva.
A mãe corre à igreja, faz levantar a pedra que cobre o corpo de sua querida filha e encontra-a cheia de vida e de saúde. As testemunhas deste facto eram numerosas; todos o atestaram sob juramento.
Tão grandes milagres converteram um grande número de judeus e maometanos; ninguém resistia à vista daqueles prodígios constantemente renovados

27 - Visão profética durante a oração (Malaca, 1545) 
Até então, Francisco Xavier evangelizava Malaca, havia três meses, com o mais feliz resultado, e dispunha-se a levar a fé às Molucas, quando um dia, durante a sua oração, Deus lhe fez conhecer que a cidade que ele acabava de reformar à custa de tantos trabalhos e na qual havia operado tantos milagres, não tardaria a abismar-se em novas desordens, e que em punição dos seus crimes seria assolada por uma guerra de muitos anos e dizimada por uma peste horrorosa.
Penetrado de doloroso sentimento, transmitiu o santo Padre as ameaças divinas à população, que pressurosa o cercava no momento da sua partida.
Exortou-os, vertendo lágrimas, a que vivessem sempre como bons cristãos, a fim de evitar a punição que a justiça de Deus reservava à sua recaída no pecado...

Mas no ano imediato, na ausência de Xavier, cada um se deixou arrastar pelo amor dos prazeres, as práticas santas foram insensivelmente abandonadas, resvalou-se por aquele rápido precipício, e viram-se submergidos num abismo de vícios sobre os quais caíram todos os castigos que o grande apóstolo havia predito. 

28 - Dom das Línguas (pentecostes) - viagem para Molucas, 1546
FRANCISCO XAVIER embarcou (de malaca) ao primeiro de janeiro de 1546, com João de Eiro, em um navio português que fazia vela para Banda, mas que devia deixá-los em Ambóino.
Todos os passageiros eram índios, os marinheiros eram-no também, e uns e outros, maometanos ou pagãos, pertenciam a diversas raças, cujas línguas diferiam por tal modo que não se entendiam senão com os da sua própria tribo.
Em poucos dias o Padre Xavier viu-se tão estimado, tão procurado de todos, que julgou oportuno o momento de dar a Deus todas aquelas almas,, cujo único senhor havia sido até ali o inferno, e sem se inquietar com a diversidade das línguas, começou a falar das verdades cristãs aos que o cercavam. Viu-se então operado um maravilhoso prodígio, desconhecido desde a origem da Igreja Cristã!... Xavier é compreendido de todos ao mesmo tempo, como se falasse a língua materna de cada um; todos se vêem surpreendidos do mesmo assombro, todos experimentam a mesma admiração, o mesmo respeito pelo apóstolo que desde logo lhes havia inspirado tão agradáveis e benéficos sentimentos.

Nenhum de entre eles pensava em recuar diante duma religião que opera tais maravilhas; todos solicitam a graça do batismo, todos se mostram ávidos pela santa palavra de Xavier, todos se fazem cristãos pelo ministério, mil vezes abençoado, do apóstolo tão querido de todos. 

29 - Visão profética na viagem para Molucas em 1546
Perigos no mar e confiança de Francisco - Depois de seis semanas de navegação, o capitão, não descobrindo as costas de Ambóino, julgou ter-se enganado na direção; o piloto, partilhando aquele receio, disse-lhe um dia:
- Capitão, eu creio que nós temos seguido uma rota falsa; pelos nossos cálculos de ontem, deveríamos ter hoje Ambóino à vista...
- Estai tranqüilos, disse o Padre Xavier; nós estamos no golfo, e descobrireis Ambóino amanhã antes do nascer do sol.
E efetivamente ria manhã seguinte, desde a aurora, descobriam-se as costas de Ambóino. Como o navio não devia ancorar senão em Banda, Xavier e João de Eiro, passaram para uma canoa com alguns outros passageiros, e a embarcação continuou a , sua viagem.
Quando a canoa ia a atracar, foi descoberta e perseguida pelos piratas costeiros; o navio, já muito longe, não a podia socorrer, ia ser presa, as fustas [Pequenos barcos indianos.] aproximavam-se, era necessário e urgente tornar a ganhar o alto mar à força de remos, não obstante o perigo que corria uma tão frágil embarcação, cuja carga devia acelerar a sua perda... Mas aquele frágil esquife levava o grande apóstolo e não podia perder-se.
- "Vamos, agora podeis ganhar o porto, disse Xavier aos remeiros; os corsários perderam-nos já de vista e retiraram-se. O perigo está passado e nós aportaremos sem novidade".

De fato, chegaram, pouco depois, impelidos pelo melhor vento, a 16 de Fevereiro de 1546. 


30 - Milagre do Crucifixo trazido pelo Caranguejo - Ilha de Baranura, 1546 
Acompanhado de João Ragoso e Fausto Rodrigues, deixando João de Eiro na direção dos cristãos de Ambóino, dirigiram-se numa ligeira embarcação para Baranura. Bem depressa se declarou uma tempestade tal que os próprios marinheiros ficam aterrados; já se julgavam perdidos. Gritavam pela ajuda de Deus.
Francisco Xavier toma o seu crucifixo, inclina-se sobre a borda do barco para mergulhá-lo naquele mar em fúria... e o crucifixo escapa-lhe da mão! Na mesma hora o as águas se acalmaram.   O Santo apóstolo mostra-se em extremo consternado por aquela perda, chora aquele tesouro, que havia operado tantos prodígios, tesouro que o consolara tantas vezes nas amarguras do seu laborioso e penoso apostolado.
Ragoso e Rodrigues tomam viva parte naquela dor do seu Santo amigo, pesarosos ainda mais por não terem meio algum de substituírem, ao menos materialmente, o precioso objecto que as ondas lhe arrebataram.
Na manhã seguinte aportaram à ilha de Baranura. Decorrera já mais de vinte e quatro horas que o crucifixo caíra ao mar. O Padre Xavier, acompanhado de Rodrigues, dirigia-se para o bairro de Tálamo, seguindo pelo litoral, quando, depois de terem caminhado uns quinhentos passos, aproximamente, viram sair do mar e vir para eles um caranguejo trazendo entre as suas garras, que trazia levantadas, o crucifixo de Francisco Xavier! O caranguejo vai direito ao Santo apóstolo e pára junto dele. Xavier ajoelha-se, prostra o rosto no chão, toma o seu amado crucifixo que lhe será dali em diante muito mais precioso, beija-o com todo o amor e reconhecimento de que está cheio o seu coração, e o caranguejo, voltando sobre os seus passos, desapareceu nas ondas.

Fausto Rodrigues, testemunha deste milagre, acrescenta, na sua narração, que o Padre Xavier, depois de, ter beijado muitas vezes o seu maravilhoso crucifixo, conservou-se por meia hora em oração, com as mãos cruzadas sobre o peito, agradecendo à divina Bondade um tão admirável prodígio.

Rodrigues agradecia também, pela sua parte, por lhe ter sido permitido presenciar aquela sublime maravilha, de que ele deu testemunho sob a fé de juramento, e que menciona a bula da canonização. 
 Na arte, sua imagem é associada a um caranguejo e um crucifixo, símbolo relacionado com este grande milagre.  São Francisco Xavier nunca disse uma palavra sobre o acontecido

31 - Milagre da chuva em Ulata (Ilhas Molucas) 
De Rosalau, passou Xavier a Ulata. Toda aquela ilha estava nessa ocasião envolvida em guerra; o inimigo interceptara os víveres, o rei, cercado por todos os lados, achava-se a ponto de se render. Faltava absolutamente a água e não havendo esperanças de chuva, era necessário depor as armas ou deixar morrer de sede homens e cavalos.
Xavier, cheio de confiança, pede para ser conduzido à presença do rei, oferecendo-se a procurar-lhe água que restituísse ao seu exército a força e a vida prestes a extinguir-se.
O rei recebeu-o com a maior satisfação:
- "Eu venho, disse-lhe o nosso Santo, anunciar-lhes o Deus que é o Senhor Supremo da natureza, que pode à sua vontade abrir as fontes do céu e fazer cair a chuva sobre a terra. Permiti que eu eleve aqui uma cruz, tende confiança no Deus que eu prego, e prometei-me reconhecer o seu nome e submeter-vos à sua lei, se ele vos conceder a chuva que eu vou pedir para vós".
O rei teria prometido tudo naquele momento; deu a sua palavra e permitiu a colocação da cruz.
Xavier fê-la levantar no ponto culminante da mais alta montanha, e, em meio da multidão que aquele espetáculo havia atraído, implora em alta voz as misericórdias celestes pelos merecimentos do Salvador crucificado, e solicita um pouco de água para a salvação daquelas almas por quem Jesus Cristo deu todo o seu sangue.
E eis que o céu se cobre de nuvens e uma chuva abundante cai durante três dias sobre aquele povo atribulado!
Os inimigos levantam o cerco, cessa a chuva, a palavra abençoada do ilustre apóstolo é compreendida e fortificada, e a ilha toda, arrancada do inferno, se submete à lei evangélica, outorgada pela Igreja de Jesus Cristo.
Iguais resultados coroam as suas pregações em todas as ilhas circunvizinhas.

32 - Predição do naufrágio (ilhas Molucas)
Fúria do mar na viajem para Tenarte: O Infatigável Xavier volta a Ambóino, donde embarca para Ternate. Partiu em um barco índio, chamado Carácora que ia de reserva de outro navio pertencente a João Galvão, mercador português, e cujo precioso carregamento fazia toda a sua fortuna. Logo que entraram no golfo, de noventa léguas de extensão e perigoso em todo o tempo, os dois navios foram separados pela tempestade; o que levava o "vaso de eleição" salvou-se dos grandes perigos e aportou em Ternate, o de Galvão perdeu-se de vista.
Desde a sua chegada, Francisco Xavier fez ouvir a sua poderosa voz e atraiu a si um grande número de indivíduos que crescia todos os dias. No domingo imediato, detém-se no meio da sua instrução, parece recolher-se, e depois diz aos seus ouvintes:
"Meus irmãos, orai por João Galvão que acaba de morrer no golfo!"
Três dias depois, o corpo de Galvão e os destroços do seu navio, eram arrojados pelas vagas às praias de Ternate. O nosso humilde apóstolo, convencido de que ele se livrara de igual sorte por um milagre da bondade divina, escrevia aos Padres da Companhia de Jesus, em Roma:

"...O nosso navio, impelido pela tempestade, foi lançado para cima dum banco de areia que sulcou com a quilha e com o leme na extensão duma légua. Se em vez daquele banco nós tivéssemos encontrado um rochedo à tona da água, teria sido infalível a nossa perda; bastou aquela idéia para produzir um mortal terror em toda a equipagem. 

33 - Predição da morte (Ternarte)
Poucos dias depois de haver anunciado a morte de Galvão aos seus ouvintes, Francisco Xavier, celebrando a missa, voltava-se para dizer o "Orate fratres", quando, subitamente, esclarecido por um poder oculto acrescentou, em linguagem vulgar: "Orai também por João de Araújo que acaba de morrer em Ambóino".
Dez dias depois, um navio procedente de Ambóino trazia a notícia daquela morte; acrescentava-se que, não tendo Araújo herdeiro algum, os seus bens tinham sido distribuídos pelos pobres, conforme a lei.

Aquelas duas predições, tão prontamente verificadas pelos próprios factos, contribuíram poderosamente para os brilhantes sucessos das pregações de Xavier. Ele não saía do confessionário senão para pregar, catequizar ou administrar os sacramentos. Perguntava-se como era que ele podia satisfazer a todos aqueles trabalhos e chegava-se à convicção de que seria impossível suportá-los a não ser por efeito dum permanente milagre. 

34 - Predição de naufrágio em Amboino (1547)
Um dia, enquanto ele pregava às equipagens, parou e disse-lhes, depois de um instante de silêncio
"Orai por Diogo Gil; recomendai-o a Deus, por que ele está em agonia em Ternate".
Soube-se pouco depois que Diogo morreu no mesmo dia.
Quando os navios portugueses estavam para se fazer à vela de volta a Malaca, Xavier observou aquele navio que parecia o mais forte e que sabia estar mais ricamente carregado, e dirigindo-se a Gonçalo Fernandes, a quem o navio pertencia, disse-lhe:
- "Senhor Gonçalo, este navio passará por um grande perigo! Que Deus vos livre dele!"
No estreito de Sabon, o navio choca contra um rochedo, despedaçando o leme e ameaçando abrir infalivelmente o casco; todos se preparam para se lançarem ao mar... Uma onda, porém, levanta o navio, desencalha-o e leva-o ao largo...
Xavier havia dito: "Que Deus vos livre!" Deus o havia ouvido, o navio estava "salvo".

35 - Predição da vitória na batalha contra os bárbaros invasores (Malaca, 1547)
Xavier, valente guerreiro em tempo de guerra pela honra cristã – (gritam) "Às armas! às armas! em socorro da praça! o inimigo está às portas! Às armas! bravos portugueses; às armas! bravos índios! às armas!" Este grito de alarme retiniu subitamente no meio do silêncio da noite, nas ruas de Malaca, a 9 de Outubro de 1547.
Produziu um geral terror nos habitantes e todos correram às armas; eram duas horas da manhã. O tempo estava quente, um luar sinistro iluminava a cidade inteira; gritos longínquos, alegres e prolongados como os gritos de vitória, e multiplicados por numerosos ecos, misturavam-se com o estrondo das descargas sucessivas de uma formidável artilharia.
Homens, mulheres, crianças, índios, portugueses, toda a população enfim, está de pé em um instante. Cada um procura conhecer o perigo de que é ameaçado; dirigem-se ao porto... Está em fogo!
Todos os navios ancorados são presos das chamas, o incêndio que devora aquele rico meio de defesa, deixa a cidade à mercê dos bárbaros que a atacam tão traiçoeiramente! Contudo ela procura defender-se do interior pelo maior tempo possível, e consegue repelir os assaltantes que investem ferozmente e pretendem ocupar a fortaleza antes do dia.
Ao nascer do sol, sete pobres pescadores entram na cidade; tinham sido surpreendidos pelo inimigo, que depois de lhes cortar os narizes e as orelhas os enviava, assim mutilados, com uma carta do general em chefe do exército muçulmano a Francisco de Melo, governador de Malaca.
Aquela carta, que merece ser transcrita, era concebida nos seguintes termos:
"Bajaja Soora, que tem a honra de levar em vasos de oiro o arroz do grande sultão Alaradim, rei de Achém e das terras que são banhadas pelos dois mares, te ordena que escrevas ao teu rei dizendo-lhe que estou aqui, mau grado seu, lançando o terror na sua fortaleza pelo meu feroz rugido, e que aqui estarei quanto tempo me, parecer. Eu tomo por testemunha não somente a gente que a habita mas todos os elementos até o céu da lua, e lhes declaro pela minha própria boca, que o teu rei é sem valor e sem nome, que os seus estandartes abatidos não poderão jamais levantar-se sem permissão daquele que lhos vence hoje; que, pela vitória que alcançamos, o meu rei tem debaixo dos seus pés a cabeça do teu, que é desde este momento seu vassalo e seu escravo; e a fim de que tu próprio confesses esta verdade, te provoco e desafio ao combate no local em que me acho, se te sentes com coragem de ousar resistir-me".    
O governador não se inquietaria absolutamente com aquela carta se pudesse dispor da sua marinha; porém todos os navios portugueses se achavam destruídos pelo inimigo, e não podia aceitar o combate naval; a situação era, portanto, embaraçosa; mandou pedir ao Padre Xavier que viesse auxiliar com o seu parecer o conselho reunido em sua casa.
Francisco Xavier acabava de celebrar a missa a Nossa Senhora do Monte; acode imediatamente ao chamamento de D. Francisco de Melo, que lhe dá a ler a carta de Soora, e lhe pede a sua opinião. Xavier, que, segundo a expressão de M. Crétineau-Joly, - "tinha o velho sangue de fidalgo nas veias" - respondeu-lhe:
- Senhor, o sultão é muito mais inimigo do Cristianismo do que de Portugal. Por honra da religião cristã é necessário aceitar-lhe o combate; um insulto semelhante não pode ficar impune! Se vós suportais aquela injúria deste rei muçulmano, a que se não atreverão todos os outros? Não! não! é necessário aceitar o desafio, e provar aos infiéis que o Criador do Céu e da terra é muito mais poderoso que o seu rei Alaradim.
- Mas, meu Padre, como quereis vós que vamos para a mar? Em que navios quereis que embarquemos? Dos oito que existiam no ancoradouro, só nos restam quatro cascos de fustas (barcas) arruinadas! e poderiam elas prestar-nos algum serviço contra uma esquadra tão numerosa?
- Mesmo se os infiéis tivessem um número de navios muito mais considerável ainda, respondeu Xavier, não seríamos nós os mais fortes, tendo o Céu por nós? E se Deus está por nós, quem está contra nós? Poderemos porventura ser vencidos combatendo em nome de Jesus Nosso Senhor?
O grande Xavier pronunciara aquelas palavras coze um acento tão inspirado, que não deixava hesitação por um só momento sobre a decisão a tomar, Dirigem-se todos ao arsenal; Francisco Xavier guia e anima a todos em geral e a cada um em particular: descobrem uma barca chamada Catar, em bom estado e destinam-na para o combate. Existiam sete barcas fora do serviço e ele julga que podem ser reparadas; porém Eduardo Barreto, capitão e diretor dos armamentos, declara a iniciativa impossível:
- Aos armazéns do estado, diz ele, falta neste momento tudo que é necessário para a obra da reparação e equipamento; demais, o cofre de reserva está absolutamente sem dinheiro.
Xavier agarra-se então aos sete capitães dos navios, membros do conselho; abraça-os e suplica-lhes que se encarregue cada um da reparação e do armamento duma fusta, e sem lhes dar tempo para responder, designa a cada um a sua, com tanta viveza nos movimentos, tanta grada na sua exigência e atração nas suas palavras, que todos aceitam com entusiasmo e empregam imediatamente naqueles trabalhos, mais de cem operários, à sua custa, em cada embarcação. Em cinco dias ficaram elas em estado de serem lançadas ao mar. Andréa Toscano, um dos mais distintos marinheiros, tomou o comando da Catar. Cada capitão vai comandar o barco que reparara, e recebe a seu bordo cento e oitenta soldados. D. Francisco Deza toma o comando da frota.
O heróico Xavier pediu para acompanhar a armada naval; os habitantes de Malaca opuseram-se tenazmente, considerando-se abandonados por Deus, se o santo Padre os deixasse num momento de tão grande ansiedade para eles. Dirigiram-se em massa à casa do governador para lhe suplicarem que retivesse o santo Padre; Francisco de Melo prometeu-lhes pedir aquele favor ao seu apóstolo deixando-lhe, contudo, a decisão:
"Vamos para ali todos! exclamaram eles imediatamente; vamos procurar o santo Padre! ele terá piedade de nós; não rios poderá recusar!"
Efetivamente, Xavier, não pôde resistir às suas solicitações e às suas lágrimas
- Sim, meus queridos irmãos, lhes respondeu ele, eu ficarei entre vós durante todo o tempo desta guerra; orarei convosco pelo triunfo da nossa valente armada, e espero que Deus, combatendo por ela, no-la restituirá vitoriosa.
Aquelas singelas palavras bastaram para acalmar a grande consternação do povo.

Últimos encorajamentos e falta de fé - Na véspera do embarque da expedição, Xavier, reuniu na igreja os oficiais e os soldados da armada naval (...) todos aqueles bravos guerreiros caem de joelhos, o grande apostolo implora para eles as bênçãos celestes, depois, ouve em confissão a cada um e administra-lhes a sagrada comunhão.
A expedição embarca na manhã seguinte com um entusiasmo que parece pressagiar a vitória. Levantam-se ferros... O navio almirante faz ouvir um ruído medonho!... Abre-se uma veia de água que deixa apenas o tempo necessário para salvar a equipagem, e o navio submerge-se!... O povo por toda a praia; grita vigorosamente contra a partida da frota, pede que se renuncie àquela expedição, revolta-se contra o santo Padre, não obstante toda a veneração, todo o amor que lhe inspira...
O governador manda chamar o santo Padre, que o enviado encontra no altar quase no fim da missa; ele aproxima-se para lhe falar; o Santo acena-lhe que espere. Depois da missa, Xavier diz ao enviado do governador, sem lhe dar tempo de falar;
- "Ide dizer a vosso amo (governador) , da minha parte, que não nos devemos desanimar pela perda dum navio".
Conservou-se ainda por algum tempo em ação de graças aos pés do altar da Santíssima Virgem, e ouviram-lhe exclamar com todo o ardor de sua alma, antes de se retirar
"Meu Jesus, amor do meu coração! olhai-me dum modo favorável! considerai vossas adoráveis chagas! lembrai-vos que elas nos dão o direito de pedir-vos o que desejamos! E vós, Virgem Santa, sêde-me propícia!"
E, levantando-se, corre à fortaleza, onde o conselho reunido o aguardava e diz ao governador:
- Que é isto, pois! vós perdeis a coragem por tão pouco?
- Mas, meu Padre, o povo está exaltado! Fostes vós que promovestes esta triste crise...
- Vamos ao porto, senhor, tudo isto vai arranjar-se, eu vo-lo prometo.
A gente que acabava de escapar da morte estava consternada. Xavier enche-se de toda a sua coragem para lhes dizer:
- Sêde firmes na vossa resolução, não obstante esta desgraça que Deus não permitiu senão para experimentar a vossa fidelidade. Ele vos salvou do naufrágio, como fim de vos obrigar a cumprir a promessa que lhe fizestes sob juramento!
- Sim! sim, meu Padre! nós sustentaremos e cumpriremos o nosso juramento!

Xavier: o bom líder persiste e gera confiança -  Tal foi o grito de expansão unânime da guarnição do navio almirante, ao qual todas as outras respondem com o mesmo entusiasmo da véspera. Apesar disso, o governador, deixando-se influenciar pela oposição dos habitantes, persiste em declarar a guerra impossível... Eleva-se então um brado formidável das fileiras do exército; os capitães encarregam-se de pedir a palavra em nome das equipagens, e anunciam ao governador que os soldados preferem a morte do a rendição; que eles juraram solenemente a Jesus Cristo combater os infiéis até à última gota do seu sangue, e não cessam de repetir:
"Nós devemos esperar tudo das orações e das promessas do santo Padre Francisco!"
A esta última palavra, Francisco Xavier, ergue-se com tom inspirado que dominava todos os espíritos, e diz ao governador e ao conselho
- A barca perdida será bem depressa substituída; antes do pôr do sol nos chegarão melhores navios: eu vos anuncio isto em nome de Deus!
Seguiu-se um momento de silêncio, depois do qual ficou convencionado que se adiasse a resolução para a manhã seguinte.
O dia correu longo para todos!... O sol estava quase a desaparecer, quando vieram anunciar que do campanário da igreja de Nossa Senhora do Monte, se descobriram duas barcas a velas na direção do norte. O governador manda-as reconhecer por um bote: eram dois navios portugueses que vinham de Patana, mas que não deviam tocar em Malaca; pertenciam eles a Soares Galega e a seu filho Baltazar, e cada um comandava o seu.
Achava-se então o Padre Xavier em oração na igreja de Nossa Senhora do Monte; foram ter com ele a disseram-lhe:
- Meu Padre, os capitães dos navios não querem ancorar, e a vossa predição não se cumprirá!
Xavier mete-se no bote que havia reconhecido os navios portugueses e dirige-se para bordo deles. Os capitães apenas descobriram o santo Padre, viraram de bordo, aproaram para o bote, recebem-no com veneração e põem-se à sua disposição, eles, seus navios e suas equipagens, para o serviço de Deus e do rei.
Foram recebidos com entusiásticas aclamações do povo, e no seguinte dia de manhã, 25 de Outubro, logo que Xavier enviou ao almirante Deza o estandarte que haura benzido, a esquadrilha levantou ferro e partiu.
Não seguiremos a armada, pois que Francisco Xavier renunciara a acompanhá-la; aguardaremos, pois, com ele em Malaca, a notícia do seu triunfo ou da sua derrota.
Um mês depois da partida da esquadra, não se tinham recebido senão notícias indiretas, umas mais assustadoras do que outras; o nosso Santo animava a todos e prometia o mais feliz resultado. Contudo os dias sucediam-se naquela mortal incerteza para as famílias, e aquele povo, sempre pronto a voltar-se para qualquer lado, começava a queixar-se de Xavier; muitos portugueses foram até fazer em sua presencia insultantes censuras; porém o angélico Padre respondia àqueles insultos com as mais suaves e humildes palavras, acrescentando.
- Eu vos repito, porque tenho a certeza, que a esquadra voltará triunfante.

Predição da vitória na luta pelo cristianismo - Decorreram ainda alguns dias e mesmo algumas semanas na desconsoladora incerteza da sorte da expedição! Num dia dos fins de Dezembro, um domingo, pregava o Santo apóstolo na catedral, entre as nove e as dez foras da manhã. Pára de repente... os músculos do seu belo rosto contraídos pela dor e pelo sofrimento; os olhos abertos; o olhar elevado e fixo: tinha uma expressão seráfica. Depois de alguns instantes volta-se para o auditório; mas fala-lhe em termos enigmáticos e tudo quanto se pode compreender é que ele vê duas armadas, em combate e cujos movimentos e manobras segue com uma agitação que se manifesta em toda a sua pessoa. Finalmente, dirigindo o seu celeste olhar para o crucifixo que tinha diante de si, exclama em voz suplicante:
"Ó Jesus, Deus da minha alma! Pai da misericórdia! eu vos rogo humildemente pelos merecimentos da vossa santa Paixão, para que não abandoneis os vossos soldados!"
Depois abaixa a cabeça, apóia-se sobre o púlpito, conserva-se assim, como abismado pela dor, durante alguns momentos, e levantando-se em seguida todo radiante, exclama:
"Meus irmãos! Jesus Cristo venceu por nós! Neste mesmo momento, os soldados do seu Santo Nome acabam de pôr em derrota a armada inimiga. Fizeram uma carnificina horrorosa! nós não perdemos senão quatro dos nossos bravos soldados; na sexta-feira próxima recebereis notícias, e pouco depois tornaremos a ver a nossa esquadra".
O governador e as principais pessoas da cidade não duvidaram da visão do santo Padre; mas não aconteceu o mesmo com as mulheres e mães dos marinheiros e dos soldados. E o suave e caridoso Xavier, que tinha empenho de beneficiar tanto os corações como as almas, reuniu todas aquelas pobres desconsoladas ao meio-dia, e repetiu-lhes tudo quanto tinha dito de manhã, consolou-as, fortificou-as por tal modo, que elas o deixaram convencidas.
Na sexta-feira imediata o navio comandado por D. Manuel Godinho, trouxe a notícia duma brilhante vitória; a esquadra seguiu-o de perto.
O nosso Santo conduziu o povo para o porto a fim de receber a expedição, e tendo o seu crucifixo levantado, fez entoar durante- o desembarque, cânticos de ações de graças, aos quais todos os vencedores misturavam suas vozes com alegria. 

36 - Acalma a Tempestade (Ceilão, 1548)
O poder milagroso da oração - 18 O perigo que produziu no nosso grande apóstolo, tão sensíveis consolações, manifestara-se no estreito de Ceylão; o capitão nunca se vira tão desesperado.
19 Xavier, como fazia sempre nas proximidades de qualquer tempestade, ouviu as confissões e preparou a equipagem para a morte; 20 depois, retirara-se para uma câmara, tendo só Deus por testemunha, para ali gozar de todas as consolações celestes, quando Francisco Pereira, vendo aumentar o perigo, veio procurá-lo para recolher ainda uma das suas santas palavras e receber a sua última bênção.
21 Ele vê o Santo Padre de joelhos, com a vista fixa no seu crucifixo, e tão longe deste mundo, que parece nada ver, nada ouvir e nem temer que o navio fosse levado naquele momento para cima de um banco de areia, onde a sua perda era inevitável, assim como a da equipagem. 22  Pereira não se atreve a dirigir-lhe a palavra e retira-se respeitosamente.
23 Um instante depois, Xavier, saindo da sua contemplação veio pedir ao piloto a corda e o chumbo da sondagem: fez descer o chumbo até ao fundo, dizendo:
"Grande Deus! Pai, Filho e Espírito Santo, tende piedade de nós!"
24 No mesmo momento o navio detém-se, o mar acalma-se, toma-se ao largo, e ganha-se a salvamento o porto de Cochim.

No Japão (1549/1551)

37 -Pesca milagrosa no mar de Kangoshima (Japão, 1549/50)
Então Deus veio apoiar com os seus prodígios a palavra do apóstolo, que devia do mesmo modo renovar todos os milagres operados outrora pelo divino Salvador.
Um dia, passeando o Santo querido dos japoneses na praia, à beira-mar, parou a considerar os pobres pescadores que se afligiam por não recolherem produto algum da sua pesca; as suas redes subiam sempre vazias, e, desanimados, iam cessar aquele seu inútil trabalho:
- Porque vos desanimais, meus filhos? Disse-lhes Xavier com a sua doce e compassiva voz.
- Santo padre, hoje não há peixe! O mar não é abundante de peixe em Cangoxima, e há já alguns dias que não recolhemos nem um só!
- Vejamos, tende coragem! Tornai a lançar a rede!
- Mas há já tanto tempo que a estamos a lançar inutilmente, santo Padre!
- Não importa; lançai-a ainda uma vez, e tende confiança em Deus.
Os pescadores obedecem... E eis que mal podem levantar a rede, tão cheia ela estava! Eles não sabem explicar semelhante resultado de uma pesca que não somente produziu uma quantidade de que não havia exemplo, mas ainda uma qualidade que nunca tinham visto.
Na manhã seguinte e nos subseqüentes dias o mesmo resultado! Desce que o nosso Santo intercedera com as suas orações e rogos, o mar de Cangoxima tornara-se um dos melhores para a pesca, e o milagre continuou ainda depois, durante muitos anos.

38 - cura doente com inchaço (Japão)
Uma pobre mulher, cujo filho tinha um inchaço geral em todo o corpo, ouviu dizer que o Padre Xavier curava todos os doentes em que tocasse. Ela torna o seu filhinho moribundo nos braços, corre ao santo Padre, porque também no Japão, como nas Índias, assim o chamavam, e diz-lhe:
- Meu Padre, aqui vos trago o meu pobre filhinho! Vós vedes que ele vai morrer se o não curardes imediatamente l
A infeliz mãe chorava copiosamente.
O apóstolo dirigiu para ela um olhar que demonstrava a mais consoladora compaixão e que tendo sido para ela uma esperança, entregou-lhe imediatamente o filho, dizendo
- Aqui o tendes! Curai-o, meu Padre!
Xavier toma em seus braços o menino que lhe ofereciam, e diz:
- Deus te abençoe!
E repete duas vezes ainda aquelas palavras; depois restitui a criança a sua mãe, cujas lágrimas se tornaram no mesmo instante em lágrimas, de alegria. Seu filho, completamente desinchado e de perfeita saúde, parecia ainda mais belo do que antes da doença.

39 - Cura de um leproso ensinada por Xavier (Japão)
Um leproso, com a notícia daquele milagre, espera e conta com a sua cura, se lhe for permitido aproximar-se do santo Padre. Separado de todo o mundo, não lhe é permitido ir procurá-lo; mas ouve falar tanto da sua caridade que se atreve a mandar-lhe pedir uma visita..
O nosso Santo, impossibilitado naquele momento de acudir ao chamamento do infeliz, encarrega um dos seus de lá ir, dizendo-lhe:
"Perguntareis três vezes àquele doente se ele acreditará em Jesus Cristo, no caso em que a sua lepra desapareça, e, se assim o prometer, fareis sobre ele o sinal da cruz, depois de cada resposta".
O enviado do apóstolo executa pontualmente as ordens que recebera; o doente responde três vezes que acreditará em Jesus Cristo, e depois do último sinal da cruz, que seguiu à sua última resposta, a lepra desaparece subitamente!
A fé daquele japonês veio a ser tão viva, que se lhe concedeu desde logo a graça do batismo.

40 - Ressurreição de uma japonesa, filha única
Um fidalgo japonês, ainda idólatra, perdera a sua única filha, e achava-se quase louco de dor. Dois neófitos, seus amigos, falam-lhe dos milagres de Francisco Xavier e induzem-no a pedir ao Santo a ressurreição de sua filha.
O desgraçado pai agasta-se com os seus amigos; supõe que a fé do Cristianismo lhes alterara a razão, pois que no Japão ninguém ouvira ainda falar na ressurreição dos mortos. Nunca nenhum ídolo fizera coisa semelhante, nunca os bonzos haviam lido nos livros dos sábios uma maravilha daquele gênero: os mortos não podem ressuscitar.
Contudo, os cristãos conseguem inspirar-lhe tal confiança nos prodígios do santo Padre, que o pagão vai lançar-se a seus pés aos gritos de dor que faziam cortar o coração.
Xavier comove-se: afasta-se por um momento com Fernandes, e voltando-se pouco depois para o fidalgo japonês
- Ide, diz-lhe simplesmente o Santo, comprimindo a comoção que experimenta. Ide, vossa filha vive.
- Como?! Ela não pode viver, pois que vós não invocastes para isto o Deus dos cristãos!
- Ela está viva, repete Xavier.
E o desditoso fidalgo retira-se cheio de raiva:
- O bonzo cristão mangou comigo, dizia ele; não invocou o seu Deus; não veio tocar a cabeça de minha filha, como faz aos doentes, e diz-me que ela está viva!
E dirigia-se para sua casa, fulo de raiva contra o chefe dos bonzos cristãos, quando encontra várias pessoas da sua família que lhe vinham anunciar que a menina voltara à vida. Pouco depois, vê sua filha em pessoa correndo para ele:
- Se vós soubésseis, meu pai, lhe diz ela, abraçando-o, se soubésseis o que me aconteceu! Eu estava mortal Dois horríveis demônios se haviam apossado de mim e arrastavam-me para um abismo de fogo! Via-me já perdida, quando dois homens de nobre aparência, e com olhares meigos e compassivos me arrancaram de suas mãos. No mesmo instante, voltei à vida como se despertasse dum soro, sentindo-me no mais perfeito estado de saúde l
- Minha filha! Minha querida filha! Tu estavas bem aporta, é verdade, e o chefe dos bonzos cristãos te ressuscitou por prodígio do seu Deus, que é muito mais forte e mais poderoso que os nossos; vamos agradecer-lhe!
E o pai e a filha vão procurar Xavier, que estava ainda cm companhia de Fernandes. Logo que os viu, a menina exclamou
- Ei-los! Eis-aí aqueles que me livraram das mãos dos demônios! Reconheço-os perfeitamente!
Em seguida prostra-se a seus pés, solicitando instantemente, assim como seu pai, a graça do batismo, que lhes foi concedido logo que a sua instrução o permitiu.
Este milagre produziu um grande abalo no povo, que até então não tinha ouvido falar da ressurreição e em cuja língua não existia mesmo a palavra que exprimisse aquela idéia.

Xavier era, pois, para os cangoximenses, inclusive os pagãos, um verdadeiro Deus, muito mais poderoso do que Amida e Chaca, suas maiores divindades. 

41 - Predição sobre a língua do insultador japonês idólatra (Manifestação divina)
Um homem do povo, por eles pago, insultava-o e ameaçava-o com raiva nas ruas da cidade, em um dia, depois duma das suas instruções. Xavier suportava as suas injúrias, e ameaças sem lhe responder e sem nada perder da sua inalterável mansidão, quando, subitamente esclarecido lá do alto, vê a vingança de Deus prestes a fulminar aquele desgraçado. Olha-o com expressão de piedade, e diz-lhe tristemente:
"Apraza a Deus conservar a vossa língua!"
E no mesmo instante a língua do pagão apodrece! Sai-lhe, mau grado seu, da boca e os bichos nela formigam!... A turba exalta o poder do Deus dos cristãos, os bonzos são mais desprezados do que nunca, e alguns dias depois, a mulher dum dos principais fidalgos da corte, tendo abandonado Chaca e Amida, que ela havia cumulado de donativos com grande liberalidade, recebia o batismo solenemente com toda a sua família. 

42 - Dom das línguas / pentencostes (Japão, 1551)
Um dia em que a concorrência era imensa e as questões mais numerosas ainda que de costume, manifestou Deus o seu poder de uma maneira até então desconhecida. .
Pedia um ao apóstolo amado de Deus explicação da eternidade, que não podia compreender, enquanto outro rogava que lhe desse a do movimento dos astros; um terceiro desejava que ele esclarecesse as suas dúvidas sobre a imortalidade da alma, e um quarto queria saber donde vinham as cores do arco-íris; alguns outros propunham dificuldades sobre a graça, ou desejavam saber como se dão os eclipses do sol, enquanto que outros queriam ainda ser elucidados sobre as penas do inferno, ou sobre a extensão e a população da terra.
O grande Xavier ouvia todas as questões que lhe propunham com a sua graça e bondade ordinárias. Quando terminaram, levantou-se, lançou sobre a imensa assembléia um olhar inspirado, pronunciou algumas palavras e produziu em todos uma tal suprema e admiração que pareciam atacados de paralisia. Olhavam-se, olhavam para Francisco Xavier, e não achavam palavras com que exprimissem os sentimentos de que se viam possuídos...
Uma só resposta do santo apóstolo operara o mais maravilhoso dos prodígios: resolvera, ao mesmo tempo, todas as dificuldades duma maneira tão clara, tão precisa e tão completa que cada um se julgava sob a impressão dum sonho!
Foi contudo necessário reconhecer a realidade daquela maravilha, e para isso Deus a renovou depois, pelo seu apóstolo privilegiado, todas as vezes que lhe eram apresentadas semelhantes questões em grande número e diversidade e que exigiam muito mais tempo do que aquele de que ele podia dispor.
Os japoneses não quiseram ver naquele prodígio um milagre do poder divino e persistiram por muito tempo em o atribuir á ciência de Francisco Xavier, para a qual, diziam eles, não havia mistério neste mundo nem no outro
Um novo prodígio se opera! Deus restitui ao seu apóstolo o dom que lhe havia sido retirado à sua chegada ao Japão.
Xavier dirige-se aos chineses que o escutam, e fala-lhes a sua língua vernácula com a maior perfeição possível! O povo, arrebatado por aquela admirável maravilha, exclama em altos gritos e batendo palmas, que jamais homem algum foi tão grande como o bonzo cristão, e que a sua doutrina não pode deixar de ser superior à dos bonzos japoneses.

Alguns dias depois, o número dos cristãos crescera consideravelmente, e em menos de dois meses mais de quinhentos idólatras haviam renunciado aos seus ídolos e recebido o batismo. 

43 - Predição sobre malaca (1551, saindo do Japão)
Francisco Xavier achando-se no meio dos seus amigos, a bordo do navio, pediu-lhes que orassem ardentemente não somente pela viagem que iam empreender, mas ainda e especialmente por Malaca.
- O que foi que aconteceu, meu Padre? perguntou o capitão.
- A desgraçada cidade de Malaca, replicou o Santo elevando para o céu os olhos inundados de lágrimas, está sitiada por terra e por orar! Os javaneses e os malaios, em número de doze mil, marcharam contra ela... e D. Pedro da Silva, auxiliado por D. Fernando de Carvalho, não têm podido sustentai os seus ataques! Os javaneses estão senhores da praça e saquearam-na! Dos trezentos portugueses que ela encerrava massacraram mais de cem, e os outros retiraram-se para a fortaleza.
Desgraçada Malaca! essa cidade não é hoje mais que um lugar de horror... A morte!... a carnificina!... mortos milhares de prisioneiros!...
São os pecados daquela culpável cidade que lhe atraíram estes castigos!... Oh! orai, meus amigos! orai muito por ela!...
- Mas isso é horroroso, meu Padre! Como soubestes tudo isso? Nenhum navio aqui chegou...
- Deus mo fez saber, respondeu amavelmente Xavier baixando os olhos.
Esta predição lançou a consternação em todos os corações, porque cada um dos que compunham a equipagem do São Miguel tinha interesses e afeições em Malaca.
Levantaram ferro, sob estas tristes preocupações, a 20 de Novembro de 1551, por um mar semeado de escolhos e perigoso em todas as estações, mesmo para os mais experimentados navegantes.

44 - BILOCAÇÃO E PREDIÇÃO DE XAVIER. Em dois lugares a mesmo tempo (1551, mar da China)
 No retorno do Japão a Malaca: Cinco dias haviam decorrido sem o brilho do sol no firmamento; cinco noites em que nem uma só estrela cintilara no céu; a chuva não cessara de cair em torrentes; as nuvens, ora chumbadas, ora acumuladas pareciam  tomar um aspecto mais sombrio ainda; um vento violento, impetuoso, elevava as vagas ameaçadoras a uma altura prodigiosa; a tempestade aumentava visivelmente ...
...De súbito, muitas vozes há um tempo lançam rio espaço um grito dilaceraste... e depois... nada!... silêncio de morte! Só se ouve o medonho rugir das ondas!
- Meu Deus! meu Deus! eles foram devorados pelas ondas! a embarcação submergiu-se! Depressa! em seu socorro virai de bordo!...
- Mas, capitão, vós nos fareis submergir também.
- Virai de bordo! eu quero salvá-los!...
- Perder-nos-eis sem os salvar! O menor movimento nos fará afundar!...
Não obstante estas judiciosas advertências, do imediato e do piloto, o capitão ordena a perigosa manobra. Porém logo no começo da execução, uma medonha montanha de água avança e volta a embarcação que não pode levantar-se mais.
Passageiros, soldados e marinheiros, precipitam-se em desespero sobre a ponte; ali se reúnem em grande confusão agarram-se às cordas, evitam os movimentos, tornam a manobra impossível, e soltam gritos lancinantes.
Assim reunidos no interior, são um obstáculo a toda a tentativa de salvação.
A morte é infalível... a submersão é inevitável!... Uma nova vaga mais horrorosa ainda, vem despenhar-se sobre aqueles desgraçados... O que será feito do navio, da sua equipagem,, das suas riquezas!... Tudo se vai perder!.. . tudo vai submergir-se!...
Depois de seis dias da mais feliz navegação, variara o tempo subitamente, e o São Miguel fora impelido pela violência da tempestade, para um mar desconhecido dos portugueses. Decorreram cinco dias desde que se viam batidos por aquela horrível tormenta; o céu, carregado de nuvens, não permitia que se tomasse a altura e a tempestade em sucessivo aumento! O capitão mandara arrasar o castelo da proa e ordenara em seguida que se amarrasse solidamente a chalupa; mas sobrevindo a noite durante aquele trabalho, não permitia receber a bordo Afonso Calvo, sobrinho do capitão, quatro outros portugueses e dez índios escravos e marinheiros, que para ali haviam descido. Algumas horas depois, o furor das ondas quebra as amarras que retinham a chalupa, e os homens, que nela se achavam soltavam gritos de agonia que levavam o desespero ao coração de D. Eduardo da Gama e o arrastaram à imprudente manobra cujo resultado devia ser tão deplorável.
Mas a Providência velava pelo navio que levava o seu escolhido. Deus queria manifestar duma maneira maravilhosa a sua predileção pelo ilustre apóstolo do Oriente, e operar um daqueles prodígios cuja memória se eternizasse.
Francisco Xavier acabava de subir para o convés, e no momento em que a medonha onda submergia o navio, ouviu-se a seguinte exclamação
"Jesus! Salvador dos homens! amor da minha alma, socorrei-nos! eu vo-lo rogo pelas venerandas chagas que vos fizeram na cruz por nossa causa!"
No mesmo instante, o São Miguel já submergido, volta à flor da água, ninguém morrera! A tempestade diminui, o céu aclara-se e pode-se já orientar e vai-se seguir o rumo da viagem...
- Procuremos a chalupa! diz o capitão.
Os marinheiros sobem pelas enxárcias; olham em todas as direções... Nada! o mar... e só o mar! Não é possível duvidar-se, a embarcação fora a pique
Prossegue-se tristemente na viagem, deplorando-se a desgraça da morte de quinze homens; cada qual, sob a impressão do perigo de que acabava de escapai por milagre, partilha mais sensivelmente da dor do capitão que chora seu sobrinho, e a dos portugueses e dos índios que choram seus amigos ou seus parentes.
Francisco Xavier vertia lágrimas também, porque a chalupa que desaparecera levara dois muçulmanos cuja conversão não pudera conseguir, e atribuindo a obstinação que mostraram tão somente à sua indignidade pessoal, pedia a Deus, com todas as forças da sua alma, o salvamento daqueles infelizes por um milagre, para se não perderem para a eternidade duas almas que ele tanto desejava arrancar ao inferno. E em seguida, aproximando-se do capitão, disse-lhe:
- Meu caro Eduardo, consolai-vos; a chalupa voltará; a filha virá juntar-se a sua mãe.
Oh! acabou-se, meu Padre! Eu não posso esperar isso a não ser por um milagre... respondeu-lhe D. Eduardo.
Contudo, Xavier havia-lhe dito: "Ela voltará". Aquela palavra era para ele a esperança. Fez ainda subir um marinheiro... Nada! nem um ponto se via no mar! O santo Padre retirara-se dali; depois de duas horas de oração voltou à ponte e perguntou:
- Então! capitão, vê-se a chalupa?
- Não, meu Padre!
- Fazei subir para o cesto da gávea, caro senhor, a embarcação voltará.
- Sim, diz impacientemente Pedro Velho, uma chalupa virá talvez algum dia, mas não será aquela que nós perdemos.
- Senhor Pedro, replicou o nosso Santo, vós duvidais da bondade e do poder de Deus? Isso é não ter fé. Nada lhe é difícil, nada lhe é impossível. Eu pus a chalupa sob a proteção da Santíssima Virgem, fiz voto de celebrar três missas a Nossa Senhora do Monte se ela nos for restituída com os quinze homens, e tenho tanta confiança na misericórdia infinita de Deus que espero vê-los voltar sãos e salvos.
Vejamos, capitão, acrescentou ele dirigindo-se a D. Eduardo, rogo-vos que façais subir um dos vossos para o cesto da gávea!
D. Eduardo, por deferência para com o santo Padre subiu ele próprio com um marinheiro, esteve em observação durante meia hora, e desceu completamente desenganado: o mar não oferecia à vista o menor ponto negro em toda a sua extensão!
Naquele momento, foi acometido o nosso Santo de uma espécie de vertigem que o fez vacilar, e teria caído se Francisco Mendes Pinto o não tivesse imediatamente amparado em seus braços.
- Meu Padre, lhe disse ele, há já três dias que sofreis os enjôo do mar e não tendes repousado nem um só momento; assim adoecereis por certo! Rogo-vos pois, como um favor, que descanseis por algum tempo na minha câmara!
Em todas as viagens do mar, Xavier, por amor à sua santa pobreza, não aceitava a câmara em nenhum navio. Quando ele quisesse isolar-se ia para a do capitão ou dum dos seus amigos, e para dormir estendia-se sobre a coberta, com a cabeça apoiada às cordas. Cedeu, porém, às instâncias de Mendes Pinto e rogou-lhe que fizesse guardar o seu escravo chinês para que ninguém o fosse estorvar.
Mas longe de se entregar ao repouso de que tanto carecia, o santo Padre esteve em oração até ao fim do dia e voltou à ponte no momento em que o sol desaparecera no horizonte.
- Vê-se a chalupa? perguntou ele ao piloto.
- Oh! é preciso esquecermos a chalupa, meu Padre. Como quereis vás que ela tenha resistido a uma tão horrorosa tempestade? E quando mesmo um milagre a tivesse salvo, não a poderíamos ver porque estaria a cinqüenta léguas daqui, pelo menos.
- Vós raciocinais muito bem, tudo isso é muito justo, replicou Xavier, mas Deus não faz as coisas a meio: se ele salvou a chalupa por um milagre, pode também por um milagre fazê-la avançar. Antes que a noite venha, fazei subir alguém ao cesto da gávea, e me fareis com isso um grande favor.
- Nada há que eu não faça para vos obsequiar, meu Padre, vou eu mesmo subir até lá.
Mas dali a pouco desce o piloto sem ter descoberto coisa alguma.
- D. Eduardo, disse Xavier ao capitão, a chalupa vem, estou bem seguro disso! Suplico-vos, pois, que ponhais o navio à capa para lhe dar tempo de se reunir a nós!
A ordem foi dada e logo executada, suspendendo-se por muito tempo o seguimento do navio; mas os passageiros, que sofriam assim fortes balanços e não podiam crer na volta duma embarcação submergida, perdem a paciência e gritam com toda a força.
- "À vela! à vela, capitão, à vela! à vela!"
O Padre Xavier lança-se sobre a antena, apóia ali a cabeça r rompe em soluços
- Um pouco de paciência, eu vos suplico! diz ele aos passageiros; a chalupa vem; - e levantando para o céu os Olhos cheios de lágrimas, exclama: - "Jesus! meu Senhor e meu Deus! eu vos imploro, pelos sofrimentos da vossa santa Paixão, que tenhais piedade daquela pobre gente que vem para nós através de tantos perigos"!
Depois, baixou as pálpebras e conservou a cabeça apoiada sobre a antena, sem fazer um movimento, sem pronunciar uma palavra; julgavam-no adormecido.
- "A chalupa! Milagre! Milagre! Ei-la"! grita um jovem colocado junto do mastro grande.
Tudo corre, tudo grita, apertam-se, empurram uns aos outros, todos querem vê-la... A chalupa estava ali; os seus tripulantes estavam todos; era uma alegria, uma felicidade, lágrimas, ações de graças a Deus e ao santo apóstolo a quem u devia um tal prodígio; era um verdadeiro delírio!
A embarcação detém-se por si só junto do navio, e conquanto o mar estivesse muito agitado, a chalupa conservava-se imóvel enquanto os seus quinze homens subiam para bordo do São Miguel; ela não vinha avariada, e parecia nada ter sofrido.
Depois das primeiras impressões de alegria, todos se empenham em dirigir perguntas aos que com tanta felicidade haviam recuperado.
- Que um fale por todos, disse o capitão.
- Sim, é melhor! é melhor! dizem todos; que D. Afonso Calvo conte o que lhe aconteceu!
- Muito bem! mas saibam que não nos aconteceu absolutamente nada, disse Afonso.
- Como?! Nada?!
- Não, com toda a verdade. Eu nunca vi um piloto como o Padre Francisco! Ele guiou-nos por entre escolhos e furores do mar, com mais perícia do que o teria feito o melhor e mais prático de todos os marinheiros; nós não experimentamos um só momento de temor, não obstante a violência da tempestade.
Todos se mostraram surpreendidos de pasmo.
O capitão, penetrado da dolorosa idéia de que seu sobrinho enlouquecera em resultado do perigo, lança um triste olhar em torno de si; nota igual impressão em todos os semblantes e recolhe-se a um silêncio cheio de dor; ninguém tem a coragem de lhe dirigir mais perguntas, é um sofrida mento geral.
D. Afonso descobre a impressão causada pelas suas palavras, mas nada compreende
- Que achais, pois, vós todos de tão extraordinário e admirável no que acabo de dizer-vos? perguntou ele.
- O Padre Francisco não estava convosco, meu amigo, disse tristemente o capitão.
- Sim, meu tio, sim capitão, ele estava conosco, responderam ao mesmo tempo quinze homens salvos milagrosamente. Ele pode dizer-vos isso melhor do que nós. Onde está ele?
Procura-se o Padre Francisco; tinha-se retirado; estava em ação de graças.
- Por que, pois, dizeis vós, instou Afonso, que isto não é verdade, quando o vistes chegar conosco e ser o primeiro a subir a bordo do navios'
- Porque ele nos não deixou nem um só momento, respondeu D. Eduardo; além disso, assegurou-me por tal modo que vós viríeis, mostrava nisso tal certeza, que, não obstante todas as aparências, eu esperei e me decidi a demorar o navio, persuadido de que ele não insistiria assim se Deus não lhe tivesse feito conhecer a vossa volta.
- A nós, replicou D. Afonso, dizia-nos ele: "Coragem! meus filhos; eu vejo o São Miguel, seguimos o seu rumo, e nos reuniremos a ele bem depressa! Tende confiança em Deus!"
Os companheiros de D. Afonso Calvo apoiavam com o seu testemunho tudo quanto ele acabava de dizer, quando os dois muçulmanos, que tinham estado a conversar em voz baixa, uniram a sua afirmativa à dos portugueses e dos índios católicos, acrescentando, com uma viva animação, que nem um nem outro tinham visto subir o Padre Xavier para o navio; que eles tinham os olhos sobre ele no momento da abordagem, e que deixaram de o ver de repente, enquanto D. Afonso subia, mas que ao mesmo tempo o viram sobre a ponte do navio.
- Para nós, disse um deles, o fato é suficiente; a maneira como ele nos trouxe é um grande milagre; a sua presença sobre a chalupa, quando está provado que ele não deixou o navio, é um milagre maior ainda; a religião do profeta nunca fez tais prodígios, e, nós o dizemos abertamente, vamos pedir o batismo ao Padre Francisco! Se Jesus Cristo não fosse Deus, o santo Padre, como vós o chamais, não faria tão grandes milagres em seu nome.
Tudo estava explicado. D. Afonso não estava louco; os seus catorze companheiros não o estavam também. Deus operara uma sucessão de prodígios a rogos do grande Xavier: salvara o São Miguel; salvara a chalupa; conduzira esta ao navio; acalmara a violência da tempestade; tornara sensível a presença do seu santo apóstolo em dois lugares ao mesmo tempo, e tudo isto durante vinte e quatro horas.
Todos tinham pressa de tornar a ver o nosso Santo; desejavam agradecer-lhe, ouvir a sua meiga voz, prostrarem-se a seus pés. Achavam a sua oração muito longa!
Se pudessem interrompê-la! mas isso não era possível: era necessário esperar com paciência, e resignavam-se com pesar quando finalmente ele tornou a aparecer com grande alegria de todos.
Os quinze homens que ele tão milagrosamente salvara, prostraram-se a seus pés agradecendo-lhe coxas lágrimas e pedindo-lhe a sua bênção:
- Meu Padre! fostes vós que nos salvastes! diziam eles, éreis vós que dirigíeis o leme!...
- Não, meus amigos, era a mão de Deus que o dirigia! é a ele que deveis agradecer, a ele somente! responde-lhes o santo Padre, fazendo-se vermelho.
Depois, dirigindo-se ao capitão, disse-lhe
- Agora, à vela! meu caro Eduardo; Deus vai dar-nos a mais feliz viagem.
Treze dias depois, chegavam à ilha de Sancião

45 - Predição sobre o capitão do navio (1551)
Quando deixou o navio de D. Eduardo da Gama, Xavier disse ao piloto Francisco de Aguiar:
- "Vós não morrereis no mar, por mais violentas que sejam as tempestades que afrontardes, e por mais frágil que seja o navio em que embarcardes".
Francisco de Aguiar tinha visto o bastante para crer cegamente nas palavras proféticas do grande apóstolo. A partir daquele momento, nunca mais se importou nem do vento, nem da estação, nem do barco em que embarcava; cantava durante as tempestades.
Surpreendido uma vez por uma borrasca aterradora, em viagem de Tenasserim para o reino de Pegu, num ruim barco em que havia recebido alguns passageiros maometanos, conservava a sua alegria de espírito e não se mostrava pesaroso senão por ter de ver um navio quebrar-se contra um rochedo.
- Como podeis vós cantar, disse-lhe um dos passageiros quando vedes a morte a ameaçar-vos assim?
- O Padre Francisco, nosso santo Padre, predisse-me que eu não morreria no mar! Quando as vagas fossem dez vezes mais elevadas eu não as temeria e navegaria, através de semelhante tempestade, em um barco de vidro! Mas vós não podeis compreender isto, vós que não sois da nossa religião! O vosso profeta não faz milagres como o nosso santo Padre!
- Se não ficarmos submergidos, será seguramente por um milagre, disse um dos muçulmanos, porque nunca vi tormenta mais furiosa e o vosso barco não pode lutar senão por um prodígio impossível de explicar.
- Prometeis converter-vos, se chegarmos a salvamento?
Sim! sim! exclamaram os infiéis; como não podemos escapar à morte sem milagre, pediremos o batismo em Tavar.
Chegados a Tavar, descobrem sobre a praia muitos barcos quebrados; conhecem que a tempestade causara a perda de muitas vidas e bens e fazem-se cristãos mesmo em Tavar. 

46 - predição do fim da guerra em Malaca (1551)
- Eu só temo uma coisa, meu Padre, acrescentou o capitão, é que se retenha o meu navio em Malaca para o serviço do rei; porque está sendo ali horrível a guerra.
- Sim! respondeu-lhe Xavier. Ela foi bem mortífera! mas Deus, cuja misericórdia é infinita, compadeceu-se. No momento em que a fortaleza, não podendo resistir por mais tempo, ia render-se, os infiéis, dominados por um terror pânico, tomaram a fuga e a cidade está livre.
Francisco Xavier acabava de revelar o que Deus lhe fizera conhecer, com tanta sinceridade e dignidade, que ninguém se atreveu a dizer sequer uma palavra.

47 - Acalmando a tempestade (viagem de retorno do Japão a Malaca, 1551)
Diz o capítão do navio: - Meu caro Padre, vós tendes pressa de chegar a Goa, eu sou obrigado a ir a Sunda, e a estação vai já bastante adiantada para se poder esperar que encontreis, à vossa chegada. a Malaca, um navio pronto a sair para as Índias.
- Antônio Pereira aí está com o seu navio no ancoradouro; ele dispõe-se a fazer-se à vela, para Cochim, nós o encontraremos prestes a partir, e aproveitarei essa oportunidade, respondeu Xavier.
Naquele momento, um pé de vento súbito levanta uma violenta tempestade; era o tufão, perigoso nos mares da China, que se desencadeava com furor.
A tripulação e os passageiros surpreendidos e aterrados suplicam ao santo Padre que os salve, que ore e rogue para obter a bonança.
Xavier não responde; retira-se por alguns instantes para a câmara do capitão, e torna a aparecer sobre a ponte com os olhos elevados para o céu, o semblante animado, ar inspirado... Abençoa o navio em voz alta, e depois acrescenta:
"O navio Santa Cruz não se perderá no mar! O lugar que o viu construir o verá destruir-se por si mesmo. Prouvera u Deus que aquele que partiu conosco seja tão feliz: mas não saberemos senão muito tarde qual foi a sua triste sorte!"
O Santo acabava apenas de pronunciar aquelas palavras guando o furacão cessou, o mar tornou-se tão sossegado como na partida. 

48 - Manifestação divina: vertia sangue do crucifixo do Castelo de Xavier - 1552
Todos os membros da nobre família de Azpilcueta de Asnarez se achavam reunidos, havia alguns dias, no velho solar de Xavier, berço de todos. Cada um deles havia recebido sob o seu teto as primeiras carícias e a primeira educação; cada um aí recebera, mais tarde, a derradeira bênção e o último suspiro de um pai e de uma mãe terreamente venerados, e todos gostavam de reunir-se ali todos os anos com a companheira escolhida e os filhos que ela lhe dera.
Um somente faltava a essas agradáveis reuniões de família; um só se achava sempre ausente, mas este era sempre amado de todos. Demais, aquele que faltava, e cujo lugar vazio à mesa e no lar se respeitava, não era ele o mais magnífico lustre da nobre e piedosa família?
Era mesmo ele, o querido ausente, que não deviam tornar a ver mais neste mundo, que dava lugar à reunião que nos ocupa, reunião antecipada, porque corria o mês de Abril.
Mas, logo nos primeiros dias de Fevereiro de 1552, o castelão de Xavier escrevera a seus irmãos, os quais uns estavam na corte e outros rias suas terras, comunicando-lhes que um acontecimento maravilhoso, ocorrido no solar, e que ele atribuía à grande santidade do seu querido Francisco, lhe fazia desejar a presença deles o mais cedo possível.
Logo que receberam esta mensagem, os irmãos combinaram-se por cartas, e cada um providenciara para se achar no castelo de Xavier nos primeiros dias de Abril, porque as viagens naquela época se faziam por pequenas jornadas, gastando-se nelas muito tempo, mormente quando se levava família.
Na sexta-feira da Paixão, achava-se reunida toda a família, muito cedo, na capela, onde o capelão ia oferecer o santo sacrifício. Todos tinham os olhos fixos no grande crucifixo de madeira, de tamanho natural, de que já falamos, esse crucifixo que Francisco adorara e que sua mãe venerava em memória daquele que Deus, no seu amor de preferência, arrebatara à sua ternura maternal.
De repente, muitos gritos se escapam ao mesmo tempo;... todas as cabeças se inclinam;... só se ouviam soluços de todos os lados... A maravilha renova-se!... Do crucifixo via-se correr sangue.
Aquele milagre reproduzia-se todas as sextas-feiras; algumas vezes até o sangue perolizava por todo o corpo, como um abundante suor, e as chagas das mãos, dos pés e do coração escorriam em igual abundância.
Esta maravilha manifestara-se pela primeira vez, na primeira sexta-feira de janeiro; renovara-se na segunda, depois ainda na terceira; preveniu-se a autoridade eclesiástica, e o arcebispo, depois de ter sido testemunha do fato, chamara o inquisidor, o governador da província, o comandante da cidadela e todas as mais autoridades de Pamplona para o verificar; todos o haviam presenciado e certificado. Era, pois, natural que o senhor de Xavier desejasse que toda a sua família fosse testemunha daquele prodígio.
Entre as cartas de S. Francisco Xavier, nenhuma encontramos dirigida a sua família durante todo o período do seu apostolado nas Índias : mas não tivéssemos nós outras provas dos sentimentos que por ela conservara senão o milagre do crucifixo, na capela do castelo de seus pais, que esta seria mais que suficiente.
É convicção geral no mundo, que a vocação religiosa extingue com seu sopro todas as afeições de família, e que aquele que se separa dos seus para seguir a vereda pela qual é chamado nada tem a sacrificar do seu lado. A ilusão é completa. Ternos ouvido dizer muitas vezes, mesmo a pessoas religiosas:
"Sim, S. Francisco Xavier é seguramente um grande Santo; mas ele recusou ver seus pais antes de partir para as Índias, e isto é muito duro: Um filho não tem o direito de impor um tal sacrifício a sua mãe! é contra a natureza!"
O que equivale a dizer que um filho, que ouve de um lado a voz de Deus e do outro a voz de sua mãe, e não tem o direito de obedecer à primeira; ou que Deus não tem o direito de pedir um sacrifício heróico àquele que de todo se dedica ao seu serviço e à sua glória.
Se o nosso Santo tivesse menos afeição a sua família, não teria julgado dever oferecera Deus a privação de a tornar a ver por uma última vez neste mundo. Aquela, sublime abnegação não é contra a natureza; é sobrenatural, o que é bem diferente.
Os que julgam assim aquela heróica ação do generoso Xavier, não leram por certo a sua correspondência. Não penetraram naquela alma tão sensível e tão ternamente expansiva: não compreenderam aquele coração que deixara verter tantas lágrimas pelos sofrimentos do próximo, que achava tão doces consolações para todas as dores, que tinha tão tenras caricias para a infância, que testemunhava uma tão compassiva caridade por todas as misérias...
Não compreenderam aquele a quem os leprosos e os empestados chamavam seu pai, seu amigo, seu consolados! aquele a quem os pobres beijavam as mãos, porque a sua humildade não permitia deixar-lhes beijar os pés!...
Mas Deus sabia tudo quanto o grande Xavier sofria por seu amor e pela sua glória, e parecia querer testemunhar a toda a família do ilustre Santo quão vivas e profundas eram as dores do seu laborioso apostolado, e de que abundantes consolações ele se sustinha naquela vida de imolação e de sublime dedicação pela glória de Deus e pela salvação das almas. Deus queria patentear que compartia os sofrimentos do heróico apóstolo, que afrontava todos os riscos, desprezava tanto os perigos, suportava tantas fadigas por honra do seu nome.

A família do nosso Santo assim o compreendeu: Ela tornou nota dos dias em que o sangue corria mais abundantemente das chagas e do corpo do crucifixo, e, mais tarde, confrontando-se as datas e os fatos, foi reconhecido, asseguram os historiadores, que o sangue afluía mais quando o Santo apóstolo corria maiores perigos ou experimentava maiores sofrimentos. 
Na capela do castelo de Xavier, o crucifixo milagroso deixou de derramar sangue desde sexta-feira, 2 de Dezembro de 1552, pelas duas horas da tarde... na hora da morte de Xavier. 

49 - Ressurreição de um jovem chamado Francisco Xavier (Malaca, 1552)
Xavier pensava em preparar a sua viagem para a China, quando entrando um dia por uma rua donde ouvia gritos de dor, procurou a causa e soube que uma devota mulher, que estava desde muito tempo sob a sua direção, acabava de perder repentinamente seu filho (que fora batizado com o nome de Francisco Xavier).
Francisco Xavier tinha imprudentemente tocado aos lábios a ponta duma flecha indiana, e morrera quase instantaneamente: a flecha estava envenenada.
Xavier (nosso santo) entra naquela casa de dor, comove-se de tantas lágrimas, e diz ao morto (seu xará):
"Francisco! em nome de Jesus Cristo, levanta-te!"
Francisco levanta-se, e tendo recuperado uma vida que lhe foi restituída para a glória de Deus, vai consagrá-la toda inteira na Companhia de Jesus.

50 - Transformação da água salgada do mar em água doce (viagem de Malaca para Sancião na China, 1552)
 O capitão da Santa Cruz saiu de novo ao mar (porto de Malaca) a 23 de julho. O pessoal da embarcação compunha-se de quinhentos homens, compreendendo os passageiros. A navegação foi feliz durante muitos dias; esperava-se chegar assim, sempre levados por boxe vento, quando, mui próximo do termo daquela longa viagem, se declara subitamente uma calmaria podre que faz parecer que o navio se conserva ancorado.
Prolongando-se esta calma por muitos dias, viam-se ameaçados de falta de viveres e sobretudo de água, que já se começava a recusar, além duma certa medida fixada para cada um; mas qualquer que fosse a economia desta distribuição, continuando a durar a calma, faltou totalmente a água, os doentes eram numerosos, e o vento não voltava.
Cada homem que morria era. lançado ao mar, e cada um esperava a sua vez, porque todos se sentiam morrer devorados pela sede, mais cruel ainda do que a fome.
Tinha sido enviada a chalupa (barco) em descoberta de alguma ilha onde se pudesse fazer aguada... Ao sexto dia não tinha ainda voltado! Chega finalmente ao sétimo. Cada um se arrasta à amurada, esperando descobrir algum sinal do resultado, antes da abordagem... Ela nada trazia! Tinha estado à vista da ilha Formosa, mas não pudera aí chegar; toda a esperança estava pois perdida!... Achavam-se à capa, havia catorze dias. Um dos passageiros propõe aos seus companheiros de infortúnio irem suplicar ao Padre Francisco para obter de Deus um pouco de água para não morrerem...
- Sim! sim! respondem todos a uma voz, com o coração cheio de esperança; sim! o santo Padre nos salvará! Deveríamos ter-lho pedido muito antes! Vamos todos!
E aqueles pobres doentes recorrem a Francisco Xavier.
- Santo Padre Francisco! tende piedade de nós! Vós podeis dar-nos água! Pedi a Deus, ele não vos recusará!
- Pois bem! respondeu ele, recitemos juntos as ladainhas dos Santos, a fim de que eles nos obtenham o que desejamos.
Quando esta oração terminou, disse-lhes:
- Ide, tende confiança. nos merecimentos de Jesus Cristo, pelos quais tudo se pode obter.
Em seguida, recolhe-se por alguns instantes; depois, voltando à ponte, toma pela mão um menino, desce com ele à chalupa, e ordena-lhe que prove a água. do mar. O menino prova e rejeita-a
- Que gosto tem esta água, meu menino? pergunta o nosso Santo; é doce ou salgada?
- É tão salgada, meu Padre, que eu não pude bebê-la.
- Prova-a de novo, meu querido menino.
- Oh! como é boa! Não está já salgada, meu Padre!
Xavier fez logo fornecer a embarcação, e cada qual, oprimidos pelos ardores da sede, empenhava-se em fazer encher os copos.
O primeiro que levou a água aos lábios achou-a salgada: mas o Santo fez o sinal da cruz sobre o copo, e a água tornou-se excelente no mesmo instante. Nunca, diziam os marinheiros, haviam encontrado água com tão agradável gosto.
Os árabes maometanos, passageiros da Santa-Cruz, esclarecidos por aquele prodígio, pedem o batismo; 
51 - Ressurreição e reaparecimento de uma criança que caiu no mar (viagem para Sancião, 1552)
...um só, conquanto intimamente convencido, faz exceção: não podia confessar-se cristão na sua pátria, e conserva-se infiel. Poucos dias depois, o seu único filho, de idade de cinco anos, brincando muito próximo da amurada, cai ao mar, e nenhum esforço humano o pôde salvar. O pai encerrou-se por três dias com o seu desespero, e tornou a aparecer, mas sempre inconsolável. As doenças ocasionadas pela falta de água tinham matado tanta gente, que, marinheiros e passageiros, ocupados de seus pesares pessoais, pouca atenção haviam prestado àquele acidente.
Os árabes, além disso, não se comunicavam com os portugueses e coxas os índios, entre os quais a maior parte ignorava a perda do menino.
O Santo apóstolo, retirado em uma câmara no momento daquela desgraça, ignorava-a também, e vendo o pobre infiel desfeito em lágrimas, pergunta-lhe, com a sua ordinária bondade, o motivo de tão grande dor. O infeliz pai desfaz-se em soluços:
- É, respondeu um marinheiro, porque ele perdeu há dias um seu filho; caiu ao mar.
A desesperação do árabe parece redobrar então, os seus gritos penetram o coração de Francisco Xavier, que toma afetuosamente a mão do pobre pai e lhe pergunta com a sua meiga voz:
- Prometeis-me crer em Jesus Cristo e submeter-vos à sua lei, se Ele vos restituir vosso filho?
- Oh! sim, prometo! Sim! eu serei cristão... Mas passaram já três dias!... É impossível!... Temos avançado tanto depois disso!... Ele está bem longe! meu pobre filho...
- Tende confiança em Deus e em Jesus Cristo seu Filho, replicou o nosso Santo; pedi-lhe que vos restitua vosso filho, e prometei-lhe reconhecer a sua lei e abraçá-la de todo o vosso coração.
Três dias depois, antes de nascer o sol, achavam-se sobre o convés somente os marinheiros de serviço... Dão um grito de surpresa... O filho do árabe, aquela criança que eles tinham visto desaparecer entre as ondas, seis dias antes, esta ali, a alguns. passos!... É ele!... interrogam-no. A criança nada sabe: lembra-se somente que caiu ao mar, mas não sabe como voltou para o navio: é tudo quanto pode dizer.
O pai louco de alegria e fiel à sua promessa, pede o batismo para si, para sua mulher, seu filho é seu escravo. O menino recebeu o nome de Francisco, em lembrança daquele a quem devia a vida. 
Em seguida surgem no ancoradouro da Ilha de Cinchea, a equipagem comunica aos insulanos e aos mercadores estrangeiros, que aí estavam em grande número, os dois grandes milagres operados em alguns dias pelo apóstolo das Índias;, mostram. o menino ressuscitado e a água do mar tornada tão doce e tão agradável que se não conhecia outra comparável; acrescentam que muitos marinheiros e passageiros a conservam em memória do prodígio de que tiveram a felicidade de ser testemunhas, e também ela esperança de que ela curava os doentes, pois que, nas pela se viram curas maravilhosas operadas pelos objetos que o santo Padre havia tocado.
Todos os habitantes de Cinchea se dirigem em multidão à praia para verem, ao menos de longe, o Santo de quem  lhes diziam tão admiráveis coisas; ...

52 - Elevação do corpo de Xavier no momento do batismo. Tamanho gigante, visivel aos que estão muito longe (ilha de Chinchea, mar da China, 1552)
... Mais de sessenta maometanos, índios e etíopes, desejosos de o verem de mais perto, vão a bordo do navio Santa Cruz ...e encontram-no sobre a ponte.
Francisco Xavier, penetrado do espírito divino, acolhe-os com o olhar inspirado que subjugava as massas, e anuncia-lhes as verdades cristãs com um poder de palavra que os faz cair a seus pés solicitando a graça do batismo. O grande apóstolo, comovido pelas suas instâncias e pela ardência da sua fé, concede-lho imediatamente...
Então um novo prodígio, um prodígio desconhecido, fixa a atenção das inumeráveis testemunhas reunidas na praia. Enquanto o ilustre Xavier dá a Jesus Cristo a conquista que acaba de fazer em seu nome; enquanto imprime o selo do Cristianismo nas frontes, que se abaixam diante dele, o seu corpo eleva-se a proporções sobre humanas! Os homens que o cercam parecem umas crianças ao pé dele! Um grito uníssono se deixa ouvir sobre a praia, todos se ajoelham sobre a ponte do navio; mal se crê o que se vê. Estêvão Ventura, que se achava no meio da multidão, destaca-se dela e vai para bordo do Santa-Cruz... O santo apóstolo tinha os pés sobre a ponte do navio, a sua prodigiosa elevação tinha uma causa sobrenatural de que ele não podia duvidar.
Depois da cerimônia do batismo, Francisco Xavier reapareceu a todas as vistas na sua estatura natural, sem que ninguém, entre as numerosas testemunhas que se achavam sobre a ponte, se apercebesse do momento da transformação, de modo a poder dizer como ela se havia operado. Tinham-no visto maior que um gigante enquanto batizava e viam-no com a sua própria altura depois do batismo; era. o que podiam afirmar. Deus acabava de mostrar assim quanto era grande, para ele, o apóstolo que escolhera para levar o seu nome aos extremos do Oriente.

53 - Predição da volta do barco a salvo de um turfão (mar da China, 1552)
Deixaram Cinchea (mar da China) e dirigiram-se para Sancião donde sabiam acharem-se próximos, mas temiam que se tivessem enganado na direção; o capitão mandou a chalupa reconhecer a costa que tinham à vista: três dias se passaram sem que a embarcação voltasse, e supunham-na por isso levada pelo tufão e quebrada contra algum escolho:
- Traqüilizai-vos, dizia Xavier, a chalupa está em bom  estado, ela há de voltar trazendo-vos provisões da ilha de Sancião, da parte dos portugueses; e muitas embarcações que ali estão no ancoradouro virão também ao vosso encontro.
A chalupa voltou no quarto dia, carregada pelos portugueses de provisões de boca, e muitas embarcações metam ao encontro da Santa-Cruz que levava o Padre querido de todos os portugueses do Oriente. 

54 - Multiplicação do dinheiro
Um dia, Xavier, que segundo ele próprio disse, se ocupava de tudo que pudesse resultar em glória de Deus, buscava Pedro, de cabana em cabana, e finalmente o encontrou jogando com um dos seus amigos e perdendo mais do que queria
- Senhor Pedro, disse-lhe ele, eu procurava-vos para vos pedir dinheiro.
- Empregais bem o vosso tempo, Padre Francisco! Vede o que tenho perdido
- Tenho uma pobre órfã para casar, e careço de um pequeno dote; contei convosco para a salvar do perigo que corre. Vejamos, dai-me uma soma suficiente! Tendes dinheiro às mãos cheias...
- Contudo, santo Padre, vás não tereis nada do que lá está.
- É isso verdade, caro Pedro?
- Tão verdade, meu Padre, que aí tendes a chave da minha carteira. Ide lá tirar tudo o que quiserdes, com a condição de que não tocareis no que lá está!
O santo Padre, levando a chave, retira-se depois deste gracejo de Pedro, e vai abrir o seu cofre que continha quarenta e cinco mil escudos de ouro.
Alguns dias depois, fazendo Pedro Velho as suas contas, acha intacta a soma de quarenta e cinco mil escudos. Penalizado por aquela discrição de Xavier, diz-lhe:
- Como! meu santo Padre, vós não tomastes a sério a oferta que vos fiz ultimamente de casar a órfã que me recomendastes?
- Sim, senhor, tomei o suficiente.
- Não tomastes nada, meu Padre, e sinto-me com isso mortificado...
- Asseguro-vos, senhor Pedro, que tirei da vossa carteira trezentos escudos de ouro, que vos serão bem contados um dia, porque estão bem empregados.
- Meu Padre, eu acabo de fazer as minhas contas a minha carteira encerrava quarenta e cinco mil escudos quando vos dei a chave, e estão ainda lá. Deus vos perdoe por isso, padre Francisco, pois eu esperava que tirásseis ao menos metade.
Francisco Xavier, subditamente esclarecido viu o milagre que ignorava, ...

55 - Predição da morte com o sinal do vinho amargo
...e pronunciou estas palavras proféticas: - Pedro, a intenção que tivestes, foi agradável Àquele que perscruta os corações e pesa os seus movimentos. Ele terá isso em conta e vos restituirá um dia o cêntuplo do que houverdes dado. Prometo-vos, de sua parte, que vos não faltarão jamais os bens temporais, e que se vos acontecerem desagradáveis acidentes no comércio, vossos amigos se esforçarão por repará-los. Anuncio-vos, além disso, que seleis advertido do dia da vossa morte.
- Meu Padre, todas as vossas palavras são para mim como as de Deus; mas permiti que vos pergunte como serei prevenido do momento da minha morte, qual será o sinal certo?
- Quando achardes o vinho amargo, preparai-vos, porque não tereis mais que um dia a viver.
Veremos mais adiante se esta predição foi cumprida. 

56 - Predição sobre o navio que vencerá o turfão (Sancião, 1552)
Alguns dias depois, Manuel de Oliveira, recorria a Xavier, com alguns outros portugueses
- Meu Padre, que desgraça,  O São Vicente foi levado pelo tufão. Acabamos de ter esta noticia: ele ia de Macau para o Japão, nós somos todos interessados na sua carga, e é uma perda imensa para todos nós. Rogai a Deus que no-lo conserve!
O apóstolo orou por alguns instantes e disse em seguida aos interessados do São Vicente:
- Não há nada a temer pelas vossas riquezas: o São Vicente foi levado, é verdade, mas a força que o impeliu, conduziu-o ao porto onde devia ancorar, e não sofreu nenhuma avaria.
Os portugueses conheciam o valor das palavras do seu santo Padre; confiados nele esperaram a volta do seu navio, que, do Japão onde se devia demorar pouco, tinha de chegai a Sancião em dia quase prefixo. Porém o São Vicente não chegou no dia esperado.
- Meu Padre, o nosso navio devia estar de volta, segundo a vossa predição, disse Manuel ao santo apóstolo; talvez se tenha perdido. Que desgraça seria!
- Não tendes fé, Manuel, respondeu-lhe Xavier. Eu prometi-vos a volta do São Vicente sem avaria, estai seguro de que o tornareis a ver antes do fim da semana. Ele está no mar, e em muito bom estado.
- Deus vos ouça, meu Padre!
Dois dias depois, chegava o navio ao porto de Sancião, são e salvo, e sem ter experimentado nenhum acidente desagradável, não obstante a violência do tufão que havia enfrentado. 

57 - Domando as feras selvagens (Sancião, 1552)
A ilha de Sancião era de ordinário inquietada por animais ferozes que destruíam os seus produtos, devastavam os campos e atacavam os habitantes; muitas vezes até as crianças eram arrebatadas e devoradas por aqueles terríveis habitantes das florestas. Queixavam-se àquele que parecia dispor do poder divino; suplicavam-lhe que afastasse aquele flagelo permanente.
Uma noite, ouve o santo Padre o rugir dos afamados tigres próximo da sua cabana. Sai, vai direito àqueles terríveis animais, faz sobre eles uma aspersão de água-benta e ordena-lhes, em nome de Jesus Cristo, que se retirem e não tornem a aparecer. Dóceis àquela poderosa voz, ou antes, forçados a obedecê-Ia, retiram-se e não voltam mais. 

58 - Predição da própria morte (de 2 para 3 de dezembro)
A 20 de Novembro de 1552, Xavier, sustido por Antônio de Santa-Fé e conduzido por Francisco de Aguiar que guiava a embarcação, veio pedir asilo na enfermaria da nau Santa Cruz, ancorada longe da praia.
O capitão olha para o grande apóstolo... seu coração não pode resistir aquela vista. Se está perdido na sua volta a Malaca, se o governador lhe vai fazer sofrer os efeitos das suas ameaças, ele os sofrerá: mas não abandonará aquele que só tem feito sempre bem a todos e que salvou a equipagem de uma morte infalível na calmaria por que passou na viagem; não repelirá de si aquele que é objeto de amor e veneração para todo o Oriente. Recebe portanto o nosso Santo, que vai ocupar um lugar entre os soldados e marinheiros da enfermaria, e de quem Francisco de Aguiar vai tratar com ternura filial:
- Disse-lhe o Santo doente: "Francisco (de Aguiar), isto não será para longo tempo; eu terei a felicidade de deixar esta vida a 2 de Dezembro.
E tomando o seu crucifixo, beija-o com efusão, aperta-o ao coração e parece absorvido no seu amor. Ele sofria duna dor no lado, acompanhada de forte opressão e de violenta dor na cabeça; experimentava todos os sintomas duma congestão pulmonar.
2ª vez, a mesma predição
Tudo devia ser dor, sacrifício, amargura de coração na ultima hora daquela vida magnífica! ou antes a morte do grande Xavier devia ser admirável, heróica, sublime como a sua vida...
Deus acabava a imolação da vítima!
Jorge Álvares quis fazer sangrar o santo doente.
- Eu consinto, disse-lhe Xavier, mas é inútil: devo morrer na sexta-feira próxima.
O cirurgião sangra-o e ofende-lhe um nervo; o doente desfalece, e voltando a si, experimentou violentas convulsões que contudo não puderam alterar a serenidade do seu angélico rosto. Não deixava escapar o menor lamento e só se ocupava do Deus que se dignava amá-lo muito para querer ser a sua única força, sua única consolação, no momento em que ele ia ter a suprema recompensa, a sua eterna felicidade.
O mal agravava-se com grande rapidez, a sangria foi renovada, as vertigens e convulsões repetiram-se também. 
3ª vez a predição da sua morte.
A 1 de Dezembro (de 1552), mandou conduzir para o navio a sua capela e os seus livros, dizendo a Jorge Álvares:
- Morrerei amanhã às duas horas.

59 - A última predição, fracasso da fé de seu assistente (Sancião, vespera da sua morte, 1552)
E dirigindo a vista para Cristóvão, disse-lhe com o acento de uma profunda piedade: "Ah! desgraçado!" Acabava de ser esclarecido sobre a reincidência espiritual deste índio que, de volta a Malaca, recaiu nos seus hábitos criminosos e morreu miseravelmente.

Milagre pós-morte

60 - milagre da Incorrupção do corpo de São Francisco Xavier
Xavier morreu em 02/03 de dezembro de 1552. O santo corpo foi conservado até ao terceiro dia, domingo, estendido sobre a esteira que cobria o solo da cabana.
Jorge Álvares, Francisco de Aguiar, Cristóvão e Antônio de Santa-Fé, tiraram-lhe a sua pobre batina da qual repartiram entre si os preciosos pedaços, acharam sobre o seu peito uma pequena boquete contendo a assinatura de santo Inácio, os nomes dos Padres com os quais o nosso Santo tinha vivido em Roma, a fórmula dos seus votos, e uma parcela de osso do apóstolo S. Tomé, sob cuja proteção ele pusera o seu apostolado das Índias.
Revestido o corpo de seus hábitos sacerdotais, foi posto num esquife que se encheu de cal viva, a fim de que a carne fosse consumida logo e os ossos pudessem ser removidos na volta da nau Santa-Cruz.
Os portugueses tinham erigido uma cruz num prado, na base da colina que domina o porto; foi ao pé daquela cruz que Jorge Álvares fez depositar o esquife. Levantou-se um montículo de pedras ao lado da cabeça e um outro aos pés, e isto foi tudo!...
Francisco Xavier tinha previsto esses tristes funerais... Para ele, o sacrifício devia ir mesmo além da morte! Deus nada lhe poupara! Mas bem depressa também nada poupará para manifestar a glória do imortal apóstolo.
Dispondo-se Luís de Almeida a fazer-se à vela para as Índias, depois dos grandes frios, suplicou-lhe Jorge Álvares que não deixasse o corpo de Xavier em Sancião, assegurando-lhe que ele podia encarregar-se de o conduzir, por isso que pelas precauções tomadas só teriam de transportar os ossos já despojados da carne pela cal.
O capitão enviou dois dos seus homens com ordem de abrir o esquife e verificar o seu conteúdo. Esta abertura fez-se a 17 de Fevereiro de 1553, dois meses e meio depois da morte de Francisco Xavier.
Encontrou-se o seu rosto fresco, corado, sereno... o Santo parecia dormir. Os ornamentos não estavam alterados. Examinando o corpo, ele parece cheio de vida. Um dos homens corta um fragmento de carne, acima do joelho... o sangue salta! Correm ao navio, e levam a preciosa relíquia ao capitão; ele quer julgar por si próprio... cai de joelhos diante daquela grande maravilha, correm-lhe as lágrimas, não pode crer no que vê!
Em alguns instantes toda a equipagem da Santa-Cruz havia corrido para o prado e rendia homenagem ao corpo venerando do santo Padre. Todos se aproximaram, beijaram-lhe os pés e as mãos, e certificaram-se de que se exalava deste santo corpo um perfume que não tinha nada com que se comparasse sobre a terra.

Deitou-se de novo no esquife a cal que se tinha retirado, levaram religiosamente aqueles restos maravilhosos para bordo da Santa-Cruz, e pouco depois, fez-se à vela para Malaca, onde chegou a 22 de Março, com a mais bonançosa viagem.


61 - Cessou a Epidemia em Malaca com a chegada do corpo de Xavier (1553)
Malaca, de novo estava infestada de todos os horrores da fome e da peste, e os Padres da Companhia de Jesus não se achavam ali para prodigalizarem às vítimas desses destruidores flagelos os tesouros do seu santo ministério e da sua sublime dedicação. O capitão da Santa-Cruz, tendo expedido a chalupa para anunciar à cidade a chegada do santo corpo, a clerezia, a nobreza e o povo, vieram de tochas na mão, recebê-lo ao porto, não obstante a disposição de ódio do governador, e conduziram-no processionalmente à igreja de Santa Maria do Monte, que pertencia. à Companhia de Jesus.
Os pagãos e os maometanos incorporaram-se espontaneamente na multidão para renderem homenagem àqueles restos venerandos; Diogo Pereira parecia acompanhar os de seu pai; a sua dor era dilacerante!
- Qual é a causa deste lúgubre motim? perguntou D. Álvaro, deixando uma mesa de logo e abrindo uma janela que deitava para a praça do governo.
- É, provavelmente, respondeu-lhe um dos jogadores, o funeral do Padre Xavier, pois que o seu corpo devia chegar hoje.
- Que fanáticos! Eles verão bem depressa as honras que eu reservo ao seu santo Padre!
Depois das cerimônias religiosas, foi retirado o Santo do esquife que o encerrava; levaram-no para o cemitério dos pobres, lançaram-no numa cova muito pequena, forçando-o muito para ali entrar, e calcaram aquela terra "com pesadas alavancas" - diz o catequista do Santo, testemunha ocular-, e lhe abriram e achataram o nariz no estado em que vós o vistes em Goa, e quebraram-lhe o costado direito!... Eram aquelas, sem dúvida, as honras que o sacrílego governador havia prometido prestar a Xavier.
Chegou em 22 de março de 1553. Naquele mesmo dia, cessava a peste em toda a cidade, os doentes viam-se milagrosamente curados, e embarcações carregadas de víveres, ancoravam no porto e vinham pôr termo à fome. O grande apóstolo recompensava assim as provas de veneração que os habitantes de Malaca acabavam de lhe prestar.

62 - Milagre com o corpo de Xavier no translado para Goa. Acalmou a tempestade
Ia largar para Goa o capitão Lopes de Noronha; o Padre Alcágova e o Irmão Távora, fizeram embarcar no seu navio o mais precioso tesouro das Índias, e embarcaram-se também com ele a bordo do navio Santa-Ana.
Este velho navio oferecia tão pouca segurança, que ninguém se atrevia a tomar passagem nele; porém logo que se espalhou a notícia de que ele levava o corpo do santo Padre, os passageiros apresentavam-se á, porfia; disputava-se a felicidade de fazer aquela viagem tão junto de quem era já honrado publicamente desde que se deixou de temer a cólera do sacrílego governador.
Porém, uma tempestade das mais violentas vera bem depressa experimentar a fé dos confiantes passageiros. O navio é lanceado sobre um banco de areia e a quilha enterra-se tão profundamente, que todos os esforços de manobra são infrutíferos para o desembaraçar.
- Santo Padre, gritam todos, desembaraçai-nos! vós estais aqui, o navio não pode perder-se!
No mesmo instante, um golpe de vento eleva a quilha, o navio sobe, e volta a flutuar por si mesmo... Estava salvo!
No estreito de Ceilão, um novo perigo mais aterrador se apresenta ainda. A embarcação choca contra um rochedo, o leme foi arrebatado, o navio fica encalhado, e não se compreende como ele se não reduziu a pedaços pela violência do choquei Corta-se a mastreação, procura-se aligeirar o peso, vão-se lançar as mercadorias ao mar.
- Não! não! o santo Padre há de nos salvar! dizem os passageiros cheios de confiança no precioso tesouro que possuem.
O capitão faz conduzir para a ponte a uma do apóstolo das Índias; todos caem de joelhos à roda daquele protetor tão querido; falam-lhe como quando ele se achava cheio de vida e que com uma palavra ou sinal aplacava as tempestades. Um ruído terrível se deixou imediatamente ouvir, o Santa-Ana deslisa-se ligeiramente entre dois rochedos e sai ao largo. O rochedo acabava de se abrir para o desencalhar! Chegam, finalmente, ao ancoradouro de Cochim. 
A nau Santa-Ana, ao chegar em Goa, abriu-se por si mesma, logo que terminou o desembarque dos passageiros e das mercadorias, e submergiu-se nas águas de Goa, sem que ficasse o menor fragmento!...

63 - cura da doente ao ver o caixão de Xavier (porto de Baticala, chegando a Goa)
A esposa de Antônio Rodrigues, oficial do rei, doente desde muito tempo, assegura que ficará curada se a levarem para o navio, para junto do caixão venerado. Cedem às suas instâncias, e ela recupera a saúde. 

64 - conservação das vestes alvas mesmo depois de sepultado duas vezes
A sobrepeliz que revestia o santo corpo, conquanto tivesse estado enterrado perto de três meses em cal viva conservava uma alvura admirável; estava tão perfeitamente conservada que Melchior teve desde aquele momento a idéia de a reservar para dela se revestir quando fosse apresentar-se ao imperador do Japão.

O rosto de Xavier estava coberto; as mãos estavam cruzadas sobre o peito; a cor da fita que as trazia ligadas estava tão viva como se naquele momento saísse das mãos do obreiro; seus pés estavam calçados com sandálias. 

65 - cura de uma jovem em agonia de morte, no momento da procissão do corpo
Uma pobre mãe, cuja filha estava nas agonias da morte, abre a janela no momento em que o cortejo passava por diante de sua casa, chama. em altos gritos o santo Padre suplicando-lhe que não passe sem curar sua filha, que vai morrer, e o santo Padre atende-a e restitui-lhe a filha, que se levanta cheia de saúde.

66 - inúmeros milagres na chegada a Goa, Veneração pública do corpo (1553)
Melchior Nunes não pôde resistir às suas instâncias. Fez colocar uma barreira à entrada da capela-mor, e cada um pôde ver o corpo sem dele se aproximar. Todos estavam comovidos de surpresa e admiração, reconhecendo as suas feições: "E contudo, diziam eles, já lá vão seis meses que ele morreu! É isto crível?"
Apenas eles saíram da igreja, toda a cidade foi sabedora do prodígio de que haviam sido testemunhas, e uma grande multidão se dirigiu para a nossa casa com uma brevidade e um interesse inexprimíveis; era uma massa prodigiosa de assaltantes à qual foi impossível resistir. Durante quatro dias e quatro - noites a igreja esteve constantemente cheia. Aqueles que o tinham já visto queriam tornar a vê-lo ainda, e depois ainda outra vez!         
Os quatro dias concedidos pelo Padre provincial, às solicitações dos habitantes de Goa fizeram a glória do apóstolo do Oriente, mesmo além do que se esperava. Desde logo os doentes que se haviam feito conduzir para as ruas do trânsito no dia da sua entrada triunfal naquela cidade, que lhe fora tão querida, tinham todos recobrado milagrosamente a saúde.
Colocaram o corpo em ponto elevado e em posição tal que o povo o pudesse contemplar de todos os lados da igreja, o que impedia a desordem e satisfazia completamente a multidão. Concorriam de todos os pontos da cidade e das circunvizinhanças os doentes e achacados, e todos voltavam curados! Os paralíticos andavam, os cegos viam, e isto parecia mostrar que o santo Padre nada podia recusar aos seus filhos de Goa! A exaltação do amor e do reconhecimento, subiu a tal ponto entre os fiéis que haviam merecido aquela abundância de graças e bênçãos, que até os leprosos puderam vir misturar-se na multidão e pedir ao seu arnado Padre que se recordasse dos ternos cuidados e das carícias paternais que ele lhes prodigalizava durante a sua vida! Ninguém se lembrou de os afastar, nem de se afastar deles. Pelo contrário, todos lhe davam ânimo, dizendo:
"Ide, o santo Padre vos curará! ele curou tanta gente!"
E os leprosos viam desaparecer a sua lepra!


CULTO - OUTROS MILAGRES         

Lisboa, 28 de Março de 1556.

Vice-rei, meu amigo.
A vida e as ações maravilhosas de Francisco Xavier têm sido tão admiráveis, que a sua publicação deve necessariamente resultar em glória de Deus Nosso Senhor.
Eu vos mando, por isso, que façais ouvir as testemunhas em toda a parte onde elas estejam; que procedais a um inquérito sobre todos os atos prodigiosos daquele homem extraordinário, sobre todos os feitos sobrehumanos por ele praticados, sobre todos os prodígios que Deus operou pelo seu ministério ou às suas orações, quer seja durante a sua vida ou depois da sua morte..
Fareis lavrar atas autênticas cujos originais me enviareis. Fareis inscrever todos os factos e todos os inquéritos, dia por dia, com suas datas, nos registos públicos. Este inquérito deverá ser feito por tal modo, que todo o homem que tenha conhecido as particularidades da urda, das ações, dos hábitos de Francisco Xavier, nos países que ele percorreu responda, em consciência e sob a fé de juramento, às perguntas que lhes forem dirigidas.
Vós me fareis uma dupla remessa deste inquérito, firmado com a vossa assinatura e do auditor geral, em número de três cópias, por três vias diferentes. Com isto muito me obsequiareis.
Vice-rei, meu amigo, envio-vos muito saudar.
Eu, O Rei.     
Não era coisa muito fácil satisfazer aquele desejo, ou antes obedecer àquela vontade de D. João III. Todos os povos indianos se indignaram só com a idéia deste inquérito; era, no seu entender, levantar dúvidas sobre a santidade do seu santo Padre, e nada havia que pudesse feri-los mais viva e profundamente..
Já os Paravás, na costa da Pescaria, não consultando mais que a sua elevada devoção pelo seu grande Padre tão querido, tinham erigido uma igreja em sua honra, não obstante as representações dos Padres da Companhia. Concorriam em multidão a render-lhe homenagem naquela igreja onde haviam colocado uma imagem sua, e o santo apóstolo, sempre cheio de ternura pelos seus primeiros filhos indianos, concedia-lhes tantas graças, que os milagres não se contavam já; aquela igreja veio a ser a peregrinação mais célebre.
O rei de Travancor, persuadido de que o grande Xavier fosse um Deus, fez-lhe levantar um templo que excedia em magnificência a todos os outros que ele havia erigido em honra de Mahomet, cuja lei seguia.
Sobre a costa do Comorim, os muçulmanos haviam-lhe também consagrado uma mesquita. Todos os infiéis das Índias não o chamavam senão o Deus, o senhor do céu, da terra e dos mares. As imagens do apóstolo do Oriente existiam já em toda a parte, e em toda a parte elas faziam prodígios. O próprio arcebispo de Goa trazia uma ao pescoço e obteve do nosso Santo a cura de uma doença tida então como incurável.
Francisco Nunes, vigário geral de Coulão, num relatório sobre os milagres operados na área da sua jurisdição, diz que foi obrigado a abrir um poço para dar de beber aos peregrinos que concorriam de toda a parte à igreja que a cidade de Coulão fizera erigir em sua honra. Acrescenta que as igrejas do país, dedicadas a outros santos, perdiam a sua invocação se nela se colocasse a imagem do apóstolo das Índias. Para todo aquele povo passava Padre ou do santo Padre.
Os pagãos tinham por uso jurar tocando um objecto de ferro em brasa, para atestar a verdade do seu testemunho. Depois da morte de Xavier, não juravam senão pelo seu nome, a ser desde logo a igreja do grande e muitas vezes Deus não quis permitir que se mentisse impunemente invocando o nome do grande apóstolo.
Um pagão devedor duma soma considerável a um cristão, nega a sua divida; supunha ele que nada tinha a recear, pois que não existia prova alguma e nem mesmo testemunhas do empréstimo. O credor obrigou-ó, em presença de testemunhas, a jurar pelo santo Padre Francisco que ele lhe não devia nada; o idólatra jura, e, logo que entra em sua casa, é atacado duma espécie de frenesi, no meio do qual vomita todo o seu salgue, e morre proferindo palavras de raiva que causam admiração e horror naqueles que inutilmente buscavam socorrê-lo.
Os japoneses não testemunhavam menos confiança na santidade do ilustre Xavier. A casa em que ele residira em Amanguchi era tida como um lugar santificado pela sua presença; iam aí invocá-lo, pedir-lhe graças extraordinárias, e obtinham uma infinidade de milagres.
Em Saxuma, os cristãos conservavam com veneração uma pedra sobre a qual ele pregara muitas vezes, e a mostravam, com santo orgulho, como o seu mais precioso tesouro. O rei de Ficando, escrevia, em 1554, ao Padre Melchior Nunes, provincial da Companhia de Jesus nas Índias:
"Padre Bonzo Cristão,
O grande e célebre bonzo Francisco Xavier veio, há-de haver quatro anos, aos meus estados; ele converteu um grande número de meus vassalos à religião de um só Deus, e eu regozijei-me com isso; eu protejo-os contra o ódio dos bonzos de Chaca e de Amida.
O bonzo cristão, que está em Funai, veio duas vezes á minha côrte; ele baptizou muitos dos meus parentes e grandes do meu reino; eu ouvi a sua doutrina, e satisfêz-me muito; ela tocou o meu coração, e eu quero obedecer-lhe e ser cristão; é por isso que as portas do meu palácio se abrirão para vós, se quiserdes satisfazer ao grande desejo que tenho de vos ver.
Eu menti outrora, mas não mentirei mais. Se vierdes ver-me, fareis uma coisa muito agradável ao Deus único dos cristãos que é o verdadeiro, e a vossa vinda encherá de regozijo o meu coração".      
O rei de Cangoxima, que S. Francisco Xavier não conseguira converter, encantado da submissão e das virtudes dos cristãos dos seus estados, escrevia também ao Padre provincial pedindo-lhe padres da sua Companhia, e dizia-lhe:
            "Antes que os vossos santos mistérios fossem ensinados no meu reino, nós consumíamo-nos queimados por um ar de fogo, e os vossos bonzos foram como ventiladores que refrescaram os corações dos mortais".        
Para os habitantes de Cangoxima, o grande Xavier era o ventilador celeste.
O Padre Luís de Almeida escrevia à Companhia de Jesus, que na sua passagem pela fortaleza do príncipe Hexandono, onde Xavier havia convertido um tão grande número de pessoas por meio de uma só pregação, encontrou a mais viva fé em todos aqueles que tinham recebido o batismo da sua mão.
A princesa operava numerosos milagres por meio do pequeno livro de orações que ele lhe deixara, e o intendente obtivera igualmente muitos por 'meio da sua disciplina.
Dirigiram sobre isto um grande número de perguntas ao Padre Almeida que retiveram por quinze dias na fortaleza para dele receberem os socorros religiosos de que se achavam privados.
O rei de Bungo, que tão ternamente amara o santo apóstolo do Japão, mas que não tinha tido a coragem de sacrificar as suas paixões por uma religião que ele reconhecia como única verdadeira, experimentou o efeito da proteção do nosso Santo; converteu-se sinceramente, fez lançar ao mar os ídolos que conservava até então no seu palácio, entregou-se aos exercícios da penitência, e foi finalmente baptizado pelo Padre Cabral.
Em memória do Santo que ele tanto prezara e admirara, e a quem se sentia agradecido pela sua conversão, quis tomar no batismo o nome de Francisco, ao qual ajuntou, para sua maior satisfação, o de Xavier. Dois meses depois do seu batismo, teve guerras a sustentar; foi vencido, destronado e despojado, mas coisa alguma enfraqueceu a sua fé. Respondia àqueles que atribuíam à sua mudança de religião os reveses que sofrera:
Eu fiz voto de viver e morrer cristão; pouco me importa a perda do meu reino! Uma só perda me seria horrível: a da fé! Quanto a mim, empenho-me tanto em a conservar, que desprezo tudo o mais! E quando eu visse o Japão, a Europa, os Padres da Companhia de Jesus e o próprio Papa renunciar a fé em Jesus Cristo, eu a não renunciaria! Se fosse necessário dar a minha vida, não hesitaria, com a graça de Deus, em a dar de todo o coração".
As suas disposições foram abençoadas; recobrou os seus estados e o seu poder, e solicitou com grande interesse a canonização do seu santo amigo, de acordo com os reis de Arima, de Omura e outros soberanos do Japão.
O Grão-Mogol Akebar, maravilhado da fama estrondosa dos milagres operados na Ásia pelo apóstolo do Oriente, despacha um embaixador a Goa para pedir padres da Companhia do grande Xavier, a fim de explicar a doutrina dum Deus pelo qual se operam tais prodígios.
O embaixador solicita também, para si, o favor de ver o corpo do célebre santo Padre das Índias, e não se atreveu a aproximar-se daqueles restos mortais antes de ter tirado os sapatos. Todas as pessoas da sua numerosa comitiva o imitaram, e viu-se todos aqueles muçulmanos prostrarem-se muitas vezes, até tocarem com a fronte o pavimento da igreja, antes que se permitissem a honra de dirigir os seus olhares para o corpo dum Santo cujo poder era superior ao do seu profeta.
Os navios que passavam à vista da ilha de Sancião, prestavam homenagem, salvando com toda a sua artilharia, ao lugar em que o grande Xavier tinha deixado a terra, e onde o seu corpo se conservara perto de três meses, privado das honras que lhe eram devidas.
Os portugueses aí fizeram erigir uma capela que posteriormente foi saqueada e destruída pelos piratas, e de que não existem senão ruínas.
Até na Africa o nome de Francisco Xavier era venerado como o do homem mais extraordinário e mais maravilhoso.
Será, pois, para admirar, depois de tudo isto, que os índios, os japoneses e todos os povos que a poderosa palavra do grande conquistador da Igreja havia convertido ao Cristianismo, se ofendessem pelos processos empregados para dar aos seus milagres a autenticidade exigida para a canonização dos santos? Supunham aqueles bons índios que era bastante abrir-se os olhos e olhar em torno de si, pois que os milagres brilhavam em toda a parte.
Achando-se o navio de Bento Coelho a caminho de Malaca para Cantão, adoeceram gravemente, atacados de perigosa enfermidade, alguns passageiros; eles pedem ao capitão que toque em Sancião e que os faça conduzir ao sítio do prado em que o santo Padre fora sepultado. O capitão cede àquele piedoso desejo; os doentes deitam sobre as suas cabeças uma pequena porção daquela terra que a presença do corpo venerando santificara, e no mesmo instante todos recobram a saúde.
O navio do Capitão Manuel da Silva fez-se à vela para o porto de Cochim, seguindo a derrota de Bengala. No meio dc golfo foi acometido por uma tempestade que o forçou a cortar a mastreação e a lançar ao mar o seu carregamento muito precioso. Todas estas medidas desesperadas não podem salvar o navio, o naufrágio é inevitável... Chamam em grandes gritos o santo Padre que tantas vezes acalmara o furor do mar... No mesmo momento uma terrível onda semelhando uma montanha, que ia cair sobre o navio e submergi-lo, recua e desaparece ao nome de Xavier!
As contas do rosário do nosso santo foram suficientes para operar maravilhas, assim como os rotos pedaços do seu pobre vestuário, que se tinha dividido com a mais notável parcimônia; eram apenas alguns fios, mas era bastante.
As cruzes que ele tinha colocado por suas próprias mãos nos lugares mais elevados, estavam cheias de ofertas ex-voto, não somente dos cristãos, mas também dos pagãos e muçulmanos, em reconhecimento dos favores obtidos por sua intercessão.
A cruz de Cotate, na qual estava a imagem do grande Padre, tornou-se uma das mais célebres pela cura imediata dos doentes que se faziam conduzir para junto dela. Um paralítico encontrara o movimento, um cego recuperara a vista, os prodígios multiplicavam-se todos os dias, e foi preciso tirarem-se cópias da imagem milagrosa que todos queriam possuir.
Gaspar Gonçalves, orgulhoso por possuir uma daquelas cópias que levava de Cotate, chega a Cochim, às onze horas da noite. A meia noite o fogo apoderava-se da casa vizinha à sua, morada de Cristóvão de Miranda. As habitações eram geralmente construídas de madeira e cobertas de folhas de palmeira: num instante o incêndio apresenta imensas chamas. A filha do Miranda perecera naquela fornalha; os habitantes da casa vizinha tinham lançado precipitadamente pelas janelas os móveis, a roupa, tudo quanto puderam salvar por este modo, e cada um se ocupava da sua segurança pessoal, quando Gaspar Gonçalves se lembra do tesouro que possue.
Lança-se de joelhos com todos os moradores da casa, chama o santo Padre em seu auxilio e apresenta às chamas a imagem daquele que não cessa de espalhar as graças do Céu sobre os que o invocam com confiança. No mesmo momento as chamas abatem-se, o fogo extingue-se, a cidade fica salva dum incêndio geral e inevitável!
Uma piedosa viúva, Lúcia de Velanzan, nascida na China, tinha habitado Malaca onde tivera a felicidade de ser dirigida por Francisco Xavier; posteriormente habitava Cochim, e tendo uma viva fé nos méritos do santo apóstolo, obtinha admiráveis maravilhas por meio duma pequena medalha tocada na sua imagem. Fazia o sinal da cruz com aquela medalha sobre os doentes que lhe levavam, dizendo-lhe: "Em nome de Jesus e do santo Padre Francisco, a saúde vos seja restituída!"
Gonçalo Rodrigues tinha, havia muitos meses, um abcesso junto do coração; não obstante os remédios empregados, aquele abcesso tomara todos os caracteres dum cancro e fazia-o sofrer todos os efeitos dolorosos. Vai procurar Lúcia, ajoelha-se diante dela, pedindo-lhe que o cure com a medalha do santo Padre, e Lúcia tendo feito o sinal da cruz três vezes sobre a parte ulcerada, a chaga desapareceu imediatamente.
Maria Dias era cega e paralítica de todo o lado direito, desde a cabeça até aos pés. Transporta-se para casa de Lúcia que a deixa em sua companhia e lhe aplica todos os dias sobre o lado paralítico uma compressa embebida em água na qual havia banhado a medalha milagrosa. Ao sétimo dia vendo a paralisia curada, Lúcia faz o sinal da cruz coxas a medalha sobre os olhos de Maria, a quem a vista é restituída no mesmo momento e vai imediatamente à igreja da Companhia de Jesus agradecer ao seu benfeitor.
Manuel Fernandes Figueiredo foi curado pelo mesmo meio de horrorosas úlceras nas pernas, de uma disenteria julgada mortal. Por toda a parte, finalmente, os milagres eram inumeráveis.
Ao mesmo tempo, muitas predições do ilustre Xavier se cumpriram literalmente.
A nau Santa-Cruz, depois de ter sulcado os mares durante vinte e dois anos, e ter sido vendida muitas vezes, sempre muito acima do seu valor, por causa da palavra profética do grande apóstolo, a Santa-Crus deixara um dia o porto de Malaca, e segundo o costume, ia bem carregada. Mal tinha levantado ferro, e o navio vai a submergir-se, faz água, é forçado a voltar ao porto, e pede-se aos capitães que se fazem à vela. para o mesmo destino que levem uma parte das suas mercadorias. Ouve-se então um grito de indignação da praia e dos navios ancorados.
"Então! Vós temeis ir a pique! Não sabeis que o santo Padre nunca Se enganou! A Santa-Cruz não se perderá no mar, ele o disse, portanto é verdade! É necessário que tenhais bem pouca fé! Não vêdes os milagres que ele faz todos os dias e em toda a parte? Vós ofendeis a Deus e ao santo Padre! Tornai a partir sem perda de tempo e nada temais."
E a Santa Cruz voltando ao mar não faz mais água, e chega a salvamento a Cochim.
25_galeon_GA reputação deste navio deu-lhe o nome de Navio do santo Padre, e em todos os portos do Oriente, logo que ele chegava, todos os navio s ancorados o saudavam com a sua artilharia.
Depois de ter sido comprado pelo comandante da fortaleza de Diu, o navio do santo Padre fez muitas viagens, mas o capitão, julgando-o um dia em mau estado, manda-o a Cochim para aí ser reparado. Fazem-no entrar na doca de conserto. Apenas aí chega abre-se por si mesmo; todas as peças se deslocam, e não resta daquele grande casco, que caía de velhice, senão vigas e pranchas absolutamente inúteis.
A população de Cochim dirigia-se em massa para o porto à notícia de que a Santa-Cruz viera para ser reparada; toda a cidade conhece a predição de Xavier e sabia que este navio tinha sido construído em Cochim; todo o povo foi, pois, testemunha do seu fim.
O capitão Jorge Nunes apossou-se de uma tábua que fez aplicar à sua fragata, convicto de que este destroço conservara uma virtude que a garantisse dos perigos do mar. Parecia-lhe impossível que aquele fragmento dum navio no qual o grande apóstolo viajara durante a sua vida e depois de morte, não fosse o melhor preservativo contra todo o perigo. A sua confiança foi abençoada. Ele empreendeu as mais perigosas travessias por tempestuosos tempos e respondeu sempre aos conselhos da prudência humana:
"A minha fragata leva a prancha do santo Padre: é a prancha da salvação, ela me salvará de todo o perigo".
Com efeito, a fragata, depois de ter resistido aos mais grossos tempos, às mais violentas tempestades, desfez-se por si mesma, como a Santa-Cruz, no porto, de Coulão, onde devia ser reparada.
Pedro Velho, mercador português, habitante de Malaca, e a quem o nosso Santo tinha predito em Sancião que morreria na manhã do dia seguinte em que achasse o vinho amargo, ocupava-se mais, desde aquele momento, dos interesses da sua alma que dos do seu negócio. Vivia em exercício de penitência e de caridade, não obstante a sua posição no mundo, e chegara assim a uma extrema velhice, sem nada perder da sua jovialidade natural, mas sem esquecer a predição do seu bem-aventurado amigo.
Um dia, estando à mesa com muitos convivas, acha o vinho amargo e pergunta aos que o cercam se eles lhe sentem o mesmo gosto; todos respondem que o vinho é excelente.
Pedro Velho, querendo certificar-se se a delicadeza não entrara na afirmação dos seus amigos, faz servir-se doutro vinho e acha-lhe igual amargor. Não lhe resta mais dúvida, a sua última hora é chegada. Faz interior ente a Deus o sacrifício da sua vida e depois comunica aos seus convidados a predição do Padre Xavier.
Terminada a refeição ocupa-se dos arranjos do seu negócio, distribui a sua fortuna pelos pobres, vai seus amigos, pede-lhes as suas orações, convida-os para o seu enterro e faz preparar os seus funerais.
Na manhã do dia seguinte assiste ao santo sacrifício da missa, que era oferecido por sua intenção, e ali comunga como viático...
No fim da Missa estava morto...


04 - INCORRUPÇÃO DO CORPO DO SANTO - CULTO - MAIS MILAGRES         

Até então o corpo de S. Francisco Xavier conservava todas as aparências de vida. Tinha a mesma frescura, as mesmas cores, a mesma flexibilidade dum corpo vivo, sendo de admirar aquela maravilha.
D. Dias Carvalho tinha conhecido intimamente o Santo apóstolo e viajado muitas vezes em sua companhia. Vem a Goa para o ver, muitos anos depois da sua morte, e arrebatado de espanto e admiração, exclama:
"Mas ele vive! que frescura! que cores! É ele! ... está, vivo!"
O vigário geral de Goa, D. Ambrósio da Ribeira, aplica um dedo sobre a ferida feita ao santo corpo em Malaca... O sangue corre ao contacto do dedo, e sai também dela água. Este prodígio renova-se ao contacto do dedo de um Irmão da Companhia de Jesus.
Expõe-se um dia o santo corpo à veneração empenhada dos fiéis de Goa. Uma mulher beija-lhe os pés, e esperando não ser vista arranca um fragmento de carne com os dentes e leva-o misteriosamente, considerando-se feliz por possuir aquela preciosa relíquia...
Ficheiro:Reliquary of St. Francis Xavier's humerus.jpgMas o sangue corre na presença de testemunhas. Era sangue puro, rico e belo!... São chamados os médicos, que certificam o milagre e atestam que é, a seus olhos, o maior dos prodígios.
Em 1812, o Padre Aquaviva, Geral da Companhia de Jesus, pede à casa de Goa que envie a Roma o braço direito de S. Francisco Xavier. Este braço, que havia operado tão grandes prodígios, produziu então um novo e mais admirável ainda.
O corpo foi encontrado com a mesma frescura, a mesma flexibilidade e as mesmas cores, como as de um homem vivo; corta-se o braço pedido pelo superior geral e o sangue corre com tanta abundância como se o corpo estivesse cheio de vida! Embebem-se nele panos que os Padres de Goa enviaram a Filipe IV, rei de Espanha, e recolhe-se em um frasco que se remete com a mão à Casa de Roma.  O braço foi dividido entre os colégios de Cochim, de Malaca e de Macau...  
O navio que conduzia aquela santa relíquia para a Europa foi encontrado e perseguido pelos corsários; ia ser presa deles quando o capitão exclama:
"Leve-se o braço do santo Padre ao cesto da gávea! Ele porá os piratas em fuga".
A ordem é executada; os piratas viram de bordo, afastam-se a todo o pano e não tornam a aparecer mais.
A corte de Roma, solicitada pelos soberanos do Japão e pelo rei de Portugal, para proceder à canonização de Francisco Xavier, examinou o seu processo, reconheceu vinte e quatro ressurreições juridicamente provadas, e oitenta e oito milagres admiráveis operados durante a vida do ilustre Santo. Uma bula do Papa Paulo V, datada de 25 de Outubro de 1619, declara-o bem-aventurado.
Foi canonizado por Gregório XV, a 12 de Março de 1622, com todas as cerimônias ordinárias, porém a sua morte retardou a publicação da bula, que foi dada por Urbano VIII, seu sucessor, com a data de 6 de Agosto de 1623.
Aquela bula faz menção da maior parte dos milagres que aqui mencionamos, e acrescenta que um cego tendo invocado o apóstolo das Índias, Xavier, aparecendo-lhe, disse-lhe que solicitasse a cura da sua enfermidade durante nove dias seguidos e prometeu-lhe que a obteria com esta condição. O cego obedeceu e recobrou a vista ao nono dia.
Cita ainda um leproso que tendo-se servido, como de um linimento, do óleo da lâmpada que ardia junto do corpo do Santo, a sua lepra desaparecera.
Finalmente a mesma bula menciona que as lâmpadas colocadas diante da imagem do santo apóstolo em Colate, ardiam muita vezes com água benta tão bem como com óleo; e que aquele milagre convertia um grande número de pagãos.
Em 1670, por um decreto de 14 de junho, o Papa Clemente X fixou a festa de S. Francisco Xavier em 3 de Dezembro, e ordenou, pelo mesmo decreto, que o seu ofício seria do rito duplex para toda a Igreja.
Poucos anos antes, alguns índios tinham feito uma preciosa descoberta: tinham tornado a achar, no alto mar, um caranguejo duma espécie desconhecida, trazendo uma cruz latina sobre a concha, e tendo barbatanas nos pés trazeiros, o que nunca se tinha visto até então. Ficaram admirados do maravilhoso crustáceo, e empenhavam-se em fazê-lo conhecer com o nome de caranguejo de S. Francisco Xavier; porque estes bons índios estavam persuadidos que ele provinha daquele que a divina Providência se servira para fazer restituir ao santo Apóstolo do Oriente o crucifixo caído no mar das Molucas.
O conhecimento desta descoberta transmitiu-se muito longe, e o sábio Padre Kircher, da Companhia de Jesus, na sua China Ilustrada, publicada em 1667, menciona como novidade, a aparição deste caranguejo, de que, acrescenta ele, não se tinha ouvido falar até ali.
Mais tarde, no começo do século XVIII, um governador, de Pondichéry, pedia a um capitão que se ia fazer à vela para as Molucas, que fosse de Ambóino a Baranura, e que lhe trouxesse alguns caranguejos daquelas paragens a fim de os conservar em memória daquele que havia restituído o crucifixo de S. Francisco Xavier do fundo do mesmo mar.
Não era para si que o governador pedia, mas para um amigo que desejava possuí-lo, o que lhe parecia dever ser uma espécie de relíquia do nosso Santo.
O capitão fez procurar caranguejos desde Ambóino até Baranura, mas em vão; como são, de ordinário, tão comuns em todos os mares, os marinheiros da equipagem não podiam explicar a sua completa ausência em todo o percurso que exploraram com tanta atenção.
Finalmente encontraram um, um só, e este trazia uma cruz sobre a concha! Era o primeiro daquela espécie que se tinha visto naquelas paragens, e foi o único que se pôde levar ao governador porque, não obstante todas as pesquisas, não se puderam encontrar outros de espécie alguma. Este único que foi dado pelo governador ao seu amigo e transmitido aos herdeiros deste, foi levado a França e tivemos ocasião de o ver e admirar. Ele difere daquele que os índios chamam "caranguejo de S. Francisco Xavier".
Neste, cujo desenho vimos, nota-se ao pé da cruz, que parece sair de um pedestal, dois personagens envolvidos em mantos árabes; todas as formas são bem pronunciadas: é um homem de um lado, uma mulher do outro; adivinha-se, sente-se a Santíssima Virgem e São João.
Aquela espécie só se encontra em pleno mar e mui raras vezes; quando o índio tem a felicidade de encontrar um daqueles caranguejos, apossa-se dele e conserva-o com grande respeito, porque é o caranguejo de S. Francisco Xavier.
O único que foi encontrado no mar das Molucas, há-de haver século e meio, traz também a cruz latina perfeitamente formada, porém não tem a figura das personagens à direita e à esquerda. O que o distingue é a forma de três pregos em relevo, por baixo da cruz e veias brancas dos dois lados, cuja disposição sobre o fundo rosado, produz para muitos, à primeira vista, o efeito de três letras I. H. S. formadas pelo fundo e não pelas veias; a cruz parece sair da letra H e esta letra está riscada por uma linha transversal de pontos em relevo.
Como se explica que seja este o único encontrado até hoje com caracteres tão notáveis? Não se pode supor, tendo em vista a longevidade bem conhecida desses crustáceos, que talvez fosse este o próprio instrumento do milagre, instrumento providencialmente encontrado e conservado, e do qual descende a espécie tão rara, à qual os índios deram o nome do ilustre apóstolo do Oriente?
Depois da morte do nosso Santo, o número das ressurreições obtidas pela invocação dos seus méritos, - reconhecidas pela corte de Roma, juntos os processos da canonização, antes e depois da publicação da bula, - elevava-se, em 1715, à enorme cifra de vinte e sete, das quais quatorze haviam sido obtidas pouco antes.
Nesta época, em 1715, o arcebispo de Malaca certificou oitocentos milagres somente na sua diocese. Naquela cidade de Malaca, onde o grande apóstolo operara tantas maravilhas, não restam outras recordações da sua passagem e de seus magníficos trabalhos, senão as ruínas da sua morada!
Próximo do templo dos protestantes, mesmo no meio do seu cemitério, mostra-se ao estrangeiro um montão de pedras, e diz-se-lhe que foi ali a capela onde S. Francisco Xavier celebrava todos os dias os santos mistérios!... Os pastores ingleses obtiveram este resultado!
Mas não tiveram igual sucesso na costa da Pescaria com os Paravás, que consideram ainda como título de glória o descenderem daqueles que foram baptizados ou evangelizados pelo grande Padre Francisco Xavier. Os missionários reconheceram que a fé se conservara entre eles mais pura e mais ardente do que entre os outros povos indianos.
Quando os holandeses se tornaram senhores da costa da Pescaria, apossaram-se das igrejas e os missionários foram obrigados a ocultarem-se nas florestas. Ali continuavam eles a exercer o seu santo ministério, e os bons Paravás iam todos os domingos para junto deles, assistiam ao santo sacrifício da Missa, e recebiam a instrução que os devia fortificar contra a doutrina dos herejes.
Os vencedores, vendo-se repelidos com perda todas as vezes que tentavam ganhar os índios para a sua religião, fizeram vir de Batávia um ministro protestante, bem certos de que os Paravás não resistiriam à sua eloqüência. O ministro provoca à discussão um chefe da casta e esforça-se por lhe fazer compreender e apreciar todas as vantagens da religião protestante. O chefe dos Paravás escuta-o tranqüilamente até ao fim sem lhe opor uma única palavra, e quando o eloqüente ministro, fatigado de falar, terminou o seu discurso e perguntou ao seu ouvinte o que pensava do seu raciocínio, este respondeu-lhe
"A fé que nós professamos foi-nos pregada pelo grande Padre Francisco Xavier que operava tantos milagres quantas palavras proferia. Se vós quereis fazer-nos crer a vossa doutrina, provai-nos que ela é melhor que a sua, fazendo maior número de milagres do que ele fez.
Ele ressuscitou cinco ou seis mortos nesta costa; ressuscitai doze.
Ele curava muitos dos nossos doentes; curai-os todos. Quando tiverdes feito isto, nós nos resolveremos".
O ministro, conhecendo que perdia o seu tempo com tais homens tornou a embarcar a toda a pressa.
Em Cotate, onde os milagres do apóstolo das Índias continuavam na proporção da fé e da confiança dos peregrinos, deu-se um fato bem notável no dia da sua festa, 3 de Dezembro do ano de 1699, e que encontramos numa carta do P. Martin, datada de junho de 1700. Este missionário achava-se em Cotate na ocasião do acontecimento.
Todo o povo da costa da Pescara e da de Travancor tinha concorrido em peregrinação à igreja daquela cidade para a festa do grande Padre. Os idólatras e os maometanos concorriam também com zelo igual ao dos cristãos, porque a devoção pelo apóstolo do Oriente, é comum nas Índias a todas as religiões.
Um pagão, cujo único filho estava ameaçado de perder a vista, havia prometido ao grande Padre, se ele curasse o seu filho, dar oito fanons (Moeda da índia), à sua igreja de Cotate. A criança ficou curada, e o pai reuniu-se à multidão dos peregrinos para agradecer ao Santo e fazer-lhe a sua oferta.
Quando saía da igreja, com seu filho nos braços, nota que seus olhos estão num estado mais perigoso do que antes da cura; a criança nada via! O infeliz pai entra na igreja, grita que pecou, que merece a punição que o grande Padre lhe inflige, porque tendo prometido oito fanons só dera cinco. Apressa-se em juntar três outros, tira óleo da lâmpada do Santo e- fricciona com ele os olhos da criança...
O mal desaparece imediatamente. A multidão imensa que enchia a igreja foi testemunha daquele duplo milagre.
Xavier é olhado pelos pagãos como sua divindade mais propícia, e é incrível quantas graças eles obtêm.
O P. Martin, durante a sua permanência em Cotate, foi testemunha de um outro facto não menos extraordinário que o precedente.
Aqueles povos costumam associar-se em número de quinhentos até mil. Cada um dos associados deposita todos os meses numa bolsa comum um fanon. Quando a soma se eleva a uma cifra conveniente, reúnem-se, cada associado escreve o seu nome num bilhete, os bilhetes são lançados numa uma e depois de contados uma criança mete a mão dentro, tira um deles e aquele cujo nome sai primeiro recebe a soma total.
Num dos primeiros dias de Dezembro de 1699, um pagão entra na igreja de Cotate, e diz em alta voz ao nosso Santo
"Grande Padre, eu estou associado em duas lotarias; se vós me fazeis ganhar a primeira, dar-vos-ei cinco fanas; eu valo-prometo".
Feito isto, o pagão satisfeito com a sua boa idéia e bem certo de ganhar, pois que havia prometido uma parte ao grande Padre, dirige-se à reunião e anuncia antecipadamente que o seu nome sairá... E sai, com efeito, no meio da alegria de todos os associados.
O feliz sorteado corre à igreja, deposita os cinco fanons, agradece ao grande Padre, e lhe promete dobrar aquela soma se lhe faz ganhar a segunda lotaria. Volta para a praça, anuncia que novamente vai ser proclamado, e o seu nome aparece ainda no primeiro bilhete saído da uma, não obstante todos os meios empregados para evitar qualquer trapaça!
A igreja de Cotate está edificada sobre o mesmo terreno da cabana para onde S. Francisco Xavier se retirava, às tardes, depois de ter passado o dia todo a pregar, a confessar e a baptizar.
A tradição do país refere que tendo os pagãos incendiado a cabana uma noite, enquanto ele estava em oração, ficou ela reduzida a cinzas, mas o Santo foi encontrado em êxtase sem a menor queimadura; até os seus vestidos haviam sido respeitados pelas chamas, e ele só teve conhecimento do ocorrido quando viu os estragos do fogo.
Os cristãos, em memória deste milagre erigiram uma cruz no lugar onde ele se havia operado; aquela cruz veio a ser objecto duma peregrinação célebre onde se obtinham tantos favores, que uma igreja foi ali levantada logo depois da canonização do ilustre apóstolo.
Em Negapatão vê-se unia pequena igreja que os habitantes asseguram estar situada no mesmo lugar onde ele pregava.
Em 1832, indo o R. P. Moré a Calcutá, tocou na costa de Comorim; os Paravás, a quem ele disse ser Irmão do seu grande Padre Francisco Xavier, cercam-no imediatamente e lhe suplicaram com lágrimas que ficasse com eles, prometendo respeita-lo e obedecer-lhe. O grande nome de Xavier é ainda tido como todo-poderoso naqueles povos.
Não era só nas Índias e no Japão que este nome se invocava com respeito extraordinário; em todas as partes do mundo o Santo correspondia por meio de graças aos que imploravam a sua proteção.
O Padre de Arce, de origem espanhola, ensinava filosofia havia trinta anos no' colégio de Córdova de Tacamant. Foi atacado de uma moléstia mortal, os progressos são rápidos; resigna-se de todo o coração e faz o sacrifício da sua vida. O mal chegara ao maior perigo, quando, possuído duma grande inspiração para lhes resistir invoca a grande glória da Companhia de Jesus, Francisco Xavier, e lhe promete votar-se de todo à salvação dos índios se a saúde lhe fosse restituída.
No mesmo momento o Padre Arce acha-se livre de todo o sofrimento; estava curado contra toda a esperança, e tão subitamente que reconhecendo o milagre os seus superiores permitiram-lhe deixar o ensino pelas missões. Vai para os ferozes "chiquitos", e aí funda uma missão à qual dá o nome de S. Francisco Xavier, que conserva ainda, e em 1715 encontra no meio de seus trabalhos apostólicos, a palma gloriosa do martírio.
Num dos frequentes tremores de terra de Santiago, capital do Chile, o palácio episcopal foi derrubado. O arcebispo, D. Gaspar de Vilarcelo, ficou envolvido nas ruínas; mas ele tinha invocado o grande apóstolo das Índias Orientais no momento do desmoronamento, prometendo-lhe fazer qualquer coisa por sua glória se o preservasse daquela morte inevitável.
O piedoso prelado foi encontrado cheio de vida debaixo das ruínas; não tinha a menor ferida e nem sequer a mínima contusão!
Em reconhecimento daquele milagre compôs em latim as ladaínhas de S. Francisco Xavier.
Na Itália, correspondia o nosso Santo por meio de maravilhas a todas as orações que lhe eram dirigidas.
Em 1633, o Padre Marcelo Mastrilli, filho do marquês de Saint-Marzan, uma das mais ilustres famílias de Nápoles, achava-se às portas da morte em conseqüência duma ferida grave na cabeça.
Um operário, trabalhando na igreja, deixara cair um martelo, de mais de dez metros de altura, que atingiu na cabeça o Padre Mastrilli. Foi tratado imediatamente mas tendo sido esgotados todos os esforços da ciência, que em vão se tinham administrado ao doente, não se esperava senão a morte. S. Francisco Xavier aparece-lhe e inspira-lhe um ardente desejo de ir para o Japão, para ali trabalhar na glória de Deus, e ali morrer pelo seu nome. Fez-lhe proferir o voto de partir sem demora: pôs-lhe sobre a ferida da cabeça um relicário contendo um fragmento da cruz do Salvador, e fez-lhe pronunciar em latim esta oração que nos tem sido religiosamente conservada
"Ó cruz sagrada! E vós Salvador adorado que a inundastes do vosso sangue, eu me consagro inteiramente a vós para sempre! Suplico-vos que me concedais a graça de derramar todo o meu sangue pelo vosso santo nome! Imploro esta graça que o apóstolo Francisco Xavier não pôde obter!
Eu renuncio à minha pátria, à minha família, aos meus amigos, a tudo o que possa embaraçar ou retardar a minha partida para a missão das Índias, e me dedico sem reserva à salvação dos índios em presencia do meu pai S. Francisco Xavier".
Depois daquele voto, o doente recuperou subitamente a saúde; o grande apóstolo prometeu-lhe a coroa do martírio, e disse-lhe que rogaria junto de Deus por todos aqueles que o invocassem com fé e confiança durante nove dias seguidos; e depois desapareceu.
O Padre Mastrilli levantou-se logo depois daquela visão, nas melhores condições de saúde; disse missa na manhã seguinte o que causou admiração geral.
Toda a cidade de Nápoles sabia que na véspera só se esperava pelo seu último suspiro e todos viam ou ouviam dizer que ele estava perfeitamente curado.
O Papa Urbano VIII e Filipe IV rei de Espanha, quiseram vê-lo e ouvir da sua boca a narração daquele milagre e ele satisfez os seus desejos. Depois embarcou para Goa, e tendo feito ao grande Xavier o presente de um magnífico túmulo em reconhecimento da graça que havia recebido, partiu com a maior satisfação dos seus superiores, para ir conquistar a coroa que lhe havia sido prometida.
Chegado ao Japão, escreveu a seu pai:
            "Eu espero que S. Francisco Xavier acabará a sua obra; por um milagre ele me restituiu a vida, por um milagre me conduziu às Filipinas, por um milagre me abriu a entrada deste Japão tão desejado; espero, pois, que por um milagre também me verei um dia no meio dos verdugos".        
Teve, com efeito, a felicidade de ser martirizado no Japão a 17 de Outubro de 1637.
A cura tão pronta do Padre Mastrilli, as circunstâncias maravilhosas que a haviam precedido e seguido, causaram mais impressão, porque a família de Saint-Marzan era da mais alta nobreza napolitana.
A novena a São Francisco Xavier tornou-se em pouco tempo uma devoção popular tão viva, tão ardente, que em 1652 os calabreses fizeram publicar um grosso volume com as graças extraordinárias que tinham obtido pela intercessão do apóstolo das Índias. Este volume contém 142 narrações de fatos milagrosos devidos à sua proteção.
O Padre Portier, da Companhia de Jesus, missionário na Grécia, sofria desde muito tempo duma perna, cujas violentas dores a ciência não podia minorar. Declara-se uma chaga, a cárie ataca os ossos, e os cirurgiões anunciam ao doente que é necessário fazer-se a amputação; mas os seus superiores desejam que aquela cruel operação seja feita em França e ordenam-lhe que vá a Paris na esperança de que a ciência reconhecida dos operadores franceses lhe tornarão a amputação menos dolorosa e os tratamentos serão mais cuidados.
O doente embarcou-se em Constantinopla em 1699. Apenas embarcado, sente uma forte inspiração de pedir a S. Francisco Xavier que o cure, que promete fazer em sua honra a devoção de dez sextas-feiras [Esta devoção consiste na recitação de dez Pai Nosso, Ave e Glória ao Pai em honra dos dez anos de apostolado de S. Francisco Xavier nas Índias. Este exercício deve ser renovado dez sextas-feiras seguidas.], e começa-a na mesma semana.
Desde a terceira sexta-feira as dores cessam; as partes dos ossos que a gangrena havia atingido desligam-se e caem. O doente, querendo auxiliar o Santo na sua obra maravilhosa, lembra-se de pôr sobre aquela chaga, conquanto em via de cura, um aparelho, da sua imaginação que, segundo ele, devia bem depressa acabar o milagre começado.
Mas S. Francisco Xavier não queria meios humanos, não tinha necessidade de ser auxiliado, e provou-o bem depressa, fazendo-lhe voltar imediatamente todas as dores com que havia sido tão cruelmente martirizado durante mais de dois anos.
O Padre Portier, suficientemente advertido, retirou os remédios que o Santo mostrava poder dispensar; os sofrimentos cessaram de novo, e poucos dias depois a chaga estava sarada, a perna perfeitamente curada, e não restava mais do que uma cicatriz, como lembrança da obra divina obtida pela intercessão e pelos méritos do apóstolo do Oriente.
Pelos fins do último século, Roma, a cidade eterna, experimentou a dor de ver a Companhia de Jesus sempre perseguida pelo ódio do vício e da impiedade, despojada, encarcerada, dispersa, suprimida finalmente... O inferno queria absorver a terra. Contudo, os romanos não invocavam com menor confiança os grandes Santos que a ilustre Companhia havia dado ao Céu.
Em 1788, Anunciada Quartieroni via seu filho quase a morrer em conseqüência de bexigas. Gaspar tinha apenas dois anos, era única jóia, a única esperança de seus pais. Anunciada chama em seu auxilio o apóstolo do Oriente, declara-lhe a sua dor de mãe e põe o seu filho sob sua especial proteção.
No mesmo instante vê o filho voltar à saúde: S. Francisco Xavier mostrava-lhe que aquela criança se tornara sua.
Antônio de Buffalo e Anunciada Quartieroni, sua mulher, recordaram muitas vezes a seu filho o milagre que lhe havia restituído a vida; inspiraram-lhe um terno reconhecimento para com seu Santo protetor, porque desde a idade de 5 a 6 anos, o pequeno Gaspar gostava de se recolher a orar na igreja de Gear, diante do altar de S. Francisco Xavier.
Mais tarde, elevado ao sacerdócio, ardendo em zelo pela glória de Deus e péla salvação das almas, fundou muitos estabelecimentos de piedade ou de caridade, entre outros os Irmãos de Elite de S. Francisco Xavier ou Ristretta e a Congregação do Precioso Sangue. Esta congregação quis o cônego Buffalo colocar sob o patrocínio do nosso Santo, em memória do sangue milagroso derramado em cada 6ª-feira do ano 1552 pelo crucifixo do oratório do castelo de Xavier. Entre as práticas de piedade recomendadas pelos estatutos, o fundador indica a novena ao Santo protetor da Congregação do Precioso Sangue, São Francisco Xavier.
Em Bolonha, onde o nosso Santo, então no começo do seu apostolado, havia adquirido tanta confiança e tanto amor, a sua memória conservava-se viva em todos os corações e à solicitação dos habitantes, o quarto que ele outrora habitara no presbitério da paróquia de Santa Lúcia, foi transformado em capela onde o povo corria pressuroso a pedir a seu apóstolo querido, com o maior ardor, as graças que desejava. Mais tarde a igreja de Santa Lúcia foi cedida à Companhia de Jesus, assim como o presbitério de sua dependência; e mais tarde, quando foi abatida para se construir uma nova em maiores proporções, o presbitério foi destruído para ceder à igreja o seu terreno, mas a capela de S. Francisco Xavier foi conservada intacta e ficou compreendida na nova igreja.
Em conseqüência de perseguições que têm tantas vezes honrado a Companhia de Jesus, esta capela foi arrebatada repentinamente à devoção do povo, mas não puderam fazer esquecer aos bolonheses que havia ali morado o grande Xavier, o ilustre apóstolo que seus antepassados tinham tão grande glória de haver conhecido, e que manifestara por numerosos prodígios a lembrança que ele conservava no Céu da cidade onde foi ternamente venerado.
A devoção do nosso Santo estendeu-se até à Alemanha; como em outros lugares ela ali obteve maravilhas, e pelos fins do último século publicava-se em Oberbourg um grosso volume com graças assinaladas que ele havia espalhado na alta e baixa Styria.
No castelo de Xavier, os milagres eram inumeráveis: Transformou-se em capela o quarto em que ele nasceu, e os peregrinos aí concorriam em grande número. Navarra escolheu-o para patrono, é ainda hoje quase todos os navarreses dão no batismo o nome de Xavier, a seus filhos e as peregrinações continuam numerosas àquela capela aberta ao público pelos descendentes do nosso Santo. Todos têm conservado com religioso respeito aquele nobre solar, ilustrado por tão gloriosas recordações.
O castelo de Xavier é ainda o que era em 1524, época em que D. Francisco dele se ausentara para sempre... A capela da nobre família conserva-se como no tempo em que a feliz e desolada mãe do grande apóstolo do Oriente ia ali encher-se de forças para agradecer a Deus tantos sofrimentos e felicidade.
O crucifixo milagroso está ainda no lugar em que D. Francisco o deixou; o sangue maravilhoso, coagulado desde o dia em que o apóstolo das Índias subiu ao Céu, vê-se ainda hoje.
No fim do século XVII, tendo alguns peregrinos ousado subtrair pequenas parcelas, o arcebispo de Pamplona, advertido daquela piedosa temeridade, ameaçou com excomunhão a todo aquele que tentasse renova-la. Desde muito tempo o público não tem entrada naquela capela; é necessária uma autorização particular para ser admitido a contemplar o precioso crucifixo.
Em 1744, por ordem do rei D. João IV, o arcebispo de Goa e o marquês de Castelo-Novo, vice-rei das Índias, acompanhados de todos os grandes dignitários, examinaram os restos de S. Francisco Xavier, e declararam, com todas as formalidades exigidas, a perfeita conservação do seu corpo.
O Papa Bento XIV, vendo os milagres sem número que se obtinham constantemente pelos seus merecimentos, declarou-o protetor do Oriente, por um breve de 24 de Fevereiro de 1747.
Em 1728 o Padre Cicala da Congregação dos Lazaristas, assistiu à exposição das relíquias do grande apóstolo, a 10, 11 e 12 de Fevereiro. Escrevia ele que o concurso do povo havia sido tão considerável naquele ano ali que ultrapassava tudo quanto se tinha visto durante mais de trinta anos, no empenho de vir visitar o santo túmulo. Concorrera gente de todas as partes das Índias. O caixão, de oito pés de comprimento, dois de altura e fechado por três chaves, foi aberto em presença do bispo de Cochim, administrador da diocese de Goa, de todo o clero, de todas as ordens religiosas, do vice-rei e de todos os grandes dignitários e magistrados.
O corpo do Santo estava inteiramente coberto por um véu de sêda que se levantou, e todos os assistentes puderam contemplar o que restava do grande apóstolo do Oriente. Estava revestido de hábitos sacerdotais; a casula, presente da rainha de Portugal [Era de uso que as rainhas de Portugal bordassem por suas próprias mãos a casula de que está revestido o corpo do Santo. Todos os vinte anos se fazia a abertura do caixão e se mudava a casula; a velha era enviada à corte que fazia as suas generosidades a quem julgava a propósito.], e bordada por sua mão, estava perfeitamente conservada. O corpo não tinha o menor indício de corrupção; mas não apresentava as aparências de vida que conservara por mais de um século. "A pele e a carne, escrevia o P. Cicala, estão ressequidas e totalmente unidas aos ossos; as faces brancas; não lhe falta senão o braço direito que está em Roma e dois dedos do pé direito, assim como os intestinos. Os pés, sobretudo, conservam-se na maior beleza"

NOTA: [O Padre Cicala acrescenta: "É para notar que o Santo era de estatura muito baixa". A 4 de Dezembro de 1859, Monsenhor Canoz, vigário apostólico do Maduré, acompanhado das RR. PP. Gard e Charmillot pedia, em presença do Santo corpo, a um dos três médicos chamados ao ato da abertura do túmulo, a razão de um tal encurtamento. O doutor explicou-o pela ausência de muitas cartilagens, arrebatadas, vem dúvida, assim como os intestinos, pára relíquias.].

Em 1859, o rei de Portugal D. Pedro V, ordenava uma nova verificação do estado do Santo corpo. Um dos médicos chamados julga aquela ordem temerária porque havia mais de três séculos que aqueles restos preciosos estavam no túmulo. Mas enganava-se; o processo verbal que a seguir reproduzimos, merece fé.

APÊNDICE       

PROCESSO VERBAL DA ABERTURA DO TÚMULO DE S. FRANCISCO XAVIER - 12 DE OUTUBRO DE 1859   

            No ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1859, a 12 de Outubro, às 9 horas da manhã na igreja do Bom Jesus, antiga casa professa dos Padres da Companhia, sita na antiga cidade de Goa, onde se acha o túmulo com o corpo de S. Francisco Xavier, com pareceram o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Visconde de Torres Novas, Governador Geral do Estado da Índia; o Governador do arcebispado de Goa, a Relação do Estado, Câmara Municipal do Concelho das Ilhas, e outras corporações, autoridades e chefes das repartições deste Estado, abaixo assinados, os quais haviam sido convidados para assistir à abertura do dito túmulo com o fim de se conhecer o estado em que se achava o corpo do mesmo Santo, em virtude da autorização concedida por Sua Majestade, em portaria do ministério da marinha e ultramar n. 100 de 11 de Setembro do mesmo ano e abaixo transcrita.
E logo com as chaves que existiam na secretaria geral e que foram apresentadas neste ato, se abriu o cofre em que se acha o corpo do Santo e se encontrou revestido de hábitos sacerdotais; depois, os facultativos de que se compõe a junta de Saúde, o físico-mor Eduardo de Freitas e Almeida, o cirurgião-mor José Antônio de Oliveira e o cirurgião da 1º. classe Antônio José da Gama, tendo procedido ao exame do corpo, acharam o crânio revestido, do lado direito da respectiva pele cabeluda, onde se vêem ainda alguns raros cabelos, e completamente descoberto do lado esquerdo.
A face toda está revestida de uma pele seca e escura com uma abertura do lado direito comunicando com o seio maxilar do mesmo lado, e que parece corresponder ao lugar da contusão de que trata o processo verbal lavrado em i de janeiro de 1782; dos dentes visíveis, só falta um dos incisivos inferiores; existem ambas as orelhas. Falta o braço direito; a mão esquerda está completa, compreendendo unhas, como se disse no processo verbal de 1782; as paredes abdominais acham-se cobertas de uma pele ressequida e algum tanto escura; o ventre não contém intestinos; os pés estão cobertos de uma pele igualmente seca e escura, deixando ver a saliência dos tendões; faltam no pé direito o quarto e o quinto dedos; contudo existem ainda em um deles restos de pele e das falanges num estado muito esponjoso.
À vista disto foi decidido que o corpo e as relíquias do mesmo Santo estão em estado tal que podem ser expostos à veneração pública, a fim de excitar e aumentar a devoção dos povos; e de tudo, eu Cristóvão Sebastião Xavier, oficial-maior da secretaria do Governo deste Estado, redigi este processo verbal, no qual se assinam todas as corporações e autoridades acima mencionadas. E eu Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara, secretário do Governo Geral o fiz escrever. - Visconde de Torres Novas. - O governador do arcebispado, Caetano Peres, etc... seguem 57 assinaturas.
Ajuntemos aqui a descrição do túmulo do nosso Santo.
S. Francisco Xavier, está depositado em um caixão de prata lavrada e dourada. Este caixão está colocado em um soberbo mausoléu de mármore negro de Itália, circundado por três altares que ocupam as três faces do mesmo mausoléu, onde se acham esculpidas sobre o mármore, em baixo relevo, e com toda a perfeição artística, as principais ações da vida deste Santo apóstolo.
Este monumento, rico e precioso, merece ser minuciosamente admirado.
Era naquela igreja que vinham outrora tomar posse do poder os antigos vice-reis e capitães generais, e os actuais governadores gerais também continuam aquele uso praticando as mesmas formalidades.
A sacristia é em tudo proporcionada à magnificência deste templo, e vê-se aí uma bela coleção de pinturas e quadros.
Atrás do túmulo, dirigindo-se da sacristia para o convento, vê-se o quadro representando S. Francisco Xavier É, segundo se diz, o seu verdadeiro retrato, tirado pouco tempo depois da sua morte. Próximo da porta deste majestoso templo lê-se a seguinte inscrição:
"Sepultura de D. Jerónimo Mascarenhas, capitão de Cochim e de Ormuz, que mandou edificar esta igreja à sua custa; e, em reconhecimento, a Companhia de Jesus lhe consagrou este lugar".
Sobre uma coluna à entrada da porta principal, lê-se:
"Reverendissimus et illustrissimus D. Alexis Menezeus, archiepiscopus Goanensis, Indiae primas, Anno Domini MDCVI. d. ma ".
Havia sido anunciado que a exposição do Santo corpo seria pública desde 2 de Dezembro, dia da morte do grande apóstolo das Índias, até 1 de janeiro de 1860. Mas já se contavam mais de trinta mil estrangeiros chegados a Goa antes do dia da verificação jurídica da santa relíquia. "As ruas desertas da cidade de Goa, viram desfilar uma multidão de povo pertencente a todas as seitas e a todas as religiões. O rio estava coberto de embarcações, e o templo majestoso do Bom Jesus, onde está depositado o Santo, cheio de pessoas distintas que concorreram a este ato solene. Um outro ato semelhante, e que havia excitado talvez menos entusiasmo, tivera lugar, há mais de 77 anos, ao 1 de Janeiro de 1782; porém pouca gente assistiu ".
Monsenhor Canoz, da Companhia de Jesus, bispo de Tamase e vigário apostólico de Maduré, convidado a fazer parte dos peregrinos aos quais o governador de Bombaim havia oferecido o seu barco para se transportarem ao lugar da exposição solene do santo corpo, vai-nos dar a interessante descrição daquela cerimônia e dizer-nos a felicidade que ele gozou, junto do túmulo venerado do nosso ilustre Santo. Achamos estes pormenores na carta que ele escreveu ao Rev. Padre Bekx, geral da Companhia de Jesus e tem a data de 10 de Dezembro de 1859.
            "A igreja do Bom Jesus, ligada à antiga casa professa da Companhia e edificada por D. Pedro de Mascarenhas em 1592, não tem, diz ele, "senão uma só nave mui larga, e dois braços de cruz, no fundo dos quais se acham, dum lado o altar de S. Francisco Xaxier, e doutro o de S. Francisco de Borja. O altar-mor é dedicado a Santo Inácio...
Atrás da capela de S. Francisco Xavier eleva-se o famoso monumento erigido à memória do apóstolo das Índias pelo grão-duque de Toscam em 1655, e que se distingue através de uma larga grade de bronze dourado e artisticamente trabalhado. É para sentir que esteja encerrado em um espaço estreito e escuro que não permite apreciá-lo como merece. É formado de mármore branco, deixando nos quatro lados da base um largo espaço livre para um altar.
A segunda parte do monumento, colocado sobre aquela base, é ornada no meio de baixos relevos em bronze; representam, dum lado o Santo baptizando pobres infiéis, do outro pregando verdades da salvação, e sobre a terceira face, morrendo, abandonado na ilha de Sancião, próximo da China.
Finalmente a terceira parte diminui gradualmente de largura á proporção que se eleva; está encimada por um magnífico caixão de prata contendo o corpo do Santo e ornado de pequenas colunas entre as quais estão colocados vidros. Tinha-se feito descer aquele caixão para o colocar sobre um estrado elevado no meio do cruzeiro da igreja, e coberto de um tapete verde; mas o caixão forrado de um rico estofo, que encerra o santo -corpo, tinha sido retirado e deposto sobre uma das faces do monumento onde era permitido aos fiéis venerá-lo.
Um dia, depois de ter dito a santa missa no altar oposto, vim prostrar-me diante daquele caixão que abracei com toda a efusão do coração; e até à chegada dos piedosos peregrinos prolonguei com delicias minha ação de graças, meditando sobre as virtudes e merecimentos do Santo que o próprio corpo de Jesus Cristo que eu acabava de receber, santificara duma maneira tão prodigiosa.
Finalmente chegara o grande dia da festa de S. Francisco Xavier que foi anunciado solenemente pelo som majestoso dos sinos da Catedral e de todas as igrejas da cidade, assim como pelas salvas de artilharia.
As tropas, reunidas naquela ocasião, desfilavam com a música à frente, por diante da fachada da igreja do Bom Jesus e iam postar-se m estrada por onde devia passar o governador. Os cônegos da Catedral e a clerezia achavam-se já na capela do monumento esperando S. Ex.. Logo que ele chegou, ás io horas precisamente, começou a procissão que, atravessando o largo corredor do claustro, entrou m igreja. O caixão era levado por seis cônegos com capas de seda prateadas, debaixo do pálio e seguido do governador, do seu estado maior e de todos os funcionários civis e militares do Estado, convidados para aquela imponente cerimônia. Parou junto da barreira do santuário para se abrir o caixão e tirar-se a parte superior.
Então o corpo do Santo, posto a descoberto foi deslizado no interior do mesmo caixão, dando-se em seguida começo a uma missa solene com música que foi interrompida pelo panegírico do apóstolo das Índias.
O administrador daquela casa tinha preparado para nós um lugar na tribuna de onde podíamos contemplar à nossa vontade a procissão. Quanto ao sermão, foi-nos impossível entender uma só palavra por causa da distância em que nos achávamos e do grande sussurro do povo que ia e vinha dirigindo-se para junto do túmulo sagrado, sem prestar atenção ao pregador a quem também não compreendia...
Acabada a missa, um dos sacerdotes de serviço veio procurar-me assim como aos meus dois companheiros, o P. Gard e o P. Charmillot, chegados na véspera de Belgão, para nos introduzir no santuário a beijar os pés do Santo. Eu detive-me em presença do caixão, penetrado de devoção, deixando passar livremente por diante de mim todos os cônegos e os clérigos em serviço. Não posso exprimir-vos meu M. R. Padre, a comoção e o sentimento de alegria e felicidade que experimentei colando os meus lábios sobre aqueles pés sagrados que percorreram tantas regiões longínquas e pisaram tantas vezes esta terra da Índia para anunciar a tão diversos povos, abismados nas trevas da idolatria, a boa nova da paz e da salvação: Quam speciosi pedes evangelizantium pacem, evangelizantium bona! - Que formosos pés os daqueles que evangelizam a paz, que evangelizam o bem!
Quanto Deus é admirável nos seus santos, e como ele se compraz em glorificar, mesmo aqui em baixo, aqueles que só têm trabalhado pela sua glória! Eu considerei-me como delegado, com os meus dois companheiros, em nome de toda a Companhia, numa tão imponente cerimônia, e orei com todo o fervor de que era capaz, pela Igreja e seu chefe nas graves conjunturas em que ele se acha atualmente; por toda a Companhia e por aquele que a dirige; e por todas as missões da India e da China, unindo no meu coração o Maduré e Bombaim pedindo para todos os nossos missionários o espírito apostólico de S. Francisco Xavier e para os povos infiéis a graça da conversão.
O meu espírito, entregue a uma multidão de reflexões piedosas, não podia separar-se deste lugar abençoado. Não me achava satisfeito com aquele primeiro ato de veneração; voltei para ali naquela tarde, tornei a ir na seguinte manhã. Porém para satisfazer mais à vontade, a minha devoção, desejei ser admitido a uma visita particular; tinha já falado nisto ao cônego Pereira, vigário geral, encarregado de presidir no domingo à veneração das santas relíquias. Falei ainda ao administrador, depois ao secretário do governador, e fui bem sucedido. Conheceu-se que tinha esquecido colocar debaixo do caixão uma prancha com rebordos e guarnecida de pequenas rodas que devessem facilitar o movimento diário antes e depois da veneração. Foi fixado para o meio dia aquele trabalho e fui para aí convidado com os meus companheiros. Podeis imaginar se nós fomos fiéis ao chamamento. Ajudei por minhas próprias mãos a levantar a preciosa carga que foi deposta sobre o estrado em frente da uma de maneira, que nos deixava todo o vagar para contemplar o santo cor o. Ele está coberto de uma rica casula bordada a oiro e guarnecia de pérolas, presente de uma Rainha de Portugal em 1699, quando S. Francisco Xavier foi declarado defensor das Índias. Mas não era isto que atraia tanto a nossa atenção; ocupávamo-nos mais em fazer tocar os objetos de devoção, imagens, medalhas e rosários a seus pés sagrados.
Naquela ocasião um dos assistentes mandou-me uma fita cor de rosa, medida do comprimento do corpo, que eu envio a Vossa Paternidade. Auxiliei de novo a colocar o caixão no esquife; e foi então especialmente que ajoelhando-me junto daquela cabeça venerável, pus-me a contemplar aquele rosto do apóstolo, que parecia pregar ainda todas as virtudes apostólicas de que deixou no mundo tão belos exemplos, e sobretudo aquela máxima salutar que, saída da boca de Inácio, tinha feito nele uma impressão tão profunda e duradoira, e exercido uma tão maravilhosa influencia para a sua conversão e sua dedicação completa, ao serviço de Deus; aquela máxima que ele citava a todos, especialmente aos felizes do mundo e aos príncipes da terra, que mais precisavam: Quid prodest homini si mundum universum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur? - De que serve ao homem ganhar o universo se ele chega a perder a alma?
Reconhecem-se ainda os traços daquele heróico personagem que três séculos não puderam apagar. A pele que cobre o rosto está algum tanto trigueira; a boca entre-aberta dessa ver os dentes; distinguem-se os lábios, o nariz, as fontes; dir-se-iam espalhados sobre o crânio cabelos grisalhos, como encrustado na pele; a cabeça está algum tanto elevada, apoiada sobre um coxim. O braço esquerdo coberto duma alva preciosa estendido sobre a casula, deixa a descoberto a mão toda, cujos dedos se conservam suspensos e algum tanto separados uns dos outros.
Sabe-se que o braço direito foi cortado em 1616 por ordem do P. Geral Aquaviva e transportado a Roma, onde está exposto no Gesú, no altar de S. Francisco Xavier. Depois daquela amputação, feita numa grande sala da casa professa, o corpo do Santo perdeu aquela frescura e flexibilidade que conservara até ali.
Os pés conservam a sua forma e todos os dedos, exceto os dois pequenos do pé direito que foram tirados.
Entro nestes pequenos pormenores porque me persuado que agradará a Vossa Paternidade e àqueles dos nossos que lerem e que sem dúvida invejarão a minha felicidade de ter rosto com meus olhos aqueles restos milagrosamente conservados, que nos pregam tão fortemente a penitência e a mortificação, fazendo-nos ver sobre a terra a glória daqueles membros crucificados pelo serviço de Deus...".      
Um fragmento do braço direito do Santo, como já dissemos, foi concedido ao colégio que a Companhia de Jesus tinha estabelecido em Macau; mas sob a influência, ou antes, sob a dominação inglesa, o colégio dos jesuítas foi transformado em caserna e somente a igreja conservada.
Em 1834, uma imprudência dos soldados incendiou a caserna, os socorros foram mal dirigidos, o incêndio devorou os estabelecimentos, alcançou a igreja e não deixou senão ruínas... Não nos enganamos: no meio daquela grande e deplorável destruição um admirável milagre se verificou: quatro estátuas somente foram respeitadas pelas chamas e se conservaram de pé perfeitamente intactas: eram as de Santo Inácio de Loyola, S. Francisco Xavier, S. Francisco de Borja e S. Luís Gonzaga.
Numerosas relíquias dos mártires do Japão desapareceram naquele desastre... A de S. Francisco Xavier foi a única salva!
Poderíamos citar factos ainda mais recentes, atestando que o poder dos merecimentos do ilustre apóstolo, cuja admirável vida nos foi tão agradável escrever, está bem longe de enfraquecer; mas limitar-nos-emos a afirmar que ele se não invoca em vão.
Acrescentaremos aperras que as páginas que acabam de ser lidas foram inspiradas pelo sentimento do mais profundo, mais vivo, mais terno reconhecimento.
Glória a Deus!
Glória a S. Francisco Xavier! 







Devoção a Cruz que milagrosamente faz chover - O nosso Santo visitou todas as povoações da ilha de Ambóino e fez erigir uma cruz em cada uma; uma destas cruzes, colocada pelo próprio Santo, adquiriu no futuro uma grande celebridade por ocasião dum milagre que julgamos dever referir aqui com a maior simplicidade.
A estiagem assolava o pais, e alguns habitantes falavam já em recorrer aos seus antigos ídolos e fazer-lhes oferendas para obter a chuva desejada, quando uma mulher exclamou entusiasticamente:
- "Voltar ao ídolo? Ah! o que diria o santo Padre? Não ternos nós a cruz da margem do rio, e o santo Padre, quando a colocou, não nos disse: Meus queridos filhos, vós vireis para ao pé desta cruz pedir ao nosso Pai que está rio Céu, as coisas de que carecerdes, e tudo quanto lhe pedirdes pelos merecimentos de Jesus crucificado, ela vos concederá?"
"O santo Padre o disse e ele nunca nos enganou! Antes de recorrerdes ao ídolo vinde à cruz comigo!"

A índia arrasta assim toda a povoação para junto da cruz, pede a Deus que lhes conceda a chuva, pois que o santo Padre prometera que se obteria tudo quanto se pedisse pela virtude da cruz; suplica-lhe não permita que se volte ao ídolo, que não é mais do que um demônio. Enquanto ela ora com aquela simplicidade de fé, cobre-se o céu de espessas nuvens, a chuva cai brandamente e continua a cair sem interrupção por todo o tempo necessário para reparar os prejuízos que a seca produzira.