Aspecto de devoçao e iconografia a SFX

SÃO FRANCISCO XAVIER NO ORIENTE ASPECTOS DE DEVOÇÃO E ICONOGRAFIA
 A contribuição de Goa para o culto e iconografia de São Francisco Xavier
No dia 6 de Maio de 1542 Francisco Xavier chegou a Goa. Esta data marca o início do seu périplo pelo Oriente, o qual durou dez anos até à sua morte durante a noite de 2 para 3 de Dezembro de 1552 na Ilha de Sancião às portas da China. Foram estes anos que determinaram a origem do seu epíteto mais famoso: “ São Francisco Xavier – o Apóstolo do Oriente”. Por essa mesma razão, a maior parte das relíquias, dos atributos e das cenas mais representativas da sua iconografia, assim como os milagres in vita [em vida] e post mortem [depois da morte] estão ligados ao Oriente. Em 1583 o poderoso visitador italiano Alessandro Valignano SJ [ jesuíta], provavelmente a pedido de Roma, encarregou um artista anônimo de pintar dois quadros de Francisco Xavier em Goa. Esta encomenda marcou o início da iconografia de São Francisco Xavier, o Apóstolo do Oriente. A razão de tal encomenda ter sido realizada em Goa deve-se porventura ao fato, de após as vicissitudes várias, o corpo de Francisco Xavier repousar na igreja jesuíta do Bom Jesus de Goa, principal igreja da Companhia em todo o Oriente, desde 1554. Infelizmente, os dois quadros permanecem desaparecidos. Todavia, um dos quadros que foi de imediato enviado para Roma (o outro quadro ficou em Goa), serviu de modelo para a vera effigies de S. Francisco Xavier: a gravura pelo flamengo Theodor Galle que ilustra a portada da Vita pelo Padre Horácio Torsellino, primeira biografia de S. Francisco Xavier a ser publicada em 1596. Fig. 1: Theodor Galle, Vera Effigies de S. Francisco Xavier, C. 1596, ARSI Fig. 2: Pedro Kano (atrib.), tela sobre óleo, sec. XVIII, Museu de Kobe (Japão) À semelhança da iconografia xaveriana latum sensum, a arte oriental difunde a imagem de São Francisco Xavier de rosto afilado e com o olhar dirigido para o céu, cabelo e barba negras, e levantando um pouco a sua sotaina, seguindo assim a descrição do jesuíta português Padre Manuel Teixeira, primeiro biógrafo de Xavier, e transmitida para a iconografia pela vera effigies estabelecida em Goa. Um quadro setecentista da Escola Japonesa Kano atribuído ao pintor Pedro Kano e atualmente no Museu de Kobe no Japão, é uma das mais célebres pinturas representando São Francisco Xavier. Neste quadro Francisco Xavier de meio corpo veste a sotaina e o manto, cruza os braços sobre o peito, e de olhos erguidos para o céu profere o célebre lema “Satis est, Domine Satis est”, alusão aos seus momentos de êxtase sofridos em Goa entre Setembro de 1551 e meados de 1553. Este quadro ilustra assim uma cena tipicamente contra-reformista que, graças à gravura flamenga a partir de Hieronymus Wierix nos finais do séc. XVI - inícios do séc. XVII, se tornou um dos motivos iconográficos mais característicos de S. Francisco Xavier, após ter ser sido incluída na bula de canonização e ter decorado o Il Gesù durante as mesmas celebrações. Fig. 3: Capela Mortuária de S. Francisco Xavier, Goa, Basílica do Bom Jesus (cortesia de G. Torres Olleta) Na igreja do Bom Jesus em Goa conservam-se igualmente duas das principais séries narrativas da vida de São Francisco Xavier. Falamos obviamente do ciclo de trinta e dois relevos do seu túmulo em prata realizado por artistas indianos entre 1636 e 1637 e do ciclo de vinte e sete pinturas decorando a sua capela mortuária terminada em 1655. Em especial, a decoração do túmulo em prata é um dos mais completos testemunhos das preocupações da hagiografia e da iconografia no séc. XVII. Isto é, esta notável obra de ourivesaria baseia-se nos relatos hagiográficos mais antigos e decisivos para a iconografia de Xavier (Teixeira, Lucena, Torselino), reproduzindo ainda algumas das gravuras abertas pelo francês Valerius Regnartius em 1622 para divulgar a decoração do il Gesù durante as cerimônias de canonização. O ciclo do túmulo em prata é o mais extenso ciclo narrativo da vida de Xavier, tanto em número de episódios ilustrados como pela extensão cronológica. Este ciclo inicia-se com o primeiro episódio relativo à vocação missionária de Francisco Xavier, ou seja, a visão da sua irmã Madalena em 1532, terminando com a cura milagrosa de Marcello Mastrilli atribuída à intercessão a S. Francisco Xavier em 1634. Esta cura esteva indiretamente na origem da execução deste túmulo. Pois, Marcello Mastrilli foi agradecer a sua cura ao Santo em Goa e vendo que o túmulo era demasiado pequeno para o corpo do Santo e por isso indigno para o conservar, decidiu encomendar o actual féretro em prata. Além disso, liga-se porventura à figura de Marcello Mastrilli a divulgação duma das principais iconografias de São Francisco Xavier no Oriente, ou seja, a sua iconografia de peregrino ilustrada pelas vestes (sotaina, o manto, às vezes, a esclavinha) e ainda pelos atributos do bordão e da concha. Pois, na sua aparição milagrosa a Mastrilli, S. Francisco Xavier traria a indumentária de peregrino. Depois de várias tentativas sem sucesso em Itália, Mastrilli encomendou a pintura duma imagem de S. Francisco Xavier vestido de peregrino ao Irmão Diogo Cunha em Lisboa. Mastrilli conservou sempre esta imagem, à qual dedicava grande veneração, durante as suas viagens pela Índia, pelas Filipinas e pelo Japão.. Pensamos igualmente que Mastrilli teria mostrado esta imagem aos artífices do túmulo em prata em Goa, pois o primeiro relevo com a visão profética de Madalena representava Francisco Xavier trajado como peregrino. Aspectos do Culto de São Francisco Xavier no Oriente Entre os primeiros e principais fomentadores do seu culto encontravam-se várias personalidades orientais. Destaca-se o nobre japonês Õtomo Yoshige do Reino do Bungo, que após ter sido batizado com o nome de Francisco em 1578 devido à sua devoção pelo Santo, pediu fervorosamente a Alessandro Valignano, acompanhante da célebre embaixada dos quatro japoneses à Europa em 1582, que o jesuíta italiano conseguisse a beatificação de Francisco Xavier junto do Papa. Lemos igualmente na Carta Anual para a Província de Goa (1647) que nesse ano tinha sido esculpida uma estátua de Francisco Xavier por encomenda dos cristãos locais. O culto do Apóstolo do Oriente afirmou-se rapidamente em Goa como em todas as missões da Companhia de Jesus no Oriente, em especial nas zonas por onde o Santo passou. A bula de canonização de Francisco Xavier permitia aos jesuítas a celebração de missas em igrejas da Companhia nas Índias Orientais e ainda no Castelo de Javier. Todavia, esta determinação apenas serviu para legitimar uma prática anterior. No caso do Oriente, sabemos que eram celebradas missas em honra de Francisco Xavier nos primeiros anos do séc. XVII. Um outro inequívoco sinal da popularidade do culto de Xavier no Oriente foi a dedicação de inúmeras igrejas, capelas e confrarias a Francisco Xavier no Oriente muito antes da sua beatificação. Isto é, em 1603 o Geral Cláudio Acquaviva autorizou a construção da primeira igreja dedicada a São Francisco Xavier em Cotar, Cabo Comorim (atual Estado de Madya Pradesh, Sul da Índia). Esta igreja tornou-se rapidamente um importante local de peregrinação, devido ao fato de aí terem ocorrido vários milagres. Ou seja, no mesmo ano uma cruz erguida em honra de Xavier verteu sangue, após a ressurreição milagrosa duma menina. Este milagre foi o primeiro duma série prodigiosa de milagres que teriam ocorrido nesta igreja. O cronista Sebastião Gonçalves atribuiu nada menos do que oito milagres entre 1603 e 1610 à imagem de S. Francisco Xavier aí guardada. De igual modo, várias testemunhas ouvidas durante os processos de 1616-1617 afirmaram o carácter taumatúrgico desta imagem. Curiosamente, apesar da literatura jesuítica ter enfatizado este milagre (Crónica de Sebastião Gonçalves e o Compendio de la vita di S. Francisco Saverio pelo Soprani, 1622), aparentemente, a sua iconografia popularizou-se apenas no Oriente, a partir da sua inclusão no ciclo de relevos em prata do túmulo do Santo. O fato de São Francisco Xavier se ter distinguido como missionário do Oriente determinou a “santificação” ou “veneração” de certos lugares com ele associados, assim como a proliferação de inúmeras relíquias, tanto corpóreas como objetos de contacto, praticamente em toda a Ásia. Uma tradição muito antiga diz que S. Francisco Xavier teria determinado a construção duma capela no interior do Colégio de S. Paulo onde teria celebrado missa. Esta capela poderá corresponder à atual Capela de S. Francisco Xavier, a qual sofreu importantes obras de reformulação e decoração nos finais do séc. XIX11. Em Yamaguchi, Japão, conserva-se um poço, junto ao qual, segundo a tradição local, S. Francisco Xavier costumava fazer as suas pregações e que continua a ser um tema favorito da iconografia de S. Francisco Xavier. Verificou-se, de igual modo, o crescente interesse pelas suas relíquias, em particular pelas relíquias corpóreas. De 1553 data a extração de um bocado de carne da coxa direita. Em 1556 existia um relicário com cabelo de S. Francisco Xavier no Colégio de S. Paulo Uma parte do dedo do pé do Santo que a devota exaltada Condessa de Villahermosa tinha arrancado em 1554 era transportada em procissão em Goa nos finais do séc. XVII. Todavia, a distribuição de relíquias corpóreas e de contacto de Francisco Xavier iniciou-se verdadeiramente nos anos antecedendo a sua beatificação. Destaca-se em 1614 a separação do seu braço direito, aquele com o qual o Santo batizava, a pedido do Geral Cláudio Acquaviva. Relíquia do braço de São Francisco Xavier, Macau, Igreja de S. José (cortesia de Rui Loureiro) A parte inferior do braço (o antebraço) foi levada para il Gesù em 1615, onde ainda se conserva. A parte superior do braço foi dividida em várias relíquias ex brachio, as quais foram distribuídas por casas jesuítas, incluindo as missões em Macau, Cochim e no Japão também em 1619. Data das décadas de 1620 e 1630 a moda da distribuição de relíquias ex visceribus. No que refere ao Oriente, em 1637 Francisco Mastrilli ofereceu uma parte da sua relíquia ex visceribus à Província das Filipinas, a qual em 1643 era objeto de especial veneração. Esta relíquia corpórea tinha um valor acrescentado, dado que os intestinos são os órgãos que normalmente entram primeiro em decomposição. Fig. 5: Cofre em prata com a sobrepeliz de S. Francisco Xavier, Museu de Arte Sacra, Goa Maria Serrão, moradora em Goa, afirmou em 1556 que estava na posse duma pequena relíquia do cordão que o santo trazia em cima da alba, a qual teria poderes curativos. Durante os processos de Lisboa (1614-1616) o Padre Francisco da Costa mencionou não só a devoção pelo túmulo de Xavier, como destacou a veneração pelas suas vestes, em particular pela sobrepeliz que o Santo vestiu em vida e com a qual foi enterrado em Malaca. Durante os mesmos processos, o Padre Luís Pereira testemunhou acerca do estado de conservação considerado milagroso da sobrepeliz. Para evitar os excessos de veneração (os devotos mais fervorosos tinham por hábito arrancar bocados da sobrepeliz com a boca), em 1611 os jesuítas locais terão ordenado a execução dum cofre coberto de veludo com placas em prata. Este cofre foi substituído na década de trinta do mesmo século pelo relicário em prata actualmente no Museu de Arte Sacra em Velha Goa. A medida do corpo morto de S. Francisco Xavier é uma outra relíquia dispensadora de milagres. No início do séc. XVII, como nos relata o cronista Sebastião Gonçalves SJ, as mulheres parturientes com dificuldades em terem os seus filhos, costumavam cingir a medida à volta da barriga. Estas capacidades taumatúrgicas, sobretudo no caso de mulheres grávidas, aparecem aliás incluídas nas inquirições relativas à beatificação e posterior canonização de Francisco Xavier. Devido às várias aberturas do seu túmulo em Goa, este tipo de relíquia de contacto teve aliás enorme sucesso, enquanto objecto de culto de S. Francisco em Goa, existindo ainda as medidas tiradas ao corpo do santo por ocasião da abertura oficial do túmulo em 1859. Um missionário jesuíta, o Padre J. P. Porro SJ escreveu em 1625: «A uma hora de Yamaguchi encontra-se Myano. Aqui viveu o Santo Francisco Xavier. Coloquei um quadro de Francisco Xavier na parede, e as lágrimas, que os cristãos verteram perante a sua visão, mostraram claramente a sua veneração, a sua emoção e o seu amor pelo Santo». De fato, nas primeiras décadas do séc. XVI, assistiu-se no Oriente à proliferação de imagens de Francisco Xavier. Muitas destas imagens teriam um caráter taumatúrgico, tendo sido, por isso, um importante instrumento da Companhia de Jesus para fomentar a beatificação de Francisco Xavier. Uma carta do Padre Simão de Figueiredo ao Padre Diogo Monteiro de Goa e com a data de 25 de Novembro de 1614 refere entre os vários episódios taumatúrgicos atribuídos a Francisco Xavier e dos quais foi tomado instrumento público uma cura milagrosa dum velha de cento e vinte anos em Cochim, graças à intercessão duma imagem de Francisco Xavier. De igual modo, os actos dos processos desta época mencionam imagens e medalhas de S. Francisco Xavier para culto privado e público e detentoras de capacidades taumatúgicas nas várias missões orientais. São Francisco Xavier – o Santo Missionário Talvez devido ao fato de S. Francisco Xavier se ter tornado o Apóstolo do Oriente, pudemos dizer, quase que por acaso (ele foi enviado para o Oriente em substituição de Nicolau de Bobadilla impedido de partir por doença), a hagiografia xaveriana vai realçar o carácter de predestinação da sua missão do Oriente através de episódios que teriam ocorrido ainda Xavier vivia na Europa. Neste sentido, destacamos o facto antes referido que o ciclo narrativo do seu túmulo em prata começa com a visão de Madalena, irmã de Francisco Xavier, em 1537. A iconografia xaveriana destaca assim a sua atividade como missionário, isto é, os seus batismos e a sua atividade de pregador. Francisco Xavier veste, por norma, a sotaina, e ainda a estola e a sobrepeliz que são as duas vestimentas adequadas à sua atividade de batizar e predicar. Ergue ainda o crucifixo, um outro símbolo do predicador. As cartas do próprio Francisco Xavier estão na origem da fama que obteve na atividade de batizar. Em 1544 escreveu: “é tanta a multidão dos que se convertem à fé de Cristo nestas terras onde ando, que muitas vezes me acontece ter os braços cansados de batizar…”. Sendo esta afirmação repetida à exaustão pelos seus hagiógrafos a partir de Manuel Teixeira. Uma outra afirmação de Xavier em 1546, segundo a qual três reis ter-se-iam convertido em Macassar ou Celebes nas Filipinas foi transmitida à iconografia, incluindo ao ciclo em prata do seu túmulo, através da gravura do ciclo de Regnartius. De acordo com o protótipo mais comum, os reis ajoelhados têm os seus cetros e as coroas pousados junto a eles. Ao fundo, as várias figuras de pé ilustram o sub-título da gravura de Regnartius que diz «Reges tre et multa centena hominum millia baptista». Fig. 6: Relevo em prata do Túmulo de S. Francisco Xavier com o Batismo dos três reis de Macasar, Fondo Schurhammer, -VI-2107 Francisco Xavier e a cultura da mortificação Francisco Xavier foi um santo da Contra-Reforma. Por essa razão, a sua hagiografia e a sua iconografia estão indissociavelmente marcadas pela sua capacidade de sofrimento e mortificação tão ao gosto da época. A primeira pergunta colocada durante os processos de Cochim (1556) era precisamente se Francisco Xavier teria passado: «muitos trabalhos e persecuçõis por amor de Deus e da virtude n´esta vida». De igual modo, alguns dos episódios iconográficos mais célebres retratam esta virtude de Xavier. Seguindo de perto a discrição do primeiro biógrafo de Xavier, o português Manuel Teixeira, o relevo número três do túmulo em prata mostra Francisco Xavier a lamber as chagas do enfermo e a chupar a matéria do incurável no Hospital de Veneza. O relevo número quatro mostra outro episódio característico do espírito de mortificação de Francisco Xavier e bastante repetido pela iconografia. Trata-se da visão que Francisco Xavier teria tido num hospital de Roma em 1537, onde se lhe apresentavam os seus futuros trabalhos no Oriente. Xavier gritava “más, más”, enquanto abria o seu manto para receber os seus futuros sofrimentos representados pelas cruzes enviadas por Deus. Este tema terá tido aliás assinalável sucesso na arte oriental. Para além do relevo do seu túmulo, conhecemos uma pintura na Capela de S. Francisco Xavier e ainda um quadro na Catedral em Goa. S. Francisco Xavier, o “Príncipe do Mar” Francisco Xavier realizou a maior parte das suas viagens por mar, onde terão ocorrido alguns dos seus mais notáveis milagres. Citando Lorenzo Ortiz na sua magnifica obra San Francisco Javier, Príncipe del Mar (1682): Fig. 7: Autor indiano, Milagre da transformação da água salgada em água doce, óleo sobre tela, séc. XVII, Capela Mortuária de S. Francisco Xavier (foto da autora) O milagre da transformação da água salgada em água doce durante uma viajem por mar em 1552 é seguramente um dos milagres que mais contribuíram para a designação de Francisco Xavier, “o Milagre dos Milagres”, e sobretudo para o seu epíteto de “O Príncipe do Mar”. Este milagre que foi testemunhado por sessenta inquiridos durante os processos de 1616-1617 foi colocado no topo dos milagres incluidos na Relatio Super Sanctitate et Miraculis Patris Franciscis Xaverii em 1619. O cronista jesuíta Sebastião Barradas, que compilou os relatos dos processos de 1616 e 1617, concluiu que Francisco Xavier teria transformado várias vezes água salgada em água doce, umas vezes com os pés, outras vezes da água recolhida pelos marinheiros, milagres condensados numa bonita pintura decorando a Capela de S. Francisco Xavier em Goa. Ainda mais espetacular é o celebérrimo milagre (falso) do caranguejo. De acordo com a lenda hagiográfica, na Primavera de 1546, um caranguejo teria devolvido a Xavier o seu crucifixo caído ao mar perto da Nova Guiné. Este motivo iconográfico recorrente entrou na iconografia e na hagiografia xaverianas durante os processos de Cebú, Filipinas, em 1608 e é tanto mais importante, quanto para o Padre Schurhammer se trata dum episódio de origem européia posteriormente transmitido à hagiografia budista. Na arte oriental destacam-se dois extraordinários biombos com a alusão simbólica a este atributo xaveriano. Um destes objectos terá sido oferecido pela Cidade de Macau à Casa Professa de Roma em 1624 para agradecer o envio de uma relíquia do braço direito de Francisco Xavier. O outro biombo encontra-se actualmente no Museu dos Mártires em Nagasáqui, China. Em ambos os biombos um caranguejo no escudo dos soldados alude à protecção de Francisco Xavier. Como acontece frequentemente na hagiografia, esta história conheceu versões ou variantes menos conhecidas, mas não por isso menos curiosas, tais como a história transmitida pelo Padre Simão de Figueiredo no início do séc. XVII, segundo a qual o crucifixo teria sido substituído pelo relicário e o caranguejo teria tomado a forma de peixe: «hum Portugês mui antigo referio, que, indo hum dia embarcado com o P. Francisco, com outra muita gente, lhe sobreueio huma grande tempestade; e pedindo elles ao santo que lançasse no mar alguma relíquia, elle tirou o relicairo do pescoço e o lançou sobre as ondas, as quais logo se aquietarão, e a tormenta cessou. Hia o santo Padre um pouquo desconsolado de ficar sem relíquias; eis que, chegando á praya d’ahi muitas legoas; uem uir hum peixe por cima de agoa com o relicario na boca; e, chegado á terra, o deixou diante do Padre e se uoltou ao mar. A tudo se achou este português presente». S. Francisco Xavier e a castidade No Ocidente como no Oriente, a açucena ou o lírio são um atributo constante na iconografia xaveriana até à atualidade. A sua fixação como atributo iconográfico essencial da figura de Xavier está intimamente ligada à cronologia da sua beatificação e da sua canonização. Data de 1619 uma gravura do Padre Sadeler com este atributo, sendo de destacar que a estátua de São Francisco Xavier decorando o interior do Collegio Romano em 1622 segurava a açucena nas mãos. A questão da castidade ou pureza de Francisco Xavier tinha antes sido objeto de especial interesse durante os processos de Cochim em 1556, tendo sido sobretudo divulgada ao grande público, graças à biografia de Inácio de Loyola pelo Padre Ribadeneira, que escreveu: Como observado por Ricardo Fernández Gracia: A Morte de Francisco Xavier – Culto e Iconografia A veneração do túmulo dum santo é uma dos aspectos principais do seu culto. No caso de S. Francisco Xavier, a veneração do seu túmulo iniciou-se praticamente logo após a sua morte. O seu corpo foi inumado de Sanchuão dois meses e meio após a sua morte, mais concretamente em 17 de Fevereiro de 1553 foi trasladado para Malaca onde chegou a 22 de Março de 1553, sendo finalmente transportado para Goa, onde, à sua chegada a 16 de Março de 1554, foi alvo duma imponente recepção liderada pelo Vice-Rei e na qual participaram membros de todos os institutos religiosos e da nobreza portuguesa, assim como a população local em grande número. De imediato, o corpo de Xavier começou a dispensar milagres. Pois o seu corpo incorrupto e de bom odor vertia constantemente sangue e água fresca, como terá sido testemunhado, entre outros, pelo próprio Vice-rei, quando meteu a mão numa ferida aberta do corpo de Francisco Xavier por volta de 1556. Encontramos a referência a outros milagres precoces nos primeiros processos em Goa em 1556. Por exemplo, o escrivão dos órfãos António Rodrigues testemunhou acerca da cura milagrosa dos seus problemas do foro oftalmológico, após ter beijado os pés e as mãos de Francisco Xavier. Por sua vez, o Padre Baltazar Dias ter-se-á curado dos seus males de garganta, após ter pousado a garganta no corpo de Francisco Xavier. A dupla trasladação do corpo de Francisco Xavier originou um importante culto junto do seu túmulo não só em Goa, como também em Sanchuão e em Malaca, tendo sido assinalados vários milagres durante as trasladações e junto aos seus três túmulos. Em especial, liga-se a Sanchuão um dos principais indícios da santidade de Francisco Xavier – a incorruptibilidade do seu corpo. Quando Diogo Pereira abriu o túmulo de Xavier em Sanchuão, ficou assombrado com a incorruptibilidade do corpo, não obstante o corpo ter sido coberto de cal viva para acelerar o processo de decomposição. Por essa razão, colocou algumas pedras sobre o túmulo que deviam servir de recordação. Em 1640 o Reitor de Macau ordenou que fosse ali colocada uma pedra sobre o monte decorada com uma inscrição latina e outra portuguesa. Seguiu-se, a partir de 1644, a proliferação de vários milagres. Em 1700 foi assim decidida a reconstrução do túmulo em Macau. Na origem de tal decisão encontra-se o facto de, após vários anos de seca, ter chovido, bênção divina que foi relacionada pelos devotos locais do santo com a reedificação do túmulo pelo italiano Padre Carocci dois anos antes. Durante a Época Moderna, S. Francisco Xavier ganhou reputação como um dos santos mais eficazes em caso de peste ou epidemia, facto ilustrado em três quadros na Casa Professa de Goa e que representam Xavier em profunda oração pedindo o final da epidemia que então grassava na Ilha de Manar. A intercessão a Francisco Xavier é considerada, pelo menos tão eficaz in vita, como post mortem, no caso de epidemias de peste. Nesse sentido, vários moradores de Goa testemunharam em 1556 e 1567 que a peste cessara em Malaca logo após a chegada do cadáver àquela cidade. Em paralelo à crescente veneração do corpo de Francisco Xavier, desenvolveu- se a iconografia da sua morte. No Oriente, esta iconografia parece ter-se aliás desenvolvido exactamente na Índia e na China. No caso da arte indo-portuguesa conhecemos, porventura apenas documentalmente, várias obras representando este tema. No Fundo Schurhammer descobrimos aliás uma gravura do flamengo Fred. Bouttats, com a data de 1662, mas cujo subtítulo em latim é «Verdadeira Imagem, segundo o protótipo emitido em Goa, de S. F.co de Xavier, Apóstolo das Índias, morrendo afastado de todos». Esta gravura ter-se-á portanto inspirado no protótipo iconográfico da sua morte criado em Goa com a morte solitária de S. Francisco Xavier. Vemos, portanto, Francisco Xavier moribundo num tugúrio na Ilha de Sanchuão com o crucifixo e o rosário nas mãos, um barco simbolizando o sonho não realizado da viajem à China e uma segunda cabana de palha que foi um motivo muito divulgado pela gravura flamenga. Curiosamente, não obstante a concepção iconográfica da morte solitária de Xavier ter sido, como vimos, eventualmente criada em Goa, a mesma concepção só se começou a impor na arte oriental no séc. XIX. O relevo em prata do seu túmulo, que se inspirou diretamente na respectiva gravura do ciclo de Regnartius, mostra já duas figuras, obviamente o convertido chinês Paulo de Santa Fé e o indiano Cristóvão junto a Xavier em agonia. De igual modo, uma pintura na Casa Professa de Goa representando Xavier moribundo e ainda com os anjos evoca a pintura do italiano Gaulli, mais conhecido por il Bacciccia, que com o Maratta foi um dos grandes especialistas da iconografia da morte de S Francisco Xavier. Uma outra notável pintura da morte de Xavier é atribuída a Gaspar Conrado, finais do séc. XVII. Esta pintura segue o modelo mais raro de São Francisco deitado com a cabeça à direita do quadro e segurando os três atributos característicos da iconografia da sua morte (o crucifixo, o rosário e o breviário). Aos pés do Santo encontra-se o chinês António de Santa Fé vestido com trajes chineses. A cena é coroada pelos anjos tocando música e tem ainda ao fundo uma paisagem marinha com vários barcos. Fig. 8: Gaspar Conrado (atr.), Morte de S. Francisco Xavier, séc. XVII, óleo sobre tela, Cidade do México, Casa Professa. São Francisco Xavier e a Companhia de Jesus A devoção e a iconografia de S. Francisco Xavier no Oriente vão testemunhar compreensivelmente o interesse da Companhia de Jesus pelas devoções maiores do Cristianismo: a devoção cristológica e a devoção mariana. Num quadro a óleo de Escola Indo-Portuguesa conservado na Casa Professa da Basílica do Bom Jesus em Goa, os dois primeiros santos jesuítas estão sob a proteção do Salvator Mundi. Fig. 9: Pintor indiano, Cristo Salvador do Mundo com Santos Jesuítas, óleo sobre tela, séc. XVII, Bom Jesus, Goa (foto da autora)
Em uma outra iconografia muito divulgada pela arte indo-portuguesa e característica da grande devoção cristológica entre os jesuítas S. Francisco Xavier tem o Menino Jesus nos braços. Na minha opinião, esta iconografia que se salientou no Oriente, é uma simplificação da iconografia da Aparição de Nossa Senhora com o Menino Jesus a S. Francisco Xavier.
Fig. 10: Pintor japonês anónimo, Nossa Senhora com o Menino e os quinze mistérios do Rosário e os dois primeiros santos jesuítas, séc. XVII, aguarela, Museu da Universidade de Kyoto. Segundo a hagiografia, S. Francisco Xavier teria tido duas aparições de Nossa Senhora, uma em Loreto em 1537 e outra em 1541 a caminho de Portugal. Francisco Xavier foi igualmente um fervoroso adepto da devoção de Nossa Senhora tão característica da Companhia de Jesus. Chegado a Goa, começou a solicitar incessantemente indulgências para todas as igrejas dedicadas a Nossa Senhora no Oriente. É provável que Xavier tenha levado o culto da Madonna di San Lucca para o Oriente, nomeadamente para o Japão. Ainda dentro da hagiografia e da iconografia japonesas de S. Francisco Xavier proliferaram pinturas dos dois primeiros santos jesuítas em adoração de Nossa Senhora com o Menino, entre os quais se destacam uma pintura de Nossa Senhora com o Menino e os quinze mistérios do Rosário e os dois primeiros santos jesuítas atualmente no Museu da Universidade de Kyoto. A obra Imago Primi Saeculi, cuja publicação em 1640 celebrou o primeiro centenário da fundação da Companhia de Jesus, comparou os primeiros dois santos jesuítas, S. Inácio de Loyola e S. Francisco Xavier respectivamente ao Apóstolo S. Pedro e ao Apóstolo S. Paulo. Enquanto S. Inácio e S. Pedro ficaram em Roma, S. Paulo e S. Francisco Xavier foram enviados inter gentes. Assim, a arte jesuíta divulgou a representação dos quatro santos, como vemos numa porta da sacristia do Bom Jesus em Goa. Estátuas dos primeiros quatro santos da Companhia passaram a decorar as fachadas das igrejas jesuíticas a partir do séc. XVII. Inácio de Loyola e Francisco Xavier encontram-se respectivamente à direita e à esquerda na parte superior da fachada. Sob estes, estão Luigi Gonzaga e S. Estanislau Koska. A sua organização e as suas vestes simbolizam os vários graus possíveis no interior da Companhia de Jesus. Inácio e Xavier vestidos de casula representam os padres, enquanto o noviço Gonzaga veste a simples sotaina e o escolástico Koska a sobrepeliz. Não obstante o facto de S. Francisco Xavier ter tido uma morte natural, ele tornou-se no ideal do missionário, e o seu exemplo inspirou muitos jovens europeus a seguirem os seus passos. Por essa razão, também no Oriente a arte da Companhia de Jesus vai difundir a imagem de S. Francisco Xavier entre os mártires da Companhia de Jesus.